JABOR E CLINTON

28/12/98

Se houve uma coisa escandalosa no ano que passou, em termos de imprensa brasileira, foi a cobertura dada por aqui ao caso Clinton. Estou já há algum tempo para escrever algo a esse respeito, mas a ocasião ainda não se havia apresentado.

A ocasião surgiu com o artigo de Arnaldo Jabor, na Folha de São Paulo de 22/12/98: ele proporciona uma verdadeira antologia das bobagens que andaram sendo ditas aqui no Brasil sobre as estripulias e mentiras do presidente americano.

Vale lembrar, antes de mais nada, que o Jornal do Brasil dedicou uma edição inteira do caderno Idéias para defender o presidente e que praticamente todos os jornais publicaram artigos e editoriais fazendo a mesma coisa. Devo dizer que foi, mesmo, a mais incrível unanimidade que abateu este país em 1998. A Gazeta Mercantil, com aquele economicismo que lhe é peculiar, chegou a publicar um editorial dizendo que Clinton devia permanecer no cargo, porque essa era a melhor opção para a economia da América Latina!

Mas deixando esses desvarios antigos de lado, vale tratar do artigo de Jabor ponto por ponto, porque esse pontos correspondem exatamente às tolices amplamente difundidas na mídia nacional.

"Que verdades estão sendo ocultadas atrás desta "verdade" triste, puritana, feia como as caras góticas dos republicanos, todos iguais, todos com cara de murchos "falos", todos militantes de uma revolução reacionária, com seus olhinhos cruéis e as idéias fixas na vingança contra a vida?"

Eis aí o primeiro ponto, e aquele em que mais as pessoas insistiram: a derrubada de Clinton é uma reação dos puritanos contra as "liberdades" adquiridas na década de 60. Só pode manter essa posição quem está desinformado – o que certamente não é o caso de Jabor – ou quem está querendo desinformar. Porque o problema NÃO é se Clinton estava ou não trepando com uma estagiária. O problema é que ele mentiu sobre isso para um tribunal americano.

Agora, que as pessoas não sejam mais capazes de distinguir uma questão jurídica de uma questão cultural é sinal claro do grau de confusão mental em que a vida intelectual moderna está chafurdada.

Ora, mentir diante de um tribunal é um crime conhecido como perjúrio. Quando perguntado se tinha ou não tido relações sexuais com Monica Lewinsky, Clinton respondeu que não. Pouco depois, ficou provado que tinha tido, sim. E como é que ele se saiu dessa? Dizendo que sexo oral não é "relação sexual". Como se vê, um truque verbal sujo, digno até mesmo dos nossos piores jornalistas. E, em termos claros: perjúrio.

Alguém poderia argumentar que, se não fosse o puritanismo americano, ninguém perguntaria essas coisas a Clinton num tribunal. Mas essa argumentação esquece quem foi que criou as leis de assédio sexual. Só para refrescar a memória: foram membros e militantes do próprio partido democrata, o partido de Bill Clinton.

Essa legislação intrusiva foi considerada pelas feministas como prioritária na luta pela "emancipação da mulher" do jugo masculino. Interferir na vida sexual alheia, controlar olhares e palavras: tudo isso são elementos da política esquerdista dos aliados de Bill Clinton, e não de seus opositores. Foram eles que permitiram que o simples fato de um ato "ofender" alguém tornar esse ato punível e condenável. E, com a incoerência peculiar da esquerda americana (a maior fonte de idiotices do mundo), fizeram isso ao mesmo tempo que defendiam pornógrafos como Larry Flint e, agora, defendem Clinton – um machista e explorador de mulheres arquetípico.

Pois bem: os mesmos que lutaram pelas "liberdades" sexuais na década de 60 foram os que lutaram por essas leis de assédio sexual. E foram eles que tentaram impugnar a presença do negro conservador Clarence Thomas na Suprema Corte jogando contra ele denúncias de assédio sexual – depois provadas falsas. Quando, porém, seu líder se viu acuado na própria armadilha, começaram a reclamar de suas próprias leis.

Vejam o caso da feminista Betty Friedan, por exemplo: quando Bob Livingston, líder republicano, confessou ter tido relações extra-conjugais e renunciou por causa disso, ela saiu xingando-o de machista etc. Ao mesmo tempo, defende com unhas e dentes o presidente Clinton. Para os amigos tudo; para os inimigos, nada – efeitos da politização da vida intelectual, agora também chegando às questões jurídicas.

(Nesse ponto, justiça seja feita a Camille Paglia: ela foi a única feminista a atacar Clinton, em nome das velhas leis feministas de assédio sexual. Eis aí a única feminista com alguma integridade.)

De qualquer maneira, o problema principal não é sobre o que Clinton mentiu, mas o fato de que ele mentiu, e o fez diante de um tribunal. Alguém poderia dizer que perjúrio sobre um problema pessoal não constitui base para impeachment. Mesmo esquecendo todas as outras picaretagens de Clinton, é fácil perceber que é, sim.

Impeachment, em primeiro lugar, não é condenação, nem punição. Impeachment significa apenas que o presidente será afastado do cargo porque há evidência suficiente de que mereça sofrer um processo sem a imunidade que o cargo lhe garante. Ou seja: é apenas um indício da culpa, não a prova da culpa. E existem indícios em abundância de que Clinton tenha mentido.

Ademais, perjúrio é um crime grave, e mais ainda se vem daquele responsável por preservar a lei no país (o juramento do presidente americano diz que ele é o "main law enforcer"). Perjúrio demonstra desprezo pela ordem jurídica estabelecida e desrespeito aos tribunais. Se qualquer ocupante de cargo oficial cometesse perjúrio, seria imediatamente afastado do cargo. Não vejo nenhuma razão por que isso seria diferente só porque o cargo ocupado é a presidência.

Mas, não contentes em desviar a discussão de uma questão jurídica para uma questão moral, e de culpar os republicanos por leis que eles mesmos criaram, os esquerdistas ainda se saem com a seguinte pérola, repetida por Jabor:

"...de boca aberta diante deste golpe de Estado?"

Aqui, a maluquice é grande: acusam os republicanos de querer dar um "golpe de Estado". Ora, o processo de impeachment é constitucional e legítimo, e será votado por membros dos dois partidos. Se Bill Clinton for removido do cargo, quem assumirá será seu vice-presidente, Al Gore – tão democrata e esquerdista quanto ele – e não algum interventor republicano.

Não custa nada lembrar, porém, que, quando do impeachment de Nixon (que não se concretizou devido à renúncia do presidente), o vice dele tinha acabado de renunciar e estava para ser aprovada no Congresso a indicação de seu novo vice, Gerald Ford. E, então, muitos líderes democratas lutaram pela reprovação dessa indicação, porque, nesse caso, com a deposição de Nixon, o líder do Congresso, um democrata, assumiria – isso, sim, era golpe de Estado...

"contrariar a maciça opinião pública que apóia Clinton (68% dos americanos)."

E eis que chega a tolice final, muito repetida em todo lugar. Não vou refutá-la completamente – seguindo meu preceito de nunca reescrever o que já está bem escrito, apenas remeto o leitor ao último artigo de Llewellyn H. Rockwell Jr. no WorldnetDaily.

É muito estranho como uma ficção maluca como essas pesquisas de opinião de TV podem formar base para decisões políticas sérias. Principalmente quando, há menos de um mês, o New York Times publicou uma matéria mostrando que a maior parte das pessoas contactadas pelos institutos de pesquisa se recusa a responder. As pesquisas atingem um público pequeno e nem um pouco representativo da "opinião pública" americana. Mas representam muito bem a "opinião publicada", a opinião da maior parte dos veículos midiáticos americanos – que, como os brasileiros, estão quase totalmente nas mãos da esquerda e estão sempre dispostos a publicar apenas o que interessa politicamente.

Jabor continua o artigo com frases bastante sensatas sobre a nova ordem mundial: realmente, ela não é livre, como querem nos fazer supor, mas é a coisa mais controlada e planejada de que já se teve notícia. Mas ele se equivoca completamente ao apresentar os republicanos como representantes dessa nova ordem. Não: os liberais e conservadores americanos sempre prezaram a livre-iniciativa e a liberdade individual, e a nova ordem mundial é inteiramente planificadora e corporativista – fascista mesmo. Muitos republicanos são apologistas dela, é certo, mas são os republicanos "centristas", os adeptos da "terceira via", por assim dizer – e estes são exatamente os que não querem punir Clinton.

Por outro lado, Clinton e seus comparsas é que representam bem o mundo maravilhoso em que estamos entrando. Essa utilização política dos tribunais (exatamente como no caso Pinochet), essa manipulação das leis de acordo com seus próprios interesses, descartando-as quando deixam de lhes servir, isso é típico dos novos senhores do mundo. Não é à toa que sexta-feira passada, dia 26 de dezembro, o presidente Clinton tenha emitido um decreto [posteriormente revogado, devido a uma onda de protestos] criando uma nova burocracia americana exclusivamente dedicada a pôr em prática planos da ONU – é essa submissão dos EUA aos interesses dos organismos internacionais que tem marcado o governo Clinton. E é justamente por essa presteza em servir aos novos senhores que é ele que vai sair ganhando, nessa história toda. É justamente por isso que o impeachment não vai prosseguir.

Isso acontecendo, surge um problema grave nos EUA: os presidentes americanos passam a ficar acima da Constituição, e os comparsas de Clinton utilizarão esse poder para vender mais ainda o país à ONU, à UNESCO e similares. E enquanto isso o séquito de puxa-sacos, na imprensa de lá e na de cá, continuará aplaudindo todas as mentiras desse criminoso, e a formação do poder mundial continuará avançando a olhos vistos. Enfim: a vaca continuará indo pro brejo.