TESTE DE FIDELIDADE IDEOLÓGICA

31/03/00

Vejo, abismado, três temas de redação propostos por um colégio carioca de classe média alta (aliás, provavelmente o colégio mais badalado do Rio de uns dois anos para cá).

O primeiro deles: "O racismo, no Brasil, é mascarado ou escancarado?"

Suponho que "racismo escancarado" sejam as ondas de violência entre raças a que assistimos com tanta freqüência nos Estados Unidos, lideradas, de um lado, por coisas como a Ku Klux Klan, e, do outro, por coisas do tipo Panteras Negras.

Agora, o que diabos será "racismo mascarado"? Algo como porrada implícita, ou ódio oculto? Que mal faz isso, afinal?

Ou a professora de redação está propondo que o Estado deveria cuidar de entrar na cabeça das pessoas para saber o que elas pensando, quem elas andam odiando? Como diabos alguém poderia saber que existe racismo mascarado, se ele é mascarado?

Ah, já sei: racismo mascarado é algo como o anúncio do Ministério da Saúde sobre AIDS, em que uma negra faz o papel de aidética. Mas e se fosse uma branca? Também seria racismo, porque as negras estariam sendo preteridas para o papel por serem negras. Em suma: racismo mascarado é qualquer coisa que ofenda a delicada sensibilidade de movimentos negros. E de professorinhas de redação.

O segundo tema era meio enigmático: "Por que ideologias nazi-fascistas estão crescendo?" Se eu fosse aluno nesse colégio, responderia que as ideologias nazi-fascistas não estão crescendo, e que a professora de redação devia se instruir um pouco mais. Claro, existe nazismo - em movimentos que põem a raça acima da unidade cultural e nacional (alguém consegue encontrar menção a algum deles neste mesmo artigo? Um doce para quem conseguir!), em movimentos que proíbem o porte de armas, em movimentos de proibição de cigarros. Mas nenhum desses movimentos se diz nazista, e nem é visto como tal pela maioria - não, não, essas determinações vêm direto da ONU, que, afinal, é a campeã mundial de democracia. O que cresce, portanto, é um monstrengo com cara de democracia e alma de nazismo.

Mas eu duvido que seja a isso que o tema de redação se refere - com certeza, a professorinha se referia à meia dúzia de skinheads e lutadores de jiu-jitsu que são pintados com cores tão horríveis pela mídia. Agora, achar que isso é exemplo de crescimento do nazi-fascismo só pode ser piada. Como eu mesmo disse muito tempo atrás, é temer um ovo de codorna quando o ovo de serpente está crescendo bem debaixo de nossos narizes.

O mais engraçado de todos, porém, era o terceiro tema. Juro que não estou inventando: "Um mundo onde diferenças não se transformem em divergências é uma utopia?"

Tentemos entender. Pode ser que o autor da pergunta considere "utopia" uma coisa ruim, e, portanto, prefira mesmo que continuem existindo divergências. Mas achar isso é desconhecer o sentido em que o termo é usado normalmente, erro imperdoável para quem pretende entender a pergunta.

"Utopia", grosso modo, é algo a que se almeja, algo que só pode ser realizado em sonhos. Portanto, o autor da pergunta considera que deveríamos almejar a um mundo em que as diferenças não se transformassem em divergências. Mas o que é que ele vê de tão ruim nas divergências? Acaso gostaria ele de que todos pensassem igual e agissem igual?

É o que parece. Ele está pregando o totalitarismo, e obrigando seus alunos a escrever defendendo o totalitarismo. E isso porque a idéia de que duas pessoas possam divergir sem que uma queira matar ou prender a outra parece estar totalmente fora de seu universo mental; universo que, é forçoso concluir, parece se restringir aos membros do Partido Comunista, ou do Partido Nazista. São esses que usam e abusam da técnica de desumanizar o adversário e se mostram sempre dispostos a matá-los. São esses que odeiam divergências.

***

Mas por que será que esse tipo de coisa aparece num curso pré-vestibular?

Ora, se um colégio tem um "pré-vestibular", isso quer dizer que sua função é preparar os alunos para realizar o vestibular. E como é feito o vestibular?

Na busca dessa resposta, comecei a ler o edital do novo modelo de vestibular da UERJ, maior universidade do Rio de Janeiro, com um vestibular que movimenta mais de 50 mil pessoas.

No item 6 do edital, intitulado "Da Prova", eis o que dizem as sumidades que elaboraram esse novo vestibular:

"A prova (...) terá como objetivo avaliar as habilidades e as competências fundamentais para o ingresso no ensino superior e para o exercício pleno da cidadania".

Como eu não sei como diabos um vestibular pode avaliar se alguém tem ou não condições para "exercer a cidadania" e, aliás, também não sei o que os autores desse edital entendem por "exercício pleno da cidadania" (expressão que, no fim das contas, pode significar qualquer coisa), fui ler os programas das disciplinas, divido em três partes: "Linguagens, códigos e suas tecnologias", "Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias" e "Ciências humanas e suas tecnologias" (atribuo esses "e suas tecnologias" ao simples desejo de parecer moderno, mas vamos ao menos perdoar essa caipirice).

A parte dedicada à linguagem começa dizendo que as línguas serão estudadas, primeiro, "relacionadas aos novos meios e às novas tecnologias de comunicação" e, por isso, inclui um capítulo intitulado "do hipertexto". A ênfase, parece, será mudada dos grandes clássicos da literatura para reportagens de jornais escritas por analfabetos funcionais e para a mui complexa linguagem dos sites de internet. Eu não estou brincando. Vejam os tópicos listados no tal capítulo, tópicos que o candidato deverá dominar: "leads e quadros em matérias jornalísticas, marcadores para 'navegação' em processadores de texto e na internet."

Isso porque as línguas terão "enfoque instrumental, sendo utilizadas e estudadas não em si mesmas, mas como ferramentas de estudo e de construção da identidade pessoal e social." Não consigo deixar de imaginar que talvez o estudo das línguas em si mesmas devesse anteceder o estudo delas enquanto instrumentos, e de lembrar as inúmeras riquezas que o odiado estudo da língua portuguesa "em si mesma" traz para quem deseja se educar, mas os autores do vestibular parecem mais preocupados em testar a aptidão de seus candidatos para a ação política. São eles mesmos quem o dizem:

"Parte-se do estudo e da prática da argumentação como condição da 'fala cidadã'. A fala cidadã exige tanto saber argumentar, para melhor defender as posições próprias, quanto saber compreender o argumento do outro."

O Pedro Sette Câmara me contou uma vez que, em palestra na UFRJ, José Saramago disse que os programas de alfabetização são importantes porque, se não forem alfabetizados, os cidadãos não conseguirão ler o programa de seu partido político. Esse parece ser o principal uso que os autores do novo vestibular da UERJ vêem na língua.

Era de se imaginar, ao menos, que eles deixassem as ciências naturais em paz. Mas que nada: o segundo item "está composto de conteúdos das disciplinas Matemática, Física, Química e Biologia, que objetivam relacionar o conhecimento científico sistematizado com as diferentes situações do cotidiano, contribuindo para a formação de um indivíduo capaz de tomar decisões na sociedade do século XXI."

Como temas do tipo "ligações químicas", "cálculos estequiométricos simples", "geometria espacial" e "conservação da energia interna" serão capazes de contribuir para a tal "capacidade de tomar decisões", eu não consegui descobrir. Imagino que eles ainda devam encontrar um jeito.

Mas o jeito não precisa ser encontrado para o uso político do terceiro bloco, que engloba história e geografia. Essas matérias têm sido usadas como plataforma para a doutrinação esquerdista há muitas décadas, e são apresentadas da seguinte maneira pelo edital:

"O enfoque teórico-prático deve privilegiar estratégias diversificadas que promovam mais o raciocínio do que a memorização, valorizem mais a análise de diferentes fontes e testemunhos passados e presentes, contribuindo para um pensamento crítico face às questões do mundo contemporâneo."

Trocando em miúdos: ninguém vai precisar sabe quem foi Napoleão, nem por que ele invadiu Portugal, mas vão precisar repetir direitinho o discurso do PT contra o Governo Fernando Henrique; ninguém vai precisar identificar a localização geográfica do Mar Mediterrâneo (façam essa pesquisa um dia com conhecidos ou filhos de conhecidos que estudem no Segundo Grau: aposto que a maioria não vai saber; já fiz a experiência), mas todos serão obrigados a ter na ponta da língua as razões dadas pela UNESCO para a existência de fome no mundo, ou os motivos da famosa (e inexistente) "concentração fundiária" no Brasil.

E se acham que estou exagerando, faço notar que, no programa de História, não há um único tópico de história mundial; todos são relativos exclusivamente ao Brasil. O mais engraçado deles diz o seguinte: "Organização política do Estado republicano brasileiro: a república oligárquica, a construção e crise do populismo, a modernização autoritária e o Estado neoliberal." Existe todo um tratado de História do Brasil segundo o PT resumido nessa simples organização do tema.

Mais ainda no tema seguinte: "Conflitos socioeconômicos rurais e urbanos no contexto do Brasil republicano."

Em nenhum lugar, no programa da prova, se faz referência à organização política do Brasil quando era reino unido a Portugal, ou à influência portuguesa no nosso modo de vida. Não contentes em falar apenas de Brasil, ainda fazem escolhas arbitrárias de temas, escolhidos não de acordo com sua verdadeira relevância histórica, mas de acordo com sua relação com o noticiário midiático. Estamos, realmente, em maus lençóis, quando os temas principais a serem estudados no ensino médio são determinados pelas manchetes dos jornais e televisões, e não por sua relevância para a formação cultural do aluno.

Pois bem: é nesse contexto de estupidez incalculável que se desenvolvem os programas das aulas dos diversos colégios cuja função maior é "preparar para o vestibular." É para esse verdadeiro teste de fidelidade ideológica que as escolas do país afora estão preparando, e não é de espantar que temas absurdos como os relativos ao racismo no Brasil sejam cobrados em redações escolares.

A coisa é ainda pior: o vestibular é a porta de entrada para a universidade. Se a porta está desse jeito, imaginem o estado das próprias universidades: já não é segredo para ninguém que elas se transformaram em antros de facções políticas esquerdistas, que exercem uma verdadeira tirania cultural onde, supostamente, deveria reinar a liberdade de pensamento e expressão, condição quase imprescindível para o florescimento de uma verdadeira cultura intelectual.

E depois dizem que cultura e a educação brasileiras são tão ruins por falta de verbas...