O FIM DA FAMÍLIA

15/12/98

Escrevo este texto na terça-feira, dia 15 de dezembro. Digo isso porque, embora me refira à idiotice da semana de 06/12, vou começar comentando uma nota publicada por O GLOBO de hoje.

A história é a seguinte: no domingo, dia 13/12, aconteceu um acidente na estrada que liga o Rio de Janeiro a Campos. Nesse acidente, morreu o irmão de um amigo meu. Tinha apenas 22 anos, e era filho de um dos maiores empresários de Campos. E eis que, abalado ainda por esse incidente, vejo, no jornal de hoje, a coluna da sra. Hildegard Angel.

Para os que não sabem, Hildegard Angel é a última das colunistas sociais estritamente sociais. Sua coluna só fala de fofocas e é escrita com frases extremamente curtas. O Pedro Sette costuma dizer que não há, em Paulo Coelho, nenhuma oração subordinada. A mesmíssima coisa pode ser dita da coluna da "Hilde".

Pois vejam o que faz "Hilde" com a notícia da morte de Fabrício Neves: diz apenas que morreu o filho de um opositor de Garotinho, e acrescenta à frase "afogado num açude da cidade" irônicas reticências.

Agora, não sei se o leitor está me entendendo. É o seguinte: toda uma família chora pela morte de um rapaz, e a sra. Hildegard Angel vem ironizar o fato! E, o que é pior, dando a ele uma conotação política, para agradar a seu querido Garotinho! Confesso que nunca vi coisa tão abjeta em toda a minha vida. (1)

A colunista estava desrespeitando a dor de um pai. Estava colocando o dedo, fundo, numa ferida recém-aberta. Fico pensando, aqui, como é que alguém pode chegar a todo esse desrespeito pelo sentimento familiar. Meu Deus: o menino morto era apenas isso, um menino. Nada tinha a ver com política, nem com qualquer coisa do tipo. Por que não respeitar a dor de seu pai?

Tudo isso me vem à mente por causa da idiotice desta semana. Idiotice, nesse caso, é muito pouco. A frase citada a seguir ultrapassa todos os limites daquilo que, normalmente, concebemos como produto da estupidez humana. Vejam só o que declarou o juiz Siro Darlan ao jornal O GLOBO de 07/12/98:

"O pai que dá bebida ao filho é igual ao traficante de drogas".

Primeiro, o personagem. O juiz Darlan é o mesmo que mandou apreender o trabalho de um artista plástico (aliás, de muito mau gosto mesmo) porque poderia ser ofensivo às crianças. É o mesmo que escreveu na seção de cartas de O GLOBO que estava tomando um tempo para se educar, lendo Leonardo Boff. Daí já se vê que é uma figura que une o desejo de aparecer a uma considerável dose de falta de senso.

Vejamos, então, o contexto. Um pai de família estava com o filho de dezesseis (vou repetir: dezesseis!) anos no shopping Via Parque, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Estavam ambos sentados num bar, tomando um chope. E o que faz o juiz? Manda prender o pai.

Bem sabemos que é crime vender bebida a menores de dezoito anos. Mas a aplicação da lei precisa se pautar pelo princípio da razoabilidade. Não é razoável, em hipótese alguma, considerar criminoso um pai que dá cerveja ao filho de dezesseis anos.

Dezesseis anos, afinal, como diria a vizinha patusca do Nelson Rodrigues, não são dezesseis dias. Um rapaz de dezesseis anos já tem plena consciência do que deve ou não deve fazer.

Mas o mais grave não é isso. O grave é que o juiz está tirando a autoridade do pai para dar ao filho a educação que bem entender. Um pai tem todo o direito de dar bebida ao filho, se entender que isso é correto, sem que nenhuma autoridade estatal meta o bedelho nisso.

Proponho pararmos um pouco nesse ponto. O caso é, realmente, mais grave do que parece.

O primeiro passo de qualquer governo ditatorial é destruir os laços afetivos existentes entre seus cidadãos. Ora, a ligação familiar é muito mais forte – e importante – do que a ligação com o Estado. O amor de um pai pelo filho antecede, em muito, qualquer política estatal. Se essa política deseja a total submissão dos cidadãos, é lógico que ela vai começar por destruir esses laços primordiais e profundos. E aí veremos filhos jogados contra pais, irmãos jogados contra irmãos, e assim por diante, em nome da ordem estatal. E aí a delação se torna generalizada e está instalado o Estado policial.

Alguém tem alguma dúvida de que esse é precisamente o objetivo do juiz Darlan (até porque ninguém é admirador do Boff impunemente)?

Arrogando-se o papel de educador do menino, o juiz tira do pai suas prerrogativas mais imediatas e mais profundas. Não é preciso dizer que, para o menino, as conseqüências serão terríveis: imaginem a confusão instalada na cabeça do moleque, diante da atitude do juiz. Mas pior ainda é o risco que essa decisão traz para todos nós.

Se prevalecerem as intenções do "meretríssimo", em breve estaremos vivendo num estado de denúncias constantes, de suspeitas mútuas, de total desconfiança – e o poder opressivo do Estado aumentará progressivamente. Ao mesmo tempo, ter filhos passará a ser uma concessão do Estado a seus cidadãos, e o papel de "pai" e "mãe" mudará totalmente de sentido, para tornar-se apenas uma obrigação material indesejável.

É mesmo um mundo muito estranho este em que estamos vivendo. Ao mesmo tempo, um juiz pretende dissolver a família e uma jornalista desrespeita sem o menor pudor o amor familiar. Enquanto o juiz Darlan troca a responsabilidade pela educação dos filhos das mãos dos pais para as mãos dele próprio, Hildegard Angel trata a morte de um filho como se isso nenhuma diferença fizesse para o pai.

Lembro-me de "Admirável mundo novo", o livro de Huxley, em que o Estado ficava inteiramente responsável pela reprodução e educação dos novos indivíduos, e em que as próprias palavras "mãe" e "pai" se tornaram palavrões. Parece que estamos mesmo caminhando para o futuro que Huxley anteviu.

Lembro também que, no meio de toda a aridez do "mundo novo" huxleyiano, o elemento inquietante que surge é um "selvagem" que diferia dos demais pelo simples fato de ter sido criado por uma mãe de verdade. A liberdade interior que ele preservava era infinitamente superior à de todos os outros, criados pelo Estado. Mas o desejo de Darlan é, justamente, que nenhum de nós tenha mais a capacidade de perceber que há coisas mais importantes que o Estado, mais importantes até mesmo que a ordem legal, e que o amor familiar é uma dessas coisas. O que ele quer é que todos baixemos a cabeça e acatemos a ordem desumana e autoritária que está por vir.

E, infelizmente, parece que a maioria vai mesmo baixar a cabeça e entregar seus filhos nas mãos do Estado bedel.

 

NOTA:

    (1)Mais tarde, ao receber uma carta minha, a colunista se retratou e disse que não teve a intenção de ironizar a morte do menino. Respondi que, se não era a intenção, pelo menos foi exatamente o que ela acabou dizendo, o que não retira a gravidade do caso. Não é admissível que um colunista de um jornal importante escreva tão mal que acabe dizendo o contrário do que pretendia. (Voltar)