COMEMORAÇÕES ESPÚRIAS
OU: NEM SEMPRE ASSIM É O QUE ASSIM LHE PARECE

25/04/99

Essa foi uma semana de algumas comemorações. Celebraram-se datas, e tivemos até um feriado no meio de tudo. Vou comentar duas dessas celebrações, que me parecem particularmente idiotas.

É sabido, e o Sr. Pedro Sette Câmara já escreveu algumas vezes sobre isso, que uma das primeiras coisas que a Revolução Francesa fez foi criar um calendário novo, com os ícones da Revolução no lugar dos santos da Igreja, com uma nova contagem dos meses, dos dias etc. Augusto Comte já tinha proposto esse negócio, na sua religião civil, e, mais tarde, Antonio Gramsci chegou a elaborar um calendário de "santos" para a causa comunista (e se alguém precisava de prova de que o comunismo é o pior tipo de religião civil, aí está).

A temporalidade de uma determinada religião revolve em torno do acontecimento central dela, que, no caso do Cristianismo, é o nascimento de Jesus Cristo, marco inicial da contagem de tempo cristã. Mas, a essa altura, ninguém mais deve saber por que é que estamos em 1999...

Se não lembram nem isso, como pedir que lembrem também que a Igreja tem um calendário litúrgico, que revive, ano após ano, toda a vida de Jesus Cristo, e que a freqüência à missa (eu disse missa, não culto protestante) visa a nos inserir nessa temporalidade circular, complementando a simples linearidade, e preparando o senso de eternidade?

Pois bem: e mais do que essa intermediação de temporalidades, há, também, na Igreja, um calendário de santos, que nos faz relembrar e reviver, quase que diariamente, a vida dos principais expoentes da Igreja. Porque, como diz Bernanos, a Igreja é refém de seus santos: são eles que a elevam às máximas altitudes, são eles que definem e determinam a elevação espiritual da instituição. E, assim sendo, eles são também os modelos de conduta para os cristãos, que são todos chamados à santidade - isto é, ao máximo desenvolvimento das potencialidades humanas.

Não é de espantar que todo regime que pretenda destruir nas pessoas o sentimento cristão tome todos esses elementos como alvo. A secularização que vem se acentuando desde a Revolução Francesa tem sido muito bem sucedida nesse ponto - até que, uns 30 anos atrás, a própria Igreja resolveu se render e hoje quase não se encontra um católico que saiba essas coisas, ou que conheça a vida de um santo.

Mas, como Comte, Gramsci e demais seres das trevas não são bobos, eles não trataram de simplesmente destruir a temporalidade cristã e os santos. Eles sabem que todos precisamos de modelos e de referenciais, razão pela qual tratam de substituir, no imaginário geral, os santos antigos por novos.

Essa substituição não costuma dar certo - no lugar dos santos antigos, hoje está um imenso vazio que se retrata no niilismo e na desesperança característicos destes tempos modernos. E há um motivo para isso, que só vou registrar e não vou desenvolver aqui: o Príncipe deste mundo só pode dominar seus aspectos externos, nunca sua alma. O mundo onde ele triunfa é, pois, um mundo inteiramente sem alma.

Mas voltemos ao caso concreto. Um dos primeiros substitutos para a antiga religião foi a pátria - quando se formaram os Estados nacionais, todos passaram a adorar certos heróis, a idealizar certos eventos. No estágio inicial, os valores que sustentavam essas histórias ainda eram os antigos valores cristãos, e as histórias realmente contribuíam para a formação do caráter dos membros daquele país.

Depois, passada a fase de construção do Estado nacional, com a emergência do novo globalismo totalitário, em que se pretende fundir todos os Estados num só (e não se espantem com Kosovo: para formar Estados nacionais, foram necessárias inúmeras mortes, para formar um Estado mundial serão necessárias muito, muito mais), entramos numa fase em que é muito feio exaltar valores legítimos e mais feio ainda falar dos verdadeiros heróis da pátria. Agora, a mentira e a falsidade se generalizaram, e os novos heróis são aqueles que atendam às suscetibilidades de grupos étnicos ou sexuais propositadamente insuflados para minar a unidade nacional ou que se adeqüem ao estereótipo comunista do "contestador". No caso brasileiro, agora é a era de Zumbi, de Lamarca e (que me perdoem mil vezes os mineiros, mas é inevitável) de Tiradentes.

Verdade que a exaltação de Tiradentes não tem nada de recente, mas verdade também que a utilização política de sua figura tem se agravado nos últimos anos, chegando ao descaramento total esse ano, com aquela cerimônia constrangedora onde as forças da estupidez esquerdista se uniram em Minas Gerais, sob os auspícios do palhaço-mor Itamar Franco, que condecorou Lula e Brizola com a "medalha Tiradentes".

E assim tivemos o feriado do dia 21 de abril, dia de Tiradentes. Ora, o movimento da Inconfidência Mineira não teve absolutamente nenhuma conseqüência real na História brasileira e não nasceu de nenhuma causa nobre. A principal motivação dos inconfidentes era aliviar-se das dívidas com a Coroa portuguesa - isto é, queriam submeter o povo brasileiro a um modelo completamente novo de Estado para aliviar os próprios bolsos. Esse modelo de Estado que preconizavam, inspirado no iluminismo, também nada teve a ver com o modelo adotado quando da independência, o que mostra que esta nada deve a eles. Pretender, como pretendem alguns, que a Inconfidência contribuiu para a proclamação da República, décadas depois, é um completo nonsense, porque nenhuma influência histórica decisiva acontece com tanta distância de tempo.

Por que, então, celebrar um participante de um movimento tão insignificante? Porque Tirandentes é um modelo esquerdista ideal: seus companheiros no movimento tiveram a pena de enforcamento convertida em exílio; ele foi efetivamente enforcado e esquartejado. Isso basta para que esquerdistas denunciem a "dominação do poder econômico", as "injustiças sociais", e o convertam, a posteriori, num herói de suas causas.

Ora, é evidente que o caso Tirandentes é um caso verdadeiro e flagrante de injustiça - mas isso não basta para justificar todo o movimento da inconfidência, muito menos para transformá-lo num herói. Menos ainda para assemelhá-lo no que quer que seja a Jesus Cristo, e essas imagens que circulam com os traços de Tiradentes assemelhados aos de Cristo são francamente ofensivos à inteligência de qualquer um, cristão ou não, inclusive porque os inconfidentes eram membros da maçonaria, uma das instituições mais ridículas e anti-cristãs que existem.

Por mais injusta que tenha sido a decisão final de exilar os outros e matar Tiradentes, isso não esconde o fato de que ele era efetivamente culpado do crime de sedição e de traição à pátria; ele estava realmente conspirando para derrubar o Governo constituído e, como já disse, conspirando pelas razões mais vis possíveis.

Não há mineirice ou sofisma esquerdista que possa desmentir isso. A Inconfidência é o típico movimento de uma pseudo-elite intelectual tentando decidir os rumos do país, garantindo as benesses para si própria.

É interessante que os inconfidentes sejam maçons: a maçonaria tem como objetivo confesso a secularização e o fim da preocupação com a vida espiritual. Que eles sejam usados para substituir os santos cristãos é inteiramente natural.

Ora, dia 21 era dia de Santo Anselmo, escolástico que elaborou uma prova auto-evidente da existência de Deus. Ah, querem mártires? Dia 22/04 era dia de São Sotero e São Caio, papas mártires assassinados pelo Estado pagão. Pouco depois, 23/04, era dia de São Jorge. Ah, não serve, querem alguém que estivesse "do lado dos pobres"? Dia 24/04 era dia de São Fiel de Sigmaringen, capuchinho que trabalhou junto aos pobres no século XVI, conhecido como "advogado dos pobres", assassinado por protestantes mais tarde. Mas estávamos todos muito ocupados celebrando Tiradentes.

Não me entendam mal: não sou inteiramente contra a celebração de certos heróis nacionais. Mas que sejam verdadeiramente heróis. Por que, afinal, nunca celebramos Dom João VI, estadista sem o qual o Brasil hoje seria igual a Cabo Verde ou Angola (v. o livro de Oliveira Lima, Dom João VI no Brasil)? Por que não celebramos o Pe. Manoel da Nóbrega, que teve papel importante na cristianização de nosso povo? Ah, já sei: não é politicamente correto, o que quer dizer, não é suficientemente nocivo à unidade nacional.

Mas deixemos Tiradentes e os inimigos externos da Igreja de lado, por um instante. A outra celebração dessa semana que passou foi ainda pior, e serve para mostrar como a Igreja acabou deixando-se vencer por seus inimigos, e como os padres foram ficando mais e mais ridículos. Trata-se do aniversário do Colégio São Vicente, escolinha de comunismo carioca dirigida - porca miséria - por padres. O festival de declarações de ex-alunos ao jornal O Globo de 22/04 dá bem uma amostra do absurdo. Moacyr Góes, diretor teatral cujo maior mérito foi tirar a roupa da Letícia Spiller numa montagem de Abelardo e Heloísa:

"Na ocasião, pudemos discutir amplamente a criação indiscriminada de instituições particulares de ensino superior (...), iniciativa que tinha o objetivo de desviar o fluxo das universidades públicas."

Profundo, muito profundo: quer dizer que tudo que o São Vicente ensinou ao sr. Góes foi que as universidades públicas são do bem e as particulares são do mal? Belo ensino católico. Mas não é tudo. Fernanda Torres, estrela de 11 em cada 5 filmes brasileiros da "nova geração", filha de Fernanda Montenegro:

"Havia os "anistia" e os "odara". Eu me encaixava mais no segundo caso, porque na época já estava muito envolvida com o teatro."

Quer dizer: havia os comunas e os alienados "artistas" (para não dizer drogados, que é o sentido que a palavra tem na música de Caetano Veloso, porque não quero fazer acusações sem provas). Realmente, uma bela tipologia de alunos de um colégio católico. Ela acrescentou que os alunos eram ensinados a exercer a "cidadania", o que só posso entender no sentido de que eram obrigados a votar em determinados candidatos, porque cidadania é o direito de votar e ser votado. Mais um pouco de comentários inteligentes. Bruno Gouveia, vocalista de uma bandinha detestável chamada Biquíni Cavadão, expoente daquela cacofonia juvenil chamada BRock:

"Logo no início do ano [em que entrei no colégio] houve uma exposição de fotos e entrevistas dos alunos com torturados. Foi um despertar cultural que me marcou muito."

Fico imaginando alguém que despertou culturalmente ao falar com comunistas torturados - possivelmente guerrilheiros que não hesitariam em fazer exatamente a mesma coisa com seus inimigos políticos (o que não justifica a tortura, mas o raciocínio é análogo ao que fiz acima com Tiradentes: o simples fato de atos injustos terem sido cometidos contra certas pessoas não torna justas suas causas). Fico mais impressionado ainda pensando que isso aconteceu num colégio que se diz católico. Mas tudo isso empalidece em face do artiguinho do professor do colégio Marçal Versiani, publicado logo ao lado dessas declarações. Ele diz achar lindo que, no São Vicente, alguns professores dissuadiam os alunos de tomar Coca-Cola, por ser produto americano. É ridículo, eu sei, mas não é tudo: ele diz que isso é o "liberalismo" do Colégio (comunismo mudou de nome) e continua:

"No final dos anos 60, aquele liberalismo evoluiu para um projeto de educação libertadora, matriz da História [sic] mais recente do colégio. Inspirado no então proscrito Paulo Freire. Uma utopia, para alguns; e uma contradição, para outros: como poderia uma instituição escolar, que tende a reproduzir as estruturas sociais tornar-se um foco de revolução? O São Vicente convive com essa tensão entre estrutura e a vida, sem vontade alguma, parece, de a eliminar..."

O sr. Versianni se apresenta como jornalista. De que matéria um jornalista pode estar dando aula num colégio secundário, não faço a mais mínima idéia. Mas ele deixa bem claros os propósitos de suas aulas - e os atribui a todo o colégio (atribuição inteiramente correta, como vimos pelos depoimentos): fomentar a revolução. Será que já não está passando da hora de lembrarmos que o culto das revoluções fez mais vítimas do que qualquer outra coisa na história humana? Que, em um ano, a Revolução Francesa matou mais gente que a temível Inquisição espanhola matou em três séculos? Que, numa onda crescente de terror, a Revolução Russa iniciou a matança sistemática dos "reacionários" que se opunham a esse regime que o sr. Versianni caracteriza como "liberal"?

Foi preciso que avançássemos muito na decadência cultural, foi preciso que a imbecilização coletiva atingisse esferas muito profundas para que um professor viesse a público contar como, num colégio católico, o método adotado é o mesmo do regime totalitário cubano e todo mundo achasse isso lindo e maravilhoso.

Mas aí estamos: os heróis nacionais não são heróis coisa nenhuma, os mártires não são mártires, os nacionalistas não são nacionalistas e os católicos não são católicos - definitivamente, é mais mentira e empulhação do que a paciência humana pode agüentar.