DE: ALVARO VELLOSO
DE CARVALHO
PARA: O GLOBO, SEGUNDO
CADERNO
ASSUNTO: AVE MARIA
"POP"
DATA: 29/04/98
Só num mundo doente, em que já se perdeu completamente
o senso das proporções, em que o bem virou mal e o mal virou bem,
um leonino crítico musical pode, do alto de sua ignorância, celebrar
a gravação de uma "Ave Maria" em ritmo de música de boate.
Foi com grande satisfação, por isso, que vi dom Estêvão
Bittencourt, com toda a grandeza de ser um dos poucos homens da Igreja
de hoje com coragem para defender em público o valor do sagrado, declarar
seu repúdio à tal gravação nas páginas de O GLOBO.
A matéria, porém, vem com aquele velho clichê, com aquela
velha estupidez jornalísitica, que classifica de "censura" qualquer
crítica, que, tudo ignorando das coisas do outro mundo, faz deste
o seu reino e pretende tapar o Céu com a peneira de sua própria limitação
mental.
Não, caros jornalistas, não se trata de censura à liberdade
de expressão: trata-se de pôr as coisas nos seus devidos lugares,
de restaurar o senso das proporções.
Toda a imprensa caiu de pau no pastor evangélico que,
num ato enlouquecido, chutou uma imagem de uma santa na televisão.
Mas não há nenhuma diferença entre o chute à imagem de Nossa Senhora
e a sua profanação com a redução de uma obra de louvor a uma dessas
porcarias dançantes. Isso sim é intolerância, é desprezo pela tradição
religiosa que fundou a nossa cultura ocidental e deu a ela seus valores
mais altos.
Quanto às declarações da sra. Rita Lee, não creio que
mereçam qualquer consideração. Qual a autoridade que essa senhora
tem para falar o que quer que seja de assuntos religiosos? Logo ela,
que se tornou notória por sua conduta desregrada, por seu despudor,
sob uma retórica de "espírito de contestação" - que nada mais é que
espírito de porco?
É preciso que a imprensa tenha descido muito baixo na
sua veneração irracional aos artistas do show business para
achar que eles estão qualificados para opinar em assuntos de tal gravidade.
Nisso tudo só resta lembrar as palavras do poeta Bruno
Tolentino: "repara com que fausto/o que é finito rebaixa o infinito/e
o meramente misterioso vilifica um mistério."
Atenciosamente,
Alvaro R. Velloso de Carvalho