A PRIORIDADE DOS REGISTROS OU: O RABO ABANANDO O CACHORRO

A universidade brasileira é obcecada com a "produção do conhecimento" - que ela entende como sinônimo de produção de teses. Esse é, inclusive, o critério usado pelo MEC para avaliá-las: para os burocratas do MEC, quanto mais teses produz uma universidade, melhor ela é.

Essa é a prioridade do ensino: produzir teses, produzir papers, produzir resultados externos do aprendizado. É para isso que os alunos são preparados.

Uma análise mais cuidadosa, no entanto, revela, antes de tudo, o seguinte fato: é impossível "produzir conhecimento", porque conhecimento não é um produto social, e sim o resultado da percepção de um determinado indivíduo num determinado instante. O máximo que esse indivíduo produzirá, como sinal exterior dessa percepção, é um registro dela, registro esse que conterá uma seqüência de atos intuitivos que, se refeitos, levarão à mesma conclusão. Não existe conhecimento quando o registro simplesmente é produzido; existe quando ele é compreendido, isto é, quando é lido por alguém capaz de refazer o percurso cognitivo que ele indica e, do texto, passar à coisa de que ele trata, repetindo, assim, a intuição do autor.

Disso se percebe que, no processo de conhecimento, é mais importante a capacidade de reconhecer a verdade do que a de produzir registros, e que esta é apenas uma decorrência daquela. A conseqüência educacional disso é que é mais importante produzir indivíduos capazes de compreender os registros disponíveis do que indivíduos capazes de produzir novos; é mais importante produzir homens cultos e inteligentes do que homens bem treinados para, seguindo algum modelo oficial, produzir uma tese que ninguém vai ler e que só servirá para que ele galgue novas posições na carreira acadêmica.

Esta questão pedagógica é um dos temas centrais da imensa obra do prof. Olavo de Carvalho, e talvez um dos temais que nossa academia mais urgentemente precisa ouvir.

Ele ressaltou esse ponto em palestra recente, ao lançar a pergunta: "Não estamos enfocando mais, na educação, a produção de objetos culturais do que a formação de homens cultos e inteligentes capazes de compreendê-los?"

Falamos tanto em progresso do conhecimento, mas confundimos esse progresso com o aumento no número dos registros. O próprio Olavo sugeriu que se fizesse um estudo da proporção entre o número de registros sobre o número de pessoas capacitadas para compreendê-los, e é fácil perceber que o primeiro tem crescido, mas o segundo não. Na verdade, cada vez mais notamos que as pessoas esquecem coisas que eram de domínio comum há algumas décadas, e ignoram soluções para problemas que datam de séculos e mais séculos.

Por exemplo, a ignorância contemporânea a respeito da história é estarrecedora, como evidencia artigo de renomado "filósofo" brasileiro que - porca miséria! - falando sobre temas educacionais disse que "o ensino de um único ponto de vista em matéria controversa é uma doutrina medieval"; ou aqueles dementes que, sempre que criticamos o comunismo, dizem que estamos exagerando, ou que o comunismo morreu; ou aqueles que repetem, com ares de douta sabedoria, argumentos anti-religiosos que foram respondidos pela Patrística há mil e setecentos anos, e ainda dizem que a Igreja sempre teve medo de discussões.

E, então, volto à pergunta do prof. Olavo: "não há algo errado com um sistema que produz tantos registros, enquanto as pessoas são cada vez menos capazes de compreendê-los e lembrar-se deles?"

Lembremos, por exemplo, que em certas ciências nem mesmo os companheiros de departamento entendem as pesquisas um do outro, e notaremos a que ponto chegou o distanciamento entre registro e conhecimento.

Foi isso que o Olavo chamou de "desvio fundamental do sistema educacional". O meio acadêmico inverteu as prioridades, e está mais preocupado em produzir simulacros de inteligência, sinais exteriores de conhecimento, do que a própria inteligência - "a capacidade de apreender a verdade".

Não confiamos na nossa própria inteligência, não confiamos na inteligência dos outros, e, portanto, precisamos de diplomas para satisfazer nossa desconfiança, e passamos a cultuar esses pedaços de papel como se fossem provas necessárias e suficientes de sabedoria.

E, com isso, acabamos diminuindo a pessoa humana, diminuindo a capacidade humana, e chegamos ao estágio deprimente em que alguns indivíduos não conseguem mais perceber a distinção entre o homem e o macaco.

Afinal, como diz o próprio Olavo (no texto "Inteligência e verdade"): "O que nos torna humanos é o fato de que tudo aquilo que imaginamos, raciocinamos, recordamos, somos capazes de vê-lo como um conjunto e, com relação a este conjunto, podemos dizer um sim ou um não, podemos dizer: 'É verdadeiro', ou: 'É falso'. Somos capazes de julgar a veracidade ou falsidade de tudo aquilo que a nossa própria mente vai conhecendo ou produzindo, e isto não há animal que possa fazer."

19/10/00