Leia o artigo do embaixador Antonio Amaral Sampaio.

 

ESTUPIDEZ DIPLOMÁTICA

17/09/98

Bem que me disseram que o Itamaraty estava caindo de qualidade... De início, confesso que nem acreditei. Até porque, ainda está na minha cabeça o livro do embaixador Meira Penna, Psicologia do Subdesenvolvimento, onde, a horas tantas, o Itamaraty é apresentado como único local de formação de uma elite no Brasil.

E se verificarmos os nomes mais ilustres do liberalismo brasileiro, vamos notar que praticamente todos vieram do Itamaraty, como Roberto Campos, o próprio Meira Penna e o José Guilherme Merquior.

Sabemos, porém, que no meio da década de 80, o Meira Penna denunciou o caso das polonetas, em que o Brasil perdeu quase 2 bilhões de dólares (sim, leitores, vocês leram certo: é que ninguém lembra mais disso), e tudo ficou por isso mesmo, ninguém tomou providência nenhuma, porque nessa época estava entrando uma horda de esquerdistas no Itamaraty (os chamados "barbudinhos"), e o caso foi abafado, aliás, como sói acontecer.

Como se não bastasse, dois anos atrás o francês foi retirado das exigências para o ingresso na instituição. Diplomatas que não sabem falar francês, que coisa mais linda!

Nem me espantei quando li, no Jornal da PUC, que essa admirável instituição carioca tinha um curso de mestrado que, se feito, assegurava o ingresso no Itamaraty. A reportagem mostrava dois sujeitos recém-aprovados no concurso. E um deles dizia, em tom patético, que o tal curso tinha "estruturado seu pensamento". Agora imaginem vocês o que não deve ser um curso na PUC que "estrutura o pensamento" das pessoas! Muito, muito peculiar mesmo.

Mas o outro sujeito foi ainda mais engraçado: ele dizia que, para o concurso, teve que "aprender a estudar", qual seja, a não mais decorar os livros, mas "pensar" sobre eles. Agora, sinceramente, se o sujeito teve que esperar até o concurso pro Itamaraty para descobrir isso, há algo de mui errado com ele...

Comentando essas coisas, ouvi de um amigo, outro dia, que os livros fundamentais para passar no concurso são os do Hobsbawn. É, parece que a esquerda já tomou conta mesmo. O que não é de espantar, porque, afinal, a esquerda tomou conta de todas as instituições brasileiras.

(Aqui, um parêntese. Já vejo gente resmungando "ah, esse anti-esquerdismo obsoleto!". Me desculpem, mas, se é obsoleto, alguém precisa imediatamente avisar isso às esquerdas, porque, em tudo que vejo, elas continuam vivas como nunca. Basta folhear qualquer jornal diário, basta visitar a livraria mais próxima, e ver como as idéias esquerdistas predominam.)

Mas não é nada disso que eu queria dizer. Eu queria falar do caso Clinton. (Ah, que saco!, grita de longe o mesmo opositor do parágrafo acima). Não, não se preocupem, eu sei que o caso não tem nenhuma importância. Se tivesse, não seria tão falado (alguém aí duvida de que a imprensa existe para ocultar as coisas mais importantes, dando destaque às banalidades?). Os EUA, disse uma vez o Brizola, com toda razão (!), se auto-governam. Não importa o presidente, as coisas vão continuar funcionando do mesmo jeito.

Bom, por que, então, escrever sobre o assunto? Explico. Um representante do Itamaraty escreveu um artigo a respeito no Jornal da Tarde de 16 de setembro, quarta-feira. E foi aí que eu me dei conta de que o nível mental no Itamaraty está mesmo beirando a sarjeta.

Que uma dona de casa ache que a perseguição ao Clinton é motivada por puritanismo e que o promotor Kenneth Starr é um tarado sexual, vá lá. Mas a mesma coisa, quando dita por um ocupante de alto posto na vida diplomática brasileira fica muito mal, porque é de uma desinformação atroz.

Em primeiro lugar, não é verdade que o Clinton seja um "honrado e competente presidente". Clinton tem sido um presidente medíocre, indeciso, inseguro, que nunca cumpre a própria palavra. Que o povo americano tenha reeleito esse pulha diz muito sobre o QI médio desse povo. O fato é que Clinton foi reeleito graças ao crescimento econômico americano. Acontece que o crescimento da economia americana nada tem a ver com o presidente, é produto apenas do mercado – que, é verdade, tem sido beneficiado do fato de o presidente ser democrata e o Congresso republicano, porque isso dificulta a aprovação de qualquer lei, logo, dificulta o intervencionismo estatal.

Em segundo lugar, é absurdo dizer que o caso trata de puritanismo. O caso surgiu, é verdade, com uma denúncia de assédio sexual, que acabou levando a novas revelações. Mas não é por causa da relação com a Lewinsky que o presidente está sendo acusado, mas pelo fato de ter mentido perante um tribunal de justiça americano, ao dizer que nem sequer a conhecia.

E aí é que está o ponto: quer dizer que é "normal" que um presidente minta em juízo? Quer dizer que o crime de perjúrio não tem gravidade nenhuma? Quer dizer que o exercício da presidência não precisa ser regulado pelas velhas normas de honestidade, transparência e vergonha na cara que regulam tudo o mais?

Ora, imaginar que um presidente possa estar acima da lei só porque é presidente dos EUA é de um ridículo imperpassável.

E mais: um monte de gente, na imprensa brasileira, acha um absurdo que as provas do caso tenham vindo a público. Tenham misericórdia! Se há um processo em andamento contra um homem público, um processo que interessa à sociedade, porque vai, de algum jeito, influir nela, é uma exigência da vida democrática que o público tenha acesso à documentação do processo.

Um leitor de "O Globo" chegou ao disparate de dizer que era um absurdo essa divulgação, porque era o povo americano que devia votar o impeachment do presidente. Será que ele não percebe que a primeira parte do argumento não leva à segunda, mas ao oposto? Ou ele quer que o povo julgue sem conhecimento de causa? (Deixemos pra lá, mas o fato é que isso é muito significativo, porque aqui no Brasil as pessoas têm a mania de julgar tudo tudo tudo sem a mais mínima evidência, e de querer influir nas decisões judiciais sem ter acesso a uma linha do processo – como no caso dos meninos de Brasília que mataram um índio e tiveram a pena reduzida).

É claro que, diante das evidências apresentadas pelo promotor, a única conduta decente seria renunciar. Mas Bill Clinton não tem o menor senso de honra pessoal, ou de decência. E saiu-se com a seguinte frase: "espero que a família americana saia fortalecida desse episódio". Quer dizer, ele espera que a família americana saia fortalecida da exposição pública da conduta sexual de seu presidente, da comprovação de que esse presidente é um mentiroso, só porque ele, depois de descoberto, pediu desculpas. O cara é louco!

No entanto, o nosso amigo do Itamaraty acha que o grande problema é o puritanismo americano. (O Arnaldo Jabor também, mas o artigo do Jabor está tão mal escrito que nem tive paciência de ler até o fim. É um tal amontoado de incoerências que meu cérebro se recusou.)

Claro que estou sendo otimista de achar que ele coloca a questão dessa maneira por acreditar que o que está em discussão é o comportamento sexual do presidente, não suas mentiras. Longe de mim achar que o nosso embaixador está defendendo a mentira e o perjúrio.

Afinal, o Itamaraty está virando a casa da mãe Joana, mas ainda não virou. Certo?

 

 

PS- É notável, ainda, a comparação que o tal embaixador faz com o papado. Notável porque evidencia que ele, realmente, só conhece historieta marxista: essa história de que houve papas tarados sexuais é uma mentira inventada por historiadores gramscianos para diminuir o prestígio da Igreja. Acreditar nisso é pior que acreditar em Papai Noel. Pensando melhor, a casa da mãe Joana não está tão longe assim.