1998 REVISITADO

JANEIRO/1999

Recordar um ato de consciência é fazê-lo novamente. Quando recordamos um determinado pensamento, estamos tornando-o presente e ele deixa de ser uma recordação, para estar acontecendo de novo, aqui e agora, em tempo real. Por isso que o fato de fazermos agora uma breve recordação daquilo que aconteceu em 1998 não é um exercício inútil – é um exercício de consciência.

Não dá, no entanto, para levar um negócio desses muito a sério – simplesmente porque os eventos que o ano trouxe consigo, se levados a sério, deixariam qualquer um maluco. Eis por que estas notas assumem, com freqüência, um tom de deboche ou de exagero caricatural.

Feitas essas considerações preliminares, vamos aos prêmios. Com vocês, o melhor e o pior do ano que passou. (Em tempo: se alguma coisa citada abaixo aconteceu não em 98, mas em algum outro ano, me perdoem. Tudo o que tenho me lembrado das passagens de ano é que as coisas sempre ficam piores e o Apocalipse cada vez mais perto...)

 

1)Coisas que têm menos importância do que lhes foi atribuída:

- Prêmio Nobel para Saramago: não vai fazer ninguém ler mais livros em português, só vai aumentar a receita do Partido Comunista Português.
- Bienal de São Paulo: os quadros de Bacon descartados, tudo aquilo lá só serve mesmo para aumentar a quantidade de bobagem no mundo.
- Arte, em geral.
- Cinema, em particular.
- "Central do Brasil", mais em particular ainda.

 

2)Prêmios:

Prêmio bebês-chorões:
- Os estudantes baderneiros da UFRJ, que, além de invadir a reitoria, quase espancaram o reitor.

Prêmio ela-bem-que-mereceu:
- Dona Ruth Cardoso, que foi vaiada por estudantes tão baderneiros quanto os da UFRJ, mas na UNI-Rio. É bom sentir na própria pele o que a gente acha lindo que aconteça com os outros...

Prêmio jornalismo marrom senior:
- Márcio Moreira Alves, que disse que os estudantes que atacaram a dona Ruth estavam a serviço de grupos de extrema direita – isso mesmo, direita!

Prêmio jornalismo marrom mirim:
- Zuenir Ventura: disse que a meia dúzia de moleques de Porto Alegre que afirmaram gostar de Hitler constituíam uma séria ameaça ao Estado brasileiro, e estavam cometendo "crimes de pensamento".
- Todos os que propagaram a mentira de que o desenho South Park é politicamente incorreto.
- Sérgio Augusto: pretendeu contestar toda a obra de Paul Johnson com base em informações de um tablóide inglês.

Prêmio monopólio-do-anti-racismo:
- O grupo "Cambralha", da Pródiga Universidade do Chopp (com a licença de Cláudio Lévi’s Lee) do Rio: ao perder as eleições do DCE para um grupo modernizador, acusou os vencedores de "racistas". Exatamente como fazem com todos os seus opositores, inclusive com este jornal.

Prêmio "Eu sou mesmo exagerado":
- O leitor de "O Globo" que afirmou que o álcool é o "maior flagelo da humanidade".

Prêmio "sorvete na testa":
- Hildegard Angel: normalmente não consegue juntar sujeito e predicado; quando chega a tanto, não consegue dizer algo que faça sentido.

Prêmio "Até tu, Brutus?"
- Bruno Tolentino, que elogiou Paulo Coelho numa edição da Repúlica.

 

3)Personalidades:

Palhaço do ano:
- O juiz Siro Darlan, que prendeu um pai por dar bebida ao filho.

Mentiroso do ano:
- Bill Clinton

Mentirosos-mirim do ano:
- Os que disseram que o que Bill Clinton fez foi desculpável e compreensível.

Chato do ano:
- Frei Betto: escreveu umas trinta vezes o mesmo artigo.

Segundo chato do ano:
- prof. Roberto Mangabeira Unger, o incompreensível grilo falante do Ciro Gomes.

Hipócrita do ano:
- Juiz Baltasar Garzón: expediu um pedido de extradição de Pinochet, cidadão chileno, quando este estava na Inglaterra, e dois meses antes tinha recusado um pedido semelhante contra Fidel Castro.

Injustiça do ano:
- Leonardo Boff ter dito que o padre Marcelo é a "Xuxa da Igreja". Todo mundo sabe que a verdadeira Xuxa da Igreja é o próprio Leonardo Boff, há muitos anos campeão de audiência...

Pior reitor do ano:
- Jesús Hortal, da PUC-Rio: permite qualquer tipo de manifestação animalesca do grupo "Cambralha", e vê outros tipos de movimento cultural com maus olhos.

Pior ajudante de reitor do ano:
- Augusto Sampaio, da PUC-Rio, mais conhecido como Caifás: está discriminando os membros da chapa vencedora das eleições para o DCE, simplesmente porque eles não são o Cambralha.

Escândalo universitário do ano:
- A destruição de livros nos pilotis da PUC-Rio, liderada pelo grupo "Cambralha". Os livros estavam sendo transferidos de uma biblioteca secundária para a biblioteca central, e os animaizinhos, ao vê-los depositados em caixas nos pilotis, resolveram destrui-los. [Alguns leitores tentaram desmentir este fato. Quem quiser, pode me pedir as fotos que o comprovam.]

Melhor mea culpa do ano:
- Alberto Dines, que confessou no Observatório da Imprensa que as faculdades de comunicação não servem mesmo para nada. Dines foi um dos maiores defensores da lei maluca que obriga todos os jornalistas a ter diploma universitário.

Pessoas que torci para que tivessem desaparecido, mas reapareceram:
- Madonna
- Betty Friedan
- Regina Casé
- Xuxa
- Leonardo Boff
- Anthony Garotinho
- Doutor Enéas
- Carlos Nelson Coutinho

Pessoas que, infelizmente, não vão desaparecer tão cedo:
- Elio Gaspari
- O grupo "Cambralha"
- Leandro Konder
- Emir Sader
- Anthony Garotinho
- João Silvério Trevisan
- Marta Suplicy
- Luiz Mott
- Rubem César Fernandes
- Gabriel, o Pensador
- João Pedro Stédile
- Bill Clinton
- Baltasar Garzón
- Al Gore
- Caio Blinder
- Antonio Gramsci
- Bertold Brecht
- Luiz Eduardo Soares

 

4)Computadores e internet:

Melhor home-page:
- Sapientiam autem non vincit malitia, do filósofo Olavo de Carvalho.

Melhor site de notícias:
- WorldNetDaily, com larga vantagem sobre todos os outros.

Pior site:
- Gramsci e o Brasil, chefiado por Carlos Nelson Coutinho.

E-mail mais chato que recebi:
- Mensagem de partidária do movimento New Age me convidando a "vibrar" pela paz mundial

Lançamento informático mais sem graça do ano:
- iMac: o Ford Ka dos computadores...

 

5)Imprensa e TV:

Cobertura mais vergonhosa da imprensa nacional:
- Os que reduziram o caso Clinton a uma manifestação do puritanismo americano – isto é, toda a imprensa nacional. Foi impressionante o espetáculo de desinformação a que o público brasileiro foi submetido.

Papelão do ano:
- Wagner Carelli, editor da revista República, que, a um leitor que afirmou que a revista estava se tornando uma mistura de "Bravo!" e "Caras", respondeu que era isso mesmo que ele pretende.

Decepção do ano:
- A revista República ter se tornado uma mistura de "Bravo!" e "Caras" (apesar disso, continua a melhor revista em circulação por aqui).

Único colunista legível da grande imprensa brasileira:
- Agamenon Mendes Pedreira

Piores colunistas da imprensa nacional:
- Marcelo Coelho, da Folha de São Paulo: a arte de nunca dizer nada.
- Fernando de Barros e Silva, da revista Bravo!: a arte de sempre dizer besteira.
- Roberto Pompeu de Toledo, da revista Veja: a arte de sempre ser banal.
- Luis Fernando Veríssimo, do Jornal do Brasil: a arte de nunca mais ser engraçado como se foi um dia e só espalhar rancor e ódio.

Pior órgão de imprensa:
- Revista Caros Amigos.

Jornal com cara de que vai desaparecer – ainda bem:
- Jornal do Brasil

Melhor órgão de imprensa nacional:
- Jornal O Indivíduo

Pior troca de cargos da imprensa nacional:
- Revista Veredas: substituiu, no cargo de editor-chefe, Antonio Fernando Borges pelo pior jornalista do país, Cláudio Cordovil.

Único programa de TV assistível:
- Casseta & Planeta Urgente

Pior programa de TV:
- Muvuca, da Regina Casé

 

6)Artes, cinema, música, livros:

Exposição artística mais ridícula:
- Mais de quarenta "artistas" expondo obras plásticas em homenagem a Caetano Veloso.

Filme mais chato do ano:
- Lolita, de Adrian Lyne.

Pior filme do ano:
- Será que ele é? – todas as mentiras do movimento gay num filme só.

Filmes mais subestimados:
- Meia noite no jardim do bem e do mal, de Clint Eastwood (sempre odiado pela mídia).
- Starship troopers, de Paul Verhoeven: provavelmente o melhor filme do ano.
- Perdidos no espaço, cujo diretor realmente não lembro quem é, um filme divertidíssimo.

Filme mais superestimado:
- Gênio indomável, de Gus Van Sant.

Música mais insuportável do ano:
- A que fala em mexer a cadeira.

Fracasso editorial mais merecido:
- Verdade tropical, o livro de Caetano Veloso.

Empreendimento editorial mais estúpido do ano:
- Companhia das Letras: em vez de lançar logo todos os contos de Machado de Assis, lançou uma edição luxuosa e cara com... mais uma coletânea!