Este foi o primeiro artigo que escrevi depois da confusão na PUC-Rio envolvendo "O Indivíduo".

É meio inédito, porque o link no individuo.com estava quebrado há tempos, e eu nunca me motivei a consertá-lo porque, sinceramente, não gosto muito desse artigo. Acho que ele tem um excesso de concessões ao linguajar midiático, usando até o horrível termo "solidariedade", e ainda disse que Darcy Ribeiro era tão grande quanto Gilberto Freyre.

Mesmo assim, as idéias centrais se sustentam: a PUC é um lugar totalitário, e continuará sendo até que mais "O Indivíduos" apareçam.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A SUPRESSÃO DO INDIVÍDUO

23/11/97

Ainda me causa assombro pensar que um simples jornal universitário, de doze páginas, tenha causado tanta celeuma. Não esperávamos que uma publicação de tal forma despretensiosa pudesse provocar reações tão extremadas. Ainda me lembro do dia em que, sentados num restaurante na Marquês de São Vicente, discutimos o nome do jornal.

Mas recuemos um pouco mais no tempo para lembrar o que, afinal, motivou a publicação. Já nos atribuíram todo tipo de intenções, inclusive a de simplesmente chocar e impressionar as pessoas.

Na verdade, chocados e impressionados estávamos nós. Estranhávamos a uniformidade do discurso dos professores e alunos da PUC. Parecia não haver espaço para quem pensasse diferente, para quem não estivesse disposto a aplaudir os ídolos da hora, ou seguir as ideologias de plantão. Parecia perigoso, ou mesmo temível, afrontar os dogmáticos que posavam de defensores da liberdade de expressão.

Ainda assim, resolvemos fazer valer o nome de "universidade" e publicar os nossos argumentos. Queríamos criar um espaço de debates. As pessoas que pensassem como nós poderiam nos procurar e teriam um meio de expressão. Aquelas que não pensassem, poderiam discutir honestamente conosco.

Afinal, uma das funções da universidade não é ser um lugar onde se discutam coisas relevantes para a sociedade?

Em vez disso, a PUC era, percebíamos, dominada por um grupo fanatizado, que organizava debates de fachada entre o "sim" e o "sim, senhor".

Daí o nome do nosso jornal. Neste tempo em que só se fala de coletividades, o indivíduo se apaga cada vez mais e simplesmente adere ao que lhe parece mais conveniente. A nossa proposta era - e continua sendo - questionar essa adesão irracional e fazer com que cada um sondasse a própria consciência, naquele fundo insubornável de que falava Ortega y Gasset, onde o homem admite para si mesmo, entre quatro paredes, aquilo que não tem coragem de admitir em público.

Não se trata de uma proposta individualista. Trata-se de um diálogo de consciência a consciência, entre indivíduos que se reconhecem como únicos, e que, desta forma, podem construir uma convivência social verdadeira e plena. Trata-se de abandonar a mania do consenso a qualquer custo, admitindo que cada um é portador de uma massa de conhecimentos pelos quais lhe cabe responder não perante a opinião da maioria, mas perante a voz da própria consciência.

"Ninguém pode viver a minha própria vida para mim", diz o mesmo Ortega, "tenho eu por minha própria e exclusiva conta que vivê-la, sorvendo seus alvoroços, apurando suas amarguras, agüentando suas dores, embarcando em seus entusiasmos."

É muita hipocrisia falar de solidariedade só entre pessoas que se sentem coagidas a pensar do mesmo jeito. A nossa proposta é de construção da solidariedade no meio dessa intensa rede de entrecruzamentos entre as diversas formas de pensar, no meio dessa interpenetração de existências, dessa troca de vivências. Pois só com cada um assumindo a própria vida, apoiando-se na própria consciência, é possível que surja uma coletividade onde impere o respeito e a tolerância.

Mas a ideologia dogmática é inimiga da consciência. Lança rótulos odiosos contra todos os seus opositores e o único debate que admite é entre seus próprios partidários. Aos outros, a fogueira.

"O Indivíduo" tornou-se perigoso ao criticar o que se julgava acima das críticas. Por isso a reação extremada ao nosso jornal. Pela primeira vez, uma voz - ou quatro vozes - se levantava contra a ditadura que passava por igualitarismo. Pela primeira vez, as sementes do debate eram lançadas. E o totalitarismo não agüentaria os frutos que essas sementes gerariam. Sentido-se ameaçado, precisou nos ameaçar. Incapaz de agir no campo dos argumentos, apelou para a força, unindo um grupo organizado de alunos e as autoridades universitárias.

É muito estranho que as pessoas que defenderam a ação de cem manifestantes raivosos contra três alunos que só queriam expor suas idéias apareçam como defensores das minorias e do cristianismo. Será que os cem eram minoria, em relação a nós? E não foi o Cristo que enfrentou sozinho - e venceu - a multidão furiosa, que preferiu a sua crucificação à de Barrabás?

Mas eis aí, demonstrada, a força da consciência. Quando consciências isoladas ameaçam os delírios de grandeza dos poderosos, que se julgam acima do bem e do mal, a reação destes é reprimi-las o quanto antes.

Só é de espantar que esses dogmáticos, para proibir o debate e defender suas vacas sagradas, difamem quatro jovens perante toda a universidade e espalhem o terror entre os que poderiam tomar o lado destes.

É de espantar que a repressão à consciência individual tenha chegado ao cúmulo de proibir, por meio da força, que manifestemos nossas opiniões. Opiniões baseadas, aliás, no caso do polêmico artigo "A negra noite da consciência", nos conceitos dos nossos dois maiores antropólogos: Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro.

Por fim, cabe a pergunta: como pudemos chegar ao ponto de argumentos não apenas não serem discutidos, mas não serem nem mesmo levados em conta? Mais ainda: como é que responder a argumentos com xingamentos, cusparadas, socos e ameaças de linchamento pode render aplausos?