No. 22 - 11/08/00
A última vez que eu chequei o Código Penal, não havia lá nenhum crime de "discriminação". Não vou checar de novo agora, porque não acredito na teoria segundo a qual um livro muda cada vez que você o abre: acho que o Código continua o mesmo e, no pouco que se lhe acrescentou nos últimos meses, também não se fala em "discriminação".
Ainda bem, porque "discriminar" é uma das operações básicas da mente humana. Quando você acorda, você percebe que é de manhã, e não de noite, porque você é capaz de discriminar o céu matutino do céu noturno; depois, você escolhe as roupas que vai usar, de acordo com o lugar para onde você vai, e isso é mais um processo de discriminação entre os diversos tipos de roupas. E assim por diante. Por exemplo, você escolhe almoçar neste restaurante e não naquele porque este tem uma recepcionista bonitinha, ou porque os garçons daquele trabalham mal. O número de discriminações que fazemos por dia é imenso, e, se o Governo resolvesse proibir a "discriminação", estaria proibindo seus súditos de pensar.
Estou escrevendo tudo isso porque li, de queixo caído, no Globo, que o sr. Chico Alencar (autor de uma "História do Brasil" que bem poderia ser a cartilha do PT) resolveu processar algumas lojas do Shopping Rio Sul por "discriminação". Acho que ele não vai encontrar um tribunal que aceite seu processo, mas, no país do "direito alternativo", nunca se sabe.
O que tanto incomodou o sr. Alencar (que costumava ser político de algum tipo, acho que agora não é mais) foi o fato de algumas lojas desse Shopping terem fechado suas portas na sexta-feira passada, durante uma manifestação dos "sem teto" no shopping, elaborada por estudantes de direito da UERJ. Como ele não pode dizer que foi "racismo" - afinal, havia gente de todas as raças entre os manifestantes - ele inventou que foi "discriminação". Certamente que foi. Mas isso não é punível pelo Estado.
Nada tenho contra a manifestação. Aliás, muito pelo contrário. Gostei de ver aquelas pessoas entrando no shopping, até porque mostraram de uma vez por todas que pobres mesmo não querem revolução socialista: querem apenas ter uma chance para viver melhor no capitalismo (e não a terão enquanto o regime não foi capitalista mesmo, no lugar desse estatismo social-democrata brasileiro). Ademais, foi uma manifestação pacífica, e o movimento dos sem-teto é mil vezes mais interessante e menos politizado do que o dos sem-terra, que não quer terra e sim revolução.
Mas isso não quer dizer que certas lojas não tivessem o direito de fechar suas portas, com medo de que o protesto não fosse pacífico. Primeiro, ninguém avisou as lojas da natureza do protesto; segundo, o MST criou, nos últimos anos, um temor de manifestações populares na sociedade brasileira, graças a seus atos de violência bárbara; terceiro, os donos de lojas sabiam perfeitamente que, se o caldo engrossasse, não poderiam confiar plenamente numa ação enérgica da polícia, porque qualquer ação defensiva desse tipo é imediatamente rotulada de "massacre" pela imprensa, e os oficiais responsáveis saberiam que, se reagissem, estariam pondo seus empregos em risco.
O ato de fechar as portas não é louvável, mas é inteiramente compreensível, e não há nada de criminoso neles. É melhor o sr. Chico Alencar voltar para casa e estudar um pouco das leis do país, antes de sair por aí querendo se aproveitar delas para se promover politicamente.
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Pior ainda do que as trapalhadas do sr. Alencar foi uma matéria do "Estadão" da semana passada, divulgando um estudo do IPEA que pretende ser mais uma prova do racismo brasileiro.
Antes de entrar no tema, é curioso notar que o simples fato de que são necessárias dezenas de estudos pseudo-científicos por ano para tentar demonstrar o racismo brasileiro é uma prova de sua inexistência ou, ao menos, de sua insignificância, porque ninguém precisou elaborar teses para demonstrar o racismo sul-africano, ou o racismo do sul dos EUA. O racismo, quando tem efeitos sociais significativos, é sempre evidente, sempre salta aos olhos.
Mas eis o que diz o tal estudo: os negros ganham a metade do que ganham os não-negros. E, segundo seus brilhantes autores, isso é racismo.
Comecemos pelo problema mais óbvio: como definir quem é negro, num país com tanta mestiçagem como o Brasil? Essa distinção é muito difícil e traz muitos problemas. OK, o Pelé é negro. Mas eu sou negro? Nos EUA, alguém com a minha cor de pele (morena clara) seria considerado negro, mas e aqui no Brasil? Como distinguir? Será instituído um teste de pureza de DNA? Os que tiverem 0,05% de ancestralidade negra no genoma serão considerados negros, ou isso vai ser só a partir de 51%? Ou só os 100%, como diz uma camisa muito popular nos meios universitários cariocas? Quais os critérios usados no estudo?
Mas isso não é o pior. Um estudo desse tipo só faz algum sentido se forem comparados negros e não-negros que ocupem a mesma posição em seus respectivos trabalhos. Por exemplo, se compararem o salário de um repórter de TV negro com o de um não-negro, na mesma emissora e trabalhando para o mesmo jornal. Só assim é possível isolar o fator racial e saber de que maneira ele pesa no salário. Qualquer outra comparação é completamente vazia de sentido.
Por exemplo, se um estudo mostra que um negro que trabalha no SBT ganha mais que um branco que trabalha na Globo, o que isso nos informa sobre a questão racial brasileira? Rigorosamente nada.
Pois o absurdo lógico do estudo do IPEA é ainda maior: o que o ele está informando a um mundo atônito é que um pedreiro negro ganha menos que um médico mestiço; que um pintor de paredes negro ganha menos que um advogado nipo-brasileiro; que um padeiro negro ganha menos que um dono de padaria luso-brasileiro. Jura?!
Os autores dessa baboseira pseudo-científica podem, ainda, clamar em seu favor que ao menos demonstraram que , como diz o estudo, "a população negra é minoria nas funções mais qualificadas". Mas isso é racismo?, pergunto eu.
A população negra, negra mesmo, é minoria. É perfeitamente natural, portanto, que esteja em minoria nas profissões mais bem pagas.
Mas esse não é a única questão. A questão central é a seguinte: a escravidão foi abolida, no Brasil, em 1889, e a industrialização brasileira só começou em 1930. Nesse intervalo de 40 anos, o que fez a população negra? A maioria ficou nas fazendas onde já eram escravos, trabalhando por pagamentos miseráveis, e, depois, começaram a migrar para as cidades.
É evidente que foi esse hiato que deixou a comunidade negra em condições econômicas ruins, e ele não foi devido a nenhuma conspiração racista contra os negros, mas apenas às condições políticas e econômicas do país.
O fato de os negros serem mais pobres, portanto, não é de forma alguma devido ao racismo, e sim a falhas no nosso desenvolvimento econômico.
Nunca houve, no Brasil, um plano conspiratório para deixar os negros fora das profissões "mais qualificadas", houve apenas uma conjunção infeliz de fatores econômicos. O fator racial não entra nessa equação, e usar essa disparidade econômica como prova do racismo brasileiro é inteiramente descabido.
Não é o racismo que impede o acesso dos negros às profissões mais bem pagas; são as conseqüências da história econômica do país e, aos poucos, essas conseqüências vão sendo superadas, inclusive pelo admirável esforço pessoal de muitos negros - desde que militantes do estatismo intervencionista, como os autores dessa pesquisa imbecil, não atrapalhem tudo.
Porque não pensem que esses militantes estão interessados no bem-estar dos negros. Não é nada disso. Quem quer se livrar de uma situação adversa vai tentar fazê-lo por esforço próprio, não vai mendigar ajuda estatal - pelo contrário, vai rezar para que o Estado não se meta no caminho. Esses militantes do anti-racismo, ao contrário, só querem humilhar a população negra e pintá-la como vítima indefesa, incapaz de ascender por força própria.
Como diz Melanie Philips, "o que [eles] promovem não é nada além da cultura da vítima e sua manifestação pública: a política do ressentimento. Isso os obriga a medir da forma mais deletéria possível as conquistas de grupos auto-designados vítimas em comparação com as de outros grupos, prestando pouca atenção a diferenças de circunstância e de comportamento, e tomando quaisquer diferenças nos resultados como prova do preconceito da classe opressora. Nesta visão do mundo, as pessoas não são agentes de seus próprios destinos, mas são meramente forçadas a submeter-se a forças externas e hostis, sendo resgatadas apenas por advogados dos direitos humanos montados em cavalos de guerra brancos."
ORTODOXIA
Desde o Vaticano II, já nos acostumamos a receber notícias absurdas referentes a coisas da Igreja. Abusos, heresias, maluquices, aberrações, tudo isso virou o cardápio diário de quem acompanha o que acontece no catolicismo mundial. Mas eu confesso que ainda me impressiono com o grau de ridículo a que as coisas chegaram.
Esta semana estourou uma polêmica com a versão americana da CNBB (que é tão ruim quanto a nossa). O negócio é o seguinte: depois do CVII, resolveu-se que a missa católica seria traduzida para o vernáculo, nos diversos países onde é celebrada. Mas a tradução não seria uniforme, nem sairia do Vaticano.
O Vaticano expediu os seus textos (já muito ruins) em latim, e os países montariam comissões encarregadas de traduzi-los. No caso dos países de língua inglesa, foi montada uma única comissão, a International Commission on English in the Liturgy (ICEL). As traduções do ICEL, desde o começo, eram consideradas muito ruins, mas a mais recente delas não é só ruim: é escandalosa, no sentido bíblico do termo.
Antes de entrar nos detalhes, revelados por Charlotte Hays em artigo na beliefnet, antecipo os que poderiam me perguntar sobre a tradução em português. Não conheço as atuais e não sei em que pé as coisas estão, mas desde o começo inventaram aquele absurdo "ele está no meio de nós" para responder a "o Senhor esteja convosco" (o correto seria "e com teu espírito também"), então imagino que o resto deva ser no mesmo nível.
Mas vamos ao caso americano. A ICEL trabalha com o conceito - inventado por eles mesmos, mas os irmãos Campos assinariam embaixo - de "equivalência dinâmica", o que quer dizer que os acadêmicos que ela contrata para fazer as traduções não fazem uma tradução direta, mas tentam "aproximar o significado original de um contexto cultural contemporâneo". Em outras palavras: o texto da missa, nas mãos desses "especialistas", deixa de ter qualquer resquício de catolicismo para se adequar à moda cultural vigente.
Eis o resultado, na tradução mais recente:
- O termo latino "universo clero", i.e., todo o clero, torna-se "todos que foram chamados a Seu serviço" (em que "Seu" refere-se a Deus, o que também é absurdo - usam o "your" no lugar do "thy"), num esforço consciente para minar a distinção entre os sacerdotes ordenados e os leigos.
- A frase do Cristo "Eu vos farei pescadores de homens" vira "Eu farei de vocês pescadores de pessoas".
- O termo inglês para "humanidade", "mankind", vira "humankind", para não desagradar às feministas.
- Referências a Deus Pai são evitadas sempre que possível.
- A ICEL sugere o uso do Credo dos Apóstolos, no lugar do Credo de Nicéa, para evitar a frase "homo factus est" ("e fez-se homem").
- Palavras como "santo", "mérito", "abençoado" e "alma", presentes no original latino, foram omitidas do texto da ICEL.
É o suficiente, né? Agora, podem perguntar, e o Vaticano?
Bom, o Vaticano é liberal mas nem tanto. Essa nova tradução foi a gota d'água para que o Vaticano resolvesse intervir na ICEL, pondo-a sob seu comando. O surpreendente, nessa história, é que a ICEL algum dia tenha estado fora do comando do Vaticano!
Mesmo assim, uma das sumidades da ICEL, o padre Peter Scagnelli, mandou uma carta a um dos principais órgãos de imprensa católicos dos EUA dizendo que a atitude do Vaticano faz lembrar "a maneira como os filmes de Segunda Guerra Mundial retratam a Gestapo"!
Ninguém avisou a esse palhaço que a Igreja não é uma instituição democrática, na qual cada um pode falar o que quiser, mas uma instituição de origem divina que, como tal, tem de se manter fiel à verdade revelada. E essa verdade não muda nem "evolui". Se você não concorda com ela, saia da Igreja. Mas não se diga católico sem sê-lo.
E por que é que eu falei no começo que a Conferência dos Bispos estava envolvida na polêmica? Porque os bispos, inicialmente, aprovaram as heresias da comissão lingüística - e agora estão tentando criar uma solução conciliatória, o que quer dizer que, no fim das contas, e a própria repórter da beliefnet reconhece isso, tudo acabará ficando na mesma.
Essa história toda é muito instrutiva dos abusos a que o Vaticano expôs os fiéis quando tomou as medidas liberalizantes da década de 1960. As conferências de bispos adquiriram poder excessivo, a hierarquia foi quebrada e esculhambada, a missa virou um "vale tudo". E, aí, acontecem coisas com essa.
POLITICAGENS
Um repórter da Folha de São Paulo noticia, escandalizado, que o governo brasileiro gasta mais com a defesa militar do que com educação, trabalho e previdência.
Eu digo que ainda bem.
Defesa nacional é uma das funções primordiais do Estado, e não há ninguém que possa fazer isso melhor que ele. Educação, trabalho e previdência são funções secundárias, e quase tudo o que o Estado faz nessas áreas dá errado, de forma que talvez a melhor coisa que ele poderia fazer é se retirar delas.
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A piada é antiga e a comparação já foi usada muitas vezes em circunstâncias diferentes, mas é inevitável dizer que a política de segurança do Governo Garotinho se assemelha cada vez ao marido que, para não ser traído pela esposa, mandou tirar o sofá da sala.
Não bastasse a ridícula campanha anti-armas, o novo alvo são as agências bancárias em universidades.
A desculpa do secretário de segurança é que essas agências são mais vulneráveis e, portanto, sofrem mais assaltos. Sim, mas não era função da polícia evitar esses assaltos? Como é que a culpa pode ser das próprias agências, então? Ah, elas não seguem as exigências de segurança estabelecidas pelo governo. Todas elas, ou só algumas? E isso é motivo de fechá-las? Não seria melhor multá-las?
Ora, quando é assaltada, a agência sai perdendo também. É de seu interesse reforçar a segurança, e bastaria alguma pressão do governo para que isso acontecesse. Mas, não: o governo quer fechar as agências.
Agências bancárias em universidades são, claro, benéficas para todos os que estão ali: alunos, professores, funcionários. É uma comodidade, um serviço prático e útil, que poupa tempo e esforço a muita gente. Fechá-las sob o pretexto de que são assaltadas com freqüência é inteiramente absurdo.
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O Ministério da Saúde tanto tentou que acabou conseguindo: está proibida a propaganda de cigarros em outdoors e nas redes de TV e rádio, e quem não cumprir terá a concessão cassada (e isto é mais uma prova de que, no nosso sistema de "concessões", as TVs só veiculam o que o Governo quer).
Segundo notícia da Folha: "pelo projeto, a propaganda comercial dos produtos à base de tabaco só poderá ser feita por meio de pôsteres, painéis e cartazes na parte interna dos locais de venda do produto."
Assim, o Ministério da Saúde, com ajuda do Congresso, trata os brasileiros como idiotas, como débeis mentais que fazem tudo que a propaganda manda e que são incapazes de conhecer os riscos do cigarro. Em pouco tempo, Zé Serra e seus gângsters estarão extorquindo dinheiro das indústrias de cigarro, sob o mesmo pretexto que utilizaram para ferir a liberdade de propaganda: os brasileiros são burros demais para saber que fumar põe sua saúde em risco, portanto, a culpa pelo fato de eles fumarem é das indústrias de cigarro - e me dá uma graninha aí.
Eu só gostaria de saber como essa nova legislação resolverá o seguinte problema: a TV Globo transmite a Fórmula 1 e, nas corridas de Fórumula 1, vários carros têm propagandas de cigarros e, nas pistas, há várias placas com propagandas. Como a Globo está transmitindo as corridas, está também, obviamente, veiculando essas propagandas. E aí, a Globo está violando ou não está a nova regulamentação do fascismo tucano?
NA REDE
A notícia da semana na internet é, obviamente, a gloriosa criação da newsletter do Indivíduo.
Falando sério agora: a newsletter foi criada esta semana, e será uma maneira de divulgar notícias importantes que, como sabemos, não têm muito espaço na mídia brasileira. Também será uma maneira de informar aos leitores sobre as atualizações no "indivíduo" e até de mandar, antes da publicação, trechos de artigos publicados aqui.
Mas não serão só notícias: pretendo que a newsletter tenha também trechos de livros e ensaios, coisas que quase não aparecem no site, e pretendo, quando possível, divulgar notícias que tenham sido veiculadas em outros meios que não a rede.
Mandei alguns convites essa semana, com dois critérios: os últimos leitores que mandaram e-mail para cá, e alguns nomes na minha lista pessoal de e-mails. Para se inscrever, não é necessário registrar-se no egroups; basta mandar um e-mail para oindividuo-subscribe@egroups.com
As mensagens enviadas (foram duas até a publicação desta coluna), bem como outras informações (tem até um chat) ficam arquivadas na página da newsletter no egroups: http://www.egroups.com/group/oindividuo
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Outra novidade é que, como muitos reivindicavam há muito tempo, agora há um sistema de busca interna neste site.
Os artigos publicados nesses mais de dois anos foram muitos, e os assuntos muito variados, de forma que era mais que necessário permitir essa pesquisa interna, para facilitar a navegação e permitir que o leitor encontre aqueles que versam sobre um tema que lhe interesse.
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Joseph Sobran foi o autor da melhor frase da semana, no seu artigo sobre Al Gore:
"Graças, em parte, a políticos como Gore, hoje em dia é mais seguro ser um assassino do que ser um feto."
Essa parte do artigo continuava assim:
"A porcentagem de crianças mortas antes do nascimento excede em muito a dos assassinos, porque os assassinos desfrutam de muitas salva-guardas negadas à criança.
"Se você mata um adulto a sangue frio, você ainda tem direitos. Presume-se que você seja inocente até que seja provado culpado por procedimentos e padrões de prova muito estritos. Você tem direito a um advogado, direito a um julgamento, direito de confrontar seus acusadores e questionar testemunhas. Se condenado, você tem direito de apelar. Mesmo então, sua condenação pode ser derrubada por causa de uma mera tecnicalidade.
"Seu juiz e seu juri têm de ser imparciais; amigos e parentes do morto são disqualificados. Você não pode ser condenado ou sentenciado por ninguém que possa ter alguma razão para querê-lo morto. Talvez você possa até escolher o método de sua execução. Até mesmo se você é claramente culpado, você tem direitos.
"O nascituro não tem direitos. Ele não precisa ser comprovadamente culpado de nada. Ele não tem nenhum advogado para representar seus interesses. Ele está inteiramente à mercê de uma pessoa, sua mãe, que pode querê-lo morto. Nada além dos interesses dela determinam o destino do feto; ninguém que queira que ele viva (como, por exemplo, o pai) é consultado sobre o assunto. A morte pode ser inflingida imediatamente, sem apelo a nenhuma parte imparcial."
São as incoerências, os horrores e os absurdos do aborto legalizado.
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Querem ver o destino do Brasil, se as políticas separatistas de "combate ao racismo", inspiradas nos movimentos americanos politicamente corretos, continuarem a ser adotadas por aqui? Leiam o artigo de Colin Robertson no LewRockwell.com, onde ele mostra como a introdução de legislações do tipo "affirmative action" criou uma atmosfera de suspeita e desconfiança mútua entre as raças na Nova Zelândia, que antes disso nunca tivera problemas raciais.
Aproveitem o assunto e leiam o relato de Nat Hentoff sobre um incidente racial, menor mas muito significativo, num trem em Nova Iorque, e vejam como essa atmosfera perversa é norma nos Estados Unidos.
ARTIGO DA SEMANA
A arquitetura de cada época histórica reflete suas idéias principais, e, portanto, a arquitetura das principais igrejas é um reflexo das visões religiosas de cada tempo.
É interessante notar como essa idéia é aplicada no belíssimo artigo que o professor de história Thomas E. Woods escreveu sobre o século XIII, o último século em que a humanidade foi realmente religiosa, ou, como ele diz, "O último século de Deus" (não entendam isso como um apelo a uma "volta à Idade Média", porque seria uma interpretação descabida; mas as virtudes recordadas nesse artigo podem servir de inspiração para nós que labutamos neste século do materialismo e do totalitarismo):
"Quando Frank Lloyd Wright projetou o 'Templo da Unidade' para a congregação Universalista Unitária de Oak Park, Illinois, na primeira década do século XX, sua criação ao mesmo tempo simbolizou e deu o tom de toda uma era. À parte seu repelente desenho cubista, sua característica mais expressiva era a falta de uma torre apontando em direção ao Céu. Foi um testamento adequado para uma era na qual os homens dirigiriam sua atenção exclusivamente para preocupações terrenas e na qual Estados ideológicos, os ídolos do século XX, tomariam a vestimenta de divindades - exceto a misericórdia divina.
"Compare a criação de Wright com a impressionante catedral em Notre Dame de Chartres, completada em 1250, um testamento sublime da ânsia do homem medieval em transcender o mundo puramente natural. Não se trata simplesmente da prosaica diferença de que o século XIII foi uma era religiosa e a nossa é distintamente, até agressivamente, secular. No mínimo, a comparação revela a transformação infeliz que aconteceu nas artes desde a era de São Tomás de Aquino. É significativo que só a partir da Renascença tornou-se comum para artistas assinar seu trabalho - um desenvolvimento inócuo, mas potencialmente frutífero. Pois a partir especialmente do período romântico, em vez de levar o espectador a contemplar algo que transcendia ao mesmo tempo a ele e ao artista, o artista começou a usar sua arte como um tipo de extensão narcisística de sua própria personalidade.
"A transformação da arte, no entanto, é apenas uma reflexo de um abismo mais amplo separando as duas eras - a consciência de nossos ancestrais do século XIII de que, independemente de seus desejos e caprichos individuais, havia um padrão eterno de justiça (...) a que tanto o homem quanto a sociedade deveriam se conformar. Cada homem não era seu universo moral; em vez disso, cada um, consciente de sua fragilidade e percebendo a loucura de estabelecer a si mesmo com seu próprio padrão de comportamento, fazia o que em nossa Era do Homem é a maior ofensa: conformava-se a uma lei que não tinha suas origens em si mesmo, como Emerson e Thoreau gostariam, mas numa fonte externa, a saber, Jesus Cristo. Assim, a mãe do Rei Luís IX da França, do qual falaremos mais abaixo, lembraria a seu filho que ela preferia vê-lo morto a vê-lo culpado de um pecado mortal (...).
"Entre as figuras mais celebradas do século XIII estava, claro, São Francisco de Assis, cuja ordem de frades mendicantes teria um impacto imensurável na Igreja e no mundo (...). O Francisco da história, como é de se esperar, pouco tinha a ver com a figura açucarada da imaginação popular. Ele desejava, em primeiro lugar, disciplinar a si mesmo a ponto de melhor parecer-se com seu modelo, Jesus Cristo. (...) Todos sabem da heróica vida de pobreza que ele levou, e sobre as esperanças que ele tinha em seus confrades. (Realmente, o Papa Inocêncio III, que deu aprovação verbal para a nova ordem de São Francisco em 1209, pode talvez ser perdoado por haver imaginado quantos conseguiriam viver de acordo com padrões tão exigentes). (...)
"Não satisfeito com os triunfos sobre seus próprios desejos, São Francisco quis, através de sua pregação, ser vitorioso também sobre as forças do erro religioso, concentrando seus esforços particularmente no Islam - um aspecto de sua vida que, claro, não é mencionado nos relatos padronizados. Assim, não era apenas uma boa vontade sentimental, mas a totalidade da fé católica que animava esta alma zelosa, uma busca da santidade e uma vontade de ver a si mesmo diminuído para que o Cristo pudesse ser exaltado.
"O século XIII, tão bem-sucedido em esforços religiosos, foi de algumas maneiras também um período exemplar em termos de governo humano. Foi o século da Magna Carta, esta conquista seminal na história da liberdade moderna. (...)
"O mais ilustre monarca de todos, claro, foi São Luís IX da França. Até mesmo Voltaire se viu obrigado a descrevê-lo como 'um padrão para os homens, em todas as coisas'; como rei, ademais, 'nenhum homem poderia ter levado a virtude mais adiante.' Mesmo o feroz calvinista Guizot encontrou uma palavra gentil para ele; o mundo, ele disse, 'nunca vira um homem possuindo o poder soberano e ainda assim não contraindo os vícios e paixões que vêm com esse poder, mostrando sobre o trono em um nível tão alto cada virtude humana purificada e enobrecida pela fé cristã.' Sua fé, sua conduta impecável, sua sede por justiça para todos os membros de seu domínio - tudo isso, combinado com uma devoção à Igreja que o levou a embarcar numa cruzada para a Terra Santa, deu o tom de uma era que não poderia soar mais estranha para um ouvido moderno.
"Assim, o século XIII foi a culminação de um período medieval que estava enraizado numa verdade fundamental sobre o homem: ele não é auto-suficiente. O Papa São Pio X observou que quanto mais francamente cristã for uma civilização, mais 'duradoura e produtiva de frutos preciosos' ela será; enquanto 'quanto mais ela se afasta do ideal cristão, mais frágil ela é, para o detrimento de seus membros.' Essa, em suma, é a chave para a grandeza do século treze."