Archive for julho, 2008

Nota de viagem 0

A arquitetura francesa (ou afrancesada) e a uniformidade étnica fazem de Buenos Aires uma verdadeira Paris para racistas.

Notas sobre Batman 1

Como estou viajando e tão cedo não poderei rever O cavaleiro das trevas para clarear as idéias, vou deixar aqui apenas algumas notas.

1. Não me parece que o filme seja “filosófico” no mesmo sentido em que The Coast of Utopia, de Tom Stoppard, é uma peça “filosófica”, isto é, um texto em que os personagens falam coisas filosóficas e mostram ter dilemas filosóficos.

2. O filme é “girardiano” não só porque a cena final mostra o nascimento dos mitos - a resolução da crise sacrificial (o desejo coletivo de violência e compensação) pelo método do bode expiatório - mas porque, entre outros, toda sua trama gira em torno da rivalidade mimética entre o Batman e o Coringa. Esses dois personagens não são duplos em sentido girardiano por serem dois freaks que andam fantasiados, mas por desejarem o mesmo objeto, “o coração e a alma de Gotham”, que passa a ser simbolizado por Harvey Dent. O Batman deseja que os cidadãos de Gotham sejam capazes de combater o crime através do “processo da lei”, do sistema policial e judiciário, e o Coringa deseja que eles aceitem a “lei da selva” no lugar do estado de direito. Isso fica bem evidente quando ele queima o dinheiro e diz que quer “passar uma mensagem”, isto é, ele não quer algo para si, quer afetar os outros, afirmando sua supremacia, que é ele - e não Batman ou Dent (símbolo do estado de direito) - que “manda mais”.

Prefiro falar nessa oposição entre “lei da selva” e “estado de direito” em vez de “caos” e “ordem” por clareza. Na lei da selva, existe a obrigação da vingança. Se as pessoas nos barcos tivessem explodido umas às outras, isso teria gerado inúmeras vinganças, que gerariam outras e mais outras e mais outras (vejam como a história do mordomo simboliza isso: queima-se toda a floresta para pegar o bandido, e esse custo não será alto demais?). Para chegar ao estado de direito, o cidadão que sofreu o mal precisa abdicar de sua vingança e não querer sujar suas próprias mãos de sangue. Isso revela a conexão entre esse estado de direito e o Batman, que também não quer sujar as próprias mãos.

3. O outro aspecto “girardiano” do filme está presente nos outros filmes de super-heróis. Nesse momento eu devo dizer que nunca li as revistas, só conheço os filmes dos anos 1990 para cá. Mas bem. Esse aspecto é o uso do “duplo angélico”. Todo herói tem uma personalidade relativamente (ênfase: relativamente) banal e indistinta, em que ele é maximamente afetado pelo ambiente e pelos outros, e outra personalidade perfeita, em que ele afeta a todos sem ser afetado - o duplo angélico ou personalidade de herói. Mesmo o milionário Bruce Wayne, pelo filme, depende muito mais das pessoas que trabalham consigo do que de seus próprios esforços enquanto empreendedor. O drama da maior parte dos filmes de super-herói parece depender dessa - com o perdão da palavra - dicotomia, mostrando como o duplo angélico afeta certas ações da versão banal e vice-versa.

A genialidade de O cavaleiro das trevas está em conseguir misturar todos esses dramas - a criação do bode expiatório, a disputa mimética, o duplo angélico x a banalidade - em uma única narrativa coerente. E quando eu digo “genialidade”, estou sendo bastante preciso. Quanto ao Heath Ledger, sei lá. Mas os roteiristas Christopher e Jonathan Nolan merecem um Oscar.

Melanina e mérito 1

Vejo pelas ruas a capa da Rolling Stone brasileira com Barack Obama e não deixo de pensar numa coisa: não lembro de negros americanos percebidos como conservadores (falta-me tempo e paciência para discutir a identidade conservadora agora) terem sido igualmente celebrados. Clarence Thomas, nada menos que juiz da Suprema Corte. Colin Powell, Secretário de Estado de 2001 a 2005. E, reunindo as duas virtudes politicamente corretas de ser mulher e negra, Condoleezza Rice, atual Secretária de Estado. Além de seu “conservadorismo”, os três estão ligados aos Bush: daí que não produzam ondas de otimismo.

Não vou negar que a idéia de um presidente americano negro é simpática, e gente que eu admiro considera Obama o mal menor. Mas o que me interessa aqui é mostrar que, melanina por melanina, os três conservadores têm muito mais mérito, e provavalmente mais mérito do que todos os políticos brasileiros juntos (admitindo, é claro, que Clarence Thomas não é um político). O único mérito de Barack Obama é ser o primeiro negro viável políticamente que a esquerda conseguiu produzir. As mesmas pessoas que são capazes de ver Condoleezza Rice tocando piano clássico em público (afinal, boa parte do “jornalismo” consiste em ridicularizar os famosos) dirão que ela deve ser avaliada como todos, por seus méritos, por suas idéias e atos, não por seu coeficiente de melanina. O que é justo. Assim como é justo não dar crédito a Barack Obama só por seu coeficiente - aliás mais baixo - de melanina.

Se a idéia de um presidente negro é simpática, também deveria ser (e é) a idéia de um juiz negro da Suprema Corte, de dois Secretários de Estado negros. Se essas pessoas não têm seus méritos reconhecidos e não geram otimismo, é só porque a divisão ideológica é muito mais forte do que a divisão racial. Os idiotas que se sentem audaciosos por ter esperança não tiveram sua vaidade afagada, porque o que importa não é mostrar-se do lado dos negros no poder, mas de quem quer que confirme para você a sua própria bondade. Isso não é debate. É sedução.

O texto mais imbecil jamais publicado sobre um filme 0

Saindo da sessão de O cavaleiro das trevas, vulgo “filme do Batman”, meus amigos mencionaram a crítica publicada nesta sexta no Globo e eu não pude acreditar.

Melhores momentos:

É difícil saber se o Coringa votaria em Barack Obama. Mas conservador como a aristocracia de Gotham, potencial eleitora de John McCain, ele não é.

Que “aristocracia de Gotham”? Ele viu o filme? Ou será que está dizendo que Bruce Wayne votaria em McCain?

No início, a sugestão de uma possível afinidade entre o banditismo e a “audácia da esperança”. Depois, a oposição entre o bandido e o conservadorismo dos potenciais eleitores de McCain. Não é difícil escolher lados. Difícil é realmente equalizar as coisas assim. E eu pensava que minha antipatia a Obama era forte.

Por isso, neste ano de eleição presidencial nos EUA, em que os americanos se dividem entre a opção democrata e a manutenção do poder republicano, cada risada do vilão talha “The Dark Knight” (no original) como alegoria política. Aliás, a alegoria mais perturbadora de 2008, à altura de um filme de Costa-Gavras.

Alegoria do quê? Parece até que o autor da resenha acha que Coringa é Obama e, como Obama pode ser eleito, o Coringa será o novo líder do mundo livre. Se o texto não fosse tão confuso, seria o texto mais virulentamente direitista que já li.

E como o fato de o Coringa não ser “conservador” faz com que suas risadas sejam “alegorias políticas”?

Na verdade, tanto o Coringa quanto o Batman são conservadores. As “ideologias” dos personagens são nuances de conservadorismo. O Coringa acha que a natureza humana é má; ele só quer empurrá-la mais ainda para o mal. O Batman acha a mesma coisa, mas gostaria que o sistema policial e jurídico fosse suficiente para combater o mal; ele se ressente de ser necessário, em vez de querer ficar aumentando o Estado. Discutir mais nesse momento é estragar o filme para quem ainda não viu.

O filme expõe o risco que a anarquia, encarnada no Coringa, traz ao Leviatã decadente que Gotham virou, refém de tradições. A chegada de um inimigo cuja ambição é o caos causa uma instabilidade moral que os EUA só sentiram no 11 de Setembro de 2001, à mercê do medo.

“Refém de tradições” - que tradições? O filme começa justamente com um promotor que representa o renascimento moral de Gotham. Eu não diria que o filme trata de tradições, mas, se for preciso usar essa idéia, bem, é uma nova tradição que está surgindo na cidade.

Mais ainda, nas poucas cenas em que o filme transfere o foco da atenção para a população americana, ela não demonstra nenhuma “instabilidade moral” - exatamente o contrário.

É o caso de perguntar simplesmente: o autor da resenha viu o filme que resenhou? Porque isso está parecendo o velho dilema: “tenho que produzir mil caracteres sobre o filme, mas só tenho o release“.

Fronteiras da babaquice 1

Acho que compreendo o que sente o ateu convicto quando olha para o religioso ajoelhar-se dentro de seu templo. Deve ser a mesma coisa que eu sinto quando vejo alguém dando o mais vago sinal de encantamento com um político: um misto de tédio, cansaço e desprezo. Sei que apoiei o Clodovil há dois posts, e realmente me chama a atenção o fato de ele parecer o político mais dotado de princípios que hoje vive no Brasil; mas digo isso como quem faz, surpreso, uma simples constatação, não como quem enxerga uma nesga de esperança na vida política, o primeiro brilho na aurora de uma longa noite e outras breguices.

O meu ceticismo político é completo, absoluto, acachapante. Ele é sentido mesmo antes de ser pensado. É uma categoria fundamental da minha imaginação. Eu simplesmente não consigo conceber que alguém deseje concorrer a um cargo movido por espírito público, ou melhor, admito que isso é possível, mas não é provável, e muito menos verossímil. Sinto a mesma coisa em relação a todos os governantes, de todos os sistemas políticos, de todos os tempos. Pode até haver inocentes. Mas eu sinto como se eles é que tivessem de se justificar, não o contrário.

Aliás, basta-me ouvir a palavra pólis para começar a sentir náuseas. Mui lindo falar de como a vida política deve conduzir à virtude. Mas não há como fugir da nossa natureza decaída, decaidíssima: ambição razoável é um sistema jurídico que permita minimizar o mal que os governantes podem fazer aos governados. Na prática, isso vira fascismo. Não quero que governo nenhum promova a minha virtude. Isso é só uma precaução.

Admito que esse post é inspirado pela febre obamista. “A audácia da esperança” é um título que não apenas supera toda cafonice, lembrando um filme da Xuxa, como ainda apela para a vaidade. Lembro da frase evangélica adotada por João Paulo II que diz algo semelhante: “Não tenhais medo.” Confie. Espere. Agora, Obama vem fazer você se sentir audacioso por confiar nele, Obama. Não, pelo amor de Deus. É preciso ser muito idiota para cair nesse truque retórico. O Papa ao menos fazia um pedido direto, o que tinha, sob certo aspecto, até alguma humildade (porque obviamente você pode dizer que, humildade por humildade, ele continua sendo o Papa e você continua sendo um zé mané). Que você rejeite o Papa, a religião, vá lá. Agora, rejeitar o “não tenhais medo” evangélico e acreditar na “audácia da esperança” obamista é só uma prova inequívoca de que você nem é um cético, você é apenas um idiota vaidoso que vai se deixar seduzir pelo primeiro político que fizer você se sentir cheio das audácias.

Também me interessa um bocado o fenômeno da inaceitabilidade social do ceticismo político. Você pode declarar seu total ateísmo e ser uma pessoa maravilhosa. Você não pode declarar: “de antemão, eu não acredito em nenhum político, presente, passado, ou futuro, eu só acredito que devemos diminuir o poder da classe política o máximo que pudermos e nos esforçarmos para ser bons em nossa vida privada, e isso aí é o melhor que dá para fazer”. Percebo que algumas pessoas ficam escandalizadas ao ouvir isso da minha boca, exatamente como eu posso ficar ao ouvir uma blasfêmia ou uma imensa bobagem. Estou atacando suas crenças mais profundas. Suas idiotices mais profundas. Suas vaidades mais profundas - aquelas que fazem-nas pensar que são audaciosas ao votar ou colocar um adesivo no carro.

Ah, vão lamber sabão.

As coisas que Arnaldo Jabor não disse 0

Em duas partes, para o site do OrdemLivre.org. Discuto um e-mail bizarro que circula com o nome do cronista.

E esse texto de Alexandre Barros sobre o monopólio do petróleo está muito bom.

Clodovil para presidente já 3

Quando Clodovil foi eleito deputado, muita gente, “às direitas e às esquerdas” (como se diz em Portugal), disse que tinhamos chegado ao fundo do poço, que o povo brasileiro merecia ser varrido da face da terra por um novo dilúvio. (Claro que quem deseja um novo dilúvio purificador sempre acha que merece estar na arca de Noé, mas isso é outra história.)

Na época fiquei calado porque 1. na verdade não ligo muito para isso, 2. não consigo imaginar de que modo Clodovil seria tão pior assim, e 3. Clodovil sempre teve fama de conservador, admitindo que suas preferências sexuais eram apenas suas preferências e não uma ideologia ou uma cultura. Entre um deputado gay confortável o suficiente com sua opção (ou, na expressão comum, “que se garante”) para não querer prender quem manifestar desaprovação por ela e um deputado heterossexual que graciosamente se curva a um lobby histérico e totalitário, não tenho dúvida de quem é o melhor, nem de quem é mais homem.

Mas o que importa é a compreensão que Clodovil mostra da importância da liberdade. Não se pode criminalizar opiniões e antipatias, nem se pode interferir no uso da propriedade alheia. A discriminação decorre do direito de livre associação. Eu poderia empregar apenas pessoas com cabelo verde e piercing no nariz (daqueles que fazem a pessoa parecer um touro ou que parecem uma melequinha pequena e brilhante) se quisesse, e sem explicar por quê. Eu mesmo arcaria com os custos das minhas preferências.

(Aliás, uma sugestão. Quem gosta de lutar contra discriminações precisa derrubar o tabu definitivo: a feiúra. Duas mulheres concorrem para um cargo. Cabe a um homem escolher. Por que não criar a delegacia das mocréias, para que elas possam dizer que foram preteridas por sua baranguice e exigir compensações? Afinal, a sociedade poderia compensá-las por aquilo que a natureza não lhes proporcionou. Se um gay se sente discriminado porque a natureza não lhe proporcionou o desejo por gente do outro sexo e ele quer ostentar isso na forma de uma identidade, o raciocínio é idêntico. Podia também haver a parada do orgulho feio. Os feios têm de parar de ter vergonha. Nossa sociedade tem de incluir os feios. Por que só gente bonita em anúncios? É hora de as deficientes estéticas assumirem seu lugar entre as angels da Victoria’s Secret. Não gostam de separar absolutamente sexo de gênero? Pois então, a beleza também está nos olhos do observador. Vamos lá: como dizia Lúcifer Aleister Crowley, “todo mundo é uma estrela”.)

Só hoje eu fico sabendo da proposta de Clodovil para reduzir em 50% o número de deputados federais.

Ele lembra que, hoje, cerca de 20% dos deputados estão em campanha e que a Câmara funciona perfeitamente com menos da metade da atual composição, se houver realmente interesse de trabalhar.

Um deputado que propõe abertamente uma redução do Estado. Um deputado que não está questionando apenas a maneira como o Leviatã deve nadar, mas também seu peso. Quero mudar meu título para São Paulo para poder votar nele. Político por político, podem ficar com o Gabeira e sua mania de tasers. Meu candidato para qualquer cargo é o Clodovil.

Em que comento assuntos do dia 0

Mas não diretamente. Neste post, Janaína Leite mostra como a discussão da prisão de Daniel Dantas pode facilmente virar discussão de torcida ou de criança. “Você é chato”. “E você é chato é bobo”. “E você é chato e feio e bobo”. Dizer isso não é diferente de lançar uma definição arbitrária de “pessoas de bem”, como se “ser do bem” fosse estar do lado do Superior Tribunal Federal ou da Polícia Federal. Naturalmente, isso equivale a identificar um ou outro com “o bem”, o que é errado não porque essas instituições sejam “o mal”, mas porque nenhuma instituição humana merece ser identificada metafisica e aprioristicamente com “o bem”.

Isso é óbvio e nem merece ser desenvolvido. Janaína Leite, ao colocar no fim de seu diálogo a pergunta sobre ter visto os autos dos processos, também toca no problema de as pessoas se contentarem com o “ouvir falar”, ou, como prefere dizer um amigo, “folclore”. Quando eu dizia, no post anterior, que para ser autoridade em algum assunto bastava declarar essa autoridade, era a isso que eu aludia. Como, fora de certos e bons departamentos universitários, quase ninguém foi aos originais, toda opinião parece válida. E isso cria um outro problema: em vez de a vida intelectual extra-universitária organizar-se em torno de uma comunidade de leitores dentre os quais alguns tiveram idéias originais (certas ou erradas: é isso que será discutido), ela se organiza em torno de pessoas que leram os livros e contam às pessoas que não leram o que estava escrito. É por isso que eu costumo dizer, numa fórmula poética pessoal, que ainda vivemos como jesuítas e índios, os que leram e os que não leram.

E, se me permitem uma análise “macro” da nossa situação cultural, acho bom que hoje exista mais direita na imprensa do que havia há 10, 12 anos. A vida do direitista liberal e/ou conservador não é mais solitária (a vida do fascista light preocupado com a Amazônia, a lei e a ordem, que acha que a liberação das drogas será o colapso do Império Romano nunca foi solitária). Mas não basta ser contra a esquerda, ter uma postura negativa e destrutiva permanente. É preciso fazer algo positivo, e isso só é possível buscando a verdade e a virtude. Falar mal é muito fácil (é divertido também, admito). Falar mal ou bem, na medida justa, buscando resultados positivos, isso é muito difícil. Mas não se deixar seduzir pela própria indignação com “o mal” é um passo indispensável para alguma maturidade.

Em que acabo defendendo as universidades 0

Ontem, indo do metrô na Cinelândia à Sala Cecília Meireles ver o Alban Berg Quartett, com três amigos sem blog, vemos no chão da Rua do Passeio o que parece ser uma bala de fuzil.

Chegando à Sala, que ao menos estava cheia, observo o mesmo fenômeno de sempre: quase nenhum “jovem” (eu já tenho meus 31). Parece que em breve o público carioca de música erudita vai morrer. Nesta cidade, prevejo um futuro semelhante ao da poesia: assim como hoje apenas as pessoas que têm ambições literárias lêem versos, um dia só os estudiosos de música e instrumentistas irão a concertos. Só eu, que não sei a diferença entre um dó e um ré, continuarei sendo puro “público”, mero apreciador, o que dá até uma certa vontade de não aprender nada de música, só para manter essa condição.

Não se pode nem dizer que o problema é de dinheiro. A Sala Cecília Meireles é estatal, os preços dos ingressos são baixíssimos (ainda que, naturalmente, eu preferisse impostos baixíssimos e ingressos altos – assim eu saberia que o dono do bar da esquina não está sendo forçado a subsidiar minhas predileções). O concerto de ontem custou R$30. No ano passado, vi lá pelo mesmo preço um recital com Emma Kirkby que jamais esquecerei – até por não haver muito mais de 100 pessoas na platéia, ou nem isso. Só soube no dia, só comprei ingresso na hora e sentei na primeira fila.

Antes que alguém venha dizer que R$30 pode ser muito num país pobre etc, digo que as multidões que se dirigem para os bares da Lapa, as mesmas multidões que vão em sentido contrário ao meu quando saio da Sala, certamente vão gastar algum dinheiro.

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Se você for a uma livraria grande, como a Cultura ou a Travessa, vai encontrar livros brasileiros e importados à venda. Os livros importados freqüentemente serão mais baratos que os brasileiros, mesmo os lançamentos de capa dura, com frete incluso. Agora, quando vamos para o catálogo de clássicos, a diferença de preço é absurda. Você pode comprar uma edição Penguin a R$20, e uma edição Dover a menos de R$10. Tudo bem que são livros de capa molíssima com as páginas em papel jornal, livros que não vão durar tanto assim. Isso é o mais interessante. A Penguin e a Dover são empresas e precisam ter lucros. Se vendem livros baratos com materiais baratos, livros quase descartáveis, significa que as pessoas os compram. E se compram livros descartáveis, é porque pretendem usá-los e jogá-los fora. Isto é, pretendem lê-los.

Passando para as mesas de lançamentos de editoras nacionais, veremos livros produzidíssimos, com papel e capa ótimos, livros que são objetos para ser guardados, não para ser usados. Vejam bem, não estou criticando as editoras – se elas continuam no mercado vendendo livros assim, ótimo; se elas não oferecem livros “descartáveis” a preços bem menores, certamente é porque sabem não haver demanda. Há demanda por belos objetos que possam ser agregados à identidade, isto é, que possam dizer aos outros (e a você mesmo) que você é uma pessoa simultaneamente culta e cool. Nada contra isso, aliás – exceto o fato de que eu pessoalmente preferiria livros mais baratos.

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Uma das coisas que aprendi freqüentando um ambiente social muito diverso do meu, na Faculdade de Letras da UFRJ, é que existe entre os menos abastados, aqueles que foram alunos de escolas públicas por falta de opção, um mito bizarro em relação a nós, burguesinhos das escolas particulares.

Enquanto eu mesmo era tratado como freak por gostar de literatura (na escola, um dia meus amigos até me advertiram caridosamente que não pegava bem eu circular com livros na mão – isso é verídico), muitos de meus colegas da UFRJ julgam que meu interesse por poesia é uma conseqüência natural do poder aquisitivo dos meus pais, e que todos os adolescentes das escolas particulares comem Machado de Assis no café da manhã. E gostam.

Seria ingênuo e injusto da minha parte não admitir que estudar num “colégio particular de elite” provavelmente é muito melhor do que estudar na grande maioria das escolas públicas, mas de onde as pessoas tiram a idéia de que a elite econômica e a elite cultural se sobrepõem? Seria essa uma bela desculpa – “não tive oportunidades” – para justificar certos fracassos?

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Diversas vezes já falei de como é mais importante o Brasil sair de você do que você sair do Brasil; digo isso porque já gastei muita energia psicológica imaginando maneiras de simplesmente ir embora, atribuindo as minhas falhas intelectuais ao ambiente. Mas a verdade é que eu deveria tentar ser menos sensível ao ambiente e admitir que a minha vida pessoal, nos poucos quilômetros que freqüento na cidade, tirando essas balas de fuzil em que tropeço, é bastante agradável.

O que dá medo, então, é exatamente isso: mesmo que você se concentre nas coisas que pretende entender, corre o risco de, diante do nível médio baixo, acabar se achando melhor do que realmente é, de ficar satisfeito com o que é apenas medíocre. De ser seduzido por essa vida boa e leve, e chegar à mesma felicidade que teria um jesuíta no Brasil do século XVII que abandonasse suas obrigações: “sou mais culto que essa gente que anda pelada, e posso andar pelado também.”

Não quero fazer outra reclamação sobre o superficialismo brasileiro, ou reclamar que “brasileiro não lê”; até agora, estou apenas narrando e tentando interpretar alguns fatos. Nossa “elite cultural” é minúscula, e não vou fingir que não me incluo nela – nem que seja porque o nível médio é baixo demais. Além dos concertos e dos livros, isso é demonstrado pelo fato de que para se tornar autoridade em qualquer assunto no Brasil basta declarar essa autoridade. Isso só não vale para o meio acadêmico, em que as autoridades ao menos costumam ter uma grande erudição; mas, fora das universidades, basta dizer que você sabe javanês. Deus sabe o quanto desgosto do Ministério da Educação (sobretudo por seu monopólio), e do ensino obrigatório, e do fato de as linhas de pesquisa oficiais dos departamentos dificultarem enormemente os estudos; mas mesmo com todas essas limitações burocráticas, as universidades são o lugar onde menos há enganação no Brasil – porque há pessoas ouvindo que têm idéia do que você está dizendo.