DROGAS E RESPONSABILIDADE
15/02/98
A escolha faz o destino. (L. Szondi)
Nestes tempos de coletivismo e de massificação,
é muito comum ver a mídia alardear "o problema
das drogas na juventude brasileira".
É um tema que desperta paixões, move
grandes máquinas publicitárias, dá margem a mil
explicações sociológicas e ainda serve de tema
de campanha para alguns políticos demagógicos.
Quem olha a situação de fora, pode
ser levado a pensar que os jovens da minha geração são
pessoas perdidas, sem propósito na vida, mergulhados num mar
de hedonismo, em que as ferramentas para a sobrevivência são
as drogas, o álcool, o fumo, o sexo desregrado etc.
Há vários problemas nesse tipo de abordagem,
e o principal deles é tomar casos isolados como se fossem a
expressão da realidade inteira.
Como, então, pensar nesse problema?
Em primeiro lugar, devemos considerar as suas devidas
proporções, isto é, delimitar o gênero
a que ele pertence.
Isso feito, podemos meditar na sua solução.
É muito fácil para a mídia alardear
um problema maior do que ele realmente é, e traçar uma
imagem pejorativa da juventude como um todo. A partir daí,
se criam explicações falaciosas e teorizações
absurdas, como a idéia de que o meio que cerca os jovens os
impossibilita de escapar das drogas.
Acontece que não basta, para atacar um problema,
deter-se na contemplação mórbida de suas vítimas.
Se queremos tratar da questão a sério,
devemos procurar aqueles que conseguem escapar das drogas. Talvez
não importe muito se eles são a maioria ou não,
mas o fato é que são sim.
A pergunta, então, não é "o
que leva um jovem a droga", mas sim "o que possibilita que
um jovem não se drogue?".
Mais do que estudar casos de ex-drogados, tão
caros à mídia sensacionalista, é importante estudar
casos de não-drogados.
Visto que os jovens não-drogados são
a maioria, torna-se muito difícil reunir um núcleo de
características comuns a todos eles. A resposta seria um painel
muito amplo da juventude de nosso tempo, a juventude da qual faço
parte, e seria uma ambição desmedida minha pretender
oferecê-lo aqui.
Posso, porém, retirar alguns exemplos do convívio
diário.
Convivo com um número bastante grande de jovens,
nenhum deles drogado. Devo dizer que, para a maior parte deles, a
questão "usar drogas ou não" nem sequer se
coloca. O que possibilita isso?
O primeiro fator chama-se educação.
É o fator mais importante e o mais ignorado. Não se
trata daquele blá blá blá todo em torno das terríveis
conseqüências do uso das drogas ou dos perigos químicos
das mesmas. Trata-se simplesmente da educação baseada
na idéia de responsabilidade.
O que existe de mais fundamental na vida humana é
o princípio de autoria. Eu sou autor de meus próprios
atos e não posso fugir das conseqüências deles.
O sujeito que cometeu a ação é, fatalmente, o
mesmo que sofrerá suas conseqüências. Afirmar o
contrário é cair na esquizofrenia.
Se a educação ajuda a tornar o jovem
consciente de que cada um de seus atos tem implicações
para ele e para as pessoas que o ato envolve, sua vida adquire, a
seus olhos, uma consistência muito maior. Ele vê a realidade
com olhos mais abertos, mais plenos. Se ele se sente responsável
pela própria manutenção (não falo num
sentido econômico, mas num sentido existencial), suas preocupações
estarão voltadas para coisas mais elevadas, mais importantes,
do que um prazer momentâneo que terá conseqüências
destruidoras.
Uma cultura, como a nossa, que não enfatiza
a responsabilidade individual, que cria culpados abstratos para eximir
o indivíduo de toda a culpa, só pode mesmo dar margem
a problemas psicológicos sérios. Ora, o culpado por
cada uma de minhas ações não é o inconsciente,
não é a classe social, não é o maldito
capitalismo, não é o meio social, não é
a estrutura da linguagem, não é o complexo de Édipo;
o culpado sou eu.
Todos esses fatores citados existem, mas a instância
decisiva é o ego. Quem diz sim ou não sou eu. Quem escolhe
o papel que vai representar sou eu.
Qualquer tipo de educação que não
destaque isso está fadado ao fracasso.
Qualquer campanha de prevenção às
drogas que esqueça esse fato estará proferindo palavras
vazias para uma auditório surdo.
Compreendido esse fator de responsabilidade pessoal,
podemos derivar os outros principais fatores que afastam os jovens
das drogas. Entenda-se bem: sem esse primeiro, nada se faz.
A partir daí, podemos arrolar outros, como
uma sólida formação religiosa, a atenção
aos estudos, a dedicação ao trabalho, a satisfação
na vida pessoal, a estabilidade do lar. Não conheço
um caso sequer de pessoas que vivam em alguma dessas condições
e se deixem levar pelas drogas.
Se, porém, repetimos o discurso da irresponsabilidade;
se colocamos o prazer acima das outras instâncias; se acreditamos
na idéia de que erros não devem ser punidos; então
estaremos agravando um problema e criando uma juventude verdadeiramente
transviada. Estaremos abolindo da juventude a idéia de que
existem princípios sólidos a serem seguidos e caindo
na armadilha do relativismo e do imoralismo.
Os jovens, em geral, têm plena consciência
disso. Estão cheios de planos para o futuro e não querem
ver suas vidas destruídas por atos inconseqüentes. Tudo
o que peço a educadores é que não destruam neles
esse senso de responsabilidade. Que não abafem a voz da juventude
verdadeira, sob o pretexto de fazer um discurso progressista.
Porque o que está em jogo são vidas humanas. E brincar
com vidas humanas para defender teorias ou lutar contra o conservadorismo
é no mínimo desprezível...