O TRIBUNAL SADER

18/02/99

O personagem desta semana, apesar de ser um dos grandes ídolos deste site, nunca tinha figurado aqui nas "idiotices".

Digo "personagem" porque não estou muito certo de como deveria me referir ao dr. Emir Sader. Ele é uma dessas figuras que perdem o mínimo de bom senso e de percepção da realidade exterior que se pode exigir de um ser humano comum. Seu intelecto foi tão reduzido que, hoje em dia, funciona um pouco melhor que o de uma ameba mediana e um pouco pior que o de um gato razoavelmente esperto.

Não deixa de ser vergonhoso que um sujeito desses seja levado em alta conta - mas um amigo meu costuma dizer que para todo idiota sempre tem um monte de idiotas muito maiores dispostos a ouvi-lo.

O problema é que, em tempos de desvarios econômicos do governo social-democrata (1de Fernando Henrique Cardoso, a esquerda, sempre hábil em espalhar a mentirinha de que FH é direitista, assume ares vitoriosos e arrogantes, como se tivessem nas mãos todas as soluções para os problemas econômicos brasileiros.

O dr. Emir Sader, munido dessa arrogância, chegou ao ápice da cara de pau em seu artigo no jornal "O Globo" de 12/02/99. E olhem, caros amigos, em termos de Emir Sader, chegar ao ápice da cara de pau não é pouca porcaria.

Ele começa dizendo que os recentes processos contra Bill Clinton, Pinochet e o ex-ministro francês envolvido num escândalo de sangue contaminado vêm mostrar que ninguém está isento de processos criminais, que os governantes agora têm seu poder limitado pela lei.

Ele, claro, nunca ouviu falar da Magna Carta, nunca ouviu falar da Revolução Americana, nada disso. Ele acha que o constitucionalismo começou no ano passado, que a limitação ao poder dos governantes é uma bela invenção daquele juiz picareta que processou o Pinochet. Ele nem mesmo se dá conta de que o fato de o presidente Clinton não ter sido condenado representa uma diminuição nas limitações ao poder dos governantes, um passo para o fim do constitucionalismo.

Mas, até aí, são só as baboseiras habituais do sr. Sader. O artigo fica grave em seguida. Vejam só:

"Um economista francês vem de propor a tipificação de crimes econômicos e a necessidade de que se formem tribunais como o Tribunal Russell para julgá-los. Trata-se de crimes não cometidos por especuladores, mas por governantes, que tornam possíveis situações que afetam profundamente a vida de grande quantidade de pessoas."

Uma nota histórica, antes de mais nada: o Tribunal Russell era um espetáculo midiático liderado por Bertrand Russell, o sujeito que, pregando a coerência lógica absoluta, começou propondo uma guerra atômica preventiva contra a URSS e terminou campeão de causas esquerdistas - entre as quais o desarmamento nuclear. Nesse espetáculo, personalidades esquerdistas mundiais inventavam mentiras sobre diferentes militares americanos da Guerra do Vietnam, a fim de mostrar toda a "podridão moral" do governo americano(2). Na época, mesmo alguns intelectuais esquerdistas, inicialmente empolgados com a idéia, acabaram se afastando do tribunal, enojados com o fato de que o que era mera propaganda ideológica se apresentar como juízo isento e imparcial.

Que o Emir Sader proponha refazer essa empulhação é bastante condizente com sua já conhecida grandeza moral. Agora, notem bemo caráter específico desse novo Tribunal Sader: ele não tratará de crimes de guerra, mas de crimes econômicos. Isso significa que as políticas econômicas de governos soberanos teriam que passar no crivo de alguns intelectuais de miolo mole, sob o pretexto de não "afetar a vida das pessoas".

Dá para notar a arrogância totalitária do intelectual que se julga a própria encarnação do Bem Supremo?

Pois vejam como ele propõe que a coisa seja feita no Brasil:

"No caso brasileiro se trataria de apurar - especialmente no caso do governo Collor - responsabilidades por políticas que passaram a atender a interesses privados, sacrificando os interesses públicos."

Isto é: se alguém ousa adotar uma política econômica diferente da que o dr. Emir Sader gostaria que ele adotasse, deverá ser julgado e condenado. É típico da esquerda achar que seus inimigos políticos não são seres humanos comuns, mas monstros carniceiros, zelando por interesses ocultos, sempre dispostos a fazer o mal. E também é típico que eles prendam, matem ou internem em hospitais psiquiátricos essa gente horrenda - a conta de "reacionários" mortos ultrapassa os 100 milhões.

Pois vejam os horríveis crimes que o Emir quer punir:

"Essas políticas incluem os processos de privatização das empresas públicas, as políticas de desregulamentação, de abertura ao capital estrangeiro (...), de deterioração dos serviços públicos - em particular, educacionais e de saúde - de dilapidação dos recursos da previdência social etc. etc."

Para ele, "empresa pública" é sinônimo de "interesse público", quando todos sabemos que as empresas públicas brasileiras já tinham sido "privatizadas" há muito tempo - em favor exclusivamente de seus funcionários, e em detrimento de todos os outros cidadãos. O que o processo de privatização fez foi racionalizar esse processo, e restaurar a soberania do consumidor.

Ora, por mais falhas que esse modelo econômico possa ter - e eu diria que sua principal falha é a timidez excessiva em adotar o liberalismo, exatamente o contrário do que o Emir acha - é inegável que ele "afetou a vida de muitas pessoas" para melhor, e não para pior.

O modelo que o sr. Sader defende - reserva de mercado, estatização, planificação, dirigismo - já foi sucessivamente testado, e nunca deu certo - seja em sua versão marxista, da qual hoje em dia Cuba é um belo exemplo, seja em sua versão proto-fascista, keynesiana, como no Brasil da era Sarney.

Pois é exatamente um desses modelos que o sr. Sader quer nos empurrar pela goela, com o agravante de que recomenda a punição de quem quer que discorde dele.

Ele também informa os nomes dos jurados, escolhidos com o cuidado de nunca ultrapassar a marca de meia dúzia de neurônios funcionando, até porque ele não deve conseguir conversar com ninguém que tenha mais que isso. Vejam só:

"Pessoas como Celso Furtado, Milton Santos, Antonio Candido, dom Luciano Mendes de Almeida, Evandro Lins e Silva, entre outros, poderiam ser chamadas para constituir-se em tribunal a fim de julgar crimes econômicos e suas projeções sociais. Seu veredicto seria divulgado amplamente para a opinião pública, com toda a força moral que possuiria."

E aqui estamos, mais uma vez, diante da mentira da superioridade moral da esquerda - uma contradição de termos, como aliás já demonstrou Olavo de Carvalho (vide o texto "O rabo e o cachorro: a superioridade moral das esquerdas", no livro O Imbecil Coletivo.)

Pois que força moral poderia ter um julgamento pronunciado por um economista soi-disant combatente da globalização que trabalha para a UNESCO, um geógrafo racista que faz campanha pelo anti-racismo, um crítico literário chefe da SS cultural, um bispo que nega tudo que existe de mais fundamental na sua própria Igreja e um advogado campeão das causas esquerdistas?

Que autoridade moral pode ter essa gente, esses defensores dos regimes mais tirânicos da História? E, principalmente, que respeito poderia merecer um tribunal que já tivesse o veredicto antes do julgamento? Um tribunal em que todos os jurados pensassem igual e já tivessem resolvido todas as causas de antemão, eis o que o dr. Emir Sader está propondo. Um tribunal sem contraposição entre as partes, visando apenas à condenação pública a priori de uma delas.

Não, ninguém com um mínimo de senso se deixaria enganar por um negócio desses. Mas, se a "opinião pública" se deixar enganar por esses charlatães, estará dado o passo final para a instauração em nosso país de uma terrível tirania comunista, liderada por todos esses cretinos.

 

NOTAS:

(1) Escutem bem: eu disse social-democrata, não neoliberal. O governo Fernando Henrique está tão próximo do neoliberalismo quanto a Maria da Conceição Tavares está próxima à Tiazinha.  Voltar

(2) Quem quiser detalhes: ver o livro de Paul Johnson, Intellectuals, encontrável em qualquer boa livraria eletrônica.  Voltar