E eu sem tempo de escrever maiores coisas. O que eu queria mesmo era escrever uma longa paráfrase desse parágrafo de René Girard sobre o que é ser um indivíduo, parágrafo que já foi destacado pelo Ocidente:
O indivíduo real sem dúvida existe, é aquele que contraria a multidão por razões não relacionadas a um desejo mimético negativo, é aquele que pode resistir à multidão. Nietzsche não poderia estar mais equivocado, ao declarar que o Cristianismo é a religião da multidão e que o culto a Dionísio representa a religião da aristocracia. É exatamente o contrário: Dionísio é a multidão; o Cristianismo, a minoria capaz de resistir à multidão.
René Girard, Um longo argumento do princípio ao fim
Comparando minhas motivações de hoje com as de 12 anos atrás, é fácil ver o quanto eu pretendia criar uma anti-multidão. Isso é que é o “desejo mimético negativo”, é formar a identidade por negações da maioria, e depois ficar chamando os outros de turba, manada etc. É viver como um paranóico, julgando-se um herói de Ionesco, cercado de pessoas que vão se transformando em rinocerontes enquanto a sua pura e imaculada consciência suporta uma dor moral oh tão grande. E no entanto até mesmo aquele que tinha razão de sentir-se assim, Jó, foi repreendido por Deus por suas lamúrias.
Já disse isso, e não custa repetir. Não creio que a individualidade surja de uma negação do que se pensa ser a multidão. Não creio que a individualidade seja a “coragem” de assumir uma idiossincrasia pessoal. Não creio que a individualidade seja a “recusa em submeter-se” – sempre que vejo alguém que leva uma vida perfeitamente burguesa alardeando que se recusa a submeter-se a isso ou aquilo, já sei que ele está submetido ao desejo de querer mostrar-se original e independente.
A individualidade é a qualidade nossa que aparece como mera decorrência de um ato de amor. Se tentamos nos anular em nome de fazer bem alguma coisa, desejando o bem do objeto, da pessoa, da coisa feita, então nosso “estilo” aparece. É um bonito paradoxo que seja necessário anular-se para efetivamente ser alguém. Mas, enfim, quem quiser salvar a sua alma, terá de perdê-la.
Por isso é que contrariar a multidão apenas por contrariá-la não é um heroísmo, é só uma necessidade do ego. Até as pessoas que fazem as coisas mais vulgares acham que estão sendo corajosas e contrariando a multidão. Dizer algo certo não basta; é preciso dizer a coisa certa com a motivação certa, e ter a temperança de saber a hora e a circunstância certas.
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