A UTOPIA DE RORTY E MUITO MAIS!

12/04/99

Li o caderno Mais! da Folha de São Paulo de novo, como tinha feito na semana passada(mais especificamente, o de 04/04/99). Não consegui selecionar um artigo específico para figurar nesta "idiotice". Quase todos os textos merecem essa honra; quase todos estão abaixo daquilo que se poderia exigir minimamente de textos publicados no jornal mais vendido do país. Senão, vejamos.

O primeiro texto do caderno cultural é de um "filósofo" americano chamado Richard Rorty. Ele é mestre em frases elípticas e sem sentido, repletas de definições arbitrárias que visam a dar a impressão de que existe um consenso que não existe em lugar nenhum, como, por exemplo, no artigo citado, quando ele diz que "a filosofia pós-darwiniana enterrou Descartes e Kant", o que só funciona na cabeça de uma meia dúzia de intelectuais universitários americanos.

Rorty escreveu um artigo pedindo que não morra o sonho igualitário. Lá no meio, olha só o que o sofista americano disse:

"A raça humana recuperou-se da peste negra e da Guerra dos Cem Anos, de Átila e Napoleão, do nazismo e dos bolcheviques. Comparados ao progresso inconstante, porém real, em direção à liberdade, igualdade e fraternidade ao qual estamos assistindo desde a Revolução Francesa, esses horrores não têm importância histórica mundial."

É o supra-sumo do pensamento progressista: todas as catástrofes são plenamente justificadas pelo objetivo maior a que elas concorrem. Todos os morticínios são justificados, porque, no final, tudo caminhará para a igualdade e a liberdade. Só resta saber o quão cego um sujeito precisa ser para achar mesmo que, num mundo em que o Estado invade áreas da privacidade humana que nunca teve a ousadia de invadir antes e onde populações inteiras morrem de fome, houve mesmo um crescimento da igualdade, da liberdade ou muito menos da fraternidade.

Mas ele não dá nenhuma justificativa para seu credo progressista. Ele simplesmente afirma, supondo que basta Richard Rorty afirmar algo para que esse algo esteja imediatamente comprovado:

"Uma sucessão de catástrofes do tipo que mencionei acima poderia nos fazer retroceder para onde estávamos antes do século 18: em um mundo no qual todos, menos alguns poucos excêntricos, acreditam que sempre haverá pobres no mundo, que a miséria e a infelicidade humana só terminam com a morte e que a única esperança à qual tem direito a maioria dos humanos é a vida após a morte."

Em nenhum lugar nessas linhas se encontra uma justificativa para pensarmos diferente. Por que acreditaríamos que as condições materiais do mundo vão melhorar significativamente? Só porque o sr. Rorty quer? Sim: é só isso que ele faz no artigo. Afirma e não justifica. Condena e não diz por quê. De minha parte, já mostrei que toda esperança numa melhora absoluta deste mundo está destinada a fracassar. Hayek já mostrou que não é possível planejar uma sociedade, que não é possível que o mundo seja exatamente como queremos: sempre vão existir desigualdades e diferenças, simplesmente porque as pessoas são diferentes e desiguais. Mas Rorty, provavelmente, quer que ignoremos a diferença entre dado e construído e entre mundo mental e mundo real - a distinção mesma que funda a consciência adulta.

A filosofia rortyana é uma filosofia que não acredita na verdade objetiva. Não há como saber se este computador está mesmo na minha frente ou não. A única coisa que o sujeito deve fazer é inculcar o próprio modo de discursar no adversário, para ganhar o debate. Um sujeito desonesto a esse ponto só pode mesmo averiguar a veracidade das próprias proposições pelos métodos do IBOPE, e se mostra profundamente preocupado com o pessimismo das pessoas:

"No atual momento, os habitantes do Primeiro Mundo estão divididos mais ou menos igualmente entre aqueles que pensam que este mundo nunca chegará a ser muito melhor do que é hoje e aqueles que compartilham a esperança utópica que descrevi acima. No Terceiro Mundo a proporção provavelmente chega mais perto de nove para um. Nessas partes do mundo é muito mais fácil imaginar uma vida após a morte que seja melhor do que a vida atual do que imaginar que as transformações socioeconômicas que tornarão suportável a vida na terra irão realmente acontecer."

Ele só não diz por que diabos deveríamos deixar de pensar como pensamos, e passar a pensar como Richard Rorty. De qualquer maneira, ele quer a qualquer preço inculcar na nossa mente sua própria visão de mundo. Quem quer que conheça Antonio Gramsci vai entender por que Rorty, que nunca foi marxista, é tão popular na esquerda brasileira...

Para finalizar essa amostra muito peculiar de sofisma sob pretexto filosófico, a descrição do mundo que Rorty acredita ser igualitário, livre e fraterno(grifo meu):

"A transformação da ONU numa Federação Mundial real, que detivesse o monopólio das armas nucleares e fosse dotada de uma força policial sobrenatural, capaz de 'intervir nos assuntos internos' dos países de modo a cortar lunáticos como Hitler e Stálin pela raiz. Supúnhamos que, quando o século chegasse ao fim, teríamos um mundo no qual tiranos cruéis, polícias secretas e guerras agressivas já teriam deixado de existir."

Em suma: para atingir a liberdade, seria preciso criar uma instituição com poderes centrais SOBRENATURAIS! Para garantir a liberdade, seria preciso entregá-la toda nas mãos de um mega-poder global que submetesse a seu jugo todos os Estados e não pudesse ser contestado por ninguém. Rorty faz sucessivas alusões, em seu artigo, a escritores de ficção científica. Reclama que eles passaram do otimismo para o pessimismo - e não dá o menor sinal de perceber que o mundo perfeito que ele idealiza é precisamente o mundo descrito nos mais horripilantes exemplares da ficção científica que ele chama de "pessimista"...

Passemos ao texto seguinte. Se não basta um sofista americano, vem também um sofista alemão, o sociólogo Robert Kurz. Justiça seja feita, Kurz é melhor que Rorty: ao menos, seu texto tem uma descrição muito adequada e bem feita da sociedade medieval, cuja organicidade é dificilmente compreendida por intelectuais modernos (a arte medieval é diretamente derivada de seu senso religioso, e o trecho em que Kurz mostra como essa sociedade era muito mais livre e aberta do que a nossa é admirável). No entanto, feita essa ressalva, e observado que pelo menos a terça parte do artigo é escrito em linguagem que não faz o menor sentido, olhem como o sociólogo começa o artigo:

"A separação entre vida e arte é um velho trauma da modernidade."

Pobre modernidade, já tão absurda: se ela realmente sofresse desse trauma, estaria criando para si mais um problema insolúvel. A separação entre vida e arte não é "um problema", e quem que a encare desse jeito estará incapacitado de entendê-la; essa separação está na própria natureza das coisas. A arte lida apenas com o domínio do possível, com as possibilidades imaginativas, não com o real. Uma construção artística não pode te dar diretamente a vida real, porque a vida real consiste num conjunto inseparável de nexos que não podem ser representados artisticamente. A arte só pode ser criada por abstração do real, por mais "realista" que se pretenda. Uma cena real é composta de cheiro, sons, cores, sentimentos etc. etc. etc. - tire qualquer um desses aspectos, e ela deixa de ser real. Ora, a representação artística não pode ser composta de tudo isso ao mesmo tempo; ela seleciona um determinado aspecto e o retrata. Eis por que "arte" e "vida" estão inevitavelmente separados, e quem quer que se traumatize com essa separação vai acabar esquizofrênico.

Mas Kurz está sinceramente preocupado com o problema, e quer que o artista influa mais sobre a vida pública. Como?

"Se a arte não é mais capaz de refletir positivamente o todo cindido, que o faça negativamente, ao elevar à consciência a precariedade estética do mundo "economicista"."

Isto é: a sociedade moderna, economicista, não será criticada racionalmente, nem através de argumentos, mas de um ponto de vista estético. Ora, nenhuma sociedade é feita para atender ao sentido estético de ninguém; simplesmente não há nenhuma relação entre os dois. É verdade, alguns sonharam uma sociedade estética - o principal deles foi Adolph Hitler, um esteticista absoluto, que queria realizar o ideal máximo de "beleza" ariana. O esteticismo social também está no fundo do pensamento de Maquiavel (1). Não vejo em que uma sociedade hitlerista ou fundada em princípios maquiavélicos poderia ser melhor do que a sociedade economicista moderna - mas vejo muitos (muitos mesmo) aspectos em que ela poderia ser pior. Portanto, se é pra fazer crítica estética da sociedade moderna, é melhor ficar calado...

Sem abusar da paciência do leitor, cito ainda passagens de outros artigos publicados no mesmo caderno. "Frei" Bettinho, essa sumidade da idiotice nacional, começa um artigo da seguinte forma:

"O que se faz com as palavras? Tece-se, tessitura, texto. Há tecidos pesados, como há blocos de conceitos, argamassa de definições, tijolos semióticos com os quais se erguem pirâmides pontiagudas, abrigos de sarcófagos vazios de significado. São os túmulos da literatura, literadura, liteiras onde se deitam as múmias de uma escrita que já nasce velha e se desfaz em pó."

O nosso pseudo-frade preferido está se sentindo poético. Com o perdão do Robert Kurz, minha objeção, aqui, é estética mesmo (até porque o autor não está substancialmente dizendo coisa alguma). Começar um texto assim é aquilo que o poeta Bruno Tolentino define como "penteadeira de velha": aquela penteadeira repleta de aparatos horrorosos e inúteis, que a pobre velhinha supõe que sejam lindos e mui luxuosos...

Eu poderia comentar muito sobre o artigo de Renato Lessa, cientista político da UFF (universidade de Niterói), a respeito do livro de seu colega de profissão Cândido Mendes sobre a social-democracia de FHC, A presidência afortunada (Cândido tem mania de lançar sempre o mesmo livro). Poderia comentar, mas não vou fazê-lo. Há uma frase nesse artigo que me desmorona completamente, que me impossibilita de continuar a lê-lo, me impossibilita até mesmo de pensar nele. Olho o artigo e fico cada vez mais impressionado com a frase, e nem sei bem o que dizer dela. Ei-la:

"Por que não explorar a incontornável evidência de que nos situamos, sempre, entre o depois e o antes?"

Então, esse é o método do prof. Cândido Mendes? Então, essa é a grande virtude que Renato Lessa encontrou no livro do professor? Isso, realmente, vai ser uma revolução nas ciências sociais! Um fenômeno de repercussão mundial! Imaginem só, se não fosse a dupla Mendes-Lessa, com essa incrível revelação, o mundo inteiro estaria nas trevas até hoje, sem saber ao certo onde é que o presente se situa em relação ao passado e ao futuro, sem saber direito se o antes vem antes do depois ou se o depois vem antes do antes... Quanta sapiência, quanta originalidade. Incrível.

Não sei se o leitor ainda tem fôlego para mais, mas continuo assim mesmo (O INDIVÍDUO é um dos únicos órgãos da imprensa nacional que acredita que o leitor quer ler, e não olhar figuras e gráficos). O próximo é Gilberto Vasconcelos, outro cientista social (cientistas sociais proliferam como gafanhotos no Brasil - e, a rigor, seria melhor chamá-los de gafanhotos do que de cientistas). A obra de Vasconcelos consiste, maravilhosamente, num livro de crítica ao FHC e outra à Xuxa, ambos permeados de referências elogiosas a seu ídolo Leonel Brizola. Vasconcelos achou a recém-lançada biografia de Stefan Zweig "perfunctória" (usar essas palavras obsoletas é típico dele; para quem não sabe, perfunctório é superficial). Ele resolveu, então, corrigir esse grave defeito e dar sua própria interpretação profunda e penetrante do suicídio do escritor:

"Para mim, Stefan viajou na idéia do suicídio como obra de arte e estetização da morte, ou seja, um suicida que não queria morrer."

Ah, sim (voltamos à estética) - Zweig se matou, mas não queria morrer. Suicidou-se porque achava bonito, porque era poético. Se alguém fosse imbecil o suficiente para pensar no suicídio como obra de arte, esse alguém bem merecia se suicidar. Mas não acredito que essa hipótese ocorra a quem quer que não seja o sr. Vasconcelos. Que ele pretenda, a sério e sem nenhuma justificativa, que engulamos essa hipótese como uma explicação para um determinado ato (e ainda mais um ato tão absurdo como o suicídio), ele só pode estar brincando.

Ortega y Gasset escreveu que ninguém nunca explicou por que alguém fez alguma coisa. A variedade de causas envolvidas na produção de um único ato humano é tão grande, que é praticamente impossível determiná-las todas. Agora, notem a leviandade de tentar explicar um suicídio por uma suposição tão maluca. Só mesmo na cabeça de Gilberto Vasconcelos.

Para encerrar, uma frase retirada da entrevista com o historiador inglês Keith Thomas (sob outros aspectos, até interessante):

"Sei que serei visto como antiquado, mas sempre acreditei que a tarefa do socialismo era a de elevar as pessoas."

Eis aí o velho mito esquerdista de que a direita só se preocupa com as coisas práticas, e a esquerda se preocupa com cultura, intelectualidade etc. Uma bobagem, pelo simples fato de que um regime político não pode, por si só, tornar as pessoas mais inteligentes, muito menos "elevar as pessoas". A educação (no sentido de elevação, não no sentido utilitário que se tornou popular por aí) depende de um esforço individual, esforço que governo nenhum pode fazer pelas pessoas.

Me lembro que Nelson Rodrigues costumava citar uma frase: "sob o socialismo, todos os homens serão como Aristóteles". E logo se perguntava: "quem disse isso? Um Luvizaro? Não: Trotsky, que muitos consideram um gênio total." Pois é, aí está repetida a frase de Trotsky. E, novamente, não foi um Luvizaro que disse isso, assim como não foi um Luvizaro que disse todas as outras bobagens comentadas neste artigo; foram intelectuais altamente respeitados, reverenciados. Basta esta pequena amostra para que se perceba o quanto de empulhação, de mentira, de desonestidade, de falsidade está por trás do meio cultural brasileiro e mundial - o fenômeno não é só nosso, apesar de aqui ser mais grave porque as pessoas não têm ograu mínimo de cultura que lhes permitiria distinguir um filósofo de uma lata de tomates.

Levei todas essas linhas para analisar algumas frases de alguns artigos da edição de um dia do principal caderno cultural do país. Se até um idiota como eu é capaz de fazer isso, não é possível que não esteja bem claro o estado deprimente daquilo que alguns ousam chamar "cultura nacional".

Deixemos as coisas em pratos limpos: o Mais! não é um caderno de cultura. É um caderno de incultura, de anti-cultura. É um amontoado de bobagens gratuitas e injustificadas, é o palco preferido da intrujice e do estelionato intelectual. Que ninguém se deixe enganar por esses falsários.

 

NOTA:

(1) Vejam, a respeito do esteticismo no Brasil, o excelente livro de Mário Vieira de Mello, Desenvolvimento e cultura, uma obra injustamente esquecida por aqui. E não percam o ensaio de Otto Maria Carpeaux sobre Maquiavel em A cinza do purgatório (enquanto a prometida edição de seus "Ensaios reunidos" não chega...). Voltar