Archive for junho, 2008

Bruno Tolentino e a literatura ocidental 2

Palestra apresentada no simpósio O enigma Bruno Tolentino, no IICS, em 21 de junho de 2008

Diante do título proposto pela organização do evento – “Bruno Tolentino e a literatura ocidental” – eu poderia agir como um filósofo escolástico e ao menos começar a explicar os sentidos possíveis de “literatura” e “ocidental”. Mas, para economizar nossas paciências, digo que entendo literatura simplesmente como “arte da palavra” e, por “ocidental”, ou “ocidente”, um certo conjunto de tradições. O objetivo, então, é tentar situar a obra de Bruno Tolentino dentro desse conjunto de tradições, usando as muitas indicações que seus poemas oferecem.

Minha idéia de tradição será emprestada de Otto Maria Carpeaux, por isso devo começar citando um trecho de seu ensaio “Tradições e tradicionalismos” (Ensaios Reunidos, vol 1, Topbooks):

A tradição só existe na consciência humana. Somente a consciência humana possui a liberdade de escolher, o que é indispensável ao verdadeiro tradicionalismo; uma liberdade sem a qual todo tradicionalismo (…) degenera em opressão inquisitorial. O falso tradicionalismo tenta sempre suplantar a consciência humana por uma escolha, feita uma vez por todas, para nos deixar viver dentro de uma cega fatalidade. É a morte do espírito. E, com o espírito, morre a faculdade crítica pela qual julgamos o caos e “chamamos as coisas pelos nomes” a fim de as reconhecer. A consciência humana, artificialmente cortada das experiências da verdadeira tradição, sucumbe, encerrada num “modernismo” individualista ou coletivista. Os critérios se perdem. Não há mais compreensão do verdadeiro ou do falso, do bem ou do mal. Então, os homens começam por si mesmos. Os seus feitos “desafiam toda a experiência”. “Maldita seja” – diz [o escritor alemão Achim von] Arnim – “a infâmia que começa por si mesma um novo mundo. O que é bom o foi eternamente.”

Selecionei esse trecho, talvez longo, porque serve a dois propósitos. Primeiro, afirma que a tradição diz respeito a uma opção livre da consciência humana por algo que é eternamente bom. Mas nossa vida neste mundo não é eterna: o “eternamente bom” só pode, na melhor das hipóteses, ser “persistentemente buscado”. As tradições se definem pelas estratégias de persistência na busca e pelas atitudes em relação a um problema sempiterno. Em vez de pensar em termos de características de estilo e gosto, que têm lá sua validade e nos permitem falar em arcadismo, barroco ou romantismo, podemos pensar em termos de questões e das atitudes tomadas em relação a elas. E, nesse momento, é importante lembrar que muitas questões podem ser fáceis de resolver no papel, mas bem difíceis de resolver na vida. É por isso que o apóstolo Paulo declara que “não faço esse bem que quero: mas o mal que aborreço, esse é que faço” (Romanos, 7, 15). Um exemplo banal e não religioso ilustra isso: você sabe que deveria se alimentar melhor e fazer exercícios, e todos os dias essa questão volta com a força de uma novidade. Ou, como diz a expressão vulgar, falar é fácil, fazer é que é difícil.

A questão que mais interessou a Bruno Tolentino, da qual ele tratou obsessivamente, abordando-a em poemas sobre amor, religião, pintura, filosofia, a própria poesia e outros temas, não é tão difícil de formular. Trata-se da efemeridade da beleza e de como isso nos apavora. Aliás, nos apavora tanto que preferimos fugir e abraçar belezas falsas que prometam a eternidade. Mais uma vez, isso pode ser explicado em termos muito banais. Não gostamos de admitir que vamos morrer, que nossos corpos sofrerão uma longa e humilhante decadência. Mesmo que a fotografia já seja eterna, maquiamos com Photoshop os “defeitos” de nossos corpos. Do ponto de vista do intelecto, essa recusa tem uma atitude análoga. Quando raciocinamos em busca da verdade, obrigatoriamente usamos conceitos e não coisas. Os conceitos vivem na mente, livres das intempéries da vida; uma idéia pode passar pela versão mais perfeita de um ente concreto. Porém, se os conceitos não são permanentemente comparados com os objetos a que se referem, você começa a raciocinar no vazio. Daí a começar a se preocupar com a humanidade e a desprezar o mendigo da sua esquina é um pulo.

Agora, é preciso observar que, mesmo que um conteúdo seja relativamente trivial e já tenha seu lugar consagrado entre os problemas perenes da humanidade, sua formulação pode estar tão banalizada que perdeu seu poder expressivo. Em seu livro A origem da linguagem, Eugen Rosenstock-Huessy fala da decadência da linguagem e dos efeitos que isso tem, mas nunca explica como a linguagem decai. Pois ela decai exatamente quando perdemos o mundo diante dos nossos olhos, porque passamos a usar as fórmulas inadvertidamente, e elas vão-se tornando caricaturais a ponto de já não conseguirem apontar mais a coisa a que se referiam originalmente. Em vez de estar associadas às coisas, as palavras começam a ficar mais associadas àqueles que costumam pronunciá-las.

Não é possível evitar esse processo. Não podemos, como um paciente de Alzheimer, ter de descobrir tudo de novo todos os dias. A necessidade do trabalho poético surge diante dessa decadência inevitável. As velhas verdades estão aí, “o que é bom o foi eternamente”, mas como expressar isso de um jeito novo, que não possa ser confundido com a convenção ultrapassada utilizada por um grupo com o qual não queremos ser confundidos? Como não oferecer apenas mais do mesmo?
Se o poeta conseguir responder com sucesso a essa questão, será considerado “difícil” por algum tempo, já que suas palavras não poderão ser facilmente digeridas ou confundidas com a moeda corrente da língua. Aqui eu proponho uma comparação entre Bruno Tolentino e Cecília Meireles: sem querer tirar desta seu lugar de primeira grandeza na poesia brasileira, Cecília Meireles também falou muito em “acabar-se”, mas não se colocou a questão de expressar o assunto de modo a chamar mais atenção para ele. O “acabar-se” era mais um dado que um problema; convinha apontá-lo, mas não questioná-lo, ver até onde era possível lutar contra ele, avaliar a percepção que outros artistas tiveram dele. Por isso Cecília Meireles é “fácil” e Bruno Tolentino é “difícil”: ele quer que você não fuja da urgência da questão.

Encerrando a digressão, existe um poema de W. H. Auden que resume parte da questão do sofrimento e que creio ter sido muito importante para Bruno Tolentino. Chama-se Musée des Beaux Arts (o título se refere ao nome de um museu em Bruxelas, por isso não devemos traduzi-lo simplesmente por “Museu de belas artes”) e fala de como sempre ignoramos o sofrimento, o qual sempre acontece em algum lugar para onde preferimos não olhar. O poema começa falando da atitude dos Old Masters, os pintores antigos (a expressão inglesa não significa simplesmente “mestres antigos”, mas “mestres antigos da pintura”), em relação ao sofrimento e termina com a menção explícita a um quadro, o “Ícaro”, de Brueghel, que mostra um barquinho e um rapaz que seguem placidamente suas vidas enquanto um garoto despenca do céu.


A queda de Ícaro, de Brueghel

Esse poema me leva ao segundo propósito daqueles dois que mencionei após a citação de Carpeaux. Se até agora falei do tema principal da obra de Bruno Tolentino, agora é preciso falar de como ele o abordou. A preocupação com um tema já começa a posicioná-lo numa certa tradição, mesmo que ela ainda não tenha nome, e a abordagem vai ajudar a delinear essa tradição diante dos nossos olhos.
A primeira pista é óbvia: o poema fala da pintura, e de fato Bruno Tolentino declarou que a questão da mortalidade lhe apareceu observando as representações da luz cadente em certos quadros. Não estou querendo dizer que a obra de Tolentino seja um longo comentário a este poema de Auden, até porque acredito que ele o tenha lido só depois de formular para si mesmo as questões que consideraria mais relevantes. Mas a coincidência ajuda: é nas pinturas medievais e na obra de Piero della Francesca que Tolentino situa o início de sua tradição. Como antagonista do diálogo entra o pintor Paolo Uccello, cujo A caçada está na capa de O mundo como Idéia. Foi com eles que Tolentino começou a conversar.

Pulando alguns séculos, Tolentino volta a encontrar referências no século XIX baudelairiano, onde estão as raízes de boa parte do modernismo mais vigoroso do século XX. E, apesar de suas discussões de e com pintores renascentistas, Plotino e a Antigüidade Clássica, foi de poetas desse mesmo século XX que Tolentino preferiu pegar emprestadas boa parte de suas imagens. Como estes poetas tiveram atitudes semelhantes diante do mesmo tema da mortalidade e da efemeridade da beleza, juntos eles formam uma confraria, uma tradição.

Três referências saltam imediatamente: Rilke, Yeats e Bonnefoy, o único cujos poemas não foram traduzidos por Tolentino. De Rilke, tomou emprestada a adaptação da estratégia de Rodin para a poesia. Assim como o escultor criava movimento e liberdade dentro da pedra, Rilke criava movimento e liberdade dentro da forma fixa. Quem nos ensina isso é o mesmo Carpeaux, que, ao comentar o poema “Torso arcaico de Apolo”, diz que não se trata de um soneto, mas de verso livre
(Ensaios Reunidos, vol 1). A aparência exterior é obviamente de um soneto, e portanto temos que dizer que, assim como sua Pantera, presa dentro da jaula, temos verso livre preso dentro da forma fixa, marcada pelas rimas e pela métrica. Uma breve comparação entre duas estrofes pode ilustrar perfeitamente a questão:

Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta…

Rainer Maria Rilke (tradução de Manuel Bandeira), Torso arcaico de Apolo

Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era. É tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.

Bruno Tolentino, In passim

De Yeats veio sobretudo o “tordo de Bizâncio”, na verdade um pássaro de ouro que aparece em poemas como “Byzantium” e “Sailing to Byzantium” e que, em seu “metal imutável”, “zomba das complexidades do barro e do sangue”. Esse pássaro é comparável à “Idéia” que aparece em poemas e ensaios de Yves Bonnefoy, sobretudo “Les Tombeaux de Ravenne”.

Não é possível concluir sem antes assinalar que essa explicitação de referências, esse diálogo absolutamente aberto com outros autores também tem a virtude de bater na “tradição modernista” que ocupa lugar importante na poesia brasileira desde 1922. Em seu centro estão duas idéias: a da contemporaneidade e a da originalidade. É preciso ser atualíssimo, autônomo enquanto brasileiro e autônomo em relação aos demais brasileiros. Naturalmente, há uma mentira no coração dessa proposta: não se pode ser tão atual sem ter o passado diante de si, nem é possível ser tão autônomo sem saber como são os outros, assim como não é possível para uma menina ser a única a usar uma determinada roupa numa festa sem saber, ou ao menos imaginar, o que as outras vão usar. Não é possível afirmar “sou único” sem afirmar “não sou vocês”. Com o desejo de ser contemporâneo e autônomo movendo a produção poética, é a questão da identidade que vai para o centro, e o único resultado possível é o fechamento de cada autor em si mesmo. Em vez de lidar com a questão de como ter sucesso em chamar a atenção ao falar de assuntos sempre relevantes, que são em número limitado, cada um quer mostrar que é novo e diferente.

Colocando um tema perene no centro de sua poesia, chamando para a conversa os interessados nesse mesmo assunto, Bruno Tolentino se insere numa tradição, aumentando um ponto num simpósio que se estende pelas eras. Quem preferir pode voltar-se para o próprio umbigo e, inspirado em sua própria figura, tentar reinventar a roda. Mas, como disse Achim von Arnim, “maldita seja a infâmia que começa por si mesma um novo mundo. O que é bom o foi eternamente.”

Um ano da morte de Bruno Tolentino 1

Ruas
Os deuses de hoje. Rio de Janeiro: Record, 1995

V

Quando a bênção de Deus todas as tardes cai
sobre os telhados e resvala entre as calçadas
e os paralelepípedos e de repente vai
se despejando como aquelas enxurradas
por bairros e barrancos, como uma queixa, um ai,
um soluço de amor, ó ruas alagadas
de eterno e de emoção, por entre aqueles nadas
que eu amei e guardastes, a sombra de meu pai
comigo pela mão, como o beijo de Deus,
anda também por vossos longos abandonos,
perfeitamente unida ao tempo como o sono
aos sonhos. E os instantes sem nome que eram meus,
revivificados pelo eco do que somos,
passam e somem como o Ângelus nos céus…

E mais “para que estudar?” 1

Continuando o post anterior, parece-me que a crença em uma realidade objetiva, ou em uma verdade que independa das minhas opiniões (ainda que essa verdade objetiva só possa ser apreendida subjetivamente), é mais importante do que a “busca desinteressada pela verdade”, porque toda busca está subordinada a algum interesse.

Por exemplo, o lema do IICS, “o que discutimos aqui não são temas comuns, mas o modo de levar uma vida justa”, sugere que a busca da verdade está subordinada à busca pela “vida justa”. Você quer levar uma “vida justa”, e para isso precisa saber como o universo funciona, porque a chance de levar uma “vida justa” por acaso é muito baixa. Do mesmo modo, sempre me chamou a atenção em textos antigos a ênfase do conhecimento enquanto posse de um ser humano concreto e não como construção que deva subsistir sem um sujeito cque estude. Isso não significa que esse aspecto era desprezado, e o simples fato de os antigos preservarem obras é prova suficiente. Mas, pela maneira como os textos se dirigem ao leitor, vê-se que os antigos sabiam que o conhecimento modifica o estudante, e se a modificação não for previamente desejada os resultados podem ser meio bizarros.

Já disse que, em minha tenaz rebeldia, percebi que paguei por todos os conhecimentos que “adquiri” com algumas idéias de que gostava, mas que me impediam de ver a tão famosa e badalada verdade, e isso vale até para verdades pequenas e relativas. Essas idéias de que gostamos são como apetrechos errados para uma expedição. Às vezes juntamos a com b e não gostamos do resultado, e começamos a tentar fingir que aquilo poderia ser diferente. Ou eu começo. A minha vida intelectual é uma vida de sucessivas resignações e interesses diversos. A única coisa que não mudou foi a minha crença de que as coisas são de um jeito, e é melhor não tentar fingir que elas são de outro.

***

Outro dia conversava com um amigo sobre essa questão do ensino de filosofia nas escolas, e perguntei a ele, partindo do pressuposto da obrigatoriedade, que espécie de filosofia poderia ser ensinada para adolescentes. Ele falou: “aquela que ensina a argumentar”. As Categorias de Aristóteles, o estudo sobre a interpretação… De fato, estudar isso ajuda você nas suas buscas. Juntar a com b também pode ser uma arte, e essa arte pode ser ensinada e aprendida (desde que você queira, é claro).

Um dos clichês do nosso tempo é o “pensamento crítico”, e ninguém nega que ele é unilateralmente crítico. Ser crítico significa ser contra Bush, o Papa e a TV Globo. Ok, trilateralmente. Mas não faria mal aprender a ser crítico de verdade, estimulando os adolescentes pela vaidade. “Ah, você se acha muito espertinho? Vou triturar suas idéias, seu moleque pretensioso.” O professor poderia ser um advogado do diabo, um boxeador da argumentação que conquistaria o respeito dos alunos. Mas algo me diz que isso só funcionaria no cinema.

De novo, para que estudar? 0

Leio o texto de Joel Pinheiro no blog da Dicta & Contradicta (aliás, em segundo lugar de vendas de não-ficção na Livraria Cultura!) sobre os problemas da universidade, que vem logo depois de um post que indica um texto de William Deresiewicz, ex-professor de Yale, criticando a educação das universidades da Ivy League.

Mas o que me chama a atenção é o seguinte: há anos eu teria lido algo como “a busca desinteressada pela verdade” e essas palavras teriam recebido meu total apoio. Eu logo reclamaria da instrumentalização do conhecimento, blá, blá, blá. Hoje não consigo mais pensar assim… baseado em minha própria experiência. E, se você pensar bem, a própria expressão “busca desinteressada” parece um oxímoro. Se não há interesse, por que há busca?

É justamente aí que paro. Eu tenho interesse; aliás, interesses. O interesse é uma motivação. Essa motivação preexistiu a todas as minhas “buscas pela verdade”. Sempre que estudo, estudo atrás de uma resposta específica, e percebo, ao mesmo tempo, que só consigo encontrar a resposta de que preciso quando abandono alguma idéia idiota da qual gosto bastante.

Gosto da idéia de que uma universidade seria composta de uma gigantesca biblioteca, cursos livres, tutores que já saibam quais são as idéias que costumam tapar esta ou aquela verdade, e a obrigação - uma contrapartida - de produzir algum texto explicando o que você queria saber e onde você chegou. A idéia de que a universidade deveria ser uma máquina de produção de elites (em qualquer sentido) acaba pressupondo que a busca intelectual vai ter que acontecer em outro lugar, ou apesar da máquina.

Se a educação formal é baseada em responder a perguntas que não foram feitas (na nunca exaurida frase de Neil Postman), então ela está me atrapalhando, porque eu estou fazendo as minhas perguntas e quero as minhas respostas. Essas perguntas, aliás, têm origens diversas. Não vêm só de coisas que eu penso, mas também de coisas que me acontece, ou de desejos que surgem. Para dizer a verdade, não apenas eu não sei de onde virão meus próximos interesses, como sei que posso passar meses sem ter interesse nenhum. Se você não quer saber nada, para que estudar?

Disso não decorre uma apologia da solidão. Mas depois eu explico o porquê.

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Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.

Vladimir Nabokov, Lolita (também em ótima tradução para o português).

Não só eu começo a visualizar Alizée recitando Augusto dos Anjos quando a ouço cantar diluvienne e méthylène, como também visualizo Nabokov admitindo: “Ah, eu só queria escrever Morte em Veneza pra macho.”

Ou talvez as analogias estejam erradas, é que eu não consigo passar do primeiro parágrafo - muito bem traduzido - de Lolita, e também só vi o começo do filme de Morte em Veneza.

Simpósio sobre Bruno Tolentino 0

Neste sábado, 21 de junho, acontece no IICS, em SP, um simpósio sobre Bruno Tolentino. O evento começa às 9h30, e eu falarei às 16h15.

O IICS fica na rua Maestro Cardim, 370. É a rua da Beneficência Portuguesa. A estação de metrô São Joaquim é muito próxima - e isso na opinião de um carioca (é que paulistas e cariocas têm noções muito diversas do que “perto” significa).

A obra do poeta Bruno Tolentino, falecido em junho de 2007, representa um dos maiores desafios para a crítica literária brasileira. Reconhecido em vida como um dos melhores escritores de sua geração, foi o único poeta a receber por três vezes o Prêmio Jabuti, publicou dez livros em três idiomas diferentes e suas análises apresentam um vasto campo para considerações de ordem formal, estética e filosófica. Ainda assim, a real dimensão de sua poesia precisa ser devidamente estudada.

Com isto em mente, o IICS (Instituto Internacional de Ciências Sociais), em conjunto com o Instituto Bruno Tolentino, responsável pela obra do autor, promoverão em junho de 2008 um Simpósio que abrirá o caminho para uma crítica séria e corajosa, interessada em começar a compreender qual foi o impacto desta poesia que, por enquanto, se apresenta como um enigma a ser decifrado.

Programação:

9h30 – 11h: “Uma visão geral da obra de Bruno Tolentino”

Palestrante: Érico Nogueira, poeta, mestre e doutorando em letras clássicas pela USP.

Debatedores: Carlos Felipe Moisés, poeta e crítico literário, autor de “Poesia e Utopia” e “Poesia e Realidade”.

José Rodrigo Rodriguez, poeta e escritor

Mediador: Manuel da Costa Pinto, jornalista, coordenador editorial do Instituto Moreira Salles e colunista da Folha de São Paulo.

11h10 – 12h30: O mundo como Idéia, ou: o ‘livro-arena’ de Bruno Tolentino”

Palestrante: Juliana Perez, doutora pela USP, professora de língua e literatura alemã na UFRJ.

Debatedores: Antônio Fernando Borges, escritor e jornalista, autor de “Brás, Quincas & Cia” e “Memorial de Buenos Aires”.

José Rodrigo Rodriguez, poeta e escritor

Mediador: Martim Vasques da Cunha, jornalista e coordenador do departamento de Humanidades do IICS.

12h30 – 14h30: Almoço

14h30 – 16h: “Bruno Tolentino e a literatura brasileira”

Palestrante: Jessé de Almeida Primo, crítico literário e autor do livro “A Linguagem da Poesia”.

Debatedores: José Jeremias de Oliveira Filho, poeta e professor doutor da Universidade de São Paulo.

Marcelo Consentino, mestre em filosofia pela Universidade Santa Croce, em Roma, e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP.

Mediador: Martim Vasques da Cunha, jornalista e coordenador do departamento de Humanidades do IICS.

16h15 – 18h: “Bruno Tolentino e a literatura ocidental”

Palestrante: Pedro Sette Câmara, poeta, tradutor e professor de Educação Clássica do Instituto Internacional de Ciências Sociais.

Debatedores: Nelson Ascher, poeta e tradutor, autor de “Poesia Alheia” e “Parte Alguma”.

Marcelo Consentino, mestre em filosofia pela Universidade Santa Croce, em Roma, e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP.

Mediador: Manuel da Costa Pinto, jornalista, coordenador editorial do Instituto Moreira Salles e colunista da Folha de São Paulo.

Identidade e salários 0

Dois textos para o Ordem Livre:

Sobre a KGB do esoterismo 2

Dom Lourenço Fleichman, em comentário de 13 de junho, explica o essencial sobre a possível influência de Rama Coomaraswamy sobre a Sociedade de São Pio X e o movimento tradicionalista católico. Eu mesmo pensava em escrever algo, mas ele, que tem fontes muito melhores do que as minhas, felizmente adiantou-se. Falta só fazer alguns acréscimos.

1. Se os membros da tariqat schuoniana acham perfeitamente normal ter um discurso duplo, por que acreditar em qualquer coisa que eles digam? Saber ou dizer a verdade não confere a ninguém autoridade, muito menos autoridade espiritual. Afinal, o diabo conhece todas as verdades.

2. Uma das ilusões mais comuns entre “defensores da verdade” é a idéia de que a verdade não pode servir ao mal. Mas, infelizmente, a pura conversibilidade entre o bom, o uno e o verdadeiro só se dá num plano metafísico. A acusação berrada serve ao escândalo e à desagregação. Se ela é verdadeira, deve ser tratada com mais discrição do que se for falsa.

3. Assim, um método simples para avaliar a credibilidade que se deve dar a uma afirmação como “a tariqat de Schuon manipula o tradicionalismo católico” é: quais os frutos que ela dará? Quem se beneficia da crença numa tese que dificilmente pode ser provada? A resposta é simples. A própria tariqat e todos os inimigos da Igreja Católica são os que mais se beneficiam das divisões entre os católicos.

Uma afirmação de “manipulação” diz respeito somente às vaidades. Você pode querer a verdade apenas por uma questão de segurança psicológica, para sentir-se no caminho certo e poder esfregar a “sã doutrina” na cara de quem você não gosta. Você quer ser católico tradicionalista para diferenciar-se da massa ignara que toca violão - e eu estou dizendo isso para admitir que já apreciei muito essa compensação psicológica. Assim, se você descobre que essas lindas verdades a que você se apega foram, em última instância, postas na sua cabeça por um mau-caráter de turbante, lá se vai a ilusão de autonomia e diferenciação que era a argamassa da sua psique.

Por isso, se eu fosse um católico “lefebvrista”, simplesmente perguntaria a mim mesmo: faz alguma diferença para mim saber se aquilo em que acredito veio de X ou Y? Ou será que no fundo tudo o que eu queria era alguma garantia psicológica de não estar sendo feito de idiota?

Agora, discutir qual “lado” é mais suscetível a uma ou outra influência faz tanto sentido quanto discutir se o Flamengo é melhor que o Fluminense (ou seja, nenhum). O que se quer dizer com isso? Que todas as pessoas que têm determinada idéia estão imunizadas contra certos tipos de influência? Ora, saber uma verdade não deixa você melhor. A piedade não é ideológica. Estamos todos sujeitos à idiotice o tempo todo. Não há solução para isso. A “sã doutrina” não é uma solução para isso. A única solução é estar atento e questionar o tempo inteiro não só as idéias, mas suas motivações para acreditar nelas.

A propósito: hoje eu me designo como um católico romano “filotradicionalista”. Vou à missa nova onde dá para ir, assisto à missa antiga permitida e ficaria felicíssimo com a reconciliação dos cristãos. Estou dizendo isso porque acho que a credibilidade de alguém para discutir religião publicamente depende da sua sinceridade a respeito de sua posição. Sinto horror da idéia de a religião separar amigos e impedir relacionamentos pessoais: tenho amigos muçulmanos, ateus, católicos tradicionalistas “lefebvristas”, ortodoxos, protestantes, judeus e acho que é justamente o fato de sermos inteiramente abertos a respeito de nossa opção religiosa que permite a amizade. Sabemos que não estamos tentando manipular uns aos outros e já conhecemos nossos pontos de discordância.

Filosofia e sociologia nas escolas 2

1. Não estou mais na escola, então, francamente, apenas dou graças a Deus por não ter de assistir a essas aulas.

2. Vocês já sabem que por mim o Ministério da Educação nem existiria. Não apenas sou contra ele em princípio como ainda acho até bonitinho que as pessoas não percebam que, na lógica do estado intervencionista, qualquer Ministério fica à mercê do lobby mais poderoso. Também é bonitinho que facilmente acusem empresários de usar o Estado a seu favor, acusação aliás freqüentemente verdadeira; mas e os beneficiários dessa geração de empregos, serão eles todos inocentes? Seja um contrato de milhões ou um emprego na casa das centenas ou milhar, o princípio é o mesmo.

E um esclarecimento: não sou a favor do ensino domiciliar porque acho ruim o currículo do Ministério da Educação. Nem sou contra o Ministério da Educação porque ele fala coisa que eu não gosto. Gosto de acreditar que eu escreveria contra o Ministério mesmo que ele propagasse as idéias que me agradam. Não sou contra este currículo oficial. Sou contra qualquer currículo oficial. Contra qualquer educação estatal, sobretudo a obrigatória.

3. Chega a ser comovente perceber como as pessoas esquecem a sua experiência escolar. No dia em que eu soube que nunca precisaria ter contato com a química orgânica, senti um alívio como jamais experimentei novamente. Esqueçamos os objetivos nominais da escola. A principal experiência que ela proporciona é a sensação de um nonsense institucional: você tem que aprender coisas pelas quais não tem o menor interesse, ouvir as respostas de perguntas que não fez nem faria, ditas por alguém que quase sempre também demonstra que preferia estar na praia, e o objetivo supremo disso é passar num exame para um curso universitário que você não sabe se quer fazer. Depois as pessoas ficam ressentidas, achando que essa parte da vida delas é uma mentira, e… elas têm toda razão. É um desperdício de tempo e dinheiro.

Se você não se lembra, também, permita-me recordar que a experiência escolar mais comum é não conseguir sequer ouvir o que o professor está dizendo, estudar na véspera e esquecer rigorosamente tudo no exato momento em que a prova termina.

O maior efeito negativo disso é “jogar a criança fora com a água do banho”: traumatizado pela escola, você pensa que toda a literatura é um lixo insuportável, toda a história é uma farsa ridícula, toda matemática é uma abstração inconseqüente e, no meu caso, que toda química é simplesmente algo de que você jamais quer ouvir falar novamente. Porque não. E não.

O mais comum é que você preserve os seus interesses intelectuais apesar da escola, não por causa dela. No meu caso particular, sei que devo muito a algumas professoras de literatura, mas são exceções tão fortes que suas aulas constituem as únicas memórias vívidas que ainda guardo de situações de ensino. De resto, só tenho lembranças de momentos passados com meus amigos. E é por causa deles, dos nossos pares, que recordamos o passado com algum carinho.

Incluir filosofia e sociologia no currículo só terá um único efeito: cansar um pouco mais a paciência dos alunos, ou, na maior parte dos casos, dar-lhes a oportunidade de tirar algumas notas boas fáceis, porque, enfim, você já viu uma faculdade de filosofia e sabe quem é que vai dar aula. Essas aulas podem até virar doutrinação, ou nascer como doutrinação, mas os alunos serão tão desinteressados por elas como são por todas as demais. É mais fácil estuprar uma pessoa do que obrigá-la a assimilar idéias (ao menos dispondo só de uma sala de aula cheia de bagunceiros) que ela nem consegue escutar.

Agora, pelo amor de Deus, parem de tratar os alunos como se fossem uma tábula rasa e passiva que olha reverencialmente para o professor. Se você, direitista, foi espertinho e está aí hoje todo pimpão, por que os outros também não podem ser, como dizem, “críticos”?

E está no ar… 0

o blog da Dicta&Contradicta.

O áudio de Bruno Tolentino recitando seus poemas está emocionante.

E quem estiver em SP não perca hoje o lançamento da revista! Veja uns posts aí abaixo.

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