MORALISMO OU SIMPLES BOM SENSO?

13/03/99

Hoje em dia, sempre que se trata de questões ligadas a sexo e alguém propõe algum tipo de restrição a alguma conduta sexual, as pessoas "esclarecidas" ou "em sintonia com seu tempo" já empinam logo o narizinho e falam, com ar superior: vamos deixar de moralismos.

E, de fato, a distinção entre moralismo e o puro e simples bom senso já escapou completamente dos cérebros das pessoas "esclarecidas". Claro que não só em questões de sexo: acabamos de ver um monte de gente dizer que julgar um presidente por perjúrio e obstrução da justiça era moralismo, estamos cansados de ver abortistas dizerem que defender a vida da criança é moralismo etc. etc.

Em termos de sexo, no entanto, a coisa atinge proporções absurdas. Claro que existe mesmo um moralismo abjeto, um angelismo que consiste em negar a fragilidade da criatura, e esperar que todos nos adequemos a um esquema moral abstrato, sem nenhuma consideração pelas circunstâncias concretas.

Mas não é disso que estou falando. Moralista, nesse sentido "esclarecido", é, em princípio, todo aquele que ache que os seres humanos não são iguais às gatas de telhado. E, a partir daí, vão surgindo novas posições "esclarecidas" que, se você ataca, também será tachado de moralista. Por exemplo, não falta quem sugira que condenar o estupro é ser moralista, porque, no fundo, a mulher está gostando daquilo; não falta quem diga que sadomasoquismo é lindo e maravilhoso; não faltam os denfesores das delícias da pedofilia, e assim por diante.

Uma ampliação simplesmente inacreditável desse estado de coisas é exemplificada pelo autor da idiotice desta semana, que, aliás, já figurou por aqui. Trata-se do repórter Helio Hara, do jornal O Globo, um sujeito que, enquanto morava no Brasil, escrevia sobre inovações tecnológicas, ecstasy e música techno. Agora, foi morar em Paris e virou correspondente estrangeiro. Vejam só o que a figura escreveu no caderno Prosa & Verso de 13/03:

"Genka não escapou dos ataques de conservadores escandalizados com a história da incestuosa relação de um pai com suas duas filhas."

E acrescentou:

"Hoje, provavelmente, o livro é pouco capaz de escandalizar pelo conteúdo."

O background, caros leitores, é o seguinte: o livro do tal do Nicolas Genka descreve um pai que transava com a filha mais velha, atraindo os ciúmes da filha mais nova, virgem, que também queria uma casquinha. Pode haver relato mais edificante?

Agora, o negócio é simples: condenar o incesto, dizer que é errado um pai transar com a filha, não é uma questão de moralismo, nem de conservadorismo. É uma simples questão de bom senso - a tal ponto que nem as gatas de telhado embarcam nesse tipo de relação.

Será que é difícil entender que é uma coisa anormal, aberrante, o pai manter relações sexuais com a filha? Não será isso objeto de conhecimento imediato, de identificação instantânea - em suma, não será isso a suprema obviedade?

Ora, o amor de um pai por uma filha é totalmente diferente do amor de um marido pela sua esposa. O amor matrimonial não pode existir sem a devida atração carnal. O matrimônio não se mantém num plano platônico, e sim num mundo de carne e osso, em que a união dos corpos serve de símbolo e intermediação para a união dos espíritos.

Embora o objetivo central do matrimônio seja o aperfeiçoamento da alma dos cônjuges, através do exercício do amor mútuo, esse aperfeiçoamento não pode se dar senão por intermédio da carne, isto é, do corpo. Por isso a função importantíssima do sexo no matrimônio, nunca negada por nenhuma tradição religiosa digna do nome, ao contrário do que diz a caricatura midiática.

É claro que nada disso se aplica ao amor de um pai por uma filha. Esse amor se funda no fato de que a filha é, de alguma forma, parte do pai; sua existência é uma continuação da existência do pai - isso cria um laço mútuo instantâneo. Ora, a relação que se constrói daí é uma relação de aconselhamento e guiamento, onde o pai é a bússola que a filha tem, no início, para guiá-la pelo mundo. Depois, essa relação vai evoluir para uma reciprocidade maior, e é precisamente aí que vão surgir os conflitos, mas nunca em nível sexual, nunca por intermédio da carne.

Não preciso, creio, aprofundar esse tópico, e já coro de vergonha por ter tido de explicar essas obviedades. Do pouco exposto aqui, fica muito claro que inserir o fator sexual na relação entre pai e filha é criar uma confusão psicológica de conseqüências catastróficas.

Isso, claro, não precisaria ser dito, exatamente como ninguém precisa dizer a você que é errado matar sua mãe: essas coisas são dados evidentes por si próprios, são elementos constitutivos da consciência moral do indivíduo. Estes, porém, são tempos em que a simples menção do termo "consciência moral" cria urticária em algumas pessoas.

São pessoas incapazes de distinguir uma convenção social (que é o que eles entendem por "moral") de um dado primordial da existência humana. E é precisamente a partir dessas confusões que surgem as piores aberrações. Afinal, se, no plano da cultura, se cria toda uma aura respeitosa e de apologia em relação ao incesto, como, depois, querem reprimir os abusos sexuais que filhos sofrem de seus pais?

O que os "esclarecidos" constantemente esquecem é que aquilo que se fala e se faz na esfera da cultura acaba tendo efeitos sobre a própria vida social. Quanto tempo eles acham que podem ficar fazendo apologia do incesto, até que a sociedade acabe legitimando os tais abusos?

Quanto tempo mais uma cultura que eleva um pornógrafo sujo e deprimente como Larry Flint ao status de mártir da liberdade de expressão pode esperar manter um mínimo de dignidade, de respeito à pessoa humana, e de convivência social?

Mas, claro, se você quer proibir a circulação da Hustler, ou se você condena o tal livro do Genka, você é um moralista, um conservador, um fascista... Não importa que o livro faça apologia do incesto, incentivando uma perigosa inversão da psique humana; não importa que a revista contenha nítidas violações da lei, como fotos de tios abusando sobrinhas, de crianças sendo molestadas. Nada disso importa: importa que é proibido proibir, que não pode ser feita nenhum tipo de restrição ao conteúdo, mesmo que francamente criminoso, de nenhuma publicação, principalmente no que diz respeito a sexo.

O mesmo vale, aliás, para a pedofilia: se você critica um filme nojento como o Lolita do Kubrick, é porque você é um moralista. Se você diz que não é uma coisa normal o João Silvério Trevisan querer transar com meninhos de 3, 4 anos, você é um moralista.

E depois reclamam quando a internet fica cheia de sites de pedofilia, quando proliferam os ataques e estupros de crianças, quando prolifera a exploração da imagem infantil para fins sexuais...

Uma vez perguntei, por meio de carta a uma revista, a um defensor da pedofilia, se ele acharia bonito que alguém viesse transar com a filha dele de seis anos. Talvez seja o caso de perguntar ao Helio Hara o que ele acharia se a sua própria filha viesse tentar seduzi-lo; ou inquirir do digno repórter se ele tem fantasias eróticas com a própria filha. Se ele responder que sim, e ainda por cima achar isso normal, é que as coisas já ultrapassaram mesmo o grau da simples masturbação intelectual "esclarecida", e chegaram a níveis psicóticos. Nesse caso, quando ele diz que ninguém se escandaliza mais com um incesto, o que ele está sugerindo é que seu próprio estado mental e psicológico se generalizou por toda a população - eis aí o que espero ser uma ampliação indevida.

Vale acrescentar, para encerrar, que, aprovado o novo Código Penal, artigos como este estarão terminantemente proibidos. Afinal, sob as bênçãos do sr. Luiz Vicente Cernicchiaro, estarão proibidas as manifestações públicas de desapreço em razão de "opção sexual" - termo extremamente vago e elástico que inclui desde a castidade monástica aos pedófilos e adeptos do incesto. E cá estaremos nós, obrigados a respeitar os pais que transam com as filhas...

 

ADENDO:

1) É preciso deixar bem claro, no entanto, que sou contra a proibição do livro. Proibir uma porcaria de livros desses só contribui para dar-lhe notoriedade. É muito melhor chegar e simplesmente dizer que o autor não passa um pervertido maluco, e que as pessoas sãs devem se manter afastadas desse tipo de "arte". E quem quiser ler provavelmente merece mesmo ler esse tipo de coisa.

2)Para aqueles que discordarem das minhas críticas à Hustler, respondo de antemão sugerindo a leitura deste artigo da dra. Judith Reisman. Se mesmo depois de ler este artigo, você continuar achando Larry Flint lindo e maravilhoso, lamento, mas não tenho o que responder.