Esta carta foi publicada, e teve uma certa repercussão nos meios musicais cariocas. Depois disso, aliás, André Vital sumiu da página de música do Globo.

Estou meio fora d'água aqui, porque não entendo de música, mas não é preciso entender muito para perceber que Celibidache é o maior maestro do século.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DE: ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

PARA: O GLOBO, SEGUNDO CADERNO

ASSUNTO: A VULGARIZAÇÃO DO ERUDITO

DATA: 10/03/98

 

A resenha publicada no Segundo Caderno de hoje, 10/03/98, exala tanta ignorância, tanta insensibilidade, que só pode revoltar os fãs de música erudita.

O que causa revolta em Celibidache é a forma como o maestro nadou na contra-corrente do fenômeno típico do século XX que se abateu sobre a música erudita: a vulgarização, a banalização. O que regentes medíocres como Karajan, Muti, Mehta e Abbado fizeram foi transformar as maiores obras da música em sonzinhos de elevador. Celibidache nunca se rendeu a esse comercialismo, a esses tempi rápidos que fazem com que a música passe como uma corrida de Fórmula 1.

Os ouvidos do crítico do Globo, esse tal André Vital (quem????), ou são de lata ou estão obnubilados pela overdose de música erudita pop, de Três Tenores, de "Música para relaxamento", de todos esses apressadinhos que nublam o cenário da música erudita em nosso século. Faltam ao crítico a sensibilidade e o preparo espiritual para embarcar na viagem a que Celibidache nos convida. O maestro só entende a música como forma de libertar-nos da apeirokalia , isto é, como elevação espiritual e libertação da sombra da Caverna; sua música é voltada para o Eterno, para o Infinito. Claro que, em tempos modernos, tal proposta só pode causar escândalo e um criticozinho de música vai deitar falação a respeito em página inteira de jornal, para dizer que o cara é um chato, um louco em busca de publicidade. Provavelmente é o mesmo que se diria hoje em dia de todos os santos do panteão da Igreja...

Mas quem fica mesmo manchado nessa história toda é O GLOBO, que tinha em seus quadros um grande crítico, o saudoso Antonio Hernandez, que sempre soube reconhecer a grandeza de mestres como Arrau e Celibidache, que sabia o que era a verdadeira música e nunca se deixou enganar por esses astros pop. Era de se esperar que o tivessem substituído por alguém que pelo menos soubesse ouvir música...

Atenciosamente,

Alvaro R. Velloso de Carvalho

PS- Em tempo: o pianista Arnaldo Cohen faz plena justiça ao maestro na edição de VEJA desta semana. Ainda há algum resquício de inteligência no combalido mundo da música.