Carta publicada com alguns cortes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DE: ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

PARA: FOLHA DE SÃO PAULO, ILUSTRADA

ASSUNTO: A PSEUDO-CULTURA NACIONAL

DATA: MARÇO/1998

 

Do alto do meu otimismo, eu sinceramente espero que o sr. Sérgio Machado não esteja falando sério quando afirma que os escolhidos para a feira do livro em Paris representam a "seleção titular" da literatura nacional.

Um país que tenha em sua seleção titular personagens lamentáveis como Paulo Coelho, Frei Betto, Muniz Sodré, Silviano Santiago, Zuenir Ventura e Fernando Gabeira está fadado a desaparecer nas névoas da História. Quando historiadores do futuro olharem para isso, vão achar a mais perfeita encarnação do exótico.

O pior é que há, longe dos círculos acadêmicos do eixo Rio-São Paulo, longe das páginas dos cadernos "culturais", exemplares admiráveis de inteligência pulsante, de valor inestimável e universal. Seus nomes não estão na lista da feira e não estão em lista nenhuma, neste país em que as mais bem acabadas expressões da babaquice nacional ganham capas em suplementos culturais e viagens subsidiadas pelo Estado, enquanto as criações do Espírito ficam restritas a pequenos círculos e a edições de fundo de quintal, cheias de problemas de revisão (constituindo a Topbooks honrada exceção).

Mas, claro, é preferível esconder que há, em Pindorama, um Bruno Tolentino, um Ariano Suassuna, um Miguel Reale, um Mário Vieira de Mello, um Ângelo Monteiro, um Herberto Salles, um César Leal. É que nenhum deles se alinha nas fileiras do politicamente correto.

Agora, alguém achar que Marilene Felinto, Roberto da Matta, Luís Fernando Veríssimo e Betty Milan são do primeiro time da cultura nacional é no mínimo demencial. Me desculpem, mas já é hora deste país rever seus critérios de auto-análise…

Atenciosamente,

Alvaro R. Velloso de Carvalho