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Sábado, Maio 12, 2001

Perdão e redenção - por Alvaro Velloso de Carvalho

No mais recente filme de Patrice Leconte (do engraçadíssimo Ridicule), [que finalmente estréia no Rio esta semana,] o ótimo cineasta Emir Kusturica faz sua estréia como ator intepretando um sujeito que, bêbado, matou um indefeso cidadão da ilha de St. Pierre, e foi condenado à morte por seu crime. Como a cidade não tem guilhotina - o único método que a República admitia - ela tem de ser trazida de uma cidade próxima, e ele fica sob a custódia do oficial do local, interpretado por Daniel Auteuil, e de sua esposa, Juliette Binoche (numa caracterização esplêndida).

Mas a mulher não gosta de ver o condenado isolado em sua cela, e resolve dar-lhe várias responsabilidades, como ajudá-la a cuidar das flores, a consertar telhados de casas da cidade, a limpar as ruas. Com o tempo, o rapaz, antes odiado, se torna uma espécie de herói local, e surge um forte sentimento popular contra a sua execução, para desgosto dos administradores locais. [continua]
postado por Alvaro Velloso 1:38 PM

Columbus 'discovered America earlier'

Terá a viagem de Colombo à América em 1492 sido apenas uma viagem de retorno?

O historiador Ruggero Marino acha que sim. Segundo ele, Colombo chegou pela primeira vez à América não sob o patrocínio do governo espanhol, mas numa missão secreta para o Papa Inocêncio VIII, em 1985.

Mariano aponta duas boas evidências de suas alegações. Primeiro, uma inscrição no túmulo do papa Inocêncio VIII:

"Signor Marino said there was corroborative proof in an inscription on the tomb of Innocent VIII, in St Peter’s Basilica, which reads 'Novi orbis suo aevo inventi gloria', meaning that during his pontificate 'the glory of the discovery of the New World' took place. Innocent VIII died at the end of July 1492, before Columbus set sail and three months before he landed at the Bahamas. 'The inscription either anticipates Columbus’s success or else refers to an earlier journey,' Signor Marino said."

Segundo, e mais importante, uma anotação no mapa Piri Reis, um mapa otomano datado de 1513 que se perdera há séculos e que agora está num museu em Istambul. Marino se baseou nos estudos do professor Bausani, catedrático de estudos islâmicos da Universidade de Veneza, que estudou diretamente no mapa:

"Professor Bausani said that the 'key to the mystery of Columbus and the Indies' lies in an annotation of the map, which refers to the American land mass: 'These shores were discovered in the year 890 of the Arab era by the infidel from Genoa.' Genoa was Columbus’s birthplace and 890 corresponds to 1485-86."
postado por Alvaro Velloso 1:35 PM

O Globo consegue o que queria

Quando eu digo que a imprensa brasileira é inteiramente devotada ao aumento da tirania estatal, estou falando muito mais sério do que pareço estar. Quase todas as matérias produzidas com destaque pela nossa mídia são matérias sobre o "descaso" ou a "inoperância" estatal - exigindo, pois, uma atuação mais "enérgica" do Estado, o aumento das regulações, das leis, das ações de fiscalização.

Depois de passar a semana inteira martelando sobre supostas "brechas" na Alfândega brasileira - como se esta já não importunasse e infernizasse o suficiente os cidadãos - O Globo de hoje celebra a mudança na legislação alfandegária.

Essa nova legislação prevê não apenas penalidades mais duras para empresas que "fraudarem" as importações (que sofrerão devassa fiscal e perderão a carga), como também autoriza a apreensão de "mercadorias suspeitas" por fiscais da Alfândega nos portos e aeroportos por até seis meses, mesmo que já se encontre legalmente desembaraçada.

Isto quer dizer, pois, que os burocratas alfandegários terão discricionariedade para decidir o destino das cargas que chegarem, e uma simples suspeita desses burocratas a respeito da carga poderá provocar sua retenção, mesmo que a importação da carga cumpra todas as exigências legais! E ninguém percebe que se está atribuindo um poder desmedido a esses funcionários!

A função primordial dos jornalistas brasileiros, atualmente, é rodar a bolsinha para o Leviatã, que, assim, vai ficando cada vez mais eficiente e mais abusado.
postado por Alvaro Velloso 1:26 PM

Sexta-feira, Maio 11, 2001

Hamlet (2000)

Ninguém mais consegue fazer uma adaptação cinematográfica de Shakespeare sem tentar, de alguma maneira, modernizar e atualizar os cenários. Isso leva a opções inexplicáveis, como a recente adaptação de "A midsummer night's dream" que se passava no século XIX, e já levou a um filme inteiramente ridículo, o "Romeu e Julieta" de Baz Luhrman.

Assisti ao Hamlet de Michael Almereyda esperando uma porcaria no mesmo estilo do Romeu e Julieta de Luhrman. Qual o quê. Tudo que o o filme de Luhrman tinha de falso e artificial, de exagerado e gratuito, o de Almereyda tem de rigor cinematográfico, de utilização dos elementos modernos para ilustrar e retratar perfeitamente o espírito da peça de Shakespeare. Ouso dizer que esta é a melhor adaptação cinematográfica de "Hamlet", especialmente porque é a única adaptação cinematográfica, e não apenas teatro filmado.

A ação é atualizada para a Nova Iorque contemporânea, a Dinamarca é uma grande corporação multinacional chamada Dinamarca, Fortinbras é o presidente de uma corporação concorrente, e assim por diante. Adoradores do texto e puristas certamente reclamarão, porque estão faltando algumas falas cruciais - como o discurso do coveiro - e algumas cenas são compactadas e misturadas com outras, mas em nenhum momento o filme trai a peça de Shakespeare e em nenhum momento faz concessões à sensibilidade pop/MTV adolescente.

"Romeu e Julieta" era um longo videoclipe; este "Hamlet" é uma transposição da peça de Shakespeare para o mundo das imagens, mas sem fazer que a peça se subordine a elas - muito pelo contrário. A angústia inicial do príncipe, sua transmutação espiritual ao aceitar o dever que tinha a cumprir, tudo isso está lá, em imagens quase hipnóticas, às vezes frenéticas, às vezes lentas, sempre construídas com inteligência e prenhes de significado.

Afinal, a maior obra dramática de todos os tempos obviamente pode suportar diversas leituras, diversas recriações, e é exatamente por isso que essa nova roupagem, essa mudança radical no cenário da peça, não muda em absolutamente nada seu impacto e sua magia. Almereyda ainda consegue incluir algumas reflexões sobre os rumos do cinema moderno, ao situar o monólogo "to be or not to be" numa Blockbuster, e ao transformar a peça que Hamlet encena num filme que ele cria através da montagem de cenas de outros filmes.

Uma palavrinha sobre os atores: o mais interessante sobre eles é que, em vez de inventar sotaques ingleses falsos (como na ridícula performance de Glenn Close no Hamlet de Franco Zeffireli), eles mantêm seus sotaques americanos e sua fala natural, e isso faz um bem enorme ao filme. As atuações são quase todas de primeira linha, apenas com Bill Murray parecendo um pouco deslocado no papel de Polonius.
postado por Alvaro Velloso 1:37 PM

World War I as Fulfillment: Power and the Intellectuals

Quem achou o artigo de Marcelo Tostes sobre a atração dos economistas pelo intervencionismo estatal, publicado no Indivíduo da semana passada, um pouco "extremado" deve ler os comentários infinitamente mais duros e "extremados" (ó, como ele é radical!!!) de Murray Rothbard sobre o mesmo assunto, nesse brilhante ensaio de 1986 (em PDF; requer Acrobat Reader).

No ensaio, Rothbard analisa detalhadamente como a Primeira Guerra Mundial favoreceu o movimento progressita, formado por uma bizarra confluência de prostitutas da ação estatal, incluindo economistas estatólatras com suas infindáveis estatísticas (o melhor trecho do ensaio é a análise do papel dessas estatísticas no avanço estatal), intelectuais de esquerda, puritanos pósmilenaristas e agentes das grandes corporações, todos empenhados na criação e na aplicação de técnicas de reengenharia social.

Um trecho da introdução dá uma boa idéia do ensaio:

"I regard progressivism as basically a movement on behalf of Big Government in all walks of the economy and society, in fusion or coalition between various groups of big businessmen, led by the House of Morgan, and rising groups of technocratic and statist intellectuals. In this fusion, the values and interests of both groups would be pursued through government. Big business would be able to use the government to cartelize the economy, restrict competition, and regulate production and prices, and also to be able to wield a militaristic and imperialist foreign policy to force open markets abroad and apply the sword of the State to protect foreign investment. Intellectuals would be able to use the government to restrict entry into their professions and assume jobs in Big Government to apologize for, and to help plan and staff, government operations. Both groups also believed that, in this fusion, the Big State could be used to harmonize and interpret the 'national interest' and thereby provide a 'middle way' between the extremes of 'dog-eat-dog' laissez-faire and the bitter conflicts of proletarian Marxism. Also animating both groups of progressives was a postmillenial pietist Protestantism that had conquered 'Yankee' areas of northern Protestantism by the 1830s and had impelled the pietists to use local, stante, and finally federal governments to stamp out 'sin', to make America and eventually the world holy, and thereby to bring about the Kingdom of God on earth. (...) World War I brought about the fulfillment of all these progressive trends. Militarism, conscription, massive intervention at home and abroad, a collectivized war economy, all came about during the war and created a mighty cartelized system that most of its leaders spent the rest of their lives trying to recreate, in peace as well as in war."
postado por Alvaro Velloso 12:44 PM

Ética e estética

Há um artigo magistral de Olavo de Carvalho sobre a tensão entre ética e estética e o estranhamento que sentimos ao gostarmos de uma obra de arte que glorifica o mal (como os filmes de Eisenstein e Leni Riefenstahl) na "Bravo!" deste mês.

Infelizmente, o artigo não está no (aliás, horroroso) site da revista, mas como os responsáveis por ela finalmente aboliram a desgraçada prática de lacrar seus exemplares, já é possível lê-lo na banca, sem precisar gastar os absurdos oito ou nove reais do preço de capa. Sugiro a todos que o façam.
postado por Alvaro Velloso 12:04 PM

Quinta-feira, Maio 10, 2001

Death, be not Proud

O amigo Remo Filho me enviou uma outra tradução do poema de John Donne, feita por José Almino e publicada no "Mais!" de 05 de fevereiro de 2000.

Essa versão é mais fiel ao sentido do original do que a de Aíla de Oliveira, que transcrevi no domingo, mas trai a musicalidade e o ritmo do original, e, com isso, prejudica também a clareza e a força do poema.

De qualquer maneira, a diferença radical entre esta tradução e a outra (e o fato de que nenhum das duas está à altura do original) é uma excelente ilustração das dificuldades de se traduzir poesia.

"Oh! Morte, que alguns dizem assombrosa
E forte, não te orgulhes, não és assim;
Mesmo aquele a quem visastes no fim,
Não morre; não te vejo vitoriosa.

"Vens em sono e repouso disfarçada,
Prazeres para os que tu surpreendes;
E o bom ao conhecer o que pretendes
Descansa o corpo, a alma libertada.

"Serves aos reis, ao azar e às agonias,
A ti, doença e guerra se acasalam;
Também os ópios e magias nos embalam,

"Como o sono. De que te vanglorias?
Um breve sono que a vida eterna traz
Golpeia a morte, Morte morrerás."
postado por Alvaro Velloso 12:33 PM

Irresponsabilidade

Não sei qual foi a reação mais ridícula ao terrível crime ocorrido em Santa Teresa, no qual uma mulher foi estuprada e esfaqueada: a do sr. Rubem César Fernandes, que disse que a culpa do crime era das armas de fogo, ou a de uma leitora do Globo que, criticando a opinião de Rubem César, disse que a culpa era das drogas e que esse tipo de crime só seria abolido depois que todas as drogas fossem abolidas.

Porca miséria, não vale nem dizer que a arma de fogo não se dispara a si mesma porque, no caso, o crime nem mesmo foi cometido com arma de fogo, mas com uma faca! Mas vale dizer que a cocaína não se cheira a si mesma e, se o sujeito estava drogado quando cometeu o crime, isso não o torna menos responsável: ele optou por usar a droga e optou por cometer o crime.

Mas a idéia de responsabilidade pessoal está tão desprestigiada e tão distante do panorama mental brasileiro que se prefere pôr a culpa dos crimes nas drogas e nas armas, e não em quem efetivamente os cometeu!
postado por Alvaro Velloso 12:23 PM

Senado: reeleição de governante só com renúncia

"O Senado aprovou ontem em primeiro turno a emenda constitucional que obriga o presidente da República, governadores e prefeitos que desejarem disputar a reeleição a renunciarem [sic] a seus cargos seis meses antes da eleição."

Tirando o óbvio oportunismo político, só vejo uma justificativa para essa emenda: os senadores acham que o povo brasileiro é tão burro que não consegue avaliar o trabalho de um governante por seus quatro anos de mandato, apens por seus últimos seis meses. O governo pode ter sido horroroso por três anos e meio, mas se o governante inaugurar algumas obras e fizer alguma propaganda na TV nos últimos seis meses, diz a lógica dos nossos senadores, o povo se esquecerá de todos os males precedentes e votará para reelegê-lo.

Talvez até tenham razão os senadores, mas é curioso que tenham uma opinião tão baixa do povo que, supostamente, representam.
postado por Alvaro Velloso 12:17 PM

Quarta-feira, Maio 09, 2001

"Crise moral"

Também na seção de cartas de ontem de O Globo, uma senhora repete os velhos protestos marxistas contra as condições sociais no Brasil:

"A fome, a miséria, a falta de assistência médica e de escolas, a corrupção/impunidade [adorei esse recurso, esse '/', uma beleza estilística!], o desmatamento criminoso e tantas outras situações vergonhosas e degradantes."

OK, diga-me algo novo. Ah, tem algo novo: ela acrescenta às situações vergonhosas brasileiras a "concessão de habeas corpus." Porca miséria, agora a concessão de habeas corpus também é problema social?? O que devemos fazer para satisfazer nossa puritana esquerdista enraivecida? Prender os "corruptos" sem necessidade de apresentação de provas além de uma matéria na revista Veja? Universalizar a prisão preventiva? Abolir essa velharia burguesa, o devido processo legal? Tornar os direitos de liberdade, de ir e vir e de posse de si mesmo a exceção, e não a regra?

Esse, infelizmente, me parece ser o resultado de toda essa histeria moralista da imprensa: o clamor por mais "lei e ordem", pelo justiçamento e talvez até o fuzilamento dos "corruptos", a erosão dos direitos individuais.

O que realmente me espanta é que após inúmeras denúncias de corrupção, de desvios de verbas, de abusos de poder, nós continuamos a acreditar piamente na pureza e na perfeição do Estado. Ninguém pára para pensar que talvez o poder excessivo tenha um efeito corruptor; que, se não houvesse tantos recursos disponíveis para os políticos usarem ao seu bel-prazer, talvez também não houvesse tantos desvios de verbas; que se eles já não tivessem tanto poder e se sua influência não estivesse tão disseminada por todos os aspectos da vida social, talvez também não houvesse tanto abuso de poder. Ninguém vê na endêmica corrupção estatal um argumento para reduzir a esfera de influência do Estado, nem para protegermos os cidadãos dos tentáculos do monstro.

Não, nada disso, muito pelo contrário: temos aqui uma senhora relativamente alfabetizada argumentando contra o habeas corpus em nome da moralidade! Este é o tamanho da demência e da cegueira que acometem este país. Esta é a medida de nossa estupidez.
postado por Alvaro Velloso 4:00 PM

Incômodos na Alfândega

Uma sugestão para O Globo, que certamente nunca será acatada: que tal, em vez de fazer matérias inspiradas de ardor protecionista e estatizante como a ridícula matéria de domingo passado sobre as "importações ilegais" que não passam pela sagrada fiscalização alfandegária e que não pagam os sagrados impostos ao Sacro Império Tucano-Brasileiro, não fazer uma matéria sobre como a estupidez burocrática da legislação alfandegária traz males ao país e perturba a vida dos particulares que têm de lidar com ela?

O Fantástico, por exemplo, mostrou há algumas semanas a história do garoto que fundou uma escola numa comunidade carente, sem atender às "exigências legais" (não registrou sua escola como pessoa jurídica), e, portanto, não pôde retirar da Alfândega os lápis, canetas e cadernos que lhe foram enviados por uma entidade filantrópica européia. Ou será que O Globo acha que esse garoto também é um perigoso contrabandista que deseja "burlar" o sistema tributário nacional?

Além disso, quase todo mundo tem uma história para contar de injustiças, abusos de poder e exigências de suborno sofridas na alfândega. Interessante, a esse respeito, a carta do sr. Luiz Alberto Py de Mello e Silva na edição de ontem do O Globo (grifo meu):

"(...)Há dois meses um gráfico espanhol imprimiu cem exemplares de um livro meu inédito. Enviou 60 para mim e 40 para um amigo comum nos Estados Unidos, por avião. O americano recebeu seus exemplares em casa no dia seguinte. Eu, por instrução da Ibéria, compareci à Alfândega do Galeão, onde fui informado de que somente uma pessoa jurídica poderia retirar meus livros. Fui aconselhado a conseguir uma editora para fazê-lo. No momento, um editor amigo está tentando, ainda sem sucesso, conseguir a farta e complexa documentação exigida. Apesar de meus esforços, o poder público tem sido primorosamente eficiente na tarefa de me dificultar o acesso a meus próprios livros. (...) Fica a pergunta: os EUA permitem que livros entrem sem problemas no seu território porque são um país rico, ou se tornaram um país rico porque o governo e seus agentes não importunam os cidadãos à toa?"

(Infelizmente, hoje em dia, o governo americano e seus agentes importunam os cidadãos a toa, sim, mas em circunstâncias diferentes das brasileiras; anyway, excelente pergunta...)
postado por Alvaro Velloso 3:41 PM

Canibalismo

Segundo o que pude desvendar do texto quase incompreensível da colunista de Política do Globo, Tereza Cruvinel, a atual crise política do governo, com a queda de um ministro e o "infortúnio" de ACM e Barbalho, significa o fim da era da "canibalização do Estado".

Imagino, então, que agora começará oficialmente a era da canibalização dos indivíduos pelo Estado...
postado por Alvaro Velloso 3:25 PM

Segunda-feira, Maio 07, 2001

Estatismo e reserva de mercado

O Globo continua, com o zelo dos protestantes americanos da época da proibição da venda de bebidas, sua cruzada moralista e legalista. Aliás, a comparação é mais do que justa, porque, assim como os pósmilenaristas americanos, os jornalistas brasileiros acham que o único agente de Deus para o aperfeiçoamento moral da sociedade é o Estado e que ele deve ser dirigido por iluminados como eles próprios.

Por exemplo, vejam essa gritaria a respeito da terceirização e da alegada infração à legislação trabalhista: ninguém pára para imaginar que, se o Estado não tivesse criado uma legislação tão repressiva e tão inflexível, não haveria necessidade de burlá-la. Se em vez de tratar as pessoas como crianças que precisam ser reguladas de perto para não quebrarem o vaso da sala, o Estado as tratasse como adultos responsáveis e capazes de elaborar os termos dos próprios contratos, e permitisse que, como adultos responsáveis, empregados e trabalhadores estabelecessem seus próprios acordos, não teriam sido criados tantos artifícios para burlar a lei, e, aliás, seria mais fácil garantir o cumprimento dos contratos, em vez de ser necessário recorrer a mil filigranas e pequenas distinções jurídicas.

O mesmo raciocínio se aplica à ridícula matéria de capa do Globo de ontem, que exigia maiores controles na alfândega, e denunciava o "contrabando".

Acontece que, num país protecionista e economicamente atrasado, o contrabandista é um verdadeiro herói. Basta lembrar que, na época da desastrosa reserva de mercado da informática, a maioria das pessoas só conseguiu acesso a computadores de qualidade porque eles foram trazidos "ilegalmente" do Paraguai ou de Miami. Essa política protecionista atrasou em anos o acesso à tecnologia no Brasil, e teria sido ainda mais prejudicial não fossem os heróicos contrabandistas.

O que é absolutamente ridículo e hipócrita é um jornal globalista até no nome insistir em que o Brasil adote o livre mercado e assine acordos comerciais globais e, ao mesmo tempo, realize denúncias histéricas de que nosso controle alfandegário não é repressivo o suficiente e de que as empresas estrangeiras estão pondo preços mais baixos do que os verdadeiros nos seus produtos para que eles escapem da pesada carga tributária nacional (como se o simples fato de essa carga ser tão ridiculamente alta já não fosse um estímulo à sonegação!).

Mas, afinal, quem se beneficiaria com o aumento do controle aduaneiro? Certamente não seria o consumidor, o cidadão comum, porque esses produtos entram no nosso mercado para satisfazer suas necessidades, para atender a seus interesses de consumo. Eu já contei num artigo a imposição de uma taxa de 60% sobre dois míseros CDs que comprei numa loja americana; os únicos beneficiados com esses 60% foram os burocratas do Estado brasileiro, cuja única função na vida é parasitar a prosperidade alheia e locupletar-se com o dinheiro do suor dos outros. Além dos burocratas, os outros a ganhar com o aumento das restrições alfandegárias são os ditos "empresários nacionais". Eu pergunto o seguinte: a importação de seriados estrangeiros tirou o emprego dos autores brasileiros de novelas?

Não, e o motivo é muito simples. Talvez fosse até mais barato para a Rede Globo importar "Friends", traduzir e exibir no horário nobre; mas simplesmente não teria a mesma audiência, porque a maioria das pessoas prefere o produto local da Globo, a novela made in Brazil. O produto pode até não ser melhor objetivamente, mas ele atende melhor aos desejos dos consumidores brasileiros e, portanto, gera mais dinheiro para aqueles que o produzem.

Ninguém está propondo reserva de mercado para as novelas brasileiras. Por que, no entanto, propõem reserva de mercado para os filmes nacionais? Porque a maioria das pessoas prefere assistir ao mais novo filme da Julia Roberts a assistir à mais nova elocubração pseudo-intelectual dos nossos cineastas. E, no entanto, quando esses cineastas fazem filmes de alguma qualidade e que têm potencial de atrair o público, o público vai assistir, sem que ninguém precise obrigá-los a isso. Foi exatamente assim nos dois melhores filmes produzidos no Brasil nos últimos anos, "Bossa nova" e "Central do Brasil".

Da mesma maneira, os nossos fabricantes de computadores da época da reserva de mercado não podiam competir com a Dell ou com a Compaq, e continuam sem poder, mesmo depois da reserva de mercado. Isto porque a reserva de mercado não oferece estímulos para o crescimento e a melhoria de serviços, porque ela cria uma situação de estabilidade na qual o empresário se sente seguro na própria mediocridade, ao contrário do mercado livre, no qual o empresário precisa, a todo custo, melhorar o produto que oferecerá ao consumidor, porque este tem outras opções à sua disposição. É justamente por isso que tantos de nossos empresários gostam tanto de um protecionismo.

Existem, pois, dois modelos básicos: a abertura econômica e o protecionismo. A abertura favorece o consumidor, favorece o empresário mais eficiente, estimula o desenvolvimento econômico (ao aumentar a concorrência); o protecionismo prejudica o consumidor, favorece o empresário medíocre e a estagnação econômica. Sob belos e vazios slogans como "proteção à indústria nacional" e "defesa das obrigações fiscais", O Globo opta pelo segundo modelo, e ainda parece orgulhar-se disso.

Mas é impossível adotar esse modelo e depois reclamar do excesso de contrabandos. De um jeito ou de outro, a economia de mercado acaba encontrando uma maneira de desenvolver-se, porque as pessoas acabam encontrando maneiras de relacionar-se e realizar as trocas mutuamente benéficas que formam a base dessa economia. Assim, para fugir da mediocridade obrigatória imposta pelo Estado brasileiro, os brasileiros buscaram meios de fugir dos controles alfandegários e, antes, importaram computadores. Hoje importam tecidos, CDs, baralhos, cigarros, e continuarão a importar e a escapar dos olhos do Leviatã, porque assim é a criatividade humana.
postado por Alvaro Velloso 3:53 PM

Domingo, Maio 06, 2001

Holy Sonnets: Death, be not Proud

Alguém conhece uma boa tradução desse belíssimo poema de John Donne, que ocupou a seção de poesia do Indivíduo desta semana? Se alguém conhecer, por favor, envie-ma.

A tradução que conheço é de Aíla de Oliveira Gomes e, infelizmente, de todas as traduções da magnífica antologia de “Poemas metafísicos” que Aíla elaborou para a Companhia das Letras, esta é a única à qual eu tenho uma objeção. Não que eu saberia como resolver o problema, mas não posso negar que ele existe.

A tradução é a seguinte:

“Morte, não te orgulhes, embora alguns te provem
Poderosa, temível, pois não és assim,
Pobre morte: não poderás matar-me a mim,
E os que presumes que derrubaste, não morrem.
Se tuas imagens, sono e repouso, nos podem
Dar prazer, quem sabe mais nos darás? Enfim,
Descansar corpos, liberar almas, é ruim?
Por isso, cedo os melhores homens te escolhem.
És escrava do fado, de reis, do suicida;
Com guerras, veneno, doença hás de conviver;
Ópios e mágicas também têm teu poder
De fazer dormir. E te inflas envaidecida?
Após curto sono, acorda eterno o que jaz,
E a morte já não é; morte, tu morrerás.”

A tradutora nota bem que a inspiração para o poema vem de São Paulo, que, na epístola aos Coríntios, refere-se à ressurreição dos mortos, conseqüência direta da vitória do Cristo sobre o pecado e a morte, e diz que, para os eleitos, serão cumpridas as profecias de Isaías e Oséas: “A morte foi tragada pela vitória” (Is 25, 8); “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (Oséas 13, 14).

Justamente porque esse trecho se refere à redenção dos “melhores” pela Graça Divina, acho difícil aceitar a tradução “os melhores te escolhem” para o original “and soonest our best men with thee doe goe”, que quer dizer, apenas, que os melhores devem morrer mais cedo, para descansar “seus ossos” (e não “seus corpos”, mas essa é uma mudança aceitável) e liberar suas almas.

Claro que se pode interpretar “os melhores te escolhem” não como uma referência ao suicídio, mas como uma referência à bravura diante da morte, à valorização maior, pelos grandes homens, do destino da alma sobre o destino do corpo. Mas me parece que a tradução inseriu uma ambigüidade inexistente no original.

Outro ponto problemático é o termo “provem”, no primeiro verso, como tradução para “some have called thee”; ora, todo o sentido do poema é que justamente não se prova a morte poderosa e temível, mas se imagina que ela assim seja e, portanto, chama-se à morte poderosa e temível (“mighty and dreadful”). Vale repetir: eu não saberia resolver o problema, e nem louco me meteria a traduzir poesia, mas “provem” me parece uma escolha infeliz.
postado por Alvaro Velloso 5:43 PM