À época, O Globo publicou uma carta minha defendendo este ponto de vista sobre a baderna na UFRJ.

Também mencionei o tema no artigo Leviatã mostra o rabo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OPÇÃO PREFERENCIAL PELA INCOERÊNCIA

20/08/98

Uma ideologia, a rigor, não tem nenhum compromisso com a coerência. Seu objetivo exclusivo é derrotar a ideologia adversária e impor seu modelo de mundo sobre os demais, por intermédio do poder político. A política era definida por Maquiavel como a disputa pela conquista e pela manutenção do poder. Se alguém pretende conquistar ou manter o poder, não vai se importar com os meios a utilizar. Pode mentir, como pode dizer a verdade, dependendo do que julgar mais apropriado para atingir seu objetivo, o poder.

Sempre que observamos uma movimentação muito grande em relação a um determinado fato, sempre que os ânimos ficam muito acirrados sobre determinada questão, é preciso levar em consideração as afirmações acima. Um belo exemplo é o caso do reitor da UFRJ, que vem mobilizando a atenção dos noticiários já há algum tempo, e sobre o qual se tem despendido boa quantidade de tinta. Para quem acompanha a questão de perto, chega a ser nojento perceber como o discurso corrente perverte o problema, colocando-o em bases completamente irreais. Vejamos.

Não há muito tempo, os estudantes da UFRJ fizeram no Centro do Rio uma passeata contra a “privatização da universidade pública”. Idéia muito peculiar, até porque ninguém no governo nunca cogitou essa hipótese. A reação imediata – e muito sensata – é achar que esses rapazes só querem mesmo fazer baderna, e que a próxima passeata será contra a destruição de Brasília ou a autópsia de ETs. Mas não é só isso. Os estudantes estão realmente preocupados com a tal “privatização”. O motivo é que professores vêm escrevendo nos jornais universitários sobre uma tal de “privatização branca”. Nesse processo, o Governo não afirmaria diretamente seu desejo de privatizar a universidade, mas procederia por etapas: primeiro, faria parcerias da universidade com a iniciativa privada; depois, cobraria mensalidades; e, por fim, privatizaria. A tese lida diretamente com o bolso dos alunos e atiça neles o sentimento paranóico, por um expediente muito conhecido: convence os alunos de que existe uma espécie de conspiração para atacá-los, de que todos estão contra eles. Todos, excetos os adoráveis professores, divulgadores da conspiração.

Fragilizadas, as mentes universitárias se entregam às sugestões mais absurdas que provierem dos seus queridos mestres. A luta contra a iniciativa privada torna-se, assim, um capítulo da luta contra os grandes poderes que querem acabar com a universidade pública. E eis que surge a eleição para reitor. Um dos candidatos, Anísio Teixeira, foi filiado ao Partidão. Tem o apoio da maioria dos professores e alunos, porque seu discurso se concentra no seguinte: na oposição à iniciativa privada, na denúncia à “privatização branca” e na defesa da “autonomia universitária”. Um outro, José Luiz Vilhena, é apenas um burocrata. Não é um homem minimamente brilhante, mas também não está muito preocupado com política. Quer, simplesmente, administrar – e sabe que, dadas as condições das finanças universitárias, não pode se dar ao luxo de prescindir do apoio da iniciativa privada. Está pintada a situação: o bem contra o mal! A defesa da universidade pública contra a privatização. O resultado foi o que se viu: eleições (feitas fora dos padrões dos estatutos da universidade, é bom lembrar) deram o Teixeira como primeiro colocado e o Vilhena como terceiro. Dentro das prerrogativas da lei, o Governo escolheu um dos três primeiros. No caso, o terceiro.

Mas os estudantes fanatizados não quiseram deixar o Vilhena tomar posse, “tomando” a reitoria para protestar contra a decisão do Governo – e acabaram conquistando o apoio de grande parte da opinião pública, inclusive de uma juíza que, tomada de compaixão pelos “jovens rebeldes” (a exaltação poética da juventude é um dos caracteres distintivos da estupidez moderna), prorrogou o prazo para que alguém vá lá e os expulse, fazendo cumprir a lei. O prazo acaba dia 21/08. Agora, entenda-se bem a questão nada tem a ver com autonomia universitária ou democracia. Tem a ver com defesa do próprio bolso, a partir de uma tese paranóica. O problema é que os estudantes foram plenamente convencidos de que o apoio da iniciativa privada é uma etapa do processo de privatização, e que o Vilhena é um enviado dos poderes malignos para atacá-los. A prova cabal disso é um cartaz que está sendo afixado esta semana em todas as universidades do Rio: o título diz “os inimigos da universidade pública”, ilustrado por uma foto enorme do ministro Paulo Renato, de um lado, e o Vilhena, do outro. Este, com a alcunha de “interventor”.

E por isso vimos tanta histeria. Por isso chegaram ao extremo de atacar um homem desarmado, destruindo o vidro de seu carro; de destruir paredes e azulejos do campus da universidade. Por isso tanto ódio. Não há nada mais fácil do que mobilizar o ódio de imbecis em relação a um objeto. Os imbecis têm uma tendência instintiva a reagir emocionalmente a tudo. Quando preparados por anos de pregação ideológica, mais ainda. E a universidade é o cenário perfeito para esse tipo de coisa, desde que deixou de ser um ambiente educacional para tornar-se um celeiro fornecedor de militantes. É claro, em primeiro lugar, que o Governo não pretende privatizar universidade pública nenhuma. É claro também que o pagamento de mensalidades não significa privatização, como o sistema americano mostra. E apoio da iniciativa privada, menos ainda. A absurdidade da tese, porém, não deve nos espantar. É uma tese de ideólogos, feita para atiçar mentes juvenis. Os professores criam, assim, uma espécie de “braço armado” uma multidão de cérebros virgens e assustados, prontos a fazer tudo que lhes for sugerido, prontos a ter sua cólera atiçada por qualquer bode expiatório da vez. Também é evidente que o Governo, ao escolher um dos nomes da lista tríplice, agiu dentro da lei, e que o Governo tem que ter controle sobre a universidade pública, pelo simples fato de que ela é pública e não exclusiva de alunos e professores. Mas também não nos deve surpreender a enxurrada de mentiras que vêm sendo despejadas sobre a imprensa desde o início da situação, negando essas obviedades. Trata-se de uma disputa política. Numa disputa política a veracidade das afirmações só interessa na medida que for um meio para derrotar o adversário. Mais ainda: trata-se de uma disputa política altamente temperada por ideologia. E a única coerência que um ideólogo conhece é a adesão a um certo modelo de realidade – não importam os fatos, não importa a verdade. A coerência ideológica é a suprema incoerência, porque está sempre pronta a subverter a lógica a favor de uma idéia fixa.

Eis aí porque todos fogem da questão, suavizando-a com termos bonitinhos. No desejo de se manter no poder, vale tudo. Até fingir estar lutando pela democracia, quando a única causa que o motiva é a defesa do próprio bolso. Claro, essa é a causa que motiva os alunos, devidamente preparados para isso pelos seus mentores ideológicos. A estes, interessa, na verdade, criar na opinião pública um sentimento de hostilidade em relação a qualquer ação governamental (especialmente desse Governo) sobre a universidade.

Desta forma, a casta universitária faz campanha contra o Governo – muito apropriado em épocas eleitorais – e ainda convence os outros de que tem direito a total autonomia, que significa: usar o dinheiro público do jeito que bem entender, sem prestar contas a ninguém. Uma verdadeira maravilha.