|
Este artigo me deu tanta dor de cabeça
que é com uma certa relutância que o releio.
Ele foi publicado no oindividuo.com no dia 26/09/99,
ficou exatamente três dias no ar e o link para ele ficou vazio
até o momento em que tive a paciência de reescrevê-lo,
no dia 22/10/99. Desde essa dia, essa versão "censura
14 anos" é a que está disponível.
Aqui, usei a versão modificada, mas acrescentei
a ela o primeiro parágrafo da primeira versão.
|
O CETICISMO
OU: DA NECESSIDADE DE REIVENTAR O MUNDO
26/09/99 - modificado em 22/10/99
Não sei se se entendiará o leitor com alguns comentários
pessoais. De qualquer forma, não importa - o assunto deste texto
não sou eu mesmo, mas um dos e-mails mais bizarros que já
recebi na vida. Essa peça de estupidez humana chegou ao meu endereço
no UOL por caminhos tortuosos de que não cabe tratar aqui. Também
não vale a pena comentar o e-mail inteiro. Falemos, então,
do que vale a pena. Desçamos às miudezas - termo altamente
apropriado ao autor da cartinha.
No meio de um monte de insultos que atribuo a alguns chiliques do remetente,
o e-mail terminava com a seguinte auto-descrição:
"(Um liberal tão idiota, ingênuo e dogmático
na crença de que nada sabemos, só podemos cojecturar
[sic])"
Pois bem: em português ou em inglês, eu entendo muito bem
esse senhor, por mais que ele pareça um ser paradoxal (afinal,
cético e dogmático!).
O paradoxo começa a se esclarecer quando notamos que, por exemplo,
as pessoas que afetam o maior desprezo pela moral são justamente
aquelas que menos hesitam em apontar os erros morais dos outros. Todo
o movimento politicamente correto é feito desse tipo de ser das
trevas. Aliás, ser das trevas em sentido estrito, porque o diabo,
tradicionalmente, tem os dois papéis complementares de mentiroso
e acusador - convence-nos de que não há certo e errado
e logo depois assume a posição de juiz implacável
(para maiores detalhes, remeto aos primeiros capítulos do precioso
livro de Denis de Rougemont, La part du diable).
Pois bem, uma das crenças preferidas dos "liberais"
brasileiros é a de que não há verdade nenhuma -
como diz esse senhor, "nada sabemos, só podemos conjeturar".
Claro que ele não esclarece se disso ele sabe, ou se isso é
apenas mais uma conjetura, mas lógica nunca foi o forte dos céticos.
O fato é: esse senhor, e nisso ele não tem nada de original,
faz uma profissão de fé cética, mas não
admite que alguém não seja tão cético quanto
ele. É um cético dogmático - e, portanto, uma contradição
viva. Mas ele não é uma exceção.
O ceticismo não é uma posição intelectual
séria. Não é uma opção filosófica
respeitável, porque não é uma posição
filosófica. Alain dizia que as objeções céticas
ao conhecimento são o mobral da filosofia - são aquelas
dificuldades bobas que, para ingressar nos estudos filosóficos,
o estudante precisa vencer em si. A filosofia, afinal, se já
no nome inclui o amor ao conhecimento, inclui necessariamente a possibilidade
real de conhecimento, uma vez que não se pode exigir de alguém
amor a algo impossível. Ora, o cético é o sujeito
que ficou na infância, ficou na porta de entrada da filosofia
- por medo de entrar.
O cético produz uma quantidade infindável de pretensas
objeções ao conhecimento, todas em torno de meia dúzia
de desconfianças. O cético nega a indução,
sob o fundamento de que na maioria dos casos ela falha (o que é,
cáspite!, uma indução). Nega que os sentidos nos
forneçam alguma verdade, sob o fundamento de que vários
objetos aparecem de formas diferentes a vários animais (como
se o fato de conhecermos essas diferenças não se baseasse
no conhecimento sensível que temos dos animais). Negam os sentidos
também sob o fundamento de que eles podem nos enganar (como se
não fôssemos capazes de distinguir entre o que é
ilusão e o que não é, e como se para fazer essa
distinção não usássemos, novamente, os sentidos).
E assim por diante, numa espiral crescente de idiotice cômica.
Existem, claro, exposições mais refinadas e inteligentes
desses argumentos, mas com um pouco de atenção nota-se
que tudo acaba se reduzindo a uma meia dúzia de bobagens.
Claro que, posta a questão nesses termos, o ceticismo aparece
apenas como uma confissão de impotência, e fazer propaganda
do próprio ceticismo aparece como uma repetição
da história daquele personagem de um filme antigo com o Walter
Matthau que, tendo ficado impotente, acabou milionário com o
livro autobiográfico As Delícias da Impotência.
Mas vai ser rara essa honestidade toda em céticos.
A dúvida cética, afinal, não surge de uma sincera
busca do conhecimento, mas de um simples movimento frenético
da mente para criar objeções àquilo que não
quer reconhecer. O ceticismo é produto do medo, do temor da verdade,
porque a verdade, quando reconhecida, tem uma força imperativa
para quem a conhece, e o cético, tal como uma criança
assustada perante o mundo adulto, quer fugir dessa responsabilidade
pessoal.
Uma crença que se funda de tal forma no engano só poderia
mesmo ser pródiga em criar, para si mesma, justificativas falsas,
exemplares perfeitos da ação da falsa consciência,
como um Dorian Gray que esquecesse seu retrato e acreditasse unicamente
na imagem que vê no espelho.
Uma dessas justificativas é de tipo político. Segundo
os céticos, todo totalitarismo vem do dogmatismo - um deles chega
a dizer que todos os males do mundo vêm de alguém imaginar
que sabe alguma coisa. Por isso, a adoção do ceticismo
seria uma conditio sine qua non para a vida democrática.
Esquecendo por um instante o fato de que os fundadores da nação
que inventou a idéia de democracia moderna achariam essa noção
no mínimo muito esquisita, vejamos se, do ponto de vista lógico,
essa idéia faz algum sentido.
O que é essencial ao totalitarismo? Eu não hesitaria
em dizer que é a resolução por via política
do que não é, originalmente, político; ou seja,
é a assimilação pelo Estado daquilo que deveria
ser autônomo. Um regime político que, por exemplo, deixa
ao Estado a decisão sobre que livros serão publicados
e quais não serão, se não é totalitário,
pelo menos está no caminho do totalitarismo.
Ora, para que uma resolução se faça por critérios
estritamente políticos, ela precisa ser fundamentada nos juízos
próprios da política. E, segundo Carl Schmidt (O Conceito
de Política, há uma tradução da Vozes),
o binômio essencial da política é o par amigo-inimigo.
Uma questão é politizada quando não é resolvida
por critérios de certo e errado, ou verdadeiro e falso, ou belo
e feio, mas quando a decisão é imposta pelos vencedores
aos vencidos pelo simples fato de que os primeiros estão no poder
e os outros não.
Basta expor isto para que qualquer um perceba que o ceticismo não
só não é necessário para a democracia, mas
lhe é inteiramente incompatível. Porque o ceticismo simplesmente
extermina todas as distinções por critérios racionais;
logo, se há uma divergência, a única maneira de
resolvê-la é pelos critérios políticos, isto
é, com os amigos impondo a solução aos inimigos.
O mínimo que se exige, para que haja democracia, é o reconhecimento
da existência de esferas que não serão decididas
politicamente, mas segundo critérios próprios.
Se esses critérios são abolidos, se são considerados
meras pretensões ingênuas dos dogmáticos, o único
recurso que resta é a politização de tudo; resta
tentar impor uma visão sobre as outras por via política
- resta, enfim, o totalitarismo.
Eis a que fica reduzida a tão democrática visão
cética apregoada por tantos falsos "liberais" (e, vale
dizer, o neoliberalismo é um falso liberalismo) quando examinada
de perto.
Passemos a uma outra auto-justificativa preferida dos céticos,
esta de ordem moral (e não falarei da "ética do egoísmo"
da russa radicada nos EUA Ayn Rand, porque aí já estamos
no perigoso terreno da demência). Como essas criaturas gostam
de pintar a si mesmas como muito lindas e maravilhosas, elas costumam
achar que são muito humildes, e se orgulham de não querer
"impor" sua visão de mundo sobre os outros.
Isso aí é produto daquilo que Chesterton chamava de "virtudes
cristãs enlouquecidas". Uma virtude cristã (assim
como uma doutrina) só faz sentido no quadro maior da Revelação,
onde tudo se encaixa cuidadosamente, como num mosaico. Uma virtude fora
do quadro no qual ela foi concebida torna-se acéfala e, realmente,
louca. Os melhores exemplos disso são a caridade e a humildade
tais como entendidas por certos de nossos contemporâneos. Da primeira,
falo em outra ocasião. É a segunda que nos interessa propriamente
aqui.
A humildade nada mais é do que o reconhecimento da própria
insignificância perante Deus. Ser humilde é admitir que
a realidade é mais importante do que os próprios pensamentos,
que servir a Deus é mais importante do que satisfazer as próprias
paixões, que ser fiel ao sentido da vida é mais importante
do que a própria vida. Enfim, a humildade é indissociável
da fé. É a fé que dá sentido à humildade
e que revela seu verdadeiro significado.
É, portanto, um absurdo inominável dizer que um cético
é humilde. Não pode ser humilde quem não reconhece
sequer a possibilidade da verdade. Pilatos teve a Verdade encarnada
diante de si, e Lhe pôs uma objeção cética,
cheia de afetações. Não há humildade na
atitude de Pilatos. Há, pelo contrário, uma arrogância
do tamanho do mundo.
Só uma arrogância enorme pode levar alguém a legislar
sobre a capacidade intelectiva de toda a humanidade. Só alguém
extraordinariamente arrogante pode querer erigir o próprio medo
em lei universal da mente humana. Só um delírio de raiva
onipotente à verdade pode fazer uma coisa dessas passar por humildade.
E encerro lembrando as considerações de Léon Bloy,
quando se pôs a analisar um dos lugares-comuns preferidos de sua
época e que ainda não saiu de moda, aquele que diz que
"nada é absoluto". Bloy mostra a que conseqüências
leva o ceticismo, se levado a sério:
"(...)A maior parte dos homens da minha geração
ouviu isso a infância inteira. Cada vez que, bêbados de
desgosto, procurávamos um trampolim para fugirmos saltando e
vomitando, o Burguês nos aparecia, armado com esse raio.
"Necessariamente, então, precisávamos reintegrar
o lucrativo Relativo e a sábia torpeza.
"Quase todos, é verdade, se aclimatavam a isso, tornando-se,
por sua vez, deuses do Olimpo.
"Sabem eles, no entanto, esses bebedores de um néctar imundo,
que não há nada tão audacioso quanto revogar o
Irrevogável, e que isso implica a obrigação de
o próprio revogador se tornar alguma coisa como o Criador de
uma nova terra e de novos céus?
"Evidentemente, se alguém empenha a palavra de honra em
que 'nada é absoluto', a aritmética, no mesmo ato, se
torna exorável e a incerteza plana sobre os axiomas mais incontestados
da geometria retilínea. Nessas circunstâncias, torna-se
duvidoso saber se é melhor degolar ou não degolar o próprio
pai, ter vinte e cinco centavos ou setenta e quatro milhões,
receber pontapés no traseiro ou fundar uma dinastia.
"Enfim, todas as identidades sucumbem. Não é 'absoluto'
que este relojoeiro, que nasceu em 1859, para orgulho de sua família,
tenha hoje quarenta e três anos e que ele não seja avô
do decano de nossos empacotadores que veio à luz durante os Cem
Dias, - da mesma forma que seria temerário sustentar que um percevejo
é exclusivamente um percevejo, e que ele não deve pretender
tornar-se uma insígnia militar.
"Em tais circunstâncias, convenhamos, o dever de criar o
mundo se impõe". (Exégèse des lieux communs,
série 1, lugar-comum II, 1913)
|