25
mai 08

Aborto livre, sim, por favor



http://oindividuo.org/2008/05/25/aborto-livre-sim-por-favor/

20 comments

  1. As vezes tenho a impressão de que todos discutem a situação da mulher menos ela mesma…Minha opinião sobre o aborto é a seguinte: evite a gravidez indesejada a qualquer custo, porque depois vai “sobrar” só para a mulher, ou a responsabilidade de fazer um aborto, ou a de criar sozinha aquela criança que foi gerada.

  2. A questão do aborto, para mim, se resume a um ponto: quando começa a vida humana. Essa é a questão crucial. Não acredito, como a maior parte dos católicos, que ela comece já na concepção.

    Para boa parte dos países mais desenvolvidos e civilizados, isso ocoreria por volta das 12 semanas.

    Não sei exatamente os critérios utilizados para uma definição dessas, talvez formação do sitema nervoso do feto. A mim parece algo bastante razoável.

    Tendo então esta definição sido feita, as coisas se estabeleceriam dessa forma: até o tempo estabelecido pela ciência para o começo da vida humana, escolha da mulher. Após isso, obviamente tratar-se-á de assassinato e, sem dúvida alguma, sou favorável a que ela responda criminalmente por isso.

  3. Concordo com o que disse o Rafael. A questão toda se resume em definir a partir de quando existe a vida. À medida que a ciência avança e os mecanismos para monitorar os fetos vão se modernizando, novas descobertas vão sendo feitas. Hoje estamos em 12 semanas; no passado estivemos em outros patamares.

    O trecho sobre a hipocrisia vou deixar por conta da exaltação :-) , já que ninguém em sã consciência pode defender algo apenas porque todo mundo faz. Mesmo assim você reconheceu que não é um argumento sólido. Eu diria que não é um argumento, ponto.

    Nem toda objeção a um princípio científico estabelecido – ainda mais com princípios cuja observação não pode ser reproduzida – é de origem teológica. Na verdade, o que podemos ver hoje em dia são cientistas sendo calados através de manifestos, boicotes, cortes de verbas, etc. justamente por ousarem discutir esses princípios estabelecidos.

  4. Caro Claudio,

    Obrigado pelos comentários.

    Não, a observação da (transbordante) hipocrisia que existe em torno do assunto não entra por conta da exaltação; a hipocrisia entra pensadamente como argumento indireto que evidencia – ainda que circunstancialmente, é claro – a inconsistência da posição abortofóbica socialmente falando. Não se trata de apenas um cheap shot ad hominem genérico, bem mais do que isso, trata-se de uma observação sociológica de que o comportamento professado como correto não coincide nem um pouco com o efetivamente observado. Em qual dos dois devemos então acreditar? A contradição surge do fato de que não é socialmente aceitável em alguns círculos professar certos valores. Da mesma forma, existem muito mais ateus, ou homossexuais, ou pessoas usam cocaína regularmente do que se percebe em geral pelo simples fato de que existe uma enorme pressão social (no último caso uma coação violenta) contrária a tais fenômenos. É o argumento então que “se está todo mundo fazendo, deve ser bom”? Não, o mérito do assunto é discutido depois, como dito explicitamente. O argumento relacionado à hipocrisia é “se está todo mundo fazendo, então esse evidentemente não é um valor assim tão predominante, e se o discurso difere do comportamento, minha interpretação é que isso é explicado por uma fortíssima pressão alienígena empurrando as pessoas a proclamarem valores em que não acreditam de fato.”

    Quanto à atividade científica estar carregada de política e ideologia, não resta qualquer dúvida. Isso não desmonta automaticamente todo o imenso progresso de conhecimento que de fato se atingiu. O problema (por vezes altamente complexo) é conseguir distinguir as bobagens e modismos circunstancias das verdades mais sólidas que sobreviverão ao escrutínio e questionamento constante. Toda “verdade” científica é obrigatoriamente provisória ou seria um dogma e não ciência. Essa é a grande força da ciência – a capacidade de perceber que errou e descartar idéias que não funcionam por mais que gostaríamos que fossem verdade.

    Aliás, falando em ciência, na minha opinião, distinguir onde começa a vida ou o que é um ser humano não é exatamente um problema científico ou algo que será melhor esclarecido com o avanço da tecnologia. A ciência pode melhorar cada vez mais em medir coisas, mas continua cabendo a nós decidirmos o que deve ser medido para estabelecer que ali está um ser humano.

  5. Para evitar o aborto é simples: não abra as pernas.

  6. Citando comentário acima : “Para evitar o aborto é simples: não abra as pernas.”

    Certo… Depois não venham me dizer que a repressão ao aborto não tem nenhuma conexão com repressão à liberdade sexual… a condenação ao aborto tem MUITO a ver com “quem mandou transar” e pouco a ver com proteger vidas humanas… vidas humanas de glóbulos de células? Por favor, esse argumento de “vida potencial” é ridículo, nesse caso todos nós deveríamos transar ao máximo possível desprotegidamente para não desperdiçar as “vidas potenciais” que somos capazes de gerar. Isso tudo tem muito mais a ver com sexo, aliás, como grande parte das “questões” que preocupam a igreja católica. Existe uma obsessão óbvia com sexo, sempre cheia de desculpas e motivos pretensamente lindos e inquestionáveis, mas que na prática se expressa histericamente como perseguição, opressão, agressão (por vezes física) e tentativas concretas de tornar ilegal ou pelo menos inviável praticamente qualquer forma ou conseqüência de livre expressão sexual : masturbação, pornografia, homossexualismo, aborto, métodos anticoncepcionais, poligamia, sexo antes do casamento, sexo na adolescência, até mesmo pura e simples nudez… a lista não acaba… ora, até mesmo seus sacerdotes e freiras têm que fazer voto de “castidade”, como se a castidade fosse algum tipo de virtude moral. A capacidade de autocontrole pode sem dúvida ser encarada como uma virtude, imagino; seu exercício arbitrário e ritual sem atingir qualquer objetivo meritório, porém, é para mim apenas mórbida autoflagelação.

  7. Acho que minha contribuição não vale 5 centavos, mas cá está ela:
    http://eradogelo.blogspot.com/2008/05/aborto.html

  8. Sobre o link fornecido pelo Christian, acima :

    Não concordo com quase nada do que é dito no texto linkado, mas pelo menos se trata de uma contra-argumentação civilizada.

    Alguns argumentos, porém, são para mim muito fracos, como por exemplo, discutir se alguém que seja contra o aborto ser ilegal comeria ou não um feto. Isso não prova nada; eu também não comeria um cachorro e não acho que por isso então a vida de um cachorro seja tão valiosa quanto a de um ser humano.

    Mas a afirmação que eu mais considero importante questionar é que “o principal argumento” dos que defendem a legalidade do aborto seja o direito de controle da mãe sobre seu corpo. A forma como o aborto foi legalizado nos EUA foi completamente tortuosa, apelando para argumentos que concordo serem completamente falaciosos, como “o direito à privacidade”. Para mim, a legalidade do aborto não tem nada a ver com a privacidade. Para mim, a questão principal na discussão da legalidade do aborto – e eu coloco essa posição claramente em meu artigo – é decidir se um feto deve ou não ser considerado um ser humano para efeitos legais, e no caso afirmativo, a partir de quando. Ressalto mais uma vez que para mim essa não é uma questão científica, pois “humanidade” não é algo que se possa medir com um termômetro.

    Outra observação que eu gostaria de fazer é que são duas coisas completamente diferentes defender a legalidade de realizar abortos versus defender abortos. Isso deveria ser absolutamente claro e óbvio, e de fato não é difícil encontrar mulheres que *jamais* fariam um aborto mas que enxergam isso como uma decisão pessoal que não têm o direito de impor a mais ninguém.

    Contudo, assim como no questão de legalização das drogas, qualquer um que levante essa bandeira motivado por questões de princípio, empatia ou respeito à liberdade alheia é imediatamente confundido (inconscientemente ou como dispositivo retórico) com defensor incondicional e entusiástico da atividade em si. Como se quem acha que adultério não deva mesmo ser crime se tornasse então automaticamente entusiasta da infidelidade conjugal.

    Essas tentativas de impor uma visão particular de moral a força a toda uma sociedade são perniciosas e totalitárias. O poder de coação do governo é extremamente perigoso e não deve ser usado levianamente para proibir tudo aquilo de que não gostamos e muito menos ainda para forçar as pessoas a serem boazinhas segundo nossos critérios.

  9. “Não concordo com quase nada do que é dito no texto linkado, mas pelo menos se trata de uma contra-argumentação civilizada.”

    Não, isso não merece contra-argumentação. No máximo, um bom chiste ou uma surra de gato morto, interrompida apenas no primeiro miado do gato.

  10. Para alívio cômico, reproduzo acima o comentário seguinte do sujeito que acha que a solução para a questão do aborto é “não abrir as pernas”. Certo… provavelmente deve ser também a favor de legislação obrigando todas as moças em idade fértil a usarem cinto de castidade com chave depositada numa repartição pública e só liberada com exibição da certidão de casamento – e mesmo assim só para o marido.

    Segundo ele, a reação apropriada a opiniões das quais discorda é uma “surra de gato morto”. (Não dá pra não rir, pelo menos a criatividade está sendo estimulada.)

    Quem foi que disse certa vez que para determinar se um grupo é radical / fanático / perigoso ou não, olhar para seu grau de truculência é em geral bem mais informativo do que olhar para suas lindas idéias? É altamente irônico (e patético) que com freqüência os heróicos defensores de glóbulos de células humanas indefesas não demonstrem um décimo da civilidade ao lidarem com pessoas reais.

  11. Fernando Carneiro

    1) Um feto não é vida em potencial, nem ser humano em potencial; é vida humana em ato, e um adulto em potencial.

    2) O aborto é um ato bastante violento, veja fotos ou videos de abortos realizados. Você me parece bastante sensível às violências contra as mulheres impedidas de abortar – impedimento legal – e contra você – comentários incivilizados, mas bastante insensível à violência de um aborto.

    3) A posição religiosa é a mesma em relação a óvulos fecundados in vitro, caso em que não há a realização do ato sexual.

    Civilizadamente,

    Fernando

  12. Respondendo ao Fernando acima :

    1) Eu não concordo com essa afirmativa; certamente é algum tipo de vida, mas discordo que digamos com uma semana de gestação já mereça os mesmo direitos e privilégios de um ser humano pleno. Existem argumentos decentes tanto contra como a favor mas a meu ver os argumentos contra são mais fortes.

    2) Um ato ser violento ou mesmo grotesco não é argumento para torná-lo ilegal. Isso é um apelo à irracionalidade. Uma amputação de um membro ou uma operação de apendicite também são atos grotescos e profundamente violentos e poucos duvidam de que possam ser justificados. (Porém interessantemente até mesmo nesses casos esses poucos existem, alegando a inviolabilidade do corpo humano por quaisquer motivos que sejam.) O argumento de “isso é grotesco” é portanto para mim fraco. O argumento realmente importante continua sendo, a meu ver, defender que ali está uma pessoa – seria um ponto muito forte e relevante, mas eu não concordo que seja o caso. Ser esteticamente desagradável, por outro lado, seria irrelevante caso ali não estivesse uma pessoa. Se fosse assim teríamos por exemplo que fechar também todos os abatedouros (e mais uma vez também existem aqueles que defendem exatamente isso…)

    3) Bem observado, mas continuo defendendo que a motivação mais profunda para se criar tanta comoção em torno de algomerados de células tem muito mais a ver com teologia e controle psicológico do que com proteger “bebês” reais. Naturalmente que existem pessoas bem intencionadas e generosas no meio disso tudo, mas elas provavelmente gastam seu tempo tentando dar apoio a mães solteiras que resolver não abortar ao invés de perseguindo as que resolvem. (Não estou afirmando que você pertença especificamente a nenhum dos dois grupos, não tenho como saber.)

  13. Há três interesses em jogo. O da mãe abortista, o do feto que deseja nascer, e o do pai que normalmente é solenemente esquecido. Não vejo como seja possível deferir unicamente à mãe o direito de dizer quem tem e quem não tem o direito de viver. Que abuso. Enquanto é feto, e um prolongamento do corpo da mãe; depois que nasce, vira prolongamento do bolso do pai. Nunca vi nenhuma mulher querer abortar um filho do Ronaldinho ou do Mick Jagger…

  14. Quanto ao surrado argumento de “para evitar o aborto, não abra as pernas”: Sr. Daher, o senhor vive no mundo real? No mundo regido pelas leis da física, sobre o qual o senhor NÃO TEM nenhum poder? Porque é neste o mundo no qual homens e mulheres sexualmente ativos vivem.

    Para evitar um roubo, não tenha dinheiro. Ah, mas você quer ter dinheiro, não quer? A pessoa que engravida sem querer, seja ela a mulher casada e religiosa ou a mulher não-casada e não-religiosa não tem NENHUM CONTROLE ABSOLUTO sobre sua concepção. Por mais que exista a lógica relação causal entre sexo e procriação, todos sabemos (imagino que o senhor saiba, já que vive no mundo real) que essa relação causal NÃO PASSA PELA CABEÇA das pessoas que fazem sexo NO MOMENTO EM QUE ELAS FAZEM SEXO – não estamos falando especificamente dos casais que fazem sexo com o objetivo primordial de ter um filho, estamos falando da humanidade em geral.

    Se o senhor pretende que as pessoas sempre pensem no fator “gravidez” sempre que forem fazer sexo… boa sorte na empreitada. Aconselho esperar sentado.

  15. 3) A posição religiosa é a mesma em relação a óvulos fecundados in vitro, caso em que não há a realização do ato sexual.

    Neste caso, então, os religiosos têm que necessariamente ser contra a fertilização in vitro, já que para que um único bebê nasça por este processo, uma dezena de embriões é “fabricada” e depois descartada.
    Ou então, obrigatoriamente TODOS os embriões teriam que ser implantados e todos obrigatoriamente com sucesso, caso contrário a mãe teria que levar a termo uma gravidez de um bebê mostruoso ou ter um natimorto, apenas porque os embriões excessivos jamais poderiam ser descartados em hipótese alguma, já que são um ser humano a partir do primeiro minuto de fertilização.
    Sou contra o aborto, porque sou contra o sexo desprotegido, mas e quanto a esses embriões que não são fruto de irresponsabilidade? E quanto a essas células congeladas que ainda não são feto, são apenas um aglomerado de células menor que uma unha cortada, e mesmo assim querem fazer parecer que são gente e estão sendo injustiçados e maltratados dentro do vidrinho?
    E o aborto terapêutico é, a meu ver, uma necessidade. Mulher nenhuma deveria ser coagida a suportar uma gravidez de um feto defeituoso só porque alguém que ela nem conhece acha que ela tem que fazê-lo. Ele vai criar a criança defeituosa? Ele vai apoiar essa mãe quando o menino morrer, algumas horas depois do parto?
    Mas abortar fetos saudáveis só pelo direito à “privacidade” ou porque se esqueceu de usar camisinha, é ultrapassar os limites da responsabilidade.

  16. Comentando o Paulo acima :

    Essa é uma questão que é complexa. Supondo que o aborto seja permitido, será que o pai precisa aprová-lo? Parece razoável querer pensar que o pai também deveria ter alguma voz no assunto, mas por outro lado supondo que a mãe queira abortar e o pai não, cai-se novamente na posição meio indefensável de coagir a mãe a levar a gravidez adiante.

    Agora, de fato toda a questão de direitos de paternidade é atualmente muito falha. Muito poucos dispositivos existem em todos os passos do processo para proteger os legítimos direitos e interesses dos pais. Existe toda uma celeuma em torno de o pai ser forçado a assumir a paternidade e a responsabilidade civil por seus filhos, porém quase nenhuma atenção para o caso contrário – de pais que *querem* assumir tal responsabilidade e são impedidos pelas mães. Nos EUA, por exemplo, em grande parte dos lugares nem sequer é uma exigência legal que a mãe informe ao pai que ficou grávida ou que teve um filho dele!

    Existem histórias terríveis (não incomuns!) de mães que não querem cuidar de seus filhos mas decidem não abortar, então os colocam para adoção, o que em si eu já acho meio trágico, provavelmente mais trágico do que um aborto, mas a parte terrível vem a seguir : ao saber da situação, com freqüência é o caso de que o pai *quer* cuidar do próprio filho (um instinto muito natural, compreensível e nobre). Só que a mãe recusa-se a registrá-lo como pai ou a reverter sua decisão, então o pai tem que assistir desesperado ver seu filho ser entregue a estranhos para adoção. Os procedimentos legais para impedir que isso aconteça são convolutos ou inexistentes; a mãe tem basicamente poder absoluto sobre o assunto e uma vez oficializada a adoção (o que se dá rapidamente no caso de um recém-nascido) revertê-la fica quase impossível. Isso para mim é um buraco do tamanho de um trem na legislação.

    Existem outros, inclusive mais discutidos (envolvendo por exemplo custódia e sustento em caso de disputa), mas acho que esses exemplos já ilustram bem o ponto de que os direitos de paternidade estão de fato muito mal resolvidos.

  17. Complementando o Lauro acima :

    E mesmo no caso de pessoas absolutamente responsáveis e cuidadosas, que de fato param pra pensar em gravidez sempre que fazem sexo, como bem observado, no mundo real não temos controle absoluto da situação – métodos anticoncepcionais de fato por vezes falham. É completamente absurda a insinuação (altamente comum e abusada) de que todo aborto seja resultado de irresponsabilidade ou promiscuidade.

Leave a comment