O SAPO DE PROVETA E A PSEUDO-ARTE

18/10/98

Hoje em dia – e especialmente, desde o advento de Marcel Duchamp – o meio artístico é certamente um dos mais refratários à vida inteligente. Qualquer um que faça apelos ao belo, à riqueza formal, à profundidade de temas será imediatamente rechaçado como reacionário de pior estirpe.

Duchamp colocou uma roda de bicicleta sobre um pedestal e disse que aquilo era arte. Desde então, vale absolutamente tudo: alguns imbecis na PUC acham até mesmo que pôr um palhaço para comer uma banana com casca é "artístico". A "Cambralha" puquiana é diretamente derivada desse esvaziamento da arte, dessa crescente estupidificação do meio artístico. Mas O Globo de 18/10/98 dá um exemplo tão bom quanto esse.

A matéria de capa do Segundo Caderno dizia respeito a um quadro, em exposição na Bienal de São Paulo, que é todo branco. Simplesmente isso. O cara pegou uma tela e não a pintou. Deixou tudo em branco, sem moldura, sem nada. E vejam a primorosa idiotice que Arnaldo Antunes, o sapo de proveta dos sapos concretistas [referência ao livro Os Sapos de Ontem, de Bruno Tolentino], proferiu:

"Aquilo é maravilhoso, porque as telas brancas nos ensinam a enxergar como os esquimós. O que nós chamamos de branco para eles tem dezenas de variações. E acho que a arte tem que ser isso, alguma coisa que amplia nossa percepção da realidade."

Não vou discutir a última frase, que até está relativamente certa. Mas a percepção dos diversos tons de branco é um elemento específico da cultura dos esquimós, desenvolvido precisamente porque eles estão o tempo todo em contato com o branco. Essa percepção não pode ser desenvolvida de uma hora para outra no meio da cultura ocidental, a partir de uma pintura, porque o meio cultural não é propício. Isso é sumamente óbvio, mas não para Arnaldo Antunes.

Para ele, a pintura apenas tem de ter "algo". Seja isso o que for. Não é in dizer que o rei está nu, que uma tela branca é apenas uma tela branca, e que isso não é arte de maneira alguma. Não pega bem, e ainda traz suspeitas de reacionarismo – algo de que Antunes deve fugir como o diabo da cruz.

Aliás, o movimento que popularizou no Brasil o culto do novo pelo novo tem a adesão irrestrita de Antunes. Não interessava se a obra era boa ou má, mas se ela era inovadora ou não. Substituíram-se os poetas de verdade pelo arremedo de poesia concretista; e iniciou-se o culto de qualquer bobagem importada.

Isso foi reforçado pela popularização das obras de Derrida, Delleuze etc., que negam a validade da distinção entre belo e feio, proclamando que o feio também é belo e que a crítica da obra de arte é inútil; o que importa é que a obra de arte exista.

Duchamp não era para ser levado tão a sério, mas deu no que deu: criou-se, com a bênção dos concretistas e dos neo-relativistas, toda uma cultura artística baseada no pressuposto de que qualquer coisa vale. Se não vemos algo numa tela toda branca, a culpa é nossa, que somos incapazes de captar os matizes do branco, e não do autor que não sabe pintar.

É nesse contexto que devem ser entendidas as declarações do sapo de proveta: ele faz um esforço para parecer profundo, para parecer estar entendendo coisas que nós, reles mortais, não entendemos. O conhecimento artístico é substituído por uma pose, que qualquer um que tenha ido a um museu ou a um centro cultural recentemente conhece muito bem. Feita a pose, qualquer bobagem que se diga toma ares de conhecimento esotérico e iniciático. Não é preciso acrescentar que essa é uma das maiores imposturas que já pairaram sobre a humanidade em toda sua história.

Como diz um dos mais lúcidos críticos de arte contemporâneos, James Gardner: "nunca a arte foi tão exaltada como agora; nunca mereceu menos".

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Há, ainda, um ponto interessante na obra em discussão. Seu autor, Kazimir Malevitch, o pai do monocronismo, é um dos importantes nomes da vanguarda russa dos anos 20, junto com grandes artistas como Kandinsky e Chagall, e outros de menor porte como Rodchenko. Esse grupo começou como grande entusiasta da Revolução de 1917, mas seu namoro com o regime durou pouco: no fim da década de 20, as autoridades já começavam a denunciar suas obras como inacessíveis às massas. Muitos deles, como Gustav Klutsis, morreram nos expurgos stalinistas (nos quais o Niemeyer não acredita). Muitos, como Kandinsky e Chagall, se exilaram.

Dos que ficaram, Rodchenko foi expulso de sua unidade de trabalho e passou os últimos vinte anos de sua vida na obscuridade; Pavel Filonov foi proibido de exibir suas pinturas, foi trabalhar como porteiro, pegou pneumonia e, fraco de fome, caiu na neve durante a ocupação de Leningrado em 1941, morrendo congelado. E Malevitch?

Malevitch não só ficou como abandonou suas pretensões vanguardistas e aderiu ao estilo oficial de pintura do regime.

Estou contando isso para mostrar que, no que diz respeito a vanguardas, alguns são mais fiéis à própria arte e outros menos. Não por acaso, aqueles que não se submeteram ao jugo soviético são precisamente os artistas superiores: o verdadeiro artista não se curva ao totalitarismo de ocasião, mas sai em defesa da própria arte. Aquele que não resiste à menor adversidade faz uma confissão de insegurança e impotência.

Não vai aí nenhuma crítica à pessoa de Malevitch; não estou qualificado para fazê-lo. Mas não é significativo que ele abandonasse a pintura monocromática em favor da pintura oficial soviética? Não é isso um sinal de que o "Branco sobre branco" é apenas mais uma picaretagem para enganar sapos patetas e não uma coisa séria? Tire o leitor suas próprias conclusões.

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A menção honrosa da semana vai para a repórter Daniela Name, que "ilustrou" sua matéria com um enorme espaço em branco. Como diria o Paulo Francis, pfui...