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DE: ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

PARA: FOLHA DE SÃO PAULO, OPINIÃO DOS LEITORES

ASSUNTO: OS RISOS DO IZQUIERDO

DATA: 29/04/1998

Muito divertido o artigo que o sr. Ivan Izquierdo publicou nesta FOLHA no dia 27 de abril de 1998. Com a maior sisudez e a maior cara de pau, o insigne neurologista assume os papés de legislador, de juiz, de economista, de crítico televisivo, de historiador e de sociólogo, com uma marca única em todos eles: ele erra o alvo de longe sempre.

Primeiro argumenta sem o menor pudor contra uma decisão da Justiça brasileira só porque ela lhe desagrada, sem dar o menor indício de ter lido os autos do processo ou de conhecer a legislação vigente. Depois defende o Código de Trânsito com o argumento de falta de pulso firme das autoridades. Depois pede a cabeça de uns quantos meninos que nada fizeram além de dizer que gostam de Hitler - coisa tão inocente quanto alguém dizer que gosta do Conde Drácula ou de Fidel Castro, desde que não passe das idéias à ação. E aproveita para diagnosticar o racismo na sociedade brasileira, porque existe uma praça em homenagem a Oswaldo Aranha em Porto Alegre (faz-me rir!). Ainda classifica José Serra de subeconomista e termina criticando o Casseta & Planeta por tratar problemas nacionais com bom humor.

Em tudo isso, sobressai uma linguagem evidentemente autoritária, que pretende decidir o que o Poder Judiciário deve ou não fazer, que pretende regular os rumos do país e, mais ainda, que pretende nos dizer do que devemos ou não rir. Como graças a Deus os Izquierdos ainda não tomaram o poder, me reservo o direito de rir do sr. Izquierdo, goste ele disso ou não. O que não será nada engraçado é quando esse tipo de pregação autoritária - que já encontra eco em vários setores da nossa sociedade - chegar ao poder, convertendo nossos risos em crimes, exatamente como todas as ditaduras que pretenderam controlar à força o pensamento humano, neste século tão prenhe de ideologias.

Atenciosamente,

Alvaro R. Velloso de Carvalho