IMPERIALISMO PORTUGUÊS A UMA HORA DESSAS?

06/03/99

disse aqui no "Indivíduo" - e não tenho o menor pudor em repeti-lo - que uma das coisas mais ridículas que existem são as professorinhas de História de Segundo Grau. Em geral, são dondocas desmioladas que, por falta do que fazer, foram para a faculdade de História. Lá, gente como Leandro Konder e Emir Sader contou para elas que o legal mesmo era o marxismo e que Gramsci era o maior pensador do século, e elas acreditaram. Depois, foram dar aula no Segundo Grau para transmitir o conhecimento que tinham recebido de seus mestres, e tentar engrossar as fileiras do proletariado intelectual a que elas próprias pertencem.

Falo no feminino, mas poderia também falar dos professores de História. Todos nós temos algum professor de História comuna para lembrar. Costumam ser caras legais, amigos dos alunos (e, mais do que amigos das alunas) etc., mas sempre estão interessados em recrutar militantes, em disseminar a "mensagem revolucionária".

Falei das professorinhas, porque, mais uma vez, é uma professorinha a estrela da idiotice desta semana. A notícia saiu no Jornal do Commercio, de Recife, no dia 01/03/99, e nos foi transmitida por um leitor atento. O tema era o descobrimento do Brasil, e como os cursinhos pré-vestibulares e escolas de Segundo Grau têm uma versão própria do descobrimento. Essa versão é resumida pelas palavras da professorinha Ana Fillipini:

"Achamento e descobrimento são praticamente a mesma coisa e não refletem o que aconteceu porque quem achou o Brasil foram os índios, não os portugueses. O mais correto é usar conquista ou invasão", defende Ana Filipini, coordenadora de história do curso Pré-Universitário e do Colégio La Salle.

Isto é, segundo a professorinha, não existiu "descobrimento" do Brasil, e sim invasão ou conquista. Vamos tentar esclarecer as coisas.

A expressão "descobrimento" do Brasil não significa apenas chegada a uma terra. Significa também o estabelecimento nela de uma civilização. Já a conquista significa que uma civilização destruiu a outra, significa que houve uma guerra e uma delas saiu vencedora.

Em sentido estrito, não houve guerra nenhuma entre índios e portugueses. Houve conflitos localizados, mas não se tratou propriamente de uma guerra de conquista.

Agora, a verdadeira questão é: quem é responsável pela civilização brasileira? O que quer dizer, quem "descobriu" o Brasil?

Ora, é óbvio que quem descobriu o Brasil foram os portugueses, e não os índios, pelo simples fato de que quem deu nome e forma ao Brasil foram os portugueses, e não os índios. Estes nunca chegaram a considerar nosso país como um país, nunca chegaram a formar uma nação. Formavam apenas um amontoado de tribos dispersas, freqüentemente brigando entre si.

Os portugueses vieram, deram uma unidade nacional ao Brasil, deram a estas terras um caráter nacional que nunca tiveram antes, e absorveram a cultura indígena numa cultura muito superior, porque muito mais universal: a cristandade ocidental. A pobre cultura tribal não foi capaz de resistir ao colonizador, não apenas porque este era mais forte politicamente, mas principalmente porque este trazia uma cultura mais ampla.

Já vejo as acusações brotando da leitura deste último parágrafo: etnocentrista, racista, ingênuo, e sei lá mais o quê. Ora, existem, na história do mundo, inúmeros casos de culturas de colônias que resistiram às culturas das metrópoles; a Inglaterra nunca conseguiu impor sua cultura na Índia, nem na China; os americanos não conseguiram aculturar o Japão. Nesses casos, embora o colonizador fosse superior politica e militarmente, a cultura da colônia era forte o suficiente para resistir.

Não era o caso dos índios brasileiros. Será que, agora, nós vamos ficar nos ressentindo disso? Será que vamos ficar nos ressentindo de que entre os hábitos dos habitantes do Brasil não se encontra mais o canibalismo? Ou de que agora o Brasil se chama Brasil?

Existe um sentimento geral de que "fomos explorados pelos portugueses" - sentimento que se expressa, entre outras formas, nessa amostra de pseudo-ciência da professorinha de História.

Sentimento imbecil, porque "nós" não fomos explorados por portugueses. "Nós" somos os próprios portugueses! Foi a presença deles aqui que garantiu a "nossa" - considerando que "nós" refere-se à maioria do povo brasileiro, formada do cruzamento entre portugueses, negros e, em menor escala, índios.

Ora, nem mesmo se sabe ao certo quantos índios existiam por aqui. Considera-se que eram, no máximo, uns 2 milhões, espalhados pelo nosso território, o que representa uma baixíssima concentração demográfica. Os elementos indígenas que subsistiram na nossa cultura foram poucos: como é possível atribuir aos índios um papel mais importante que aos portugueses na nossa formação? É o absurdo dos absurdos.

Claro que o país que se formou, a partir da colonização portuguesa, é um país com características próprias. É um país com defeitos e qualidades oriundos dessa mistura, dessa mestiçagem. Mas o elemento preponderante é luso; nossa principal fonte cultural é Portugal.

Romper com Portugal, através desse revanchismo e desse ressentimento absurdos, significa cortar nossas raízes, significa romper conosco mesmos. Significa condenar a cultura brasileira a ser engolida pelo dragão do globalismo, porque nenhuma cultura que não se fortaleça vai prevalecer na Nova Ordem. Seus elementos tradicionais serão dilapidados um a um pelos novos valores, expandidos por ONU, UNESCO etc.

O Brasil começou a romper consigo mesmo na Semana de Arte Baderna de 1922, que procurava nos livrar da influência portuguesa. Desde então, embora com algumas glórias ocasionais, tem faltado à nossa cultura o sentimento de unidade indispensável a qualquer cultura que queira sobreviver. E essa unidade só pode subsistir se os elementos tradicionais forem levados em conta, isto é, se reforçarmos a nossa origem, voltando a nos unir culturalmente à nossa fonte portuguesa. Nesse sentido, o trabalho do recém-falecido Antonio Houaiss era admirável, da mesma forma que é admirável, sob certos aspectos, o trabalho de Ariano Suassuna.

Existem aspectos extremamente negativos no nacionalismo, como o exclusivismo, a xenofobia, o isolacionismo, mas não existe nação e não existe povo sem um sentimento comum de base cultural, sem que nos sintamos parte do processo iniciado por nossos antepassados. Neste último sentido, o nacionalismo - ou o patriotismo, como queiram - é conditio sine qua non para tentar sobreviver na Nova Ordem Mundial.

No meio do caminho, porém, e dando as mãos às piores influências de nossas letras, estão esses historiadorezinhos que se pretendem nacionalistas por defenderem os índios. Não é de hoje que esse pessoal se engana: antigamente, queriam nos defender do imperialismo americano através da adesão bovina ao imperalismo soviético. Agora, estão tentando nos defender do imperialismo português, extinto há séculos, aderindo ao imperialismo cultural americano. Como eu dizia um pouco acima, se não reforçarmos nossa própria cultura, vamos acabar deglutidos pelos valores globalizados - entre os quais, essa paranóia politicamente correta...