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Sábado, Setembro 22, 2001

Lei vai dificultar compra de armas

Falando em desprezo governamental pela população, eis as novas regras aprovadas pela Assembléia Legislativa carioca, a partir de projeto de lei do petista Carlos Minc (quem mais?) e "inspirado" pelo Viva Rio (e qual é a surpresa?):

"A Assembléia Legislativa (Alerj) aprovou projeto de lei do deputado Carlos Minc (PT) que aumenta o elenco de exigências para o aspirante a proprietário de revólveres, pistolas e outros tipos de armamento. O novo comprador precisará apresentar justificativa da necessidade de uso de da arma, declaração do endereço onde ficará guardada e cartas de três vizinhos que atestem sua boa reputação. Além do pagamento de taxa de serviço estadual, que hoje é de R$ 213, o candidato deverá desembolsar R$ 641 (500 Ufir) para fazer exames psicotécnico e de conhecimento de manejo de armas na Academia de Polícia Civil (Acadepol)."

Além de soltar uma grana para o Estado por precisar comprar armas para fazer aquilo que o Estado tem função de fazer e não faz (garantir a segurança), o indivíduo ainda terá de passar pela humilhação de pedir aos vizinhos que atestem sua "boa reputação". É o supra-sumo da arrogância socialista.
postado por Alvaro Velloso 1:45 PM

Governo lança alerta sobre xenofobia

Será que não há limites para o desprezo pela população brasileira demonstrado pelo governo tucano?

Notem o argumento usado para justificar uma campanha anti-discriminação num país em que nunca houve conflitos raciais:

"'O país tem o hábito de copiar tendências estrangeiras', diz o secretário Gilberto Saboya. Em uma sociedade como a brasileira, com imensa desigualdade e baixo nível cultural, analisa Saboya, é 'fraca a capacidade crítica para resistir aos apelos emocionais da xenofobia'."

Em suma: os brasileiros são burros demais para perceber que não devem imitar os americanos e sair atacando qualquer árabe que encontrarem pela frente, e, por isso, nossos sapientíssimos líderes devem nos educar contra a xenofobia (pagando os anúncios com nosso próprio dinheiro, não custa lembrar).
postado por Alvaro Velloso 1:40 PM

The Siege(1998)

Uma emissora de TV tinha programado, para um dos dias seguintes aos atentados terroristas, a exibição de "The Siege" ("Nova Iorque Sitiada"), e resolveu cancelá-la, por achar que não seria adequado.

No filme, uma sucessão de atentados terroristas comandados por radicais muçulmanos em Nova Iorque deixa a cidade em pânico e cria um conflito entre duas instâncias de poder: o líder da força-tarefa anti-terrorista da polícia nova-iorquina e do FBI deseja investigar quem foram os responsáveis e atacar esses grupos terroristas, enquanto o enviado do Pentágono declara lei marcial e cria um campo de concentração para todos os habitantes de descendência árabe da cidade.

O filme trata, como se vê, do confronto entre os fascistas e aqueles que acreditam no respeito aos direitos individuais. Por isso a decisão de cancelá-lo foi ruim: há poucos filmes mais relevantes para a presente situação americana.
postado por Alvaro Velloso 1:35 PM

Quarta-feira, Setembro 19, 2001

Remembering With Astonishment Woodrow Wilson’s Reign of Terror in Defense of "Freedom"

Dizem que a guerra traz à tona o que há de melhor e o que há de pior nas pessoas. Pelo menos em termos de partidários de políticas públicas, o presente estado de guerra - que contaminou o mundo inteiro - traz uma boa ilustração desse lugar-comum. O melhor e o pior na direita política está vindo à tona, com a reedição de um antigo debate, o debate que divide a direita entre a direita capitalista e a direita fascista.

A direita fascista está nitidamente adorando a presente situação, e lidera o clamor por uma guerra mundial ao terrorismo (é curioso como o entusiasmo bélico transforma direitistas em utopistas!) e por um ataque militar que leve um dos países mais pobres do mundo de volta à idade da pedra (sem, aliás, se preocupar muito com a logística e as dificuldades de tal ataque). Para esses direitistas, tempos como este são tempos maravilhosos em que abstrações como a "nação" e a "grandeza nacional" podem ser postas acima dos indivíduos, em que incômodas liberdades (como o "habeas corpus" para imigrantes) podem ser postas de lado, em que as "verdadeiras" virtudes do militarismo podem ser exaltadas - inclusive com projetos para, nos EUA, restabelecer o alistamento obrigatório (que, felizmente, têm existência apenas formal no Brasil, sendo o tipo de lei que nem vale a pena criticar porque não prejudica quase ninguém) - em que apelos à "ordem" e à força bruta acompanhados de saudações à bandeira podem novamente ressoar nas consciências populares. Essa direita também aproveita para lançar seu furor guerreiro contra seus adversários direitistas, que ela julga mesquinhos e incapazes de concentrar-se em "questões maiores" (como podem preocupar-se com direitos e liberdades individuais numa hora dessas?!), e, num interessante caso de projeção, ainda os chama de "sociopatas".

A direita capitalista realmente não está concentrada nas "questões maiores". Ela está preocupada com a vida das pessoas comuns, com o retorno à normalidade, com as violações dos direitos individuais e o aumento do coletivismo que sempre acompanham o furor jingoísta. Ela se apega a noções antiquadas de guerra justa, que incluem idéias estranhas como as de que o ataque retaliatório só pode ser dirigido ao agressor e só é legítimo se for capaz de restaurar a paz - e, mais ainda, se essa paz restaurada for mais desejável do que a paz que haveria se não houvesse a retaliação. Ela desejaria que os Estados Unidos seguissem, na sua política externa, a direção defendida pelos "pais da pátria", como Thomas Jefferson - o qual dizia que a regra de conduta dos americanos em relação aos outros países deveria ser "paz, comércio e amizade honesta com todas as nações - e alianças permanentes com nenhuma delas" - porque sabe que quanto maior o envolvimento americano nos assuntos internos de outras nações, maior a probabilidade de que algum grupo revoltado dessas nações resolva atacar os americanos, e que, mais ainda, quanto mais os americanos atacam civis de outras nações, maior a probabilidade de que alguém resolva atacar civis americanos.

Um dos mais brilhantes representantes da direita capitalista, a direita não-intervencionista, é o historiador Joseph Stromberg. Como sempre, há muitas lições a ser tiradas de seu recente artigo sobre a histeria das massas nos EUA dos tempos de Wilson (um dos principais articuladores da política imperialista americana, cujos "ideais", em muitos sentidos, inspiraram a política clintonista de imposição da "democracia" e da "liberdade" a ferro e fogo no mundo inteiro). Stromberg lembra que Wilson criou praticamente um Estado policial nos Estados Unidos, e cita Robert Nisbet:

"'The blunt fact is that when [under Wilson] America was introduced to the War State in 1917, it was introduced also to what would later be known as the total, or totalitarian, state.'

"A bit harsh, what? American historians really hate coming to grips with what happened in America, starting in April 1917. They so fail because a fair reading would entail some responsibility for St. Woodrow, who oversaw the whole sorry show. Instead, his worshippers like to quote his little, operationally meaningless expressions of regret about it. But as Nisbet notes, Wilson 'was an ardent prophet of the state, the state indeed as it was known to European scholars and statesmen…. He preached it…. From him supremely comes the politicization, the centralization, and the commitment to bureaucracy of American society during the past seventy-five years'."

Ele - com razão - não mede palavras ao dizer que, no governo Wilson, os cretinos tomaram conta do país:

"To read the story of American official and popular attitudes toward our allegedly highly valued freedoms during World War I is to conclude that the country was overrun with vicious morons. Some of the morons were judges, legislators, and bureaucrats. Others arose from the masses, so to speak, to demand that the people make political war on themselves, the better to fight those terrible Germans. On any fair reading of the period, there was probably more real freedom of speech in Germany and in the German Reichstag in the same years than in the 'home of the free' or the World’s Greatest (and Least) Deliberative Body.

"The repression drew on pre-existing conflicts. Cases are so numerous that only a few can be mentioned here. The pre-war numskull state-level sedition laws did service during Wilson’s crusade. Some politicians and businessmen used the crisis to crush their trade union antagonists, in a continuation of pre-war labor struggles. The administration suppressed its critics to the Left, while warring on the whole German-American population."

Essa tentação coletivista toma conta de qualquer governante em períodos de guerra. No caso dos intervencionistas americanos, a situação é agravada, porque eles sempre dizem que estão fazendo a guerra em nome da liberdade e da civilização (recentemente o governo Clinton, grande representante dessa "civilização", julgou legítimo bombardear civis na Sérvia para "quebrar a vontade do povo" e para "levar o país de volta à Idade Média"; agora o novo defensor da civilização ocidental e dos "valores judaico-cristãos", o governo Bush, com o superfalcão Paul Wolfowitz, afirma que seus bombardeios poderão levar "à extinção de alguns Estados" e aventa a possibilidade de bombardeios nucleares). Stromberg chama isso de "defender a liberdade através de sua extinção":

"All free communication came to an end. People were arrested and indicted for casual remarks made in private conversation. It was not the New Left of the 1960s that actually invented the claim that the personal is the political – it was the United States government.

"A great wave of repression came down on 'the freest people in the world', as Americans liked to call themselves. Government gumshoes, federal, state, and local, delighted in following up idle charges of 'disloyalty', 'treason', 'pro-Germanism', and 'slacking'. Legislatures outlawed the teaching of the German language and the public performance of music by such dangerous Teutons as Beethoven. Wilson and the administration – in charge of the enlarged federal apparatus of repression – encouraged, aided, and abetted local efforts, including those of self-appointed, hyperthyroid 'patriotic' snoops and bullies. Tarring and feathering came back in style for those accused of the 'crimes' mentioned above. Here and there, a local Barney Fife, or an Army officer who hadn’t quite made it over to Northern France, would shoot a 'traitor' for saying the wrong thing in a public place. The hero would then be tried for it, acquitted, and finally, lionized in the moronic press.

"Not fully satisfied with their good works so far, many hotheads and morons in positions of public authority demanded redoubled efforts to ferret out 'traitors' and 'slackers'. They called for military courts to try domestic dissenters. Firing squads, they said, should be kept busy, full time. I am leaving out the names of these authentically American Robespierres to spare the feelings of their descendants, who might perhaps agree that these fellows were vicious idiots.

"When not satisfied with forcing supposed 'traitors' to kiss the flag or sing the praises of the Archangel Woodrow, mobs of patriotic fellows would occasionally hang someone. Meanwhile, Congress, deliberating again, strengthened the Espionage Act to criminalize whatever microscopic bit of free discussion might accidentally still remain. Congress even considered outlawing all discussion of the origins of the war or how America entered, which would have effectively ended all work by historians. Fortunately, however, many of the historians were otherwise employed – in producing propaganda for the cause. For a good discussion of these matters, see H. C. Peterson and Gilbert C. Fite, Opponents of War, 1917-1918 (University of Wisconsin Press, 1957)."

O clamor da guerra, com seus apelos à "nação" e ao respeito ou veneração de seus "representantes" e "líderes" acelerou - como sempre faz - a dissolução dos vínculos sociais e locais, e jogou a população nos braços do Estado central. Stromberg acrescenta que isso foi, em parte, causado pela decadência da religião nos EUA e pela ausência de "centros de autoridade natural":

"The people’s participation in suppressing their own rights, so to speak, calls to mind the radical phase of the French Revolution. There, everyone who was not a republican zealot was thought of as an 'enemy' to be guillotined. In the American variation, the Rousseauian form of republicanism, in which the people force particular individuals 'to be free,' held hands with Americans’ notion of their natural goodness as 'natural men' produced by the frontier experience. A decaying Protestantism kept watch over the whole sideshow. The constant attack on evil German Kultur suggests that many of the participants doubted, down deep, that America had any sort of culture at all. Perhaps much of this reflected the absence of genuine natural social authority in the United States, the lack of which drove people – screaming bloody murder – into the arms of state power.

"It is the most remarkable thing imaginable: a 'war', effectively, against the American people and their rights, waged with the support of the above-mentioned moronic sections of the people, allegedly in service of defeating the German enemies of freedom. What utter rubbish. Thanks, Woodrow."

Stromberg não os explora a fundo, mas há alguns paralelos entre aquela situação e a atual. Os inimigos, dessa vez, foram literalmente demonizados, a ponto de haver uma foto circulando na internet em que a imagem de Satã parece formar-se na fumaça da explosão no WTC - imagino que, assim, comprovando para além de qualquer dúvida científica a participação pessoal de Satanás no bombardeio. E eles não são encarados como inimigos do império americano, mas como inimigos de toda a civilização ocidental, de todos os valores "judaico-cristãos" e "greco-romanos"! Esses mesmos valores, imagino, que justificam a morte de quinhentas mil crianças iraquianas em nome do "combate ao mal". E, nesse combate ao mal, as liberdades individuais já foram duramente atacadas, como Lew Rockwell eloqüentemente demonstrou.

Talvez essa seja uma sugestão inútil, mas penso que os jingoístas de plantão, aqueles que se dizem liberais mas não resistem a um coletivismo bélico, aqueles que fazem ao mesmo tempo apologia da liberdade e do militarismo, aqueles que estão invocando como "grandes heróis" criminosos de guerra socialistas como Roosevelt, Lincoln e Truman, talvez esses devessem rever por um instante a história americana no período das grandes guerras, rever as políticas internas que começam a ser adotadas pelo governo Bush, e refletir sobre alguns curiosos paralelismos. Talvez devessem pensar se é esse mesmo o tipo de sociedade que defendem.
postado por Alvaro Velloso 10:50 PM

Terça-feira, Setembro 18, 2001

This Is Not Your Father’s FBI: The X-Files and the Delegitimation of the Nation State

Preciso retirar as críticas que fiz ao "Arquivo X" por promover o Leviatã americano e um de seus principais instrumentos, o FBI. Esse interessantíssimo ensaio de Paul Cantor me convenceu do contrário.

No seriado, nota Cantor, os dois agentes do FBI são dois heróis solitários mal-vistos por seus superiores e que lutam contra a resistência burocrática da organização a qualquer investigação que possa revelar mais do que é "conveniente" e "seguro" para chegar ao conhecimento público. Mais ainda: membros do próprio FBI e do governo americano estão, no seriado, envolvidos em uma conspiração alienígena!

Esse é o tema recorrente: o governo americano e seus funcionários não apenas falham em sua autoproclamada missão de proteger o povo, como efetivamente conspiram contra ele.

É impossível classificar esse tema como apologia do Leviatã.

Pelo contrário, segundo Cantor, o seriado representa a crescente desconfiança do público americano - e do público dos inúmeros países onde o seriado é um sucesso - com o próprio governo e com os "agentes do bem comum". Em seu livro "Gilligan Unbound", Cantor leva o argumento mais longe. Comparando "Arquivo X" e "Os Simpsons" a dois seriados mais antigos, "Gilligan" e "Star trek", ele mostra que, enquanto nos antigos o governo americano era o promotor do bem-estar mundial, o garantidor da liberdade e da democracia no universo, em "Os Simpsons" ele quase nunca aparece e quando aparece é ridicularizado, enquanto em "Arquivo X" ele é efetivamente uma força maligna.

Segundo Cantor, esses seriados refletem, na cultura popular, a decadência do Estado-nação, substituído por associações locais e pelas trocas mutuamente benéficas do mercado global.

A tese é interessante, e certamente explica adequadamente a política dos seriados considerados, mas, vendo a sede de sangue e a conseqüente redução das liberdades individuais seguintes ao ataque terrorista aos EUA, ou vendo o crescente apoio à missão democratizante dos EUA e da ONU, temo que sua projeção na política mundial seja excessivamente otimista. O canto do cisne do Estado-nação ainda está distante, e seus poderes internos ou têm crescido ou têm sido delegados a supra-Estados dotados de ainda mais poderes e ainda mais intervencionistas (pense União Européia). "Arquivo X" - demência "New Age" à parte - pode significar um saudável traço de desconfiança em relação aos governantes e ao próprio Estado-nação em seus fãs, mas esse traço saudável não está sendo acompanhado pela política mundial.

PS- Uma observação interessante do artigo de Cantor é a respeito da atmosfera de segredo que cerca as decisões do Estado em "Arquivo X". Os políticos eleitos, as caras conhecidas do público, nunca estão no centro dessas decisões; eles apenas cumprem planos, projetos ou ordens que lhes chegam de centros internos do poder, de burocracias fortemente entranhadas no governo federal, de comissões que ninguém controla, ou de alienígenas. Tirando os alienígenas, essa me parece uma representação adequada do Estado atual. Fala-se o tempo todo em "transparência", mas os projetos e idéias de governo, as leis que governarão a vida da população são elaboradas por comissões ou agências cujos participantes ninguém elegeu e quase ninguém conhece - e, com a globalização política, às vezes até agências internacionais, localizadas a milhas e milhas do país que será vítima de suas deliberações. Apesar todo o papo sobre "democracia", existe uma distância abismal entre o cidadão e seus verdadeiros governantes.
postado por Alvaro Velloso 5:35 PM

Word Court

Interessante fenômeno lingüístico notado por Barbara Wallraff, colunista de língua da "Atlantic":

"My belief is that the failure to perceive nude as meaning something complete and logically uninflectable is one aspect of a widespread prejudice against small words: people don't always trust them to do their jobs. Besides nuder and totally nude, they say things like ATM machine, armed gunman, free gift, visual image, mix together, future plans, general public, and very unique, when ATM, gunman, gift, image, mix, plans, public, and unique would have worked just as hard for them—and done the job right."

Existe sempre a tentação de acrescentar uma ênfase, mesmo que pleonástica. Em português, por exemplo, não importa o quanto os gramáticos nos digam que "preferir" já inclui em seu prefixo a idéia de "muito" ou "antes", insistimos em dizer "prefiro muito mais" e "prefiro antes".
postado por Alvaro Velloso 5:12 PM

Dicionário comunista

Nota da coluna de Ancelmo Góis, quatro dias atrás:

'“Aurélio” e “Houaiss” que se cuidem. O ex-governador Cristovam Buarque lança o dicionário “Admirável mundo novo”.

'Os verbetes trazem as digitais canhotas do autor. Exemplo: “Avião: símbolo da modernização, meio de transporte utilizado por centenas de milhares de crianças ricas e de classe média, que vão para Disney ou para programas de intercâmbio.”'

Admirável velha babaquice.
postado por Alvaro Velloso 5:07 PM

A Century of U.S. military interventions, From Wounded Knee to Yugoslavia

Interessados na história do imperialismo americano devem dar uma olhada nessa compilação, com todas as intervenções americanas de 1890 a 1999 - do massacre de índios em Wounded Knee à aventura genocida de Clinton na Iugoslávia. Não é uma história muito nobre ou inspiradora...
postado por Alvaro Velloso 5:03 PM

Domingo, Setembro 16, 2001

Império e república

Elio Gaspari faz bem em criticar Celso Furtado por ter aderido à insana hipótese conspiratória segundo a qual o atentado foi cometido pela "direita americana", a fim de aumentar seu poderio militar.

Mas, ao criticar as teorias que põem no "neoliberalismo" a culpa pelos atentados, Gaspari vai mais longe e classifica de "paraterrorista" qualquer tentativa de explicar (e não justificar!) o terrorismo como efeito colateral da política externa imperialista americana:

"A astúcia analítica que coloca na porta das vítimas de atentados como o da semana passada algum tipo de responsabilidade pelo que lhes aconteceu é paraterrorismo. É paraterrorismo porque, num raciocínio inverso, o país que é vitimado por um atentado deveria pensar duas vezes antes de ter uma política que possa provocar a destruição traiçoeira de uma parte de sua principal cidade. Portanto, esse país deveria colocar o medo do terrorismo entre os fatores de inibição da defesa do que julga serem os seus interesses e até mesmo do seu modo de vida. Se isso vale para países, vale também para as relações entre as pessoas. Daí a se concluir que os seqüestrados têm parte da culpa nos seqüestros vai um passo."

A comparação é falaciosa, antes de mais nada porque se baseia na típica confusão esquerdista entre "governo" e "país", ou entre Estado e sociedade. Vamos deixar este ponto bem claro: as vítimas do atentado terrorista foram americanos inocentes, pessoas comuns. Os responsáveis pela política externa americana são políticos, burocratas e estrategistas militares; nenhum deles foi atingido pelo terrorismo. Afirmar que o imperialismo incentiva esse tipo de atentado não é culpar as vítimas; é apontar que os americanos inocentes não foram vitimados apenas por terroristas (supostamente) árabes, mas também por seus próprios governantes, que, com suas guerras assassinas, põem em risco também a segurança dos próprios americanos. Vale, aqui, repetir: ninguém comete atentados terroristas contra países isolacionistas, que estão simplesmente cuidando dos próprios negócios (e que não transformam a guerra, o policiamento do mundo e a "hegemonia" em "interesses nacionais").

Isto nos leva ao segundo ponto: o imperalismo americano não é uma manifestação legítima do "modo de vida" americano e dos "interesses nacionais" americanos, a não ser que, como a centro-direita e a centro-esquerda americanas têm feito (pensem na Weekly Standard e na New Republic), estes sejam definidos de forma tão ampla que passem a abarcar o policiamento do mundo e a imposição à força da "liberdade" e da "democracia" no mundo inteiro.

Esse imperialismo militar, na verdade, é uma traição do "modo de vida" americano, é uma afronta aos valores de liberdade, paz e comércio (e não "livre mercado" imposto na ponta da baioneta - ou da bomba atômica) que fundaram os Estados Unidos. Numa contraposição cara à direita isolacionista americana (notem que o próprio termo "isolacionismo" se tornou pejorativo!), o "império" americano é contrário à "república" americana. Essa contraposição não apenas ressalta a distância entre o imperialismo e os ideais americanos, como entre os valores do povo americano e a política externa de seus governantes. Como diz Ed Cobb, em artigo com o significativo título "Bipolar America":

"Americans are live-and-let-live people. America is no longer a live-and-let-live country because our government and its acolytes want to rule the world. I, for one, do not do not believe Americans want to rule the world. Do you? Certainly, the world does not want to be ruled by America. Would you? Americans must learn to see ourselves as others see us and to treat the people of the rest of the world as we would have them treat us.

"If this great tragedy can awaken us from our bipolar dream state so that we acknowledge the difference between who we are becoming and who we want to be, we might yet create the best possible memorial to our dead. We might yet bring a halt to the American Empire that bombs and starves our neighbors. We might yet rekindle the American Republic that lives in peace with its neighbors."
postado por Alvaro Velloso 2:27 PM

America's Black September

Tenho notado um detalhe curioso nas análises publicadas na imprensa brasileira: aqueles poucos que se aventuram a analisar como foi possível chegar a essa situação, isto é, como o número crescente de "compromissos externos" dos americanos fomentou o ódio em várias regiões do mundo, NUNCA falam da Sérvia - que, afinal de contas, foi a intervenção "humanitária" - e evitam falar do Iraque. Israel tem sido mencionado com um pouco mais de freqüência, embora todos prefiram mesmo falar do "neoliberalismo", do "imperialismo econômico", da "globalização da pobreza" e outros temas caros à esquerda e que não têm absolutamente nada a ver com os atentados, ou de crimes americanos mais antigos, que podem ser mencionados sem grandes controvérsias - Zuenir Ventura, por exemplo, fala do Vietnã e do Camboja; imagino que para ele, desde então, a política externa americana tenha sido impecável.

O fato é que qualquer análise dos atentados que nem mesmo use a palavra "Israel" só pode ser uma brincadeira. Israel está no centro dos eventos, não apenas porque é, em grande parte, o apoio irrestrito dos americanos a Israel que desperta o ódio dos palestinos, como também porque ele é, num primeiro momento ao menos, o Estado mais beneficiado pelos atentados, como ficou evidente na reação do ex-primeiro ministro Netanyahu, que afirmou que os atentados eram "excelentes para as relações entre os EUA e Israel". Srdja Trifkovic aponta como os atentados serviram para reverter a tendência dos últimos meses, nos quais o apoio a Israel na opinião pública vinha diminuindo:

"Whoever did it, the Palestinians are the chief and immediate losers. For the first time in decades, despite the lynching of Israeli conscripts, the shooting of settlers, and the suicide bomb attacks, the public sympathy for the Palestinians has been rising. As Arab teenagers are shot in the streets for throwing stones, Israel has been losing the public relations battle. This is likely to change. The impression that we are now in the same boat with Israel is mistaken, but it will be promoted nevertheless. Jubilation in the streets of Nablus and Ramallah at the news from across the ocean will prove costly for the Palestinian agenda, at least in the short term. The peace process will remain stalled, and ever more stringent Israeli countermeasures will be approved. The need for a new American policy in the Middle East will be blurred, at least temporarily."

Por outro lado, o melhor dos repórteres para assuntos do Oriente Médio, Robert Fisk, no seu artigo "Bush is walking into a trap" afirma que a retaliação em larga escala e o aumento do apoio americano a Israel é exatamente o que bin Laden pretende, a fim de unir o mundo árabe (o argumento é naturalmente reforçado pelo fato de que essa era a reação previsível dos americanos):

"Retaliation is a trap. In a world that was supposed to have learnt that the rule of law comes above revenge, President Bush appears to be heading for the very disaster that Osama bin Laden has laid down for him. Let us have no doubts about what happened in New York and Washington last week. It was a crime against humanity. We cannot understand America's need to retaliate unless we accept this bleak, awesome fact. But this crime was perpetrated – it becomes ever clearer – to provoke the United States into just the blind, arrogant punch that the US military is preparing.

"Mr bin Laden – every day his culpability becomes more apparent – has described to me how he wishes to overthrow the pro-American regime of the Middle East, starting with Saudi Arabia and moving on to Egypt, Jordan and the other Gulf states. In an Arab world sunk in corruption and dictatorships – most of them supported by the West – the only act that might bring Muslims to strike at their own leaders would be a brutal, indiscriminate assault by the United States. Mr bin Laden is unsophisticated in foreign affairs, but a close student of the art and horror of war. He knew how to fight the Russians who stayed on in Afghanistan, a Russian monster that revenged itself upon its ill-educated, courageous antagonists until, faced with war without end, the entire Soviet Union began to fall apart."

Fisk acrescenta que o tipo de guerra trazido por retaliações é exemplificado no Oriente Médio:

"But the Americans need look no further than Ariel Sharon's futile war with the Palestinians to understand the folly of retaliation. In Lebanon, it was always the same. A Hizbollah guerrilla would kill an Israeli occupation soldier, and the Israelis would fire back in retaliation at a village in which a civilian would die. The Hizbollah would retaliate with a Katyusha missile attack over the Israeli border, and the Israelis would retaliate again with a bombardment of southern Lebanon. In the end, the Hizbollah – the "centre of world terror'' according to Mr Sharon – drove the Israelis out of Lebanon.

"In Israel/Palestine, it is the same story. An Israeli soldier shoots a Palestinian stone-thrower. The Palestinians retaliate by killing a settler. The Israelis then retaliate by sending a murder squad to kill a Palestinian gunman. The Palestinians retaliate by sending a suicide bomber into a pizzeria. The Israelis then retaliate by sending F-16s to bomb a Palestinian police station. Retaliation leads to retaliation and more retaliation. War without end."

É claro que a culpa pelo que aconteceu não é de Israel, nem dos Estados Unidos, mas daqueles que cometeram os atos. Perceber isso, porém, não nos exime da responsabilidade de examinar quais foram as ações anteriores que levaram os árabes ao estado de desespero necessário para cometê-los. Mais uma vez citando Fisk:

"No, Israel is not to blame for what happened last week. The culprits were Arabs, not Israelis. But America's failure to act with honour in the Middle East, its promiscuous sale of missiles to those who use them against civilians, its blithe disregard for the deaths of tens of thousands of Iraqi children under sanctions of which Washington is the principal supporter – all these are intimately related to the society that produced the Arabs who plunged America into an apocalypse of fire last week."
postado por Alvaro Velloso 2:06 PM

Why They Attack Us

Os EUA estão, sim, em guerra, diz Sam Francis, mas a guerra não começou com os atentados terroristas:

"Let us hear no more about how the 'terrorists' have 'declared war on America.' Any nation that allows a criminal chief executive to use its military power to slaughter civilians in unprovoked and legally unauthorized attacks for his own personal political purposes can expect whatever the 'terrorists' dish out to it. If, as President Bush told us this week, we should make no distinction between those who harbor terrorists and those who commit terrorist acts, neither can any distinction be made between those who tolerate the murderous policies of a criminal in power and the criminal himself."

"The blunt and quite ugly truth is that the United States has been at war for years – that it started the war in the name of 'spreading democracy,' 'building nations,' 'waging peace,' 'stopping aggression,' 'enforcing human rights,' and all the other pious lies that warmongers always invoke to mask the truth, and that it continued the war simply to save a crook from political ruin. What is new is merely that this week, for the first time, the war we started came home – and all of a sudden, Americans don't seem to care for it so much."
postado por Alvaro Velloso 1:45 PM

Is this Nothing More than Good versus Evil?

Eu já disse que a tese de que o ataque foi motivado pela inveja só pode ser uma piada. Mais ainda, é uma piada propagada pelo "Amen corner" de Israel, aqueles que acham que qualquer injustiça perpetrada por ou em nome de Israel é justificada e que qualquer opositor de Israel é anti-semita.

William Anderson, sensato como sempre, acrescenta o seguinte:

"We are wealthy and free, say some, and others are envious of what we have, both materially and spiritually. We are a free people, and folks like those evil Palestinians hate freedom and want to wipe it out wherever it may be.

"That might make sense if Palestinians were also to be targeting everyone else who was relatively free. For example, Switzerland is every bit as capitalist and free as the USA, yet I hear of no one attacking the Swiss. Moreover, I doubt that Muslims avoid attacking Sweden because it has a well-developed welfare state and a relatively open society.

"In fact, I doubt that Muslims attack Americans because they hate us. That is correct. Most Middle Easterners I have met actually like Americans because they are usually open and friendly. What they hate is our government and how it meddles so forcefully in their lives.
We have been led to believe that Muslims hate our client state of Israel because Muslims simply are bigoted Jew-hating anti-Semites. Those who criticize Israel are always portrayed as racists and bigots.

"Yet, I believe that one can be critical of Israel, a militant socialist state, and not hate Jews. For that matter, there are a number of deeply religious Jews who have never supported a secular Jewish State. They certainly are not anti-Semites.

"The hard truth is that whatever freedoms we have at home – dwindling as they are – the government that supposedly represents us cares little for real freedom abroad."
postado por Alvaro Velloso 1:41 PM

Was the CIA Duped?

É óbvio que houve falha no sistema de segurança dos aeroportos, especialmente em função da política de proibir o "staff" dos aviões de portar armas, mas uma outra pergunta tem surgido: houve falha do sistema de inteligência americano, ou dizer isso é apenas uma maquiavélica estratégia para encorajar os terroristas?

Ora, tenham a santa paciência: um ato desses não é feito de um dia para o outro e, se todos esses programas de inteligência não servem para detectar uma coisa dessas, servem para quê?! Como dizem Cockburn e St. Claire:

"Here is bin-Laden, probably the most notorious Islamic foe of America on the planet, originally trained by the CIA, planner of other successful attacks on US installations such as the embassies in East Africa, carrying a $5 million FBI bounty on his head proclaiming the imminence of another assault, and US intelligence was impotent, even though the attacks must have taken months, if not years to plan, and even though CNN has reported that bin-Laden and his coordinating group al-Qa'ida had been using an airstrip in Afghanistan to train pilots to fly 767s.

"Back in the 1960s and 1970s, when hijacking was a preoccupation, the possibility of air assaults on buildings such as the Trade Center were a major concern of US security and intelligence agencies. But since the 1980s and particularly during the Clinton-Gore years the focus shifted to more modish fears, such as bio-chemical assault and nuclear weapons launched by so-called rogue states. This latter threat had the allure of justifying the $60 billion investment in Missile Defense aka Star Wars. The national security budget is grotesquely tilted towards high tech, costly items, and this is reflected in the procurement policies of the intelligence agencies which have poured money into satellites, spy planes and snooping technologies, (which are so incompetent they even failed to detect India's nuclear detonations in June of 1998), all at the expense of human intelligence."
postado por Alvaro Velloso 1:34 PM