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Este foi meu primeiro artigo editado no Indivíduo,
tendo saído na edição que tanta polêmica
causou na PUC-Rio.
Releendo-o hoje, parece-me razoavelmente bem
escrito, apesar do estilo um pouco inseguro. Não sei se ainda
defenderia as idéias dele, porque tenho a impressão
de que Conselheiro foi melhor do que o fiz parecer no texto.
Mas isso seria assunto para outro artigo...
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O MASSACRE DO BOM SENSO
07/10/97
Diante de certas manifestações de total falta de senso
que andam invadindo os pilotis, é muito valorosa a advertência do historiador
Evaldo Cabral de Melo, em recente entrevista para o caderno "Prosa e
Verso", do jornal "O Globo".
Dizia ele, com coragem rara em nossos intelectuais,
que política retroativa não é História. A História, para que se pretenda
ciência, deve ser feita com documentos e elementos verificáveis. Em
outras palavras, para estudar a História, não nos cabe impor modelos
à realidade ou querer que o passado se adapte às nossas aspirações presentes.
É preciso buscar a veracidade, buscar o fato, deixando que a realidade
se apresente a nós tal e qual ela foi e não como gostaríamos que ela
fosse.
Não digo com isso que a atividade historiográfica vai
sempre ser capaz de descrever todos os fatos passados, mas que ela só
atinge seu verdadeiro propósito quando se restringe àquilo que é capaz
de descrever, e o faz com honestidade. Nada pode ser pior para a descrição
histórica do que a contaminação ideológica, que impede os historiadores
de enxergar o que não se adequa a sua pobre visão de mundo.
Uma vez descrita a realidade, aí sim é possível emitir
sobre ela um juízo valorativo. Não me estenderei aqui sobre a necessidade
de emitir esse juízo. Basta dizer que, sem que possamos enxergar a História
de um ponto de vista universal e absorver dela algo que nos informe
sobre nós mesmos, o estudo histórico deixa de ser necessário. Ora, incorporar
à nossa vida verdades que nos tenham sido legadas por atos ou palavras
dos homens que nos antecederam requer a emissão de um juízo.
Deste ponto de vista, podemos delinear, como aponta
Olavo de Carvalho, três tipos de atuação histórica: aquele que não tem
nenhum tipo de significação fora do contexto em que se desenrolou, aquele
que deixa para os tempos seguintes um modelo de ação inspirador (e tem
importância universal) e aquele que deixa atrás de si uma sombra de
pesadelo, espécie de modelo negativo - o que não se deve repetir.
Tudo isso vem bem ao caso nesta época de exaltação
ao movimento "revolucionário" de Canudos e ao seu chefe Antônio Conselheiro.
Dar a esse movimento um valor além de suas próprias
circunstâncias é uma falsificação enorme, um exemplo perfeito da citada
política retroativa. Antônio Conselheiro não foi um visionário e Canudos
não foi um Movimento dos Sem-Terra avant la lettre. Foi, simplesmente,
uma manifestação de crendices populares, um fenômeno localizado, provocado
por um sentimento de impotência ante as novidades republicanas. Não
há nenhuma profundidade mística, nem reivindicações progressistas nesse
movimento. Há, sim, fanatismo e ignorância, recusa a qualquer autoridade
e espírito de desordem.
Quando a nossa esquerda progressista elege como
ídolo um sujeito como Conselheiro, é que perdeu completamente a noção
dos fatos. Até porque o movimento foi reacionário, anti-progressista.
Conselheiro criticava as mudanças introduzidas pela República, pregava
a volta do Império e se aproveitava do sentimento religioso popular.
A atração que exerceu - e exerce - vem da necessidade de ter algum modelo,
de depositar as esperanças em alguma figura pública. Mais ainda, em
alguém que se diz investido de poderes divinos.
Citemos a maior autoridade no assunto, Euclides da
Cunha, mesmo correndo o risco de destruir doces ilusões: "Canudos ia
se tornando o homizio [esconderijo] de famigerados facínoras."
De fato, o que Euclides observa no movimento é o desrespeito ao que
quer que seja, aliado a uma devoção fanática a um líder messiânico,
a quem foram atribuídos até milagres.
Não pensem que apóio o massacre. Pelo contrário. Tão
ou mais selvagens que os sertanejos foram os militares, que não se esforçaram
nem um pouco para compreender o movimento e nem refletiram sobre a imprevidência
de suas ações.
O próprio Euclides os advertira que o extermínio de
Canudos levaria a uma guerra longa e sangrenta. "O sertanejo é antes
de tudo um forte" e lutou até o fim de suas forças. Ignorando esse fato,
o sucessivo envio de tropas do Exército para a região levou a três conseqüências
problemáticas, mutuamente relacionadas: a exaltação dos sertanejos,
que culminava com o aumento do prestígio de Conselheiro; a morte (perfeitamente
evitável) de milhares de soldados e a dizimação da população de Canudos;
e o crescente atrelamento do poder político ao poder militar. A Nova
República se tornava refém de seu braço armado.
Esse breve resumo pretende mostrar que não nos cabe
dar à revolta de Canudos um status de luta do Bem contra o Mal.
Reconheçamos que houve erros de ambas as partes, da mesma forma como
ambas tinham suas razões. A terra é uma reivindicação legítima, desde
que não se faça disso um instrumento para a instalação do caos - e,
vale ressaltar, o discurso de Conselheiro tende mais para o caos do
que para a legitimidade. Da mesma forma, a segurança nacional é uma
causa legítima, deixando de sê-lo quando o poder armado incorre em abusos
- caso no massacre de Canudos. Endeusar qualquer um dos lados é uma
imprevidência e uma estupidez. Satanizar o outro, idem.
Mas será que adianta o apelo à razão, quando o público
universitário está enceguecido pelas trevas da ideologia, e a ânsia
de poder político se sobrepõe a qualquer outra aspiração da alma?
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