INSTÂNCIA SUPREMA

16/03/00

Em O Globo, o jornalista Carlos Alberto Di Franco publicou um artigo com dois detalhes interessantes. O primeiro deles, uma observação discreta que ele não chega a desenvolver: segundo Di Franco, a pauta da imprensa não é determinada pela própria imprensa, mas pelos políticos. Só que Di Franco deixa as coisas pela metade: afinal, que políticos são esses? Certamente não se trata dos políticos do PFL, que a imprensa odeia. Será, então, o PT? Será o famoso sistema de informações do PT, esse que está por trás de tantos grampos, tantas falsas denúncias, tantas campanhas moralistas encampadas pela imprensa? Ficamos sem saber.

O outro detalhe não é bem um detalhe, e sim o assunto principal do artigo. Di Franco quer que, para que o cidadão possa votar bem, a imprensa investigue cada um dos candidatos, e depois faça um dossiê com os resultados. Ótima sugestão, mas creio que devamos levá-la mais adiante: por que não investigamos a própria imprensa? Por que não investigamos suas ligações com partidos políticos (ligações sugeridas pelo próprio Di Franco!), seus "desvios éticos" (para usar a expressão que jornalistas usam para falar de políticos), suas distorções e ocultações propositais?

A imprensa, no Brasil, virou uma instância suprema de julgamento, que julga a todos e não é julgada por ninguém. Virou a monopolizadora da ética, a reserva moral da nação, sem que ninguém se lembre de perguntar quais são suas credenciais para fazer isso. E por isso a minha proposta seria um bom complemento para a de Di Franco: enquanto a dele, tomada sozinha, resultaria em aumentar de forma desmesurada um poder que já é desmesurado (aliás, no Brasil de hoje, é o único poder que conta), a minha permite que as coisas se equilibrem.