Um detalhe curioso sobre Mulher é que, depois de várias temporadas pregando aborto, planejamento familiar, viadagem e não sei mais o quê, no último episódio uma das médicas teve um filho, e a última cena da série foi nada menos que o batismo da criança!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IDEOLOGIA GLOBAL II
OU: COM CAMISINHA, VALE TUDO

09/05/99

Vejo muito pouca coisa na televisão. Dificilmente consigo ligá-la e encontrar um programa a que valha a pena assistir por mais de meia hora. Mas não posso deixar de considerar a influência que a Rede Globo exerce sobre as mentes dos brasileiros: praticamente todo o imaginário do cidadão médio é moldado pelas telenovelas; as opiniões políticas são tiradas diretamente do Jornal Nacional e assim por diante. Eis aí, numa semana, três amostras das idéias veiculadas pela emissora.

Primeiro de tudo, um seriado chamado Mulher. Evidentemente, trata-se de um palco para a propaganda feminista, e todos os aspectos melosos e insuportáveis do movimento. Tudo é centrado em torno de duas médicas ginecologistas/obstetras, e seu trabalho numa clínica cujo dono é um imbecil (todos os homens, em Mulher, ou são imbecis ou são bobões dependentes das mulheres ou são canalhas irremediáveis).

Pois bem: no episódio (04/05/99) a que, por acaso, tive o desprazer de assistir, a Cláudia Ohana fazia uma das pacientes da Eva Wilma. Ela era casada com um sujeito cujo nome não sei, mas que vive fazendo papel de mulherengo em novelas e minisséries. Eis que, um dia, chegam a Cláudia e o marido a casa, e ela encontra um bilhete para ele, jogado embaixo da porta: "seu remédio já está chegou".

— Remédio de que, amor?

— Ah, remédio para essa minha gripe que não passa. - E começava a tossir.

Como ela também começou a tossir, resolveu ir à ginecologista (não riam ainda!). A Eva Wilma olhou para ela, perguntou o estado de saúde do marido, e encomendou um monte de testes. O resultado, como todos já adivinharam a essa altura: ela estava com AIDS. O marido tinha transmitido o vírus. Ele tinha tido suas escapadas gays, e tinha ficado aidético nesses "encontros sexuais".

Para encurtar a história: ela então foi para casa, brigou com o marido e se trancou no quarto e dizendo que ia se matar. A médica, sempre prestativa, teve a sorte de ligar justamente nessa hora, e foi correndo para o apartamento, levando sua colega de profissão consigo. Lá estavam, então, Eva Wilma e Patrícia Pillar (o bem) e o marido, o mal. E a pobre vítima trancada no quarto.

Era a metade do programa (eu vou poupá-los do restante da história), e a hora da lição de moral da médica/guru Patrícia Pillar. O sujeito estava dizendo:

— Eu sei que vocês devem me achar um monstro; eu sei que deve estar parecendo que eu não ligo pra ela. Mas a verdade é que eu a amo. Eu a amo mais do que tudo. Em algumas horas, dava uma coisa em mim, e eu não conseguia me controlar, eu tinha que seguir o impulso de transar com outro homem!

Eu acho que qualquer um esperaria que a doutora se virasse e dissesse que ele era mesmo um canalha, que ele não podia ter feito aquilo, que esse papo de "bateu uma coisa" era desculpa, era mentira, que o que caracteriza a vontade humana é a possibilidade de dominar esses impulsos idiotas e perversos, etc. Mas ela não disse nada disso. Ela simplesmente falou:

— Tudo bem. Eu entendo. Você podia ter feito tudo isso. Está certo. Mas você não fez a única coisa que devia ter feito: usar camisinha.

É simplesmente inacreditável. Incroyable. Quer dizer: pode tudo, desde que com camisinha? O sujeito pode trair a mulher, ser sodomizado por aí, desde que use camisinha, esse fetiche moderno, essa desculpa para todos os erros, essa produtora imediata de consciências limpas? É muita cara de pau!

Fiquei com vontade de fazer algumas perguntas para a Patrícia Pillar. Será que a senhora gostaria que o seu marido praticasse suas sodomias, duas ou três vezes por semana, desde que usasse camisinha (e, claro, lhe desse atenção nos outros dias da semana)? A senhora, então, convidaria os efebos dele para jantar na sua casa, com a senhora preparando a comida? A senhora acharia tudo isso muito bonito?

Esse tipo de doutrina - como, ademais, a maior parte das doutrinas mudernas sobre amor e relacionamentos - é do tipo que só tem validade da boca para fora. É uma masturbação mental, sem nenhuma possibilidade de ser posta em prática. É como o sujeito cortar a cabeça e deixá-la falando sozinha, sem consideração pelo resto de si; é um puro produto de mentes doentes. Dá para falar assim, mas não dá para viver assim.

Mas também logo me vieram à cabeça dados médicos. Lembrei-me que, quanto mais cresce a campanha pelo uso da camisinha, também cresce o número de aidéticos - o que mostra que, no mínimo, essa campanha não está servindo para nada além de tornar o sexo asséptico e evitar o contato íntimo entre dois corpos. Também me lembrei dos argumentos do dr. Peter Duesberg contra a hipótese do vírus HIV, que dizem, por exemplo, que se um sujeito tem sarcoma de Karposi e não tem HIV, ele é tratado com medicamentos para sarcoma de Karposi e o tratamento dá resultados, mas se ele tem sarcoma de Karposi e HIV ele é tratado com medicamentos que agravam o sarcoma e pioram seu estado geral de saúde, medicamentos que tinham sido proibidos no tratamento do câncer, porque só pioravam as coisas.

Mas, claro, querer que todos esses aspectos mais sutis da questão fossem colocados no ar pela Rede Globo era um pouco demais. O nome da emissora, aliás, já diz tudo: ela precisa seguir o consenso globalista. Mas bem que podia fazê-lo num seriado menos chatinho.

Passo correndo ao outro exemplo: o programa Você Decide. Esse não vi; vi apenas os anúncios no intervalo de Mulher. O nome do programa diz tudo: apresenta-se um caso e o telespectador deve ligar para a Rede Globo para decidir o final do caso. Tipo, fulaninha traiu fulaninho com beltraninho. Fulaninho deve perdoá-la? Se você acha que sim, ligue para 0800-etc., se você acha que não, ligue para 0800-etc. et al.

Nada de mal até aí: a Globo se finge de democrática, fazendo um programa em que o telespectador decide o final. É até comovente. Mas o episódio anunciado era irritante.

Tratava-se de uma encenação do conto Numa e a Ninfa, de Lima Barreto. Nesse conto, um deputado idiota se torna grande orador quando pede à mulher que escreva seus discursos. Ao final, ele descobre que ela os tomava de seu amante, e decide fingir que não sabe de nada. Numa é o arquétipo do corrupto, para Lima Barreto: um sujeito medíocre, sem nenhum talento, cujo único objetivo na vida é a promoção social, é o triunfo mundano, e que, no final, se humilha e não defende a própria honra só para manter as aparências e continuar brilhando em sociedade. É o sujeito que, posto em face da possibilidade de escolher entre a verdade e a falsidade, opta por esta última, triunfando no "mundo" mas perdendo sua alma - ou melhor, não perde a alma, porque nunca chegou a tê-la propriamente.

O simples fato de a Rede Globo ter escolhido esse conto para o Você Decide já é escandaloso. Mas fica pior.

Na versão global, a revelação final da história já era um dado inicial. Desde o anúncio, todos sabiam que quem escrevia os discursos de Numa era o amante da esposa. Cabia, então, ao telespectador fazer a escolha final de Numa: manter a farsa, fingindo que não sabia o que sabia perfeitamente bem, ou resguardar a própria honra, perdendo, com isso, o fator que lhe dava prestígio.

Não sei qual foi o resultado. Não me interessa minimamente. Se me pedissem para adivinhar, apostaria na boa alma dos brasileiros e diria que a maioria optou por não continuar a farsa. Mas não estou aqui para fazer psicologia social. Estou aqui para dizer que é deprimente ver uma crítica social mordaz e arguta como a de Lima Barreto reduzida a um joguinho para as massas, ver um brilhante insight num tipo de figura pública muito comum no Brasil reduzido a uma historinha de traição cujo final o povo escolhe.

Enfim: todos estavam, imediatamente alçados à condição de grandes escritores. Já que ninguém tem o talento de Lima Barreto, a Globo arruma um jeito de fazer com que ninguém se sinta mal com isso, com que todos se sintam importantes quanto ele. E a dona Maria, depois de preparar o jantar para o marido, podia reescrever Numa e a Ninfa, com um telefonema, mesmo sob o preço de virar a história de cabeça para baixo, mesmo sob o preço de não entender o sentido do que estava sendo mostrado. E assim a Globo, sob um pretexto democratizante, deu mais uma contribuição para manter a população na ignorância mais crassa, incapaz de entender o assunto de que trata uma história tão simples.

Afinal, se a literatura é apresentada de modo tão banalizado e idiotizado, a única visão que muitos terão dela é a de uma coisa banal e idiota, que qualquer imbecil metido a escritor pode fazer. De um toque, Lima Barreto é reduzido ao nível de autores de novela, ou de telespectadores que não sabem escrever uma carta.

Já ouço alguns me lançarem a acusação de elitista. Bom, precisamos entender o que é elitismo: se elitismo significa achar que existem coisas superiores e coisas inferiores, e que Lima Barreto está entre as coisas razoavelmente superiores e o Você Decide entre as coisas grosseiramente inferiores, estão sou elitista mesmo. Agora, se elitismo significa que a cultura deve ser reservada às classes ricas, então sou justamente o contrário do elitista, e a Globo é que é a elitista.

O que estou querendo dizer é que, se é para apresentar Lima Barreto às massas, que se apresente Lima Barreto, e não uma grotesca distorção. Que se mostre que Lima Barreto tem alguma coisa de superior, porque é precisamente nisto que a educação consiste: sair de si, e buscar um ideal superior. Educar, portanto, é dar diretrizes para que o sujeito consiga se superar e mudar o plano de seus conhecimentos; não é lisonjear as pretensões rasteiras dos ignorantes, não é dizer ao aluno que tudo que ele pensa é lindo e maravilhoso - esta é a anti-educação, é um modelo contra-producente que só vai servir para afundar ainda mais o sujeito na ignorância.

Outros dirão que o objetivo da Globo era puramente de entretenimento. Sim, mas que não se apresente esse entretenimento como se fosse coisa séria: não diga que você está apresentado ao público um "clássico da Literatura brasileira", como o anúncio mentirosamente dizia. E será que não tem cabeças-de-bagre suficientes na Globo para inventar histórias próprias, podendo deixar Lima Barreto em paz?

Chega desse assunto. Um breve comentário sobre o terceiro momento da ideologia global que me chegou aos ouvidos. Essa, foi um amigo que me contou. Não vi. É o seguinte: na novela das sete, um dos personagens é amante de ópera. Só ouve ópera. Seu pai odeia ópera, e pensa que o filho é gay porque ouve ópera. Aí, passou uma cena do menino junto da namorada. O diálogo:

— Meu pai não gosta que eu ouça ópera. Ele acha que eu sou gay.

— Ah, não liga não, seu pai é antiquado, é de outra época...

Eu nunca achei que o progressismo ia atingir esse grau de descaramento e de falta de vergonha na cara. Como é possível? Quer dizer, agora ouvir ópera é progressista e detestar ópera é ser retrógrado?

Não parece óbvio que é justamente nesses tempos modernos que a música erudita ficou relegada a uns poucos, já que o gosto geral foi inteiramente dominado por rock, pagode, dance music e demais infantilidades? A Globo pretende nos ocultar que os progressistas sempre elogiaram essa queda geral no nível da música, sempre disseram que isso representava a "democratização" da música? Será que alguém vai cair nessa mentira, nessa falsificação, em mais esse delírio auto-mitificador do progressismo? Como é possível?!

Ressalto, ainda, o fato de o pai achar que o menino é gay só porque ouve ópera. Coisa mais peculiar. Como bem ressaltou o meu amigo que me contou a cena da novela, o lirismo é profundamente masculino. O lirismo consiste, precisamente, no homem tentar penetrar no universo feminino, tentar compreender os sentimentos femininos a fim de conquistar a mulher. O lírico tenta se identificar com a amada para aprender a conquistá-la (não a seduzi-la, que é atrair alguém pelas suas fraquezas, mas conquistá-la mesmo, isto é, atraí-la através de suas próprias qualidades e de um sincero entendimento mútuo). Ora, a mulher já tem o lirismo naturalmente (graças ao feminismo, no entanto, esse lirismo está lentamente desaparecendo de boa parte delas), e o gay não quer penetrar sutilmente no universo feminino: ele quer ser uma mulher - o gay, portanto, não é lírico, e a tentativa da novela de identificar os dois é idiota a não mais poder.

Bom, eis aí uma salada global, com elementos para todos os gostos. Ninguém ousará dizer que se trata da transmissão de uma ideologia de direita ou de esquerda: o uso amplo, geral e irrestrito da camisinha, com a liberação geral dos costumes é, no Brasil, bandeira tanto de liberais quanto de esquerdistas (já que nossos conservadores estão todos mortos); a vulgarização da literatura é fruto da união do comercialismo mercantil dos liberais com o "relativismo cultural" caro aos esquerdistas; a beatificação do progressismo também é uma causa comum, tanto que liberais e esquerdistas vivem brigando para saber quem é mais progressista. Em suma: a ideologia da Globo, pelo menos nos exemplos colhidos, é aquela mistura de liberalismo e comunismo que forma a ideologia globalista da chamada Nova Ordem Mundial. Pelo visto, os brasileiros vão continuar consumindo todo esse lixo durante um bom tempo - e, desde que usem camisinha, ninguém vai reclamar mesmo...

 

ADENDO:

Este artigo se chama Ideologia global II porque existe um Ideologia global I, que pode ser lido aqui.

E, aproveitando o link colocado acima, não deixe de ler o conto Numa e a Ninfa.