A
ESQUERDA E A IMPRENSA
Carta a Muniz Sodré
ABRIL/1998
Caro prof. Muniz Sodré,
ainda há pouco soube de sua incrível
declaração no Salão de Paris a respeito das relações
entre o JB e Olavo de Carvalho.
Tirei do episódio a conclusão lógica
inevitável: o Jornal do Brasil não tem uma direção
autônoma. É diretamente dominado pelas organizações
esquerdistas, que se arrogam o monopólio do bem e se acham
no inteiro direito de monopolizar a imprensa. Engraçado que,
ao mesmo tempo, acusem o neoliberalismo de ser ‘o discurso dominante’.
Mas tudo bem: longe de mim cobrar coerência lógica de
pessoas que tudo fazem para esconder os horrores do leninismo, do
stalinismo ou para esconder os cadáveres de 20 mil cubanos
embaixo dos 200 brasileiros mortos pelo regime militar.
Mas não é por isso que te escrevo.
Escrevo pela segunda parte da declaração. Afinal, se
Olavo de Carvalho, Ronald Levinsohn e José Mário Pereira
estão armando uma perigosa conspiração de direita
para destruir o Estado democrático brasileiro (como se antidemocrática,
na verdade, não fosse a atitude esquerdista em relação
à imprensa), algum mérito tem que ser dado a O Indivíduo.
Até porque o jornalzinho já foi
chamado de braço armado do Olavo, de ponta do iceberg
de uma conspiração de proporções enormes,
e outros disparates, inclusive por luminares do nada que alegremente
espalham suas mentiras e a confusão de seus cérebros
na sua universidade. Nada mais justo, portanto, que você
tome conhecimento da nossa existência. A própria reação
desmesurada que o jornal causou é fruto dessa política
de monopólio da imprensa pela esquerda, que você descaradamente
pregou no Salão de Paris. Nada mais típico da esquerda
do que calar na marra o discurso divergente. E depois se autoproclamam
contestadores...
Também já se disse do nosso jornaleco
que ele reuniu em torno de si as piores pessoas do país. Não
creio que essa qualificação possa ser lançada
com justiça sobre o maior pensador brasileiro vivo, dr. Miguel
Reale, ou sobre o roteirista Leopoldo Serran, mas não importa.
Importa é que o jornal é gratuito, não podendo,
portanto, ser acusado, como a República, de lavagem de dinheiro
do tráfico de drogas.
Aliás, é realmente muito engraçado
que você acuse um órgão de imprensa de lavagem
de dinheiro do tráfico quando todo mundo sabe, menos a imprensa,
que na sua Escola de Comunicação, há marcas
do Comando Vermelho, há consumo indiscriminado e nunca escondido
de drogas, e que não há muito a Polícia Federal
aí esteve dando uma limpa, que de nada adiantou, obviamente,
porque os traficantes e viciados têm o aplauso e o apoio da
mesma intelligentzia que acusa a única revista que dela
diverge de lavagem de dinheiro.
De qualquer maneira, aí vão os
três exemplares de O Indivíduo que escrevemos até
hoje. Além das razões já expostas, mando-os para
você por considerá-lo, ao menos indiretamente, responsável
pela perseguição ao jornal ocorrida na imprensa. Afinal,
se são você e seus coleguinhas que mandam no JB, e o
JB foi quem nos perseguiu, é só tirar daí a conclusão
lógica (coisa na qual um de seus colegas de sala é especialista).
Não se trata de um jornal muito bom, nem de grandes proporções.
Trata-se apenas de uma reunião de jovens alertando aos demais
universitários que o rei está nu...
Saudações cordiais,
Alvaro Velloso de Carvalho