Este caso continua sendo um dos maiores exemplos de idiotice de que já tive notícia.

A carta não foi publicada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DE: ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

PARA: FOLHA DE SÃO PAULO

ASSUNTO: A BANALIDADE DO MAL

DATA: ?/03/98

 

Existem algumas coisas que alguém precisa urgentemente dizer ao sr. Fernando Conceição. Sem esperanças de que esta chegue aos olhos dele, envio assim mesmo.

Ou esse sr. tem graves problemas de raciocínio e já esqueceu o que significam determinadas palavras, ou ele mente com o único propósito de fazer proselitismo de sua causa. Digo isto porque ninguém em sã consciência pode achar que é racismo fazer críticas ao que ele chama "religiosidade afro-brasileira".

Racismo é, segundo Antonio Houaiss, "preconizar a superioridade de um grupo racial em relação ao outro". Que raio de coisa pode ser esse "racismo religioso" do sr. Conceição?

Uma das maiores mentiras em que se assenta a modernidade é a idéia de que todos os credos são igualmente válidos. Por esse raciocínio, todas as páginas de Santo Agostinho valem o mesmo que rituais satânicos apresentados pelo Fantástico. Se uma seita se reúne para deliberadamente fazer o mal aos outros, para invocar o diabo, essa seita tem tanto direito de existir quanto os ascetas hindus. E por aí vai.

Com base nisso, o movimento negro brasileiro (que a cada dia adquire contornos mais totalitários) passou a preconizar uma tal "volta aos valores africanos". Mas ninguém nunca perguntou aos africanos o que eles pensam disso. Se tivessem perguntado, veriam que todos os países africanos que se desenvolveram são convertidos ao Islam. Aliás, a imensa maioria dos negros do mundo se converteu ao Islam e hoje abomina esses cultos afro como idolatria politeísta, fatores de atraso para os negros, resíduos de tribalismo primitivo que devem ser jogados no esquecimento.

Mas ninguém tem coragem de dizer nada disso, porque a mídia está dominada por intelectuais ateus e materialistas que não vêem com bons olhos os esforços ascéticos das grandes tradições religiosas. Não é à toa que a umbanda e o candomblé são assuntos preferidos dessa mesma intelectualidade, que em nenhum outro lugar encontra uma combinação tão ao seu gosto: ritos sem moral. Isto é, uma pseudo-espiritualidade que se manifesta nos rituais mas que não exige nenhuma transformação interna. Foi com a mesma proposta que pseudo-gurus como Gurdjieff, irmãos Shah e Aleister Crowley massacraram o cérebro de muitos intelectuais europeus (o pobre Mário Sá Carneiro entre eles).

A verdade, despida de paixões políticas ou de apelos sentimentais, é a seguinte: todos os ritos yorubás juntos não valem uma página da Jalal-ed-Din Rûmi. Em todo o mundo, os negros já perceberam isso. Aqui, certos setores políticos continuam insistindo em pregar a regressão uterina. Só para lembrar: ao longo do século XX, o único povo que, por se sentir discriminado, resolveu apegar-se fortemente a valores culturais do passado foi o povo alemão, na década de 30. E isso nós já sabemos como terminou...

Quanto ao resto da carta do sr. Conceição, é realmente deprimente que alguém encha a boca para dizer que acreditar na existência do bem e do mal é uma visão arcaica e infantil. Até porque ninguém pode dizer isso sem se desmentir no mesmo instante: o sr. Conceição só escreveu a carta porque achou que a reportagem do Fantástico representou um mal em relação à sua política de defesa dos ritos tribais.

Na verdade, o problema da reportagem era exatamente o oposto: por uma ignorância tipicamente moderna, os autores da reportagem afirmaram que o culto do mal só faz mal a quem o pratica. Isso é desmentido pela simples observação. Não é preciso ter muitos conhecimentos religiosos e metafísicos para saber que a invocação de forças malignas com vistas a prejudicar determinadas pessoas pode ter resultados bastante eficazes - esse o perigo desses rituais satânicos, embora não seja tão fácil atingir essa eficácia.

Não deixa de ser verdade que a prática desses ritos também prejudica quem os pratica, bastando se reportar à situação das tribos africanas que ainda se apegam a eles.

É por tudo isso que irresponsável não é o Fantástico (aliás, é sim, mas não por causa desta matéria), mas sim intelectuais como o sr. Conceição (sem falar nos srs. Pierre Verger, Muniz Sodré, etc.), que não têm a menor noção da confusão que invade seus cérebros. O problema começa a ficar grave quando um movimento político organizado e poderoso se fundamenta nas idéias tão profundamente equivocadas desses senhores.

Atenciosamente,

Alvaro R. Velloso de Carvalho