SEXUALIDADE SACROSSANTA

Parem as máquinas! Hollywood fez um filme anti-comunista!

Esperem mais um pouco, há mais! A mídia descobriu que o trabalho de um rapper tem uma mensagem nociva e destrutiva para seus ouvintes, mormente jovens!

Vamos com calma.

O filme em questão se chama "Before night falls", o segundo trabalho de Julian Schnabel, e é a adaptação da auto-biografia do poeta e escritor cubano Reinaldo Arenas, que de entusiasta e participante - ahem... - ativo da revolução passou a exilado e, partindo para Nova Iorque em 1980, num dos navios de estupradores e ladrões que Fidel costumava mandar para os Estados Unidos, pegou AIDS e se suicidou na Big Apple.

Mas, segundo David Denby, na New Yorker (não, eu não vi o filme), as partes finais da vida de Arenas praticamente não aparecem. O que interessa ao diretor é mostrar como, durante os anos iniciais da revolução, Cuba foi o verdadeiro paraíso na Terra, com sexo amplo, geral e irrestrito ("pessoas se tocam e se beijam e se olham francamente, homens vão e vêm em sua homossexualidade, e a câmera passeia pelas cenas como um convidado numa festa de fim de noite"), até que o malvado Fidel resolveu fechar o paraíso ("ouvimos um arrepiante discurso oficial no qual a homossexualidade é denunciada como um aspecto contra-revolucionário do capitalismo"; as citações são do artigo de Denby).

Moral da história: os poetas e homossexuais tiveram de deixar a ilha, porque a arte e o sexo são perigosos para os tiranos, que sempre buscam controlá-los e proibi-los.

Já o rapper em questão se chama Eminem (numa alusão aos chocolates M&Ms), e suas letras são cheias de palavrões, descrições de atos sexuais, ataques às mulheres (entre as quais a sua própria mãe, que, no momento, está processando-o por tê-la acusado de cheirar mais cocaína do que ele), apologia do uso de drogas e incitações à violência.

OK, mas qual a novidade? Este também não é o caso das letras dos demais rappers - que, ademais, nunca hesitaram em viver o conteúdo de suas letras e usar toneladas de drogas, estuprar mulheres e atacar policiais?

Ah, mas há um detalhe: Eminem também ataca os homossexuais. Suas letras não são apenas racistas, sexistas e de baixíssimo calão: elas, ainda por cima, são homofóbicas. Nossa, que absurdo!, exclamam os críticos de música, aqueles mesmos que dizem que o que o Wu Tang Clan e o Snoopy Doggy Dog fazem é arte, e que a obra do Tupac Shakur era a expressão mais legítima da vida no gueto.

Então, neste ponto, o leitor, que não é bobo nem nada, já ligou os pontos e percebeu que essas duas notícias não revelam um momento de lucidez das trupes esquerdistas, mas revelam o status sacrossanto que o homossexualismo assumiu em nossos dias.

Temos, então, o primeiro filme hollywoodiano frontalmente contrário ao comunismo em muitos anos, um dos poucos a tratar de um drama que se desenrolou no reinado tirânico de Fidel, e qual é o foco do filme? O homossexualismo!

Notem que a perseguição imposta por Fidel aos cristãos, ou aos ricos, ou aos pensadores independentes, continua até hoje e foi infinitamente mais extensa e mais grave do que a imposta aos homossexuais e aos poetas, mas quem ousaria fazer, em Hollywood, um filme em que os heróis são católicos devotos e o vilão é um tirano comunista?

O próprio crítico da New Yorker percebeu a frivolidade absurda do filme, e escreveu: "muitas coisas menos na moda do que arte e homossexualismo ameaçam tiranos". Mas ele mesmo, escrevendo numa revista relativamente de esquerda, não tem coragem de dar nome aos bois.

Ora, o que mais ameaça os tiranos é a religião, porque as pessoas religiosas não aceitam o tirano como a encarnação de Deus na Terra; porque as pessoas religiosas sabem que existe uma instância superior que julga os atos humanos e que a legitimidade de um governo depende de sua obediência às leis divinas.

Não é por outro motivo que tiranos e autoritários de todas as persuasões políticas - de Voltaire e Robespierre a Karl Marx e Stálin - buscaram varrer a Igreja da face da Terra, e não é por outro motivo que o século mais pródigo em ditaduras da história humana foi também o mais pródigo em perseguições aos católicos.

E essa perseguição continua em Hollywood e na imprensa esquerdista, e é por isso que ninguém vai filmar o clássico de Armando Valladares, "Contra toda a esperança", mas um sujeito conseguiu fazer uma adaptação super-badalada da autobiografia de um poeta gay.

O problema das críticas a Eminem é exatamente o mesmo. Quando um sujeito urinou numa estátua do Cristo; quando um outro, com dinheiro estatal, fez uma exposição de fotos com homens com guarda-chuvas enfiados em seus ânus; quando apareceu um tal de Marilyn Manson fazendo homenagem a um serial killer satanista e enchendo suas letras de referências a Satã; quando a cidade de Nova Iorque patrocinou uma exposição que continha uma figura de Nossa Senhora coberta de excremento bovino - quando tudo isso aconteceu, as vozes da sensatez fizeram discursos denunciando uma cultura anti-cristã, anti-humana, uma cultura baseada na degradação de tudo o que há de nobre e elevado no espírito humano.

E o que responderam esses que hoje querem ver Eminem banido? Que isso tudo era "arte" e, portanto, deveria ser reverenciado, e que as vozes da sensatez eram as vozes do atraso, que queriam o retorno da escravidão, do apedrejamento das adúlteras e não sei mais o quê.

Agora, vemos os defensores da pornografia, das drogas, da depravação, da violência atacar as letras de um rapper - e por quê?

Porque ele atacou um dos últimos "valores" que ainda restam na cultura contemporânea: a opção sexual dos gays. Este não é mais o amor que não ousa dizer seu nome; é o amor que nunca cala a boca, que não se cansa de gritar e berrar todas as suas formas, todas as suas manifestações possíveis, e que não admite, em hipótese alguma, ser criticado.

A minha impressão é que, daqui a cinco mil anos, se ainda existir um mundo e se alguém estiver interessado em estudar a história do final do século XX e início do século XXI, esse suposto historiador futuro notará, estupefato, o tamanho da desorientação moral de uma época que não consegue conceber nada mais sacrossanto do que uma preferência sexual.

30/01/01