IMPRENSA ILETRADA

08/08/98

Conversando, outro dia, com o filho do falecido crítico de música de O Globo, Antonio Hernandez, dei-me conta, não sem uma certa melancolia, de que é possível que eu não volte a ver outro Hernandez em nossa imprensa cultural. Não se trata, aqui, de ficar lamentando a perda de críticos de que eu gostava. O problema é mais sério. É que simplesmente não há mais críticos.

A imprensa cultural vive, hoje, a ditadura do repórter. O mesmo sujeito que, anteontem, escreveu sobre a reforma de um pequeno teatro no centro da cidade, tem, hoje, que fazer a resenha do concerto de um soprano italiano naquele mesmo teatro. O mesmo que escrevia ontem sobre o orçamento de um tal filme, vai amanhã fazer a resenha do filme. Alguém pode perguntar: tá, mas qual é a diferença? Que diferença faz se é Antonio Hernandez quem faz a crítica de música ou se é um repórter? Simples: o primeiro amava o que fazia e entendia do que estava escrevendo. O segundo, o faz simplesmente por “ossos do ofício”, e, para escrever, se mune de uma rápida lambida nas opiniões em voga, para reproduzi-las e não ter trabalho de pensar.

Aí está uma das causas da mediocridade imperante na imprensa cultural. As resenhas não servem mais para analisar o filme, ou a peça, ou o livro, mas para “informar o público”, isto é, para contar as últimas fofocas e aplaudir as pessoas maravilhosas da moda.

Não é de espantar, nesse quadro, que as criações mais altas da babaquice nacional ganhem primeiras páginas e as mais importantes criações intelectuais sejam relegadas a um silêncio hipócrita. Em primeiro lugar, há a ficção das “pesquisas de opinião”, que os editores usam como desculpa para reduzir a quantidade de texto a quase nada. Em segundo lugar, as notórias preferências ideológicas da maior parte da imprensa, que a fazem ocultar aquilo que lhe desagrada, usando a “preferência do consumidor” como pretexto para fazer política.

Assim, por exemplo, páginas e páginas foram gastas, ano passado, com as várias biografias do “Che”, enquanto a última (e importante) obra de José Osvaldo de Meira Penna passou em brancas nuvens; assim, os cadernos culturais dedicaram edições inteiras ao último - e ilegível - livro de José Arthur Giannotti, enquanto o dr. Miguel Reale lançava seu O homem e seus horizontes sem que ninguém notasse.

Certa vez, a editora do caderno cultural de um dos jornais mais importantes do Rio de Janeiro, quando confrontada com observações desse tipo, respondeu que os repórteres eram “antenas” que captavam as notícias culturais mais importantes. Se é verdade, as antenas estão quebradas.