30 ANOS DE DESINFORMAÇÃO
06/09/99
Vimos todos esta semana as lindas comemorações
dos 30 anos do Jornal Nacional, que, segundo (que dúvida!)
o jornal O Globo, é a maior fonte de informações
do brasileiro.
E, realmente, 30 anos do Jornal Nacional significam
que, há 30 anos, existe uma fonte praticamente única
de notícias para o brasileiro médio. Sim, eu sei que
não tem sido assim há 30 anos, mas digamos que, pelo
menos, de uns 15 anos para cá, o Jornal Nacional congrega todas
as atenções populares. É através do telejornal
da Globo que as pessoas recebem as notícias, é através
dele que ficam sabendo do que, teoricamente, precisam saber, e é
através dele que aprendem o que devem pensar a respeito de
tal ou qual assunto.
Achar isso bom ou mau depende da função
que cada um acredita que um telejornal deve desempenhar. O ponto é:
a seleção de notícias nunca é tão
imparcial quanto parece, e muito menos a forma de apresentá-las.
Tenho dois exemplos na mente agora, mas poderia citar muitos outros.
Em dezembro de 1997, o jornal O Indivíduo entrou
numa tremenda polêmica com a direção da PUC-Rio
e com certos líderes de movimentos negros mais radicais. Tudo
por causa de um artigo intitulado "A negra noite da consciência",
escrito por Pedro Sette Câmara para a primeira edição
do jornal.
Depois de algumas semanas com a polêmica rolando,
a Globo resolveu se meter, e fez uma matéria a respeito do
caso.
No texto do jornal, havia um parágrafo que dizia:
"Falar de uma consciência negra como se ela fosse essencialmente
diferente de uma consciência branca ou árabe, é
ridículo" isto é, é preciso reconhecer
que a raça não interfere na consciência, e que,
essencialmente, todos os seres humanos são iguais.
Na matéria do Jornal Nacional, o trecho do artigo
veiculado foi o seguinte: "Falar de uma consciência negra
é ridículo". Percebem a troca sutil? Percebem como,
com a supressão de uma frase, o que era um apelo ao entendimento
e à boa convivência vira um arremedo de libelo racista?
Um outro exemplo é o das sucessivas matérias
que o jornal apresentou a respeito das armas. Numa delas, o apresentador
dizia: "As armas mataram milhares de pessoas nas metrópoles
no ano passado".
É incrível: obviamente, não foram
as armas que mataram as pessoas; foram os assassinos. As armas são
apenas um instrumento e o instrumento pode ser um revólver,
um machado, um martelo, um vidro de veneno, qualquer coisa que o valha.
Mas, claro, falando desse jeito, fica parecendo que os culpados pelos
assassinatos são os revólveres bobagem na qual
muitos brasileiros acreditam, graças à massiva campanha
global.
Pois é assim que funciona o Jornal Nacional.
Mas não é só assim e esse
é um ponto importante que muitos esquecem. A Globo não
desinforma e manipula o telespectador apenas através de deturpações,
que é o método mais grosseiro. O método preferido
são as omissões.
Assim, para ficar com os casos já citados, quando
tratou da polêmica sobre O Indivíduo, a Globo nunca mencionou
que a reitoria da PUC retirou as acusações que pesavam
sobre o jornal, e afirmou que os autores do jornal não fizeram
"nada grave". Nas matérias sobre as armas, ninguém
nunca mencionou que já existe uma legislação
altamente rigorosa sobre armas no Brasil, que os bandidos não
têm armas registradas, e que uma conhecida pesquisa do professor
da Universidade de Chicago John Lott provou que, quanto menos leis
restringindo o uso de armas pela população ordeira existe,
menor é o número de crimes no local. Ninguém
ficou sabendo de nada disso, porque o interesse do Jornal Nacional
não é informar o telespectador, e sim compeli-lo a apoiar
certas coisas e odiar outras.
Desta forma, as acusações graves que pesam
sobre o presidente americano, Bill Clinton, são apresentadas
como delírios de uma direita raivosa; a ação
assassina da OTAN nos Bálcãs fica parecendo uma linda
ação humanitária; o racismo de um sujeito americano
que vem ao Brasil abrir uma escola só para negros é
apresentado como exemplo de tolerância racial; a ação
ilegal do Governo inglês prendendo o General Pinochet é
mostrada como uma nova etapa do direito internacional; a ação
defensiva da polícia do Pará é chamada de "massacre
de Sem Terra"; e assim por diante, num emaranhado crescente de
mentiras, omissões, deturpações, nas quais a
única coisa proibida é permitir que o público
tenha acesso à verdade dos fatos.
Voltando ao que disse no início: se você
pensa que a um telejornal cabe tomar o partido da verdade, e nenhum
outro; que um órgão da imprensa não deve deixar
de fora fatos que sejam relevantes ao que está noticiando;
que a função da imprensa é informar, e não
fazer lavagem cerebral então você, como eu, não
deve ver nenhum motivo para celebrar o aniversário do Jornal
Nacional, e muitos para lamentá-lo. E, certamente, os únicos
30 anos que você deve achar dignos de ser celebrados essa semana
são os da internet, que, entre inúmeras funções,
tem justamente a de nos permitir saber o que a Globo não quer
que saibamos.
Mas não pensem que estou repetindo os discursos
de Leonel Brizola. Nada disso. A Globo não existe para ajudar
a "direita", até porque nem mesmo existe direita
no Brasil. A Globo existe para ajudar os senhores do novo mundo globalizado
e esse mundo globalizado se marca, justamente, pela aliança
perversa entre neoliberais e esquerdistas. A Globo não privilegia
uma dessas correntes apóia, em cada momento, aquela
que melhor sirva aos interesses da globalização e das
entidades responsáveis por ela. A Globo serve, justamente,
para preparar os brasileiros para aceitar como carneirinhos qualquer
proposta dos Senhores do Novo Mundo, por mais absurda, abjeta, irracional
e estúpida que seja. Estão aí o desarmamento,
a affirmative action, as intervenções militares
e muitos outros casos que não me deixam mentir.