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Há tempos pretendo desenvolver este artigo
e fazer um ensaio mais longo.
Um dia talvez isso saia.
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A CULTURA DA ANTI-PESSOA
29/11/98
Oh, miseria de toda lucha por lo finito!
(Rubén Darío)
Nelson Rodrigues dizia que estava se formando a sociedade
da anti-pessoa. Pretendo, aqui, comentar ligeiramente essas palavras.
Tudo começa, muitos séculos atrás,
com a idéia de depreciar a consciência humana. A consciência
deixava, na visão filosófica (e logo depois na visão
cultural), de ter autonomia e acesso próprio à universalidade,
para virar prisioneira das formas a priori, da luta de classes,
do "consenso científico", qualquer porcaria dessas.
Da depressão da consciência, centro do ser,
para a de outras partes, não demorou muito. Tornamo-nos cada
vez mais dependentes do Estado, e proclamamos a sua intervenção
na nossa vida privada como "conquistas" e "direitos".
Tornamo-nos dependentes dos médicos, que, a partir de uma estatística,
nos dizem o que deveríamos estar sentindo. Dependentes dos psicólogos
que nos dizem como deveríamos sentir e agir.
Reduzimos o sexo a uma relação entre dois
órgãos, como as gatas de telhado, e a felicidade ao preenchimento
de determinados requisitos, estabelecidos pela ONU.
E, desse crescente de perversões, surge o sexo
pela Internet, e o Prozac.
Sim: o ato sexual humano, agora, não depende mais
da presença do outro, não depende de um contato de personalidades;
os componentes que o tornavam um ato humano, como a insegurança,
o risco e a intimidade, foram cuidadosamente extirpados, para torná-lo
"seguro".
E a felicidade não é mais uma busca pessoal,
uma conseqüência de um determinado modo de agir. A felicidade
agora vem em caixinha de remédio, referendada pelo consenso científico.
O amor vira uma fórmula de revistinhas de adolescentes,
ou uma fantasia que os antigos usavam para mascar seus desejos sexuais,
naqueles tempos em que ainda não existia Rosely Sayão.
Aí é que está: a civilização
da anti-pessoa começa na recusa da própria consciência,
e parte para a negação da presença do outro, para
a formação de um mundo absurdo em que se pretende eliminar
da vida os incômodos, as decepções, os problemas.
É o não-fumante que não pode se relacionar com
o fumante, e quer que o Estado proíba o convívio social
deste. É a legislação que defende aquele que se
sentir "ofendido" por alguma coisa. É o negro que não
pode viver com o branco, e se refugia na affirmative action;
é o branco que isola o negro num gueto, porque é incapaz
de aceitá-lo como pessoa. E porque é incapaz de aceitar
a pessoa humana, com todos os seus defeitos e qualidades.
Começamos negando validade à nossa própria
vida interior; terminamos por fazer de tudo para evitar a convivência
humana, para nunca reconhecer no outro el hermano, el verdadero hermano
de que falava Unamuno.
A transmutação de um preceito cristão
para um conceito sartreano está na raiz da demência contemporânea.
Enquanto, hoje, "o inferno são os outros" e o "eu"
é um mero produto insignificante da cultura, Jesus Cristo sempre
disse que o nosso dever era "amar o próximo como a nós
mesmos".
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