|
|
CIENTIFICISMO STALINISTA
30/08/99
Quando um homem não acredita em Deus,
não é que não acredite mais em nada -
é que ele acredita em qualquer coisa.
(G. K. Chesterton)
Foi comovente
a gritaria dos "defensores da ciência" brasileiros contra
a decisão de algumas escolas americanas de não ensinar
darwinismo. É sempre lindo ver a arrogância desses pretensos
homens de ciência em ação, e é mais lindo
ainda saber que eles existem em tão grande número num
país tão pobre em ciência e intelectualidade.
Na seção de cartas do Jornal do Brasil, um leitor diz
que isso significa uma "regressão a tempos de obscurantismo".
Na Gazeta Mercantil, o sr. Daniel Piza Nabolla reclama que não
há mais nenhum H. L. Mencken para documentar o resultado. E,
finalmente, na revista Óia (que os mais esnobes chamam de Veja),
uma "educadora" enche a boca para dizer que "não
podemos negar que dois mais dois dão quatro".
Mas é preciso fazer algumas distinções, se quisermos
realmente compreender o caso, e não apenas repetir os slogans
cientificistas que a gente "esclarecida" tanto gosta de repetir.
E a questão logo se coloca da seguinte forma: é claro
que, se uma escola ensinasse que dois mais dois dão cinco, essa
escola estaria cometendo um impropério. Agora, a validade da
teoria darwinista é do mesmo tipo da que nos garante que dois
e dois dão quatro?
Antes mesmo de examinar a tal teoria e o que dizem dela seus defensores
e detratores, a resposta a essa pergunta, para qualquer pessoa que tenha
um mínimo de noção de teoria da ciência,
é um decisivo não! Nenhuma teoria biológica no
mundo poderia chegar, algum dia, ao grau de certeza de uma conta de
somar, pelo simples fato de que a matemática lida com entidades
abstratas e imutáveis, enquanto a biologia lida com entes concretos,
viventes - e, portanto, mutáveis. Exatamente por esse caráter
mutável de seus objetos, a teoria biológica não
pode aspirar à certeza matemática, e suas hipóteses
estão condenadas ao probabilismo, ao indeterminismo, enfim, a
uma certa precariedade.
Essa distinção entre os objetos da matemática
e os objetos da biologia, e entre os graus de certeza de ambas, é
tão velha como a própria ciência biológica,
remontando a Aristóteles. Que alguém que se apresenta
como educador a ignore é uma verdadeira calamidade.
Mas isso ainda não resolve a questão. Podemos supor que,
embora sujeita a melhoramentos, a teoria darwinista já chegou
a tal ponto que ninguém mais ousaria contestá-la. Nesse
caso, seus pressupostos já estariam consolidados, reafirmados
pela experiência, recheados de provas, a tal ponto que, mesmo
não sendo tão certo quanto 2+2=4, pelo menos estariam
quase lá.
Se existe, realmente, um alto grau de certeza quanto ao darwinismo,
uma escola que deixe essa teoria fora do seu currículo estará
cometendo um grave engano. Cabe, pois, indagar: existe realmente todo
esse consenso?
Se formos julgar apenas pelos livros dos vulgarizadores e divulgadores,
tipo Stephen Jay Gould, Richard Dawkins, Daniel Dennett, estaremos tentados
a concluir que, mesmo havendo grandes divergências entre eles,
todos os biólogos são darwinistas.
Olhando com um pouco mais de cuidado, porém, as coisas se mostram
um pouco diferentes. Mesmo um partidário do evolucionismo, Klaus
Dose, se viu obrigado a dizer o seguinte:
"Mais de 30 anos de experimentos sobre a origem da vida nos campos
da evolução química e molecular levaram a uma melhor
percepção da imensidade do problema da origem da vida,
e não à sua solução. No momento, todas as
discussões sobre as principais teorias e experimentos nesses
campos ou terminam num ponto sem saída ou numa confissão
de ignorância." (Interdisciplinary Science Review 13:348-56.)
Num livro de 1987, Theories of life, disse Wallace Arthur, sobre as
estruturas dos corpos:
"Pode-se argumentar que não há nenhuma evidência
direta para uma origem darwinista de um plano de um corpo - Biston
Betularia preta certamente não constitui uma. Então,
no fim das contas, temos que admitir que realmente não sabemos
como se originam os planos de corpos."
Em 1992, Keith Stewart Thomson escreveu, no American Zoologist:
"Enquanto as origens das grandes inovações morfológicas
continuam desconhecidas, também se pode ver a teimosa persistência
do questionamento macro-evolutivo como um desafio à ortodoxia:
resistência à visão de que a teoria sintética
nos diz tudo o que precisamos saber sobre o processo evolutivo."
Editor do volume V da Encyclopédie Française ("Sobre
organismos vivos"), o geólogo francês Paul Lemoine
chegou a escrever, em sua síntese das diversas contribuições
da edição:
"Esta exposição mostra que a teoria da evolução
é impossível. Na realidade, apesar das aparências,
ninguém mais acredita nela... A Evolução é
uma espécie de dogma no qual nem mesmo seus padres acreditam,
embora eles continuem propagando-o para satisfazer seus fiéis."
As citações poderiam continuar, e se estender ao estudo
das "provas" que a imprensa costuma divulgar como atestados
dos diagnósticos darwinistas, inclusive à famosa fraude
do amigo de certos "católicos", "padre" Teillhard
de Chardin; poderíamos falar da chamada "explosão
cambriana", quando todos os animais invertebrados aparecem de repente
e sem nenhum ancestral reconhecível, e do livro do bioquímico
Michael Behe, A caixa preta de Darwin. Mas essas citações
bastam para resolver o nosso problema: não existe o consenso
darwinista em que tantos querem nos fazer crer. Simplesmente não
há essa certeza toda em relação ao darwinismo;
há poucas provas, muitos "elos perdidos", muitas suposições
e muito poucas certezas.
Surge, então, a dúvida: sim, mas ainda há vários
argumentos a favor do darwinismo, e muitos que o propagam. Em que eles
se baseiam? Vejamos a resposta de um deles, que além de tudo
é marxista, Richard Lewotin (New York Review of Books, 09/01/97):
"Tomamos partido da ciência apesar da patente absurdidade
de algumas de suas construções, apesar de seu fracasso
em justificar muitas de suas extravagantes premissas a respeito da saúde
e da vida, apesar da tolerância da comunidade científica
com histórias sem substância, porque temos um compromisso
anterior, um compromisso com o materialismo [itálicos
originais, grifo meu]. Não é que os métodos
e instituições da ciência nos levem a de algum modo
aceitar uma explicação material do mundo fenomênico,
mas, ao contrário, é que somos forçados por nossa
aderência a priori às causas materiais a criar um
aparato de investigação e um conjunto de conceitos que
produzam explicações materiais, não importa o quão
anti-intuitivas, o quão mistificadoras para os não-iniciados.
Além disso, esse materialismo é absoluto, pois não
podemos permitir um Pé Divino na porta. O eminente acadêmico
kantiano Lewis Beck costumava dizer que quem quer que acredite em Deus
pode acreditar em qualquer coisa. Apelar a uma deidade onipotente é
admitir que a qualquer momento as regularidades da natureza podem ser
quebradas, que milagres podem acontecer."
Como se isso já não deixasse tudo claro o suficiente,
acrescentemos as palavras do biólogo francês Louis Bounoure
(Le monde et la vie):
"Diz o ex-professor de zoologia da Sorbonne Yves Delage: Eu
admito prontamente que jamais se viu uma espécie gerar outra,
e que não há nenhuma evidência absolutamente definitiva
de que tal coisa tenha acontecido. Apesar disso, minha crença
na evolução é tão grande quanto seria se
ela tivesse sido objetivamente provada. Em suma, o que a ciência
pede de nós aqui é um ato de fé, e é, de
fato, sob a forma de uma espécie de verdade revelada que a idéia
de evolução normalmente é exposta."
Aí que está: a fundamentação da teoria
da evolução não é científica, e sim
filosófica. A adesão dos cientistas à teoria darwinista
parte do pressuposto de que só uma explicação materialista
pode dar conta do surgimento e desenvolvimento da vida, e o darwinismo
é a única teoria existente que satisfaz a esse pré-requisito.
É claro que isso não basta para garantir a cientificidade
da teoria. É claro que resta muito a discutir, muito a estudar
e muito a explicar. Mas os darwinistas não se dispõem
a discutir - eles se dispõem a censurar. É isso que está
em jogo no caso da escola americana.
Afinal, se uma teoria é discutível, não há
nenhuma razão para, dogmaticamente, obrigar todas as escolas
a adotá-la. Não há nenhuma razão científica
que obrigue as escolas a ensinar darwinismo, apenas uma razão
filosófica - o materialismo.
Entende-se, então, que a imposição do darwinismo
nada mais é que a imposição do materialismo. Que,
no Brasil, isso seja entendido como perfeitamente normal não
é nada surpreendente. Afinal, a única política
de ensino que conhecemos aqui é o modelo stalinista do MEC, no
qual uma entidade, sob o aconselhamento de "especialistas",
decide nos mínimos detalhes o que todas as escolas do país
devem ensinar. É por isso que, por aqui, até as escolas
ditas "católicas" ensinam história marxista
e biologia darwinista. E também é por isso que os brasileiros
costumam ser tão incultos e desinformados.
Mas é reconfortante que, pelo menos nos Estados Unidos, esse
tipo de stalinismo ainda não esteja plenamente difundido, e os
pais ainda tenham algum controle sobre o que os filhos vão aprender.
Pelo menos em algum lugar, o Estado não vai ser usado pelos materialistas
para difundir sua pseudo-ciência.
Notem que não estou nem mesmo advogando que se deixe de ensinar
o darwinismo em todas as escolas. Estou dizendo apenas que é
muito mais razoável que as escolas sejam livres para decidir
os próprios currículos, que os pais tenham a liberdade
de escolher o que vão ensinar a seus filhos, e que simples hipóteses
não sejam impostas como se fossem fatos. E bem sei que estou
em "desacordo com os tempos" - afinal, estes são tempos
de centralização, de reforço da autoridade estatal.
São tempos em que todos imploram ao Estado que lhes digam o que
fazer, o que pensar, o que dizer. O mais estranho é que esses
stalinistas se digam defensores da ciência.
|