A SUPRESSÃO
DO INDIVÍDUO
23/11/97
Ainda me causa assombro pensar que um simples jornal
universitário, de doze páginas, tenha causado tanta
celeuma. Não esperávamos que uma publicação
de tal forma despretensiosa pudesse provocar reações
tão extremadas. Ainda me lembro do dia em que, sentados num
restaurante na Marquês de São Vicente, discutimos o nome
do jornal.
Mas recuemos um pouco mais no tempo para lembrar o
que, afinal, motivou a publicação. Já nos atribuíram
todo tipo de intenções, inclusive a de simplesmente
chocar e impressionar as pessoas.
Na verdade, chocados e impressionados estávamos
nós. Estranhávamos a uniformidade do discurso dos professores
e alunos da PUC. Parecia não haver espaço para quem
pensasse diferente, para quem não estivesse disposto a aplaudir
os ídolos da hora, ou seguir as ideologias de plantão.
Parecia perigoso, ou mesmo temível, afrontar os dogmáticos
que posavam de defensores da liberdade de expressão.
Ainda assim, resolvemos fazer valer o nome de "universidade"
e publicar os nossos argumentos. Queríamos criar um espaço
de debates. As pessoas que pensassem como nós poderiam nos
procurar e teriam um meio de expressão. Aquelas que não
pensassem, poderiam discutir honestamente conosco.
Afinal, uma das funções da universidade
não é ser um lugar onde se discutam coisas relevantes
para a sociedade?
Em vez disso, a PUC era, percebíamos, dominada
por um grupo fanatizado, que organizava debates de fachada entre o
"sim" e o "sim, senhor".
Daí o nome do nosso jornal. Neste tempo em que
só se fala de coletividades, o indivíduo se apaga cada
vez mais e simplesmente adere ao que lhe parece mais conveniente.
A nossa proposta era - e continua sendo - questionar essa adesão
irracional e fazer com que cada um sondasse a própria consciência,
naquele fundo insubornável de que falava Ortega y Gasset, onde
o homem admite para si mesmo, entre quatro paredes, aquilo que não
tem coragem de admitir em público.
Não se trata de uma proposta individualista.
Trata-se de um diálogo de consciência a consciência,
entre indivíduos que se reconhecem como únicos, e que,
desta forma, podem construir uma convivência social verdadeira
e plena. Trata-se de abandonar a mania do consenso a qualquer custo,
admitindo que cada um é portador de uma massa de conhecimentos
pelos quais lhe cabe responder não perante a opinião
da maioria, mas perante a voz da própria consciência.
"Ninguém pode viver a minha própria
vida para mim", diz o mesmo Ortega, "tenho eu por minha
própria e exclusiva conta que vivê-la, sorvendo seus
alvoroços, apurando suas amarguras, agüentando suas dores,
embarcando em seus entusiasmos."
É muita hipocrisia falar de solidariedade só
entre pessoas que se sentem coagidas a pensar do mesmo jeito. A nossa
proposta é de construção da solidariedade no
meio dessa intensa rede de entrecruzamentos entre as diversas formas
de pensar, no meio dessa interpenetração de existências,
dessa troca de vivências. Pois só com cada um assumindo
a própria vida, apoiando-se na própria consciência,
é possível que surja uma coletividade onde impere o
respeito e a tolerância.
Mas a ideologia dogmática é inimiga da
consciência. Lança rótulos odiosos contra todos
os seus opositores e o único debate que admite é entre
seus próprios partidários. Aos outros, a fogueira.
"O Indivíduo" tornou-se perigoso ao
criticar o que se julgava acima das críticas. Por isso a reação
extremada ao nosso jornal. Pela primeira vez, uma voz - ou quatro
vozes - se levantava contra a ditadura que passava por igualitarismo.
Pela primeira vez, as sementes do debate eram lançadas. E o
totalitarismo não agüentaria os frutos que essas sementes
gerariam. Sentido-se ameaçado, precisou nos ameaçar.
Incapaz de agir no campo dos argumentos, apelou para a força,
unindo um grupo organizado de alunos e as autoridades universitárias.
É muito estranho que as pessoas que defenderam
a ação de cem manifestantes raivosos contra três
alunos que só queriam expor suas idéias apareçam
como defensores das minorias e do cristianismo. Será que os
cem eram minoria, em relação a nós? E não
foi o Cristo que enfrentou sozinho - e venceu - a multidão
furiosa, que preferiu a sua crucificação à de
Barrabás?
Mas eis aí, demonstrada, a força da consciência.
Quando consciências isoladas ameaçam os delírios
de grandeza dos poderosos, que se julgam acima do bem e do mal, a
reação destes é reprimi-las o quanto antes.
Só é de espantar que esses dogmáticos,
para proibir o debate e defender suas vacas sagradas, difamem quatro
jovens perante toda a universidade e espalhem o terror entre os que
poderiam tomar o lado destes.
É de espantar que a repressão à
consciência individual tenha chegado ao cúmulo de proibir,
por meio da força, que manifestemos nossas opiniões.
Opiniões baseadas, aliás, no caso do polêmico
artigo "A negra noite da consciência", nos conceitos
dos nossos dois maiores antropólogos: Gilberto Freyre e Darcy
Ribeiro.
Por fim, cabe a pergunta: como pudemos chegar ao ponto
de argumentos não apenas não serem discutidos, mas não
serem nem mesmo levados em conta? Mais ainda: como é que responder
a argumentos com xingamentos, cusparadas, socos e ameaças de
linchamento pode render aplausos?