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O Globo publicou uma versão resumida.
Quando pus o artigo na internet, recebi um e-mail
muito gentil do jornalista Sandro Vaia, que afirmava que a descrição
psicológica citada era ridícula e o MEC tinha razão.
Respondi que a descrição era mesmo ridícula, mas
o que era interessante no caso era menos o problema específico
da descrição psicológica de um determinado livro
do que o que o caso revelava a respeito dos critérios
usados pelo MEC para julgar os livros.
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DE: ALVARO VELLOSO DE CARVALHO
PARA: O GLOBO, SEÇÃO DE CARTAS
ASSUNTO: O ARROGANTE "INDEX" DO
MEC
DATA: 11/06/98
Como já está virando tradição,
mais uma vez o sr. Paulo Renato, ministro da Educação,
divulga seu Index Prohibitorius, sob aplausos da imprensa tupiniquim
e sem que nenhum intelectual se manifeste a respeito.
A divulgação tem as marcas características
das imposições autoritárias: apresenta seus critérios
de forma vaga e faz questão de manter escondidas as razões
para a proibição (palavra substituída pelo eufemismo
maravilhoso de "rejeição").
Afinal, se fosse uma seleção límpida,
com critérios claros e objetivos, e se o Ministério nada
tivesse a esconder da população, a lista de livros proibidos
seria divulgada na Internet, junto com a justificativa para a proibição
de cada um deles. Aí teríamos uma ação democrática,
porque se exporia à análise de quem estivesse interessado.
Isso porque ninguém em sã consciência
pode ser contra a exclusão do mercado de livros que contenham
informações equivocadas, que acabariam deseducando as
crianças. Quando, porém, o critério se move desse
terreno objetivo para o das razões ideológicas, aí
a lista deixa de ser uma seleção séria, com fins
educativos, e passa a ser uma forma de censura, um acinte à liberdade
de expressão.
Não é possível afirmar com
certeza por qual dos dois critérios acima a maioria dos livros
foi selecionada. Mas o pouco que se divulgou nos jornais permite que
se tomem conclusões a respeito de alguns casos.
Por exemplo, quando um livro é proibido
porque considera inseminação de sogras um caso de manipulação
genética, o critério é evidentemente científico
(embora possamos discutir se esse erro invalida o livro inteiro). Porém,
quando um livro é proibido porque traz descrições
psicológicas de Hitler e Mussolini, a proibição
não só é censura, como é uma verdadeira
afronta ao bom senso, um absurdo inominável.
Mais ridícula ainda é a justificativa.
Segundo o MEC, "os exemplos citados dificultam a compreensão
dos processos históricos, pois induzem a uma interpretação
reducionista, ligada à personificação desses processos".
Perdoando o estilo capenga (para dizer a verdade,
alguém que escreva a frase acima não está capacitada
para coisa nenhuma, quanto mais para exercer funções de
censor), o que a frase quer dizer é que o livro deve ser banido
do ensino público porque trata Hitler e Mussolini, que na verdade
são "parte de um processo histórico", como pessoas,
indivíduos de carne e osso. Ou seja: nossas crianças estão
proibidas de perceber que quem faz a História são pessoas,
que quem governa países e toma decisões são sujeitos,
com a mesma quantidade de características psicológicas
de todos nós - alguns piores, outros melhores, mas seres humanos.
Não, para o sábio do MEC, a História é governada
por forças impessoais, por complicadíssimos "processos".
Ninguém pode dizer que Hitler era um artista frustrado, porque
isso é reduzir a História ao fator humano, é tentar
personificar o impersonificável. Isso equivale a dizer que Hitler
não foi Hitler, mas um "processo". Não foi ele
que deu a ordem para matar os judeus, não foi ele que invadiu
a Polônia. Foi alguma entidade fantasmagórica que rege
nossos destinos. Mas, se não foi Hitler que fez tudo isso, então
ele também não pode ser responsabilizado por seus atos.
Nem ele, nem nenhum de seus colaboradores. O MEC está exigindo,
agora, que todos os tribunais do mundo que condenaram colaboradores
nazistas por seus crimes os libertem imediatamente, porque eles não
são responsáveis.
Aí está: a lógica peculiar
do nosso Ministério da Educação leva à absolvição
de todos os responsáveis pelo nazismo. Não só pelo
nazismo, mas também por todos os demais absurdos deste século,
como fascismo, comunismo, etc. É isso que o ministro Paulo Renato,
com a maior cara de pau, quer que as escolas ensinem às crianças.
Não conscientemente, é claro. O que só torna as
coisas piores: o nosso minstro da Educação é incapaz
de perceber as conclusões lógicas a que determinadas premissas
levam. Santa inconseqüência! Se não ficou claro, repito:
- O MEC diz que personificar personagens históricos é
absurdo.
- Se não pode haver personificação, é
porque os processos históricos não são regidos
por pessoas concretas.
- Logo, os processos históricos são fruto de forças
impessoais e abstratas.
- Um ser humano só pode ser responsabilizado por atos que
ele mesmo cometeu.
- Logo, se os atos históricos não são cometidos
por seres humanos, ninguém pode ser responsabilizado por
nenhum ato histórico.
- No caso do nazismo, todas aquelas conhecidas atrocidades não
podem, portanto, ser atribuídas a ações individuais.
- Pela lógica do MEC, Hitler não é culpado
por absolutamente nada.
- O MEC quer que tudo isso seja ensinado às nossas crianças
e proíbe quem quer que seja de dizer o contrário.
- Qualquer educação que se fundamente nessa espécie
de irresponsabilidade geral, está fadada ao fracasso.
- O Ministério da Educação está desmentindo
o próprio nome.
O raciocínio acima vale para apenas um exemplo
da lista. Ainda poderia mencionar o caso do livro que foi proibido por
conter uma "canção contra o aborto", que alguma
autoridade chamou de "anti-científica", mas trata-se
de um exemplo demasiado nojento e absurdo. Tão absurdo que o
cérebro humano se recusa a registrá-lo. É como
se uma vaca passasse voando pela minha janela agora. Eu preferiria fingir
que não vi.
Mas não dá para fingir que não
vi a leviandade desta tal lista. Prefiro nem levantar suspeitas sobre
os fins econômicos dessa divulgação, nem sequer
sondar os objetivos desses critérios tresloucados.
Também sei que nenhuma voz capacitada se
levantará para comentar o assunto. Os insensatos preferem que
a coisa seja feita exatamente deste jeito e os sensatos estão
preocupados com outros temas, possivelmente mais urgentes. Só
resta recordar que quando o Governo começa a regular a educação
básica por parâmetros descaradamente ideológicos,
a inteligência do país se encontra seriamente ameaçada.
Atenciosamente,
Alvaro R. Velloso de Carvalho
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