SEXO E AMOR PARA DAR E VENDER

30/08/99

Toda vez que se fala em crise da cultura nacional, ou em decadência intelectual, alguém já aponta os culpados de sempre: o Ratinho, os grupos de pagode, a Carla Perez, e não sei mais quem. Prestem atenção, imbecis: os culpados pela crise cultural não são aqueles que fazem comércio em vez de fazer cultura; são aqueles que teriam a obrigação de zelar pela cultura superior mas só fazem porcaria! Culpados são os intelectuais, os universitários, os escritores, os ensaístas - enfim, aqueles que têm a obrigação de resguardar a consciência na nação e que nada fazem além de torná-la deprimida, estreita, idiota.

Basta observar o nível do debate cultural neste país para entender do que eu estou falando. O exemplo desta semana é um evento patrocinado pelo Jornal do Brasil no Teatro Leblon e alardeado pelo caderno cultural (Idéias, que agora mais que nunca merece o apelido de Bordéias) do mesmo jornal em sua edição de 21/08/99.

O nome do evento é Amor e sexo: para onde vamos? Agora, eu pergunto ao leitor: por que diabos alguém deveria se interessar no que meia dúzia de intelectuais tem a dizer sobre sexo e amor?

Mas fica pior: o tema principal será a discussão sobre a possibilidade de "conciliar masculino e feminino". E entre os debatedores estarão Rose Marie Muraro, Regina Navarro Lins e Luiz Mott.

Quer dizer, os três estarão lá discutindo se é possível fazer aquilo que toda a humanidade tem feito desde Adão e Eva.

Como é possível que tenhamos descido tão baixo? Como é possível que a temática intelectual tenha se tornado estúpida a ponto de centrar-se nos problemas sexuais dos próprios intelectuais? Em suma: como é possível ser a Regina Navarro Lins, ou o Luiz Mott, ou a Rose Marie Muraro?

Porque, afinal, o que fazem essas três figuras? Nada além de discutir os próprios desajustes sexuais em público, e de dar à proclamação obsessiva das próprias taras um ar de grande cientificidade. Não estou nem reclamando de que essas taras existam: que eles façam com os próprios órgãos sexuais aquilo que bem entendam. O que me espanta é que isso seja tomado como assunto sério, como o assunto mais sério do mundo. O que me espanta é ver toda essa parafernalha midiática montada em torno de questiúnculas desimportantes, em torno de assuntos profundamente irrelevantes, em torno de figuras desprezíveis como essas três. O que me espanta é que alguém realmente ache que os próprios instintos sexuais são matéria suficiente para o debate intelectual.

Nelson Rodrigues dizia que o ser humano que se preocupa o dia inteiro com os próprios instintos sexuais e que é incapaz de controla-los fica igualado às gatas de telhado. Mas é preciso ir além: nem mesmo as gatas de telhado se preocupam o dia inteiro com isso. Até mesmo as gatas de telhado têm uma vida intelectual mais densa do que esse bando de sexólogos.

Se alguém está achando que exagero, desçamos às miudezas (e o termo é apropriado em mais de um sentido). A dona Regina Navarro Lins é a sexóloga do Jornal do Brasil. Também dá aula na PUC-Rio, sei lá de quê, mas isso não me surpreende, porque a PUC-Rio é a instituição carioca que reúne a maior quantidade de excrescências por metro quadrado.

Na seção de cartas do JB, no mesmo dia em que saiu a notícia da tal série de palestras, um leitor reclamava de uma outra coluna dessa sexóloga, e tentava dizer, timidamente, que a família talvez não seja uma instituição falida, que talvez o casamento ainda tenha algum sentido, que as pessoas ainda buscam o amor e coisas assim. A resposta dela foi belíssima (estou dando um resumo aproximado, mas juro que estou sendo fiel):

"Não é hoje que a moral conservadora quer impor restrições aos processos mais naturais do nosso corpo. Precisamos nos conscientizar de que sexo, de qualquer forma, é algo tão natural quanto beber água ou tomar banho."

Suponho que dona Regina faça sexo tantas vezes quanto beba água, ou quanto tome banho. Suponho ainda que ela não deve escolher muito o parceiro: o entregador de pizza, o rapaz da NET, o marido, o namorado, o filho, a filha, o cachorro... e paro por aqui, especialmente depois de ter visto a foto da adorável senhora (vejam também, e aproveitem para ler algumas das coisas mais loucas do mundo no resto do site dela: http://www.cama-na-rede.psc.br/). Não se espante, meu caro: é isso que se deduz diretamente da resposta dela ao pobre leitor que imaginou ainda ser possível dialogar racionalmente com esse tipo de gente.

E o Luiz Mott? Como todos devem saber, ele é o principal líder do movimento gay brasileiro, que está sempre propondo novas leis de restrição à liberdade de expressão e à liberdade religiosa. Suas tiradas são inúmeras, e poderiam render um livro inteiro. Ele, por exemplo, tentou processar uma entidade protestante que estava montando um congresso para conversão e cura dos gays. Mas sua tirada mais espetacular foi um artigo, publicado não lembro onde, em que ele dizia, do alto de sua autoridade de historiador, que Jesus Cristo não existiu, mas, se tivesse existido, teria sido viado. E a prova disso é que Ele disse "Deixai vir a mim as criancinhas".

Faço uma pausa para deixar o leitor se recuperar do espanto, e passo à Rose Marie, propagandista-mor do feminismo no Brasil. Nunca escrevi sobre ela por absoluta incapacidade de lidar com tantas besteiras no espaço de um artigo. Não pretendo, pois, comentar seu artigo "O feminino e a esquerda", publicado na Folha de São Paulo de alguns meses atrás, porque esse comentário exigiria um livro inteiro. Cito apenas um trecho da parte final, só para dar um gostinho:

"Aqui, nestas bandas esquecidas do mundo, pode nascer um novo modelo, aquele pregado por Rosa Luxemburgo (para mim, talvez a mulher mais expressiva do século 20 e profetisa do século 21): um socialismo pluripartidário e democrático, em que a sociedade civil organizada, à sua maneira, vai pouco a pouco tomando as rédeas do poder. Esse seria o genuíno modelo político e econômico construído pelos oprimidos. Mas isso só poderá acontecer se houver uma mudança de fundo na cabeça de todos nós, uma 'revolução das subjetividades'. Sem ela, o sistema recuperará tudo, mais cedo ou mais tarde.É essa revolução que Leonardo Boff aponta em seu livro magistral 'Saber Cuidar' (Vozes, 1999). Esse livro foi escrito não em linguagem filosófica 'masculina', objetiva, mas com a fala 'feminina' da emoção. Em suma, diz ele que a competição tem de ser substituída pelo cuidado."

Mas, apesar de pôr em contraste a linguagem feminina da emoção com a linguagem "objetiva", masculina, ela, em outro artigo do mesmo jornal, saiu-se com a seguinte pérola: "Todas as diferenças entre homens e mulheres, com exceção da biológica, são produtos do modelo econômico". Pelo visto, nem dona Rose Marie se entende a si mesma, e isso é mais do que razão para desistirmos de entendê-la.

Mas na matéria do Bordéias, dona Rose Marie voltava a pontificar, e voltava a contradizer-se:

"Nas culturas patriarcais, o homem desde que nasce é carimbado para pensar primeiro em si, para uma sublimação maior, onde quem não mata morre, ao menos simbolicamente. Já a mulher é carimbada para o altruísmo, o serviço, o amor, o cuidado do outra, para o domínio do privado, onde se cria e se mantém a vida."

Isso antes de dizer que temos que acabar com as culturas patriarcais. Então, vamos lá: a mulher, afinal, é altruísta por natureza, como ela dá a entender no primeiro trecho, ou não é, como ela dá a entender nos dois outros? Ah, a cultura patriarcal é que produz esse altruísmo. Então, como é que ela pode apontá-lo como uma coisa boa, uma coisa a ser seguida, se a cultura patriarcal é a própria encarnação do mal? Perguntas, perguntas, perguntas... melhor esquecer.

Até porque, como eu disse acima, qualquer possibilidade de debate racional com essas pessoas está cortada desde a origem. Eles não estão aí para debater racionalmente. Eles estão aí para pontificar sobre a vida sexual de todo mundo - exatamente aquilo que menos lhes diz respeito, e aquilo de que eles estão menos habilitados a falar. Que alguém preste atenção nessa gente depõe muito, muito mesmo, contra a cultura brasileira e contra o público letrado deste triste país, que vive seu período mais tenebroso.

Segundo a repórter do Bordéias, saber se homens e mulheres são compatíveis é questão muito difícil. Deve ser mesmo muito difícil saber isso, depois que você leva a sério Rose Marie Muraro e Regina Navarro Lins, e ainda por cima vai escrever sobre elas no JB. Mas, depois disso, também deve ser muito difícil saber se dois e dois são quatro, saber amarrar os próprios sapatos, escovar os próprios dentes, e assim por diante...

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Uma notinha política, só para registrar: por que diabos as pessoas ficaram tão escandalizadas com o fato de o Lula ter apoiado o Hugo Chávez? Alguém aí é idiota o suficiente para acreditar nessa história de "socialismo democrático"? Alguém acha mesmo que a esquerda brasileira acredita em democracia?

Tenham a santa paciência: Hugo Chávez é tudo que o Lula quer ser quando crescer; só não percebe isso quem não quer. O problema (ou melhor, a solução) é que Lula não tem nem metade do talento retórico do ditadorzinho venezuelano, nem seu potencial de liderança. Resultado: vai ficar chupando dedo.

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Outra notinha política.

O Presidente da República dá palpite no veredicto de um julgamento cujos autos ele desconhece, e todo mundo acha perfeitamente normal: o Brasil é mesmo um país louco.

Quanto aos Sem Terra, todo mundo viu na televisão a imagem de um monte de sem terra correndo armados e enfurecidos para cima dos policiais, e destes se defendendo do único jeito que tinham para se defender na hora, atirando. Mas todo mundo prefere acreditar no que diz a Rede Globo e os demais intelectuais a confiar nos próprios olhos. Estão todos virando kantianos sem saber.