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A segunda edição em papel do "O
Indivíduo" foi inteiramente dedicada a réplicas às
acusações que nos eram feitas pela imprensa e pela reitoria.
Este foi o meu artigo, uma espécie de resumo
da palestra no IEE.
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INTELECTUALIDADE E IDEOLOGIA
OU: O INDIVÍDUO E A CONSPIRAÇÃO DA DIREITA
INTERNACIONAL
09/12/97
Todo intelectual deve ser livre e imprevisível.
- Paulo Francis
Quando do início da celeuma em torno de
"O Indivíduo" na imprensa, uma aluna da PUC deu uma entrevista
ao Jornal do Brasil dizendo temer que por trás do jornal estivesse
algum movimento internacional poderoso.
Não demos atenção à
afirmação, tanto por ser demasiado absurda, quanto por
desviar o foco da discussão. Estávamos, afinal, mais preocupados
em provar que o jornal não tinha nada de racista do que em desmentir
a paranóia alheia.
A tese conspiratória, porém, ganhou
relevância após uma matéria do mesmo Jornal do Brasil,
assinada pelo repórter Cláudio Cordovil, um sujeito cuja
ignorância atinge a comicidade: entre outras coisas, chama de
conservadores todos os filósofos que desconhece e diz que a metafísica
exclui a discussão sobre o movimento e a liberdade. Como quem
se esforça em provar que 2+2=5, o sr. Cordovil pegou todas as
nossas declarações (feitas numa conversa de mais de 2
horas, em que a estupefação do repórter crescia
a cada explicação que dávamos e ele não
entendia) e, descontextualizando-as, tentou extrair delas uma ideologia
de direita. Não fez isso sozinho. Contou com o apoio de três
intelectuais que ora nos acusavam de conservadores, ora de liberais;
ora de individualistas, ora de místicos.
O editorial do primeiro número deixava bem
claro que a proposta do jornal é inteiramente avessa a qualquer
ideologia e a qualquer organização política. Pretender
extrair dele o contrário requer altas doses de malícia
ou de burrice mesmo.
O que é inconcebível para essa gente
é que um grupo de 4 rapazes de faculdade possam fazer um jornal
que escape às velhas categorias "esquerda" e "direita". Mais
ainda, um jornal bolado com as próprias cabeças e pago
do próprio bolso. Pretendendo reduzir-nos ao seu próprio
nível, que é a sarjeta, se apressam em lançar sobre
nós um rótulo odioso. Como o de "racistas" não
colou, por demasiado infantil, agora recorrem a todo o estoque que sobrou,
despejado de uma só vez.
Produtos de mentes fracas, que não concebem
o mundo senão segundo categorias políticas, essas novas
acusações também são frágeis.
Em primeiro lugar, o jornal trabalhou os temas
propostos apenas na esfera das idéias. Não existe nele
absolutamente nenhuma proposta de ação política.
A função do intelectual sempre foi, ao longo da História,
a de contemplar a realidade como se ela fosse um signo a ser decifrado
por intermédio da razão. Trata-se, portanto, de perceber
a verdade e de desvelá-la – esse o objetivo de quem faz teoria,
isso o que o distingue do homem prático. Porque à prática
não cabe perceber a realidade, mas transformá-la. E transformar
a realidade está muito além das pretensões de "O
Indivíduo".
Mas isso não é tudo. Ao afirmar o
primado da consciência individual, o que estamos fazendo é
negar a nossa submissão a qualquer tipo de ideologia. Transformar
a idéia de que é o indivíduo quem percebe as verdades
– ou, numa formulação formal, que a consciência
emerge da unidade do corpo biológico – numa formulação
política seria uma temeridade. O reinado da ideologia é
justamente o campo político, entendido no sentido de um campo
de ações concernentes ao Estado, ao governo ou aos partidos,
sempre com fins bem determinados. A ideologia objetiva inspirar esse
tipo de ações. É uma doutrina da ação.
Em momento algum defendi qualquer ideologia, mas
disse precisamente que o ser humano é capaz de superá-las,
ao dar um recuo teorético e observar as coisas tais como elas
são. Isso equivale a dizer que o intelectual deve ser capaz de
ver o mundo como mundo, sem tentar enquadrá-lo numa idéia
de mundo, num sistema fechado que pretenda reduzir a realidade a algumas
fórmulas simples.
Se lançarmos um olhar sobre o nosso século,
veremos que a ideologia coletivista deixou atrás de si um rastro
de morticínio e pesadelo. O nazismo de Hitler começou
uma guerra que matou 50 milhões de pessoas. O comunismo aumentou
em 80 milhões a população dos cemitérios
(num cálculo por baixo). E por aí vai.
Veremos também que os intelectuais que se
deixaram contaminar por essas idéias se tornaram cegos à
verdade dos fatos: por exemplo, ainda na década de 70, os intelectuais
marxistas previam para breve o fim dos EUA e a supremacia da URSS.
Em suma, não me lancem rótulos. Por
mais ínfimas que sejam minhas pretensões intelectuais,
por mais canhestra que seja minha expressão de iniciante, subscrevo
aqui as palavras de Paulo Francis com que iniciei o artigo. Quando o
intelectual perde a liberdade de opinar segundo a própria consciência,
quando o meio que o cerca o obriga a aplaudir as ideologias de plantão,
sua própria função está comprometida. Para
qualquer pessoa honesta, a última palavra é sempre dos
fatos, por mais que desmintam seus preconceitos e firam sua frágil
alminha. E a vida intelectual é incompatível com a desonestidade.
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