A VELHA ESQUERDA EM AÇÃO

31/01/99

A maior parte destas "idiotices" tem como personagem aquilo que se convencionou chamar de "nova esquerda". Esta esquerda não acredita mais em Lênin ou Stálin - nem mesmo acredita muito em Marx.

É a esquerda que deixou a pregação revolucionária ostensiva, desistiu de implantar o socialismo, e agora não poupa esforços para tornar a vida no capitalismo insuportável, com novas leis repressivas, como assédio sexual, direitos dos gays, movimento negro etc. - os temas da "nova ordem".

Em quase todos os lugares civilizados do mundo, a esquerda hoje em dia trata dessas questões aí (estou excluindo da esquerda os "sociais-democratas", que se posicionam melhor no centro). É verdade que aqui no Brasil a velha esquerda continua viva e atuante, mas ela às vezes se esconde por detrás do vocabulário modernizado - de tal forma que seu único representante que já figurou por aqui [referência à coluna "Idiotice da Semana"] foi o incrível senhor Oscar Niemeyer, defensor de Stálin.

Esta semana, a esquerda leninista reaparece, com uma representante legítima. Ela aparece com o objetivo de responder ao filósofo Olavo de Carvalho, que, uma semana antes, tinha proposto, no mesmo jornal, que se fizesse um "revisionismo" da história de 1964 (leia o artigo do prof. Olavo aqui). Pois vejam o que a criaturinha, de nome Eladir (!) Fátima Nascimento dos Santos afirmou, em O Globo de 25/01/99:

"Há de se entender que a esquerda e os comunistas surgiram na sociedade capitalista como "reação" ao desumano, à exploração constante de séculos contra as classes trabalhadoras. As idéias revolucionárias de Marx e Engels, colocadas em prática com sabedoria por Lenin, quando se utilizam da violência, isso se dá como 'reação'."

Pela madrugada! O que essa senhora está dizendo é que todas as cem milhões de vítimas do comunismo mereciam morrer mesmo, e que Lenin e seus discípulos estavam apenas "reagindo" contra os "reacionários".

Pelo menos desde a publicação no Brasil do livro do prof. Richard Pipes sobre a revolução russa, ninguém pode dizer que desconhece os crimes de Lenin, muito menos que o stalinismo era um desvio em relação ao leninismo. O prof. Pipes mostra claramente - e ninguém nunca o refutou - que Stalin foi o prolongamento natural de Lenin. De tal forma que, se a sra. Eladir se diz leninista ("sabedoria de Lenin" - waaaal...), ela está afirmando que a maneira mais sábia de lidar com os adversários políticos é matá-los, pois é precisamente nisto que consiste a "sabedoria" de Lenin.

Assim, qualquer crime cometido pela esquerda é, segundo a professorinha, justificável e admirável, porque é uma "reação" contra a violência capitalista. Essa idiotice, sinceramente, ultrapassa minha capacidade de resposta: tudo o que tenho a dizer é que, no mínimo, isso não é compatível com quem toma banho todo dia.

Mas a sra. Eladir prossegue:

"A reação [ela se refere à violência esquerdista] necessária diante da ação violenta, constante e imensa a que é submetido diariamente o povo com salários indignos, fome, falta de saúde e de educação."

Eis aí: a violência esquerdista reage à "violência" capitalista matando milhões de pessoas, sob os pretextos acima. Só que o socialismo também tem os mesmos problemas denunciados pela professorinha, mas com um detalhe: eles são piores. A porcentagem da população brasileira (um mau exemplo, porque o Brasil nem capitalista é) que passa fome, por exemplo, é ínfima, se comparada com a população cubana, ou a albaniana. Uma mera comparação das condições de vida, cerca de quinze anos atrás, nos EUA e na União Soviética vai revelar a verdade pura e simples: dona Eladir está mentindo.

E está mentindo com o propósito absurdo de justificar os crimes socialistas, os crimes de seus ídolos Stalin, Lenin, Fidel, Guevara etc., ao mesmo tempo que tenta lançar toda a maldade do mundo na conta dos regimes capitalistas.

Note que ela tenta justificar essa posição da seguinte maneira:

"A questão não é meramente numérica: quem matou mais? A questão é: quais os reais motivos que levaram às várias atuações."

Pois deixemos uma coisa bem clara: um assassinato é um assassinato, não importam os pretextos. Existem as circunstâncias que o justificam, como a legítima defesa, e existe a legítima defesa da sociedade, mas não há legítima defesa que justifique matar a população de uma cidade inteira de fome punitiva, como fez Lenin.

E que tanta gente tenha sido morta em nome de um "ideal" devia ser motivo o suficiente para, no mínimo reavaliar o valor desse ideal. Afinal, não eram os próprios esquerdistas que costumavam dizer que a separação entre teoria e prática era mera ficção burguesa? Pois eu digo já o valor do ideal socialista: é a mais monstruosa e imbecil das muitas mentiras em que uma parcela da humanidade já acreditou.

"Pelos frutos os conhecereis", e os frutos do comunismo são cem milhões de cadáveres. Mas não é nem preciso apelar aos frutos: a raiz já era podre. Na raiz do comunismo, está o desejo de reformar toda a sociedade humana a partir de uma cabeça só; está o desejo de nivelar todos os homens para que se adeqüem a uma teoria idiota; e está o desprezo total pela verdade. Tudo isso não poderia dar boa coisa. E não deu mesmo.

Que, a essa altura dos acontecimentos, uma "professora" ocupe uma coluna inteira da página de opinião de um dos maiores jornais do país para defender essa porcaria - e com os argumentos mais idiotas possíveis - é, simplesmente, escandaloso.

Mas a maior pérola do artigo ainda está por vir: é o parágrafo que se refere à ditadura brasileira. A violência da direita, claro, nunca é perdoável e nunca pode ser justificada - por mais branda que tenha sido, e ninguém com um pingo de vergonha na cara pode negar que a brasileira tenha sido branda. Eis como ela tenta pintar o regime de 64:

"O terrorismo da direta ameaçou, seqüestrou, torturou física e psicologicamente o povo. O medo foi instalado nas cidades, nas ruas e nos lares. (...) E, acima de tudo, o sangue foi derramado, sim, aos turbilhões."

Em suma: estávamos na Alemanha de Hitler, mas ninguém nos avisou disso. Porque a verdade é que a maior parte da população brasileira foi a favor da revolução, que restaurou a ordem na nossa sociedade, livrando-a do caos que o regime de Jango tinha instaurado e dos temores de uma revolução comunista que provocaria um banho de sangue brasileiro (segundo o prof. Olavo de Carvalho, aliás, a revolução livrou-nos de mais do que um banho de sangue comunista, mas de um confronto sangrento entre fascistas e comunistas, já que ambos estavam se armando na época).

E o que pode significar uma frase como "torturou psicologicamente o povo"?! Claro que é nonsense: o povo é uma entidade abstrata; nada pode concretamente acontecer ao "povo" inteiro, muito menos uma coisa tão física e concreta como a tortura. Dizer isso, além de ser uma imagem de péssimo gosto, não serve de argumento para coisa alguma, porque a frase não se refere a absolutamente nada na realidade.

Por outro lado, a violência esquerdista foi sempre muito concreta e nunca contra "o povo", abstratamente considerado, mas contra uma quantidade muito grande de integrantes desse povo. Integrantes de carne e osso, e não abstrações (aliás, não eram os marxistas que se diziam materialistas? - eis que eles, de súbito, se revelam idealistas ao extremo).

Dona Eladir quer nos fazer crer que a ditadura militar também praticou a violência contra muitos brasileiros concretos, além de ter violentado "o povo". Os números - dos quais ela não gosta porque, afinal, revelam que ela está mentindo - mostram definitivamente o contrário. Como dizer que 300 desaparecidos num país de 100 milhões de habitantes representam um "turbilhão de sangue"?! E acrescento: foram 200 militares mortos - quase a mesmo quantidade que opositores do regime.

Tanta bobagem, sinceramente, não cabia num jornal que já teve seus méritos. A linguagem de dona Eladir é muito mais propícia a "A Voz Operária", ou ao boletim do Sindicato dos Servidores Públicos. Os luminares esquerdistas que escrevem no Globo, por mais besteira que digam, pelo menos não se gabam da "sabedoria de Lenin", e pelo menos têm mais de dois neurônios. Lendo dona Eladir, fiquei até com saudades do Leandro Konder.

Mas eu entendo dona Eladir. Ela parece ser uma daquelas meninas suburbanas ingênuas que, certo dia, vão parar numa universidade dirigida por gente como o honorável prof. Konder, e, lá, aprendem todo o beabá da cartilha sub-marxista, para depois ficar repetindo isso por aí. Ela é parte do que Otto Maria Carpeaux chamava "proletariado intelectual", a massa de manobra produzida pela esquerda universitária para "fazer barulho".

Dizer que eu entendo dona Eladir, porém, não quer dizer que eu entenda O Globo. Afinal, quem foi que inventou essa idiotice de que a opinião de todo mundo tem o mesmo direito de ser ouvida? Não devia haver uma certa triagem entre o que um jornal vai publicar ou não, um padrão mínimo para que os artigos sejam publicados? Ou será que as pessoas todas já viraram porquinhos da índia, e os diretores do Globo são tão burros quanto dona Eladir? Não sei ao certo, mas parece ser exatamente isso que significa essa coisa que tantos chamam de "perda dos parâmetros" ou "perda dos paradigmas": são belas palavras para falar do emburrecimento geral.