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DERRIDA OU DESCE
18/01/99
Detesto ter que voltar a esse assunto, mas, dessa vez, os partidários
de Bill Clinton exageraram.
O exagero veio no mesmo jornaleco que se tornou a principal tribuna
de defesa do presidente criminoso por aqui: o Jornal do Brasil.
Mais especificamente, o caderno Bordéias, perdão, Idéias
de 16/01/99. Trata-se de uma pérola produzida por um "ensaísta" (em
nossos tempos, quem quer que escreva dois artigos em jornal já é "ensaísta",
de Carmen Mayrink Veiga a Emir Sader) do Los Angeles Times.
Uma palavrinha sobre o L. A. Times: é a "Caros Amigos" em versão jornal.
O órgão oficial da patota. Dá cobertura a todo tipo de bobagem que os
leitores puderem imaginar, como artistas performáticos cuja arte consiste
em introduzir objetos no próprio ânus e defensores das teorias malucas
da moda, como o desconstrucionismo.
Pois é o desconstrucionismo o tema do artigo do nobre ensaísta – autor,
segundo o próprio JB, de um livro chamado An empire of their own:
How the Jews invented Hollywood, o que me parece meio anti-semita
(mas logo veremos que, segundo o próprio autor, isso não quer dizer
nada).
O título já é bem sugestivo: O que Derrida tem
a ver com Lewinsky? E é exatamente isso que o autor vai tentar
explicar.
O desconstrucionismo, para os que não sabem, é a tese muito peculiar
de certos autores franceses segundo a qual os textos não querem, em
si mesmos, dizer nada, mas o leitor é que deve preencher-lhes o sentido.
Quando Machado de Assis escreveu Dom Casmurro, ele não estava,
por conta própria, querendo dizer coisa nenhuma. Jacques Derrida é que,
quando lê Dom Casmurro, inventa um sentido pro que Macharo escreveu.
Não só Derrida, como todos nós outros: todos somos muito mais inteligentes
que Machado, aquela besta que não tinha o que fazer e resolveu fazer
livros para não dizer absolutamente nada.
Ora, que um francês resolvesse dizer que não é capaz de entender o
que os autores dizem, tudo bem. Quando ele resolve estender essa confissão
de burrice para toda a humanidade, já começa a ficar chato. Mas vejam
só o que o ensaísta do L.A.Times e, agora, do JB, escreve:
"Se o desconstrucionismo tivesse se confinado
nos departamentos de Inglês das universidades, ela poderia ter servido
apenas como mais uma ferramenta analítica. Mas os partidários mais radicais
da desconstrução compreenderam que sua teoria trazia graves conseqüências
não apenas para a literatura, mas para a própria noção de realidade.
Se nada era objetivo, então o mundo inteiro era subjetivo. As pessoas
no máximo concordavam com as convenções que tornam possível uma comunicação
entre elas. Mas essas conveniências eram mitos."
Isto é: depois que um francês se confessou um idiota completo que não
entende o que lê e disse que todos nós também o somos, outros idiotas
resolveram dizer que são incapazes de entender a própria realidade que
os cerca. Se um cachorro morde um desses "desconstrucionistas radicais",
ele vai dizer que a dor da mordida é apenas uma "convenção". A própria
presença desse computador aqui na minha frente é apenas subjetiva. Eu
acho que ele está, Derrida acha que ele não está, alguns outros até
preferiam que ele não estivesse e, por causa disso, ainda estão meio
em dúvida...
E os carros buzinando, aqui, ao fundo, talvez não estejam mesmo buzinando:
nós todos apenas "convencionamos" que, quando alguém que não sabemos
bem se existe aperta a buzina de um carro que ele apenas acha
que está ali na frente dele e imagina produzir um som, todos
vamos também imaginar ouvir esse som e dizer que ele corresponde ao
som da buzina de um carro.
Claro que tudo isso parece uma imensa sacanagem. Ninguém pode assumir
uma tese dessas a sério, de cara limpa. Mas essas sacanagens às vezes
têm um belo efeito político. Vejam só:
"Quando Clinton foi acusado de se refugiar
em tecnicalidades e detalhes legais para salvar sua pele, ele estava
na verdade se refugiando numa visão desconstrucionista da realidade.
Não havia, ele insistiu, nenhuma definição única de relação sexual.
Na verdade havia uma série de definições, que tornaram toda a idéia
de relação sexual completamente subjetiva. A definição de Clinton foi
tão boa quanto a de qualquer outro."
Ou seja: embora todos nós saibamos perfeitamente quando é que temos
ou não "relações sexuais" com alguém, o presidente Bill Clinton tem
todo o direito de fingir não sabê-lo. O motivo? Ah, esse negócio de
relações sexuais é subjetivo.
Esse é o tipo de teoria estúpida e intelectualmente desonesta que só
serve para excusar falhas de aliados políticos. Imaginem, por exemplo,
que o autor do ensaio chegue a casa um dia e encontre sua mulher tendo
– digamos assim – "relações sexuais" com uns dois ou três outros caras.
Se ela lhe disser que ela não está tendo "relações sexuais", mas apenas
que ele acha que ela está, qual será a reação do nosso ensaísta?
Será que vai também se juntar aos outros caras, e todos continuarão
achando que estão fazendo alguma coisa ali, quando na verdade esse negócio
de sexo é apenas "convencional"? Será que vai aplaudir a esposa, por
ter encontrado mais uma definição de "relação sexual"?
Ora, para esse ensaísta – e para os descontrucionistas – as palavras
não querem dizer nada. Esquecem-se de que as palavras são símbolos de
alguma coisa, se referem a algo que realmente existe, se o sujeito
diz a verdade, e não existe, se o sujeito está mentindo. Mas a possibilidade
de averiguarmos se um sujeito mente ou não vem do simples fato de que
nós também conhecemos as coisas a que se referem as palavras. Essa base
comum da comunicação não é uma convenção, mas algo estruturado na própria
realidade. Se alguém fala em "relações sexuais", todos nós sabemos o
que elas são, e o sabemos porque elas realmente existem.
Alguém pode não saber o que são "relações sexuais", mas não pode esperar
que sua própria ignorância seja universalizada, muito menos pretender
que o nível mental de todo o resto da população se nivele com o dele.
Alguém pode até propor novas definições de "relações sexuais", mas a
que vai valer na vida diária (e, no caso, a que vai valer no tribunal)
é aquela imediatamente reconhecida pela generalidade das pessoas. E
nós sabemos que essa definição faz sentido, sabemos por experiência
própria.
Qualquer pessoa mediana sabe que a realidade existe mesmo, objetivamente,
independente do que pensamos ou deixamos de pensar. E sabe pelo simples
fato de que, se ela fosse inteiramente subjetiva, seríamos capazes de
modificá-la com o nosso pensamento – e quem quer que tenha tentado sabe
que é inútil.
Apesar disso, olhem só a barbaridade que o sr. Neal Gabler escreve:
"De um lado estão os republicanos, que em sua
maioria parecem acreditar numa realidade objetiva e na moralidade absoluta.
Pode parecer uma afirmação drástica, mas se eles agem freqüentemente
como aiatolás iranianos, é porque eles pensam como aiatolás. Para eles,
cada episódio define-se em preto e branco, certo e errado."
Vejam bem: qual é o crime dos republicanos? Por que, afinal, eles são
"aiatolás" (esse novo xingamento que a esquerda atira em quem quer que
lhe desagrade)? Simples: porque acreditam em verdadeiro e falso. Porque
acreditam que os carros buzinando fora da minha janela são mesmo carros,
que o computador está efetivamente na minha frente e que, se a mulher
do sr. Gabler estivesse com outros três caras na cama isso definitivamente
seria uma "relação sexual", não importa como ela quisesse chamar.
Os republicanos são, afinal, acusados de totalitários porque acreditam
que, se um presidente, apesar de ter jurado cumprir e defender a lei,
mente diante de um tribunal e usa seu poder para fazer que outras testemunhas
mintam, esse presidente está desqualificado para o cargo. Noto, aliás,
de passagem, que essas são as acusações mais brandas que existem contra
Bill Clinton, junto com sérias denúncias de corrupção, favorecimento
ilegal, traição e sociedade numa companhia que vendeu sangue contaminado
para todo o Canadá.
É possível que também essas outras acusações o sr. Gabler pense que
são fruto de um moralismo exacerbado, e da pretensão de achar que a
realidade existe. Agora, notem que beleza o flanco aberto por essa mistura
de Derrida e política: se a realidade objetiva não existe e qualquer
definição é válida, por que é que alguém condenaria Stálin, Hitler,
Mao, Pol Pot ou Salazar? Afinal, o que é uma morte, ou um assassinato:
depende do ponto de vista, certo? Se ninguém, afinal, sabe ao certo
o que é uma relação sexual (essa coisa tão comum), como é que alguém
vai saber o que é um assassinato, um genocídio, um holocausto – coisas
muito menos comuns e experimentadas por muito menos pessoas do que as
relações sexuais?
Enfim, para o desconstrucionismo, vale tudo. Liberou geral. Mas, se
olharmos de perto, não liberou tanto assim. Ora, se a realidade é fluida
e todas as definições são válidas, por que é que as definições dos republicanos
não valem, e as de Clinton sim? Isso, ele não explica.
Essa teoria, tal como defendida no ensaio do JB/L.A. Times, é daquelas
que cortam os próprios pés. Afinal, se não existe realidade objetiva
e se as palavras não querem dizer nada, como vamos entender a teoria
descontrucionista – e, mais ainda, como pretender que ela seja verdadeira,
e não a teoria que diz o oposto dela? Não são todas as visões válidas?
Isso, em retórica, se chama retórica suicida. Em política, se chama
falta de vergonha na cara. Porque o que o sr. Gabler está realmente
dizendo é que alguns discursos são mais válidos do que outros – mesmo
que esconda isso sob um pretexto relativista.
Assistimos, então, apenas à velha atitude esquerdista de perdoar tudo
nos aliados e condenar os adversários por qualquer motivo que seja.
Foi assim na ocultação dos crimes de Stálin, depois na ocultação dos
crimes de Lênin, de Fidel Castro, de Guevara. Claro que Clinton não
está no mesmo nível desses facínoras, mas o sentimento geral entre seus
aliados é o mesmo. E o descontrucionismo é, certamente, uma excelente
desculpa teórica para fazer isso, porque parece, à primeira vista, uma
teoria séria e respeitável.
O texto de Gabler é bom no sentido de que poucos fariam isso com tanto
descaramento como ele o faz, e porque revela para que realmente serve
o desconstrucionismo e sua proposta de "liberou geral".
Mas, sinceramente, não entendo por que diabos temos que ouvir esse
Neal Gabler. Será que já não basta de lixo importado? Já não bastam
os "mestres" de Gabler, como Delleuze, Guattari, Derrida, Jameson etc.?
Por que temos também que aplaudir o discípulo de todos esses misósofos?
Quem diabos o JB acha que está interessado no que esse fulano tem a
dizer – principalmente porque o que ele tem a dizer é só um amontoado
de tolices? Será que já não está na hora de pararmos de aplaudir esses
apóstolos do nada, e procurarmos filósofos realmente de valor? Será
que já não é hora de o Brasil descobrir Xavier Zubiri, René Girard e
Northrop Frye, e esquecer essas maluquices pós-modernas? Ou, se é para
ficar com jornalistas americanos, por que Gabler em vez de Joseph Farah,
Richard Grenier, Charley Reese ou Walter Williamson? Até quando seremos
meros repetidores das bobagens da moda e ignoraremos tudo que se faz
de valor? Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?
Não sei até quando Derrida e seus seguidores continuarão a nos encher
o saco. Mas sei que a resposta para a pergunta que intitula o artigo
de Gabler não foi respondida por ele, mas pode ser respondida por um
trocadilho que José Guilherme Merquior usava para satirizar a penetração
das teorias desconstrucionistas nas nossas universidades. A relação
entre Clinton, Derrida e Lewinsky é mesmo na base do "Derrida ou desce"!
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