JUSTIÇA DE BETTO
27/09/98
O autor da idiotice desta semana é um dos gurus
de "O Indivíduo". Pra fazer jus a tal figura, deveríamos
dedicar uma seção inteira só pra ele. Algo como
"as idiotices de hoje e ontem", ou "a encarnação do
Espírito da História".
Mas como este é um jornal muito sério
e não pode ficar dando tanta importância a figuras como
ele - que já recebe atenção demais da mídia
- teremos que nos contentar com a idiotice desta semana. Que, aliás,
é muito emblemática.
Alguns podem estar pensando que me refiro ao mais cordovil
dos jornalistas, mas não é verdade: refiro-me ao mais
betto dos falsos freis, um dos principais artífices daquilo
que já chamamos aqui de "Teratologia da Opressão", aquela
estranha mistura de comunismo, pseudo-cristianismo, holismo, física
quântica e New Age.
Sem entrar na crítica direta desse monstrengo
moderno, vamos ver só o que um dos pais desse Godzilla escreveu
essa semana (02/10) no "Globo", num artigo intitulado (porca miséria!)
O papel político da Igreja:
"Porém, quando ela [a
Igreja] retoma o caminho do Cristo e exige justiça - a
ponto de proclamar que a fome de justiça é uma bem-aventurança
- então dizem que ela "foge de sua verdadeira missão"."
Faço uma pausa para recuperar o fôlego
e tento comentar as palavras de "frei" Betto (por que insistir em
chamá-lo de frei?). Haveria muito o que comentar sobre o artigo.
Um dos comentários será feito futuramente, em artigo
sobre o regime de Franco e suas relações com a Igreja,
e a maravilhosa deturpação operada por Betto e similares
nesse caso [lamentavelmente, acabei nunca
escrevendo esse artigo. Mas interessados no assunto podem ler "O
Século do Nada", de Gustavo Corção,
e "Catholic Martyrs of the Twentieth Century", de
Robert Royal]. Mas isso fica para outra vez.
O que o nosso amigo está nos dizendo, no trecho
selecionado, é, em primeiro lugar, que a Igreja sempre esteve
a favor das iniqüidades. Estranha cuspida na história
da Igreja de Cristo, da Igreja de São Pedro, de São
Pio V, de São Pio X. Estranhíssima injustiça
de quem diz lutar pela justiça.
Mas Betto (quando vão passar a chamá-lo
de Bettinho?) prossegue: agora, a Igreja está retomando o caminho
do Cristo, ao adotar o discurso acusatório contra o "capitalismo
selvagem". Ou seja, Santa Teresa d'Ávila, isolada em seu convento,
estava a serviço das classes dominantes. Frei Betto e a CNBB,
atacando a privatização da Vale do Rio Doce e defendendo
o aborto, estão seguindo os preceitos evangélicos!
Quando ia contra os anarquistas que degolavam padres
e estupravam freiras na Espanha, a Igreja estava se furtando a seu
papel histórico. Reassumiu esse papel ao se prostrar diante
de Fidel Castro. Palavras de frei Betto.
Mas o pior não é nem isso. O pior é
que ele sustenta essa baboseira com um preceito evangélico,
com uma frase de Jesus Cristo. No Evangelho de São Mateus lemos:
"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque
serão saciados!" (Mt, V, 6). O sentido dessas palavras é
inequívoco para quem quer que tenha lido o resto do sermão
da montanha, ou que conheça o sentido da Revelação
cristã: é bem-aventurado aquele que tem, em seu coração,
o anseio da justiça, que busca ser justo nos seus atos, que
luta para se igualar aos santos, a despeito da miséria da condição
da criatura. Em suma: a justiça de que fala o Evangelho é
a justiça interior, que se manifesta nos atos do indivíduo,
e não a "justiça social". Bem-aventurado é aquele
que tem fome e sede de ser justo. A transformação íntima,
individual, é uma das principais mensagens cristãs.
Só mesmo o frei Betto para conseguir deturpar
o sentido dessas palavras. Só mesmo o frei Betto para usar
o sermão da montanha para justificar, a posteriori,
seu próprio comportamento. Não, caro "frei", o bem-aventurado
nessa história não é você. Muito pelo contrário.
E aí está a grande ironia dessa coisa
toda: a "justiça" do Bettinho nada mais é do que a inversão
paródica e diabólica da justiça cristã.
Basta pensar no seguinte: a "sociedade justa" seria aquela em que
os indivíduos não precisariam mais ser justos. É
a mais monstruosa das utopias. Em seu nome, milhões de vidas
inocentes foram dizimadas. Que, apesar disso, a esquerda ainda hoje
goze de prestígio intelectual e moral (!!) é simplesmente
um escândalo.
Mas a isso anda reduzida a vida religiosa no Brasil:
à luta pela mudança na sociedade, ao mesmo tempo que
se exime o indivíduo de qualquer responsabilidade na condução
de sua vida pessoal. Tudo foi submetido à política,
em nome dessa tal de "justiça social". Nada mais distante das
palavras do Cristo do que essa "ética da indignação"
(para usar a expressão de Olavo de Carvalho) que reduz a ética
a um discurso acusatório contra bodes expiatórios. Nada
mais próximo do farisaísmo do que essa massa de acusadores,
prontos a esconder os erros de seus aliados e a atribuir crimes a
seus opositores políticos.
Vale dizer, ainda, que toda a Teratologia da Opressão
está baseada em interpretações falseadas dos
textos bíblicos como a de que se trata aqui. Betto e seus seguidores
vivem da mentira - o pior é que ainda encontram um público
disposto a engoli-las.