Archive for janeiro, 2008

O brasileiro inverossímil 1

Entendo perfeitamente que, por questões de formato, não é justo comparar uma novela brasileira de 200 capítulos com 6 capítulos semanais com uma série dramática americana de 24 capítulos anuais exibidos ao longo de 8 meses. Mas, mesmo nos poucos programas brasileiros em que há uma proporção mais folgada entre prazo e produção, aparece o mesmo problema, problema que parece ser inerente a toda a dramaturgia brasileira de que consigo me lembrar: os personagens nunca são lá muito inteligentes. São, na melhor das hipóteses, pessoas de inteligência mediana o suficiente para não ofender os mais burrinhos nem repugnar muito aqueles que pararam de ler Arnaldo Jabor logo depois que o primeiro dente nasceu.

Claro, você pode dizer, provavelmente com razão, que o público brasileiro associa a inteligência à maldade, à manipulação; afinal, se tudo o que se concebe é alguma espécie de vantagem pessoal, algum modo de se aproveitar de todas as situações, para que alguém usaria sua inteligência senão para fazer isso, senão para submeter um protagonista tão imbecil quanto bondoso e simpático a uma série de infortúnios e ser derrotado no final apenas porque o bem sempre vence?

E eu teria a dizer a mesma coisa que digo sempre, e que é a razão pela qual sou liberal (há uns saltos aqui, eu sei; mas você pode me acompanhar): tenho vontade de dar marretadas nas atitudes condescendentes que nascem do pressuposto de que “o público”, “os outros” são inevitavelmente assim ou assado, como se apenas quem fala do público tivesse alguma liberdade, e o público fosse um objeto inerme, governado por mecanismos que ignora, absolutamente incapaz de fazer qualquer coisa além de tentar morder a cenoura pendurada à sua frente. Se produtores e roteiristas não apresentam espetáculos com personagens brasileiros inteligentes, isso acontece porque eles simplesmente não querem.

Ou então a idéia de um brasileiro realmente inteligente, articulado e suficientemente bom nunca lhes ocorreu porque está muito além de suas categorias. Daí só ficamos com duas hipóteses: ou eles têm uma séria deficiência imaginária, ou a idéia de um brasileiro realmente inteligente, articulado e suficientemente bom é por si mesma inverossímil.

Só restaria, então, apelar para Aristóteles, mas não o da Poética: não é verossímil que tudo aconteça sempre de maneira verossímil.

Culinária, modelo para as artes 0

Há séculos a geometria é um modelo para as ciências por causa do grau de certeza que suas premissas e conclusões oferecem. No terreno das artes, porém, nunca houve um modelo consensual; o mais comum é que o músico ache que a música é a arte superior, o poeta ache que é a poesia etc. Excetuando, é claro, W.H. Auden, que era poeta e julgava que a escritura de romances era a verdadeira arte superior.

No entanto, creio que há boas razões para que a culinária assuma seu devido lugar de modelo das artes, e não estou sendo engraçadinho ao dizer isso.

Primeiro devo explicar que não possuo nenhum preconceito romântico: acredito que tudo o que pode ser produzido, de poemas a sapatos, pode ser produzido com ou sem arte. Arte não é um objeto, mas uma qualidade do fazer. Outra coisa é areté, a palavra grega de difícil tradução que deu “arte” em português, mas que pode significar algo como “superação”, “ousadia” ou “virtude”. Digamos que a areté esteja um grau acima da arte: esta representa o domínio do bom método para a produção de um artefato qualquer, e aquela a superação surpreendente desse método, com efeitos mais fortes, recuperando o espanto inicial que toma a consciência quando ela vê diretamente, e não mais através das lentes da convenção estabelecida, um objeto novo. Por isso, a areté está para a arte assim como uma nova descoberta está para a ciência. O novo de hoje é o conhecimento estabelecido de amanhã. A areté de hoje é a arte de amanhã – um dia, Ésquilo foi extremamente ousado e colocou mais de um ator no palco. Daí, também, que a areté só exista perante o quadro de possibilidades artísticas conhecidas; ou, em linguagem mais simples, não é possível superar as regras se você nem as conhece.

Isso pode ser facilmente verificado pelas obras ruins: a tentativa de areté sem arte sempre resulta em algo simplesmente ruim, mas a arte sem areté é sempre mais tolerável. Maus poemas costumam ser pueris e confusos porque o “poeta” ignora o material com que trabalha. Antigamente, quando havia menos crença no inspiracionismo, a má poesia era ruim porque era excessivamente convencional e repetitiva. Hoje é o excesso de (tentativa de) originalidade que cansa. Um excesso, aliás, que já superou o paroxismo: se cada obra pretende reinventar a poesia, a linguagem, então precisamos reinventar todas as nossas categorias para apreciar cada uma delas. Só que recriamos nossas categorias apenas umas poucas vezes na vida, e os poucos artistas que conseguiram convencer sua platéia a fazer isso não apenas deram boas razões para tanto trabalho (normalmente, perceberam que as convenções da época tinham-se esgotado, e ofereceram uma nova articulação) como ainda conseguiram motivar a platéia a realizá-lo.

Daí que eu proponha a culinária como modelo para as artes. A experiência de uma boa refeição é suficientemente universal para que todos percebam que nela o prazer (a motivação) é necessário. Um grau acima, muitas pessoas podem perceber que há um elemento intelectual em qualquer alimento bem preparado, porque tudo o que é bem-feito tem apelo perante o intelecto. Como o homem é o animal racional, só aquilo que também é intelectual é plenamente humano. (Se você acha que estou falando da “razão cartesiana”, bem, azar.) Mas é o prazer na alimentação que motiva o intelecto, pois é o prazer no contato com a obra de arte que nos faz querer conhecê-la melhor – e ela, para ser mais perfeita, deve oferecer algo também ao intelecto.

Mais ainda, é mais fácil e menos demorado saber se você gosta ou não gosta de um alimento do que de uma música, de um quadro ou de um poema. Pode haver muita controvérsia a respeito da qualidade de uma música, de um quadro ou de um poema, e muitos preconceitos de gosto (isto é, puramente subjetivos) podem se imiscuir em sua análise. Mas, em questões de alimentação, a consciência daquilo que é apenas um gosto é aguda o suficiente para não produzir a rejeição intelectual de certos alimentos. Detesto feijão e sei claramente que isso me desqualifica para avaliar feijoadas. Detesto Walt Whitman e não consigo ter tanta certeza de que o problema é só meu.

A produção de uma obra de arte culinária também é suficientemente complexa para servir de modelo. É preciso conhecer muito bem os materiais e as ferramentas. É preciso às vezes ser lento, outras vezes ser rápido, e é sempre necessário ser preciso para atingir o efeito desejado. E é bonito saber que um apreciador habilidoso consegue reconhecer num alimento pronto não apenas os ingredientes mas todos os processos a que eles foram submetidos – uma crítica perfeita da obra de arte. Conhecendo os processos habituais, as possibilidades estabelecidas, o bom crítico saberia até reconhecer a presença de areté na obra de arte culinária que experimenta.

Outro evidente benefício da comparação com a culinária está na diminuição das vezes em que a platéia é sujeitada a experimentos. É muito comum, nas artes plásticas, no cinema, na música, no teatro e na literatura que se justifique alguma obra dizendo que ela é “um experimento”, sem dizer se ele deu certo ou não. Na culinária, nenhum artista-cozinheiro submeteria a sua platéia a uma obra que fosse apenas “um experimento”, sem que houvesse alguma certeza de que ele teve sucesso. E você pode até dizer que isso acontece, que há restaurantes bizarros em que esquisitices são servidas, mas aí eu não poderia fazer nada além de responder: e quantas galerias, quantas editoras sentem-se plenamente à vontade para dar ao público quase qualquer coisa que sua própria vaidade exija?

Por último, o mais interessante dessa comparação é ainda outra coisa: é evidente que, assim como quem possui uma determinada dieta alimentar sofre os efeitos dela em seu corpo e em sua vida – não estou falando só de engordar ou emagrecer; os alimentos têm inúmeros efeitos, como o café causar ansiedade em certas pessoas, o álcool retirar inibições etc – , quem possui uma determinada dieta de obras de arte também sentirá seus efeitos na alma e, numa certa medida, até mesmo em seu corpo. Com isso não estou propondo a criação de uma Food and Drug Administration das obras de arte, uma censura; mas também não posso ser tolo de acreditar que livros e músicas não têm efeito nenhum.

Seria igualmente interessante fazer analogias entre os preconceitos sociais relacionados aos hábitos alimentares e os preconceitos relacionados aos hábitos de consumo artísticos. Comer muito e desordenadamente é um vício; ler muito e desordenadamente não é? Aquele que se preocupa demais com a alimentação e evita obstinadamente alimentos de prazer mais imediato (como o chocolate) não pode ser comparado ao leitor que gosta de se vangloriar de desprezar a frivolidade?

Duas entrevistas de Tom Stoppard 0

No programa de um sujeito chamado Charlie Rose.

O vídeo tem uma hora, e os primeiros 30 minutos são com Tom Stoppard.

Esta entrevista aconteceu quando sua peça The Invention of Love estava sendo montada na Broadway. A peça fala de A. E. Housman, poeta e latinista inglês e está cheia de discussões filológicas. Mas, como sabemos, ser “difícil” é a coisa mais democrática que existe. Condescendência é tirania.

Das peças de Stoppard que li (nunca vi nenhuma), é a minha favorita.

Aqui Tom Stoppard só aparece aos 19m35s, mas é a melhor entrevista. Sugestão: deixe o YouTube ir carregando o vídeo até o final e depois pule até a parte que interessa. Foi o que eu fiz.

Stoppard fala mais de sua então mais recente produção encenada em NY, The Coast of Utopia. Talvez os leitores já tenham reparado que pus, há um bom tempo, um link para o site da peça aí na barra. Também traduzi dois trechos da trilogia - a qual, aliás, está à venda na Livraia Cultura: Voyage, Shipwreck, Salvage.

E se você ficar tão vidrado no assunto dos revolucionários russos quanto eu fiquei, certamente vai querer isto - o livro que inspirou Tom Stoppard.

Acho que as coisas estão melhores 0

Um livro que perdi, uma excelente coletânea de textos sobre a história da comunicação, terminava com o registro de um interessante dialogo entre Neil Postman e Camille Paglia. Nele, Postman reclamava de Susan Sontag, que teria dito que não sabia como George Bush (pai) tinha ganhado as eleições, já que ela não conhecia ninguém que tivesse votado nele. O problema, é óbvio, é ela esquecer da existência de pessoas absolutamente diferentes, com opiniões totalmente diferentes, e sempre há esse risco em ambientes homogêneos, seja o Upper East Side de Manhattan (onde, nas imortais palavras de um amigo, “tem lugares em que não só tudo é permitido como tudo é obrigatório”) ou uma congregação religiosa conservadora.

Tenho a mesma sensação de Postman sempre que vejo alguém falando do famoso vazio deixado pelo fim das ideologias – isto é, da sensação de “e agora?” deixada pela queda do Muro de Berlim e do fim da URSS. Jamais, em toda a minha vida, mesmos nos momentos mais idiotas da minha adolescência, senti o tal do vazio deixado pelo fim das ideologias. Francamente, não estou nem aí. Se você era socialista, acha que o sonho acabou e se sente hoje oprimido pelo neoliberalismo, eu só posso dizer “então tá, valeu” e voltar a fazer o que estava fazendo. Ou melhor: ainda que eu tenha sérias reservas quanto ao fim da aposta marxista-leninista, na verdade acho que, simbolicamente, a queda do Muro e o fim da URSS são belos eventos.

O problema é, como no caso de Susan Sontag, você projetar a sua experiência pessoal para o cosmos. O fato de você sentir – e eu não duvido da sinceridade do seu sentimento nem por um segundo – o vazio deixado pelo fim das ideologias não faz dessa sensação a experiência comum da humanidade, e muito menos uma experiência obrigatória. Nada mais vulgar, aliás – vulgar sim, no pior sentido da palavra – , do que ficar se lamentando porque o resto da humanidade não partilha das suas opiniões e gostos. E, como é próprio dos socialistas, nada mais totalitário.

Mas, retomando o que eu falei antes, o totalitarismo da universalização da própria experiência não é exclusivo dos socialistas. Certamente algum leitor terá observado que a minha própria invectiva anti-socialista poderia também ser chamada totalitária, por sua generalização. O fato é que, para quem está acostumado a universalizar a própria experiência, a simples existência de pessoas inteiramente contrárias a ela parece uma terrível ameaça.

Não estou tentando fazer psicologia barata, mas tentando explicar um pouco da constante estupefação da esquerda – no sentido mais amplo possível, de membros do PSTU a simpatizantes de Hillary Clinton – com o crescimento da direita, também em sentido amplo. Por anos a esquerda acostumou-se a uma certa hegemonia e a lamentar o vazio deixado pelo fim das ideologias. Agora precisa acostumar-se com a existência de quem a conteste, e de quem a conteste integralmente, sem dar as cartas como dava antes.

É por isso que eu acho que em 2008 as coisas são melhores do que eram em 1998. Há 10 anos só havia um lado, e hoje há dois, e os dois abrigam muita variedade. Eu sei que um simpatizante do PSTU é diferente de um simpatizante do PSDB, e até as inteligências mais unicelulares da esquerda já parecem entender que existem liberais como eu, defensores em princípio de um estado mínimo, e moralistas que não hesitariam em usar a máquina estatal para defender os bons costumes. Se você acredita que a cultura tem uma certa preeminência, não tem como deixar de observar que as coisas vêm lentamente melhorando, e essa melhora não parece que vai diminuir – ainda mais porque, ao contrário da esquerda, a direita gosta de se vangloriar de ter sucesso pelo esforço pessoal, sem reclamar da falta de subsídios do governo.

Premissas & guerra cultural 0

Quando digo que há duas posições políticas básicas - ou você é a favor de o governo resolver um assunto, ou é a favor de indivíduos privados resolverem espontaneamente - sei perfeitamente que descarto a doutrina marxista da luta de classes. Estou trocando de categorias. E é exatamente isso que pretendo fazer. Sei bem, como já dei a entender em vários domingos com poesia (que voltarão, lembrem), que é importante entender as coisas também a partir daquilo que elas não são.

Também sei que um marxista pode simplesmente dizer que a minha postura não passa de superestrutura ideológica, de um condicionamento de classe. E sei que um debate entre nós é impossível até que encontremos alguma premissa em comum.

Em termos de guerra cultural, isso é totalmente irrelevante. O que interessa é conseguir jogar o máximo de premissas no senso comum. As idéias correntes não são superadas, mas simplesmente substituídas. Certamente há muitas premissas marxistas no senso comum, como a idéia de que os objetos produzidos têm alguma espécie de valor objetivo, quando na verdade seu valor é puramente subjetivo, isto é, determinado pelo mercado, que nada mais é que a soma das escolhas livres das pessoas. Por outro lado, um nome como “social-democracia” já parece dar a entender o meio do caminho entre um estado grande e um estado pequeno, isto é, um meio-termo entre as posições de deixar a solução dos problemas a cargo de indivíduos privados ou do governo. Não há um pressuposto de luta de classes nele.

Pessoalmente, acho que é muito mais proveitoso, neste momento, afirmar e reafirmar os valores positivos em que se acredita. Se você simplesmente reagir aos atos e discursos da esquerda, você será o tempo todo pautado pela esquerda. Eu não quero que a minha vida seja pautada pela esquerda: prefiro eu mesmo pautá-la. Por isso continuarei reafirmando minha crença na liberdade humana, alienando propositalmente o marxismo e chamando seus adeptos daquilo que são: nada mais do que pessoas que querem mandar na minha vida.

Lei Rouanet, meia-entrada e o Leviatã de Médici 0

Os produtores já têm o seu garantido pela Lei Rouanet. Os estudantes e idosos (e mais uns quantos grupos) pagam meia. E o Leviatã ainda sai de benevolente patrono das artes.

Esse é um artigo que eu gostaria de ter escrito.

Por que uns lêem prosa e outros lêem poesia 1

Eu acho a Copa de Literatura Brasileira uma idéia muito divertida. E honesta. Artigos assinados, parciais e sinceros. Cousa muito melhor que a voz majestática do academicismo. Mostre-me alguém que habitualmente escreve “hoje sabe-se”, “hoje pensa-se” e eu apontarei um idiota. Idiota e totalitário: gosta de dar a entender que o que ele pensa é a expressão de um suposto pensamento geral. Mas tergiverso (tergiversar significa “mudar de assunto”; já li mais de uma vez a palavra com sentido de “ficar falando”). Vamos ao que quero dizer.

A Copa de Literatura Brasileira me incomoda um tanto por causa de seu nome. Ela diz que é de “literatura”, mas só tem ficção. Não tem poesia. Já eu incomodaria a Copa pela razão oposta: em 99% das vezes que digo “literatura”, quero dizer “poesia” ou “qualquer coisa escrita em verso”. Agora começam as eliminatórias e não há um único livro de poesia na lista. Entendo que não seria bom fazer “partidas” entre livros de ficção e de poesia. Mas também não acho bom chamar a Copa de Ficção de “Copa de Literatura”.

O que, admito, é quase só um problema pessoal. Eu é que não nasci para ler prosa de ficção. Em 2007 tentei ler The Brooklyn Follies, de Paul Auster. Não consegui chegar à metade, por puro desinteresse. Comecei a ler Middlemarch, de George Eliot. Pareceu-me uma obra escrita pelo ser humano mais inteligente que jamais viveu. Mas isso não me impediu de adquirir os DVDs com a minissérie feita pela BBC e só assistir a ela. Agora estou lendo um outro livro de ficção, de George Orwell. É muito divertido. Mas só leio antes de dormir. Para relaxar e dormir.

Na minha curta vida de leitor de prosa, poucos romances me marcaram. Certamente Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, de Machado de Assis. Brás, Quincas & Cia, de Antonio Fernando Borges, capturou perfeitamente meu estado de espírito naqueles primeiros dias do governo de Lula. Sei que um dia vou ler Middlemarch com a devida atenção. Um dia, quando eu tiver férias totais, em 2078. O único autor em que fiquei um tanto viciado foi Philip Roth. Não sei avaliar a qualidade das obras, mas aquilo realmente capturou minha atenção.

Gosto de provocar meus amigos leitores de prosa dizendo que o filme é sempre melhor do que o livro, porque o livro tem um monte de descrições que no filme podem simplesmente ser vistas, o que dá ao cinema a vantagem no quesito economia. Claro que é um argumento furado, porque há uma comparação entre duas espécies diferentes. Mas é muito divertido implicar.

Chego a suspeitar que há, em tipos extremos como eu, quase um puro leitor de poesia e teatro, alguns traços realmente distintivos. Os leitores sérios de poesia gostam de “executar” o que lêem, de reler várias vezes o mesmo verso até acreditar que ele está soando bem; o livro é apenas o suporte material, uma partitura e nada mais. Há um bom tempo não leio alguns de meus poemas favoritos porque me lembro deles inteiros e recito-os para mim mesmo. Já os leitores de prosa, prendem-se ao ato da leitura, e até fetichizam-no um pouco (ou muito). Isso é possível porque ler poesia é muito extenuante: acho que ninguém agüenta ler a melhor poesia por mais de uma ou duas horas. Não é possível sentar e ler três cantos inteiros dos Lusíadas (se clicar para comprar, leve esta edição da Porto Editora; não seja bobo de comprar uma edição mais barata e sem notas) e realmente aproveitar a experiência. Mas é possível ler prosa durante muitas horas ininterruptas com um grau até crescente de felicidade, ficando cada vez mais absorvido. O leitor de poesia é um corredor de 100 metros rasos; o leitor de prosa é um maratonista.

Tenho uma explicação muito pessoal para este fenômeno. Talvez haja algum estudo que a comprove - não tenho idéia. O que acontece é que a linguagem é feita de seqüências usuais, chamadas em inglês de collocations. Não são exatamente clichês, como “soco no estômago”, mas até compreendem os clichês. São apenas grupos de palavras que costumam aparecer juntas. Vou dar um exemplo usando o primeiro parágrafo da tradução (que me parece esplêndida) de Berenice Xavier para o capítulo CXXXII de Moby Dick. As seqüências usuais estão negritadas:

Um dia claro, um azul de aço. Os firmamentos do ar e do mar quase se confundiam nesse azul que tudo invadia; porém o ar pensativo, de uma transparência pura e suave, tinha olhar de mulher, ao passo que o mar robusto e viril se erguia em grandes ondas, fortes, prolongadas, como o peito de Sansão adormecido.

Das seqüências negritadas, “o ar pensativo” é uma subversão: quando dizemos que alguém tem “o ar pensativo”, falamos de sua aparência. Mas vale a seqüência. A primeira, a banalíssima “um dia claro”, é logo subvertida pelo belíssimo “um azul de aço”. “Ao passo que” é muito comum e eu não consegui imaginar um único bom poema que a fosse incluir. E dizer que o mar se erguia em “grandes ondas” não é exatamente uma novidade. Mas isso não piora em nada o trecho. O que quero dizer é que a boa prosa encontra um equilíbrio entre essas seqüências usuais e as seqüências não-usuais, e é isso que garante a fluência e a suavidade da leitura.

Por quê? Bem, se você aprende uma língua estrangeira e começa a olhar para a sua própria, percebe que certas palavras andam sempre juntas e são sempre processadas juntas. Já foram processadas tantas vezes que você nem precisa mais pensar para entendê-las; são expressões que já se tornaram quase instintivas. Se um texto fosse composto só delas, você teria a impressão de que não leu absolutamente nada. Se um texto fosse composto de uma proporção desprezível delas, sua leitura seria mais árdua, porque haveria muito a conhecer e pouco a reconhecer. Adaptando os termos de Shannon e Weaver, haveria muita informação (tudo aquilo que você não sabe) e pouca redundância (tudo aquilo que você já sabe).

Porém, a leitura de um poema gera de antemão a expectativa de não haver nada ali que seja banal. O poema precisa ser claro e ao mesmo tempo apelar muito menos para as seqüências usuais que compõem o uso mais corriqueiro da linguagem. Isso não tem nada a ver com o tom ou registro do discurso, só mesmo com as palavras usadas. Essa expectativa já orienta a nossa opinião de uma obra em verso (você espera ser surpreendido) ou de uma obra em prosa (você espera ser menos surpreendido).

Nesse momento surge a tentação de dizer que o verso é mais artificial do que a prosa, que a prosa é mais próxima da fala. Mas quem tem ouvido treinado sabe que muitas vezes, espontaneamente, ocorrem versos perfeitamente metrificados na fala. Além disso, a ocorrência de obras em verso é muito anterior à de obras de prosa de ficção. Só é razoável dizer que a prosa é mais próxima da fala corriqueira na medida em que tende a ter um número maior de seqüências usuais - o que, aliás, cria um enorme problema de tradução. Acho que, sempre que possível, uma seqüência usual deve ser traduzida por outra equivalente. Mas como ler um texto antigo e saber o que é uma seqüência usual e o que não é? Seria preciso um imenso e custoso trabalho filológico, o que raramente será viável.

Enfim: ao selecionar um texto em verso ou em prosa temos expectativas muito diversas. Nos extremos, uma expectativa se torna um hábito e você se torna um puro leitor de prosa ou poesia. Como eu, que posso me interessar por ler praticamente qualquer poema só para ver como ele é, mas provavelmente só vou começar a ler um romance se tiver um interesse prévio pelo assunto, e isso se o romance não for muito longo. Talvez seja possível até encontrar tipos psicológicos diferentes entre esses leitores: os de prosa querem as coisas aos poucos, e os de poesia querem tudo de uma vez.

A nova Atlântico 1

Atlântico - Janeiro de 2008

Saiu a nova Atlântico. A partir deste número começo a colaborar com a seção “Correspondentes de Guerra”. Devo admitir que o convite me deixou muito feliz: a revista é talvez a única em nosso idioma que leio do início ao fim com interesse. Infelizmente, para lê-la, é preciso estar em Portugal. Se houver aí algum importador de revistas, por favor…

Devo dizer também que durante o meu recesso pessoal de fim de ano uma das coisas que mais fiz foi ler todas as matérias que, justamente por morar no Brasil, não pude ler nas Atlânticos de 2007. Mas eu sugiro enfaticamente que você reserve algum tempo e leia as matérias selecionadas na retrospectiva (procure-as na página) pelo editor, Paulo Pinto Mascarenhas.

Voltando aos poucos 0

Depois do recesso involuntário - eu simplesmente estava tão cansado que na semana passada não consegui escrever nada - vou voltando aos poucos. Tenho três textos (que podem virar dois) a caminho… Mas, por ora, vocês podem me ver no blog do OrdemLivre.org. O próprio site do OrdemLivre.org também voltou.