Isto sim é o que eu chamo de revolução da MPB. Do Globo desta quarta:
Tem Lei Rouanet? Estou fora
Músico pede para sair de espetáculo com incentivo fiscal
O músico Zé Rodrix, um dos diretores do espetáculo “Rei lagarto”, sobre a vida de Jim Morrison, pediu demissão. Tomou a decisão ao ler, em Gente Boa, que a peça, com estréia marcada para outubro, teria fundos da Lei Rouanet. Ele enviou o seguinte e-mail aos produtores:
“Acabo de descobrir exatamente nos detalhes desta notícia que não vou mais participar do projeto. Vocês conhecem a minha opinião sobre Renúncia Fiscal e Leis de Incentivo. Enquanto isto era um empreendimento privado, no máximo com os patrocínios e os apoios diretos de empresas que se associariam ao empreendimento, eu estava dentro. Infelizmente, ao entrar na jogada da Lei Rouanet, MiniCul etc., ele se torna impossível para mim.
“Não acredito que o dinheiro de TODOS deva servir para patrocinar a aventura pessoal de ALGUNS, e, quando isto se configura, eu saio fora. Investimento deve ser feito com dinheiro real que não prejudique o essencial do país. Impostos devem ter fim específico, e os sustento da arte não é, a mer ver, uma destas essencialidades. Sempre fui um artista que não se privilegiou de nenhum tipo de ligação com estados e governos, em nome de minha própria liberdade. Assim sendo, há que haver em mim algum respeito pelas coisas em que eu acredito. Se entrar nisto, estare negando tudo que é a minha maneira de ser, pensar e agir. No Brasil de hoje, precisamos de investidores conscientes, e não, segundo minha maneira de ver a realidade, de utilizar de maneira equivocada o dinheiro público.
Desejo ao pessoal da produção o máximo de sorte e sucesso possíveis, e sei que serão muito felizes, graças à qualidade artística de todos os envolvidos”.
Em seu ensaio A mensagem de Hölderlin, Otto Maria Carpeaux aponta para um detalhe do original alemão que a ademais excelente tradução de Manuel Bandeira não teria captado perfeitamente: que os versos finais apontam a identidade entre “o divino” e aqueles que “o trazem em si”: die es selber sind, para quem sabe alemão. Eu só sei Ich möchte die Schokoladetorte.
Feita esta ressalva, faço outra: não pretendo discutir o lugar deste poema na obra de Hölderlin, que conheço muito superficialmente. Interessam-me diretamente o assunto e a forma, que seguem o modelo clássico, sob certo aspecto didático. O poema propõe claramente uma tese. Não me parece sensato dizer que o poema deve ou não deve propor teses; parece simplesmente que alguns poemas as propõem, e outros não, e cada um merece ser discutido segundo seus méritos. Porém, um dos riscos mais evidentes de quem vai propor teses de modo tão descarado é o de ser rejeitado pelo público que não concorde com elas, o que, aliás, me parece inteiramente legítimo. Admitir que um autor tem o domínio da sua arte mas não gostar de suas obras é a mesma coisa que admitir que uma cozinheira é prendada e não querer comer os alimentos de que não se gosta. Eu mesmo não comeria feijão preparado por ninguém…
Assim, a tese de Hölderlin, de que só quem traz o divino em si crê nele, ainda que tenha formulação ambígua, permite uma interpretação clara. O verbo “crer” é usado no sentido de “aceitar” ou “perceber” (que pode, aliás, ser o contrário de crer…), e o sentido daqueles versos finais guarda a mesma relação que existe entre os termos da tese aristotélica de que só é possível ensinar moral a quem tem boa índole. Faz-se uma distinção entre os homens. Mas Hölderlin começa distingüindo também dois momentos, quando ama e quando não amava. Neste, estava de bem com a “turba” que gosta de tumulto e vacuidades. Agora que se tornou uma pessoa melhor, não mais. Parece uma experiência comum, de fácil identificação. Quem, ao olhar para a própria vida interior, não se sente distinto do grosso dos homens? Quem não julga ter ao menos uma qualidade em grau excepcional que não seja reconhecida? Quem, nesta época de permamente adolescência, não sente que algo justifica olhar para seus semelhantes como seres inferiores? A atribuição de inferioridade, aliás, é confirmada pelo verso “dobra-se humilde o servo ao áspero e violento”. É verdade, admito. Mas também admito que hoje em dia tendo a suspeitar muito mais de quem suspeita de tanta gente mas nunca de si mesmo.
Existe, enfim, um aparente paradoxo. Aqueles que lutam pelo refinamento integral da alma, ou que passaram por certas experiências interiores incomuns, podem sentir-se distintos, especiais. Mas não será o discurso que justifica esta atitude justamente o mais banal de todos? Quem prefere humilhar-se? Quem, num princípio de ascese do gosto, aceitaria reconhecer a sua própria vulgaridade, sem no entanto enxergá-la como um dado essencial, e sim como um obstáculo?
Retomando o que disse no início, posso ter sérios problemas com a atitude de Hölderlin, com sua falta de suspeita contra si. Mas não tenho como deixar de admirar o fato de toda uma atitude estar perfeitamente sintetizada. Uma provável experiência autêntica do sublime, mesclada a um desprezo autêntico e a uma comovente ingenuidade.
Karl Erik Schollhammer foi meu professor na PUC, um de meus favoritos. Além de dar aulas, ele, que é dinamarquês, dedica-se à tradução de textos daquelas línguas escandinavas, como algumas peças de Ibsen. Na homenagem a Bruno Tolentino que houve na DaConde na segunda, os alunos de Letras da PUC-Rio distribuíram exemplares de seu jornal, Plástico Bolha, cujo último número traz uma entrevista com ele. Ah! Se todos os professores universitários falassem de maneira tão clara e sensata… Não pude deixar de transcrever estes trechos, mais para o final:
Considerando as inúmeras teorias da literatura, qual seria, hoje, o papel do professor de literatura?
O papel do professor de literatura é… ler literatura. (risos) É mostrar como se pode ler literatura; portanto, é mostrar por que ele gosta de ler literatura. Não existe uma pedagogia da literatura; existe o diálogo sobre a leitura que o professor pode iniciar, sobre o que lhe dá prazer. Ele pode expor o seu próprio caminho. O que me dá prazer em ensinar literatura é isso.
Já que estamos falando do mercado de arte, queremos saber se você tem alguma verve artística: você pinta, escreve?
Não. Na realidade, acho que a minha relação com as artes é de apreciação, de interação. Gosto praticamente de tudo: música, artes plásticas — que para mim são muito importantes — cinema, literatura. Mas nunca tive — e nunca tive problema em não ter — essa relação com a produção. Sou um consumidor muito feliz do talento dos outros. Como sou cético em relação ao talento, tenho certeza de que as artes não carecem da minha participação.
(…)
Alguma mensagem final para os alunos?
Que estudem, né? (risos)
Quem morar no Rio pode procurar o jornal, de distribuição gratuita, nas livrarias da Zona Sul e na própria PUC.
Nesta terça, liga-me cedo o Martim para dizer que assistira à apuração dos votos do Prêmio Jabuti e que Bruno Tolentino ganhou o de poesia. Mas como, segundo as regras da Câmara Brasileira do Livro, autor falecido ganha mas não leva, o primeiro lugar foi transformado em homenagem póstuma.
Na segunda tivemos uma bela homenagem a Bruno Tolentino aqui no Rio, na livraria DaConde. Para quem não pôde ir, eis-me aí recitando o que recitei naquela noite.
Leitura de “E lhe cantei então este acalanto”: 3m04s
Na Livraria DaConde, no Leblon (naquela galeria da rua Conde de Bernadote), pontualmente às 20h30, várias pessoas lerão poemas de Bruno Tolentino, inclusive eu mesmo.
Lamento nunca ter lido nenhum ensaio sobre Mensagem, que é, de longe, minha obra favorita de Fernando Pessoa. Se a melhor poesia é muitas vezes definida pela pressão que múltiplos significados exercem sobre o mínimo de palavras, cá estamos diante de um exemplo perfeito. Isto equivale, aliás, a dar a poesia um caráter simbólico no sentido de Susanne K. Langer, que define o símbolo como “matriz de intelecções”, isto é, como gerador de significados unívocos simultâneos. Assim, a diferença entre um texto denso e simbólico e um texto confuso é que o primeiro permite diversas interpretações perfeitamente claras, ainda que contraditórias entre si, e o segundo não permite nenhuma interpretação.
O que gera pressão em Mensagem, e lhe dá sua qualidade simbólica, é o embate entre duas visões de mundo. Uma pagã, esotérica, e outra cristã, sugerida inevitavelmente pelo tema da história de Portugal. Vejamos o que diz o próprio Pessoa no curto prefácio ao livro, que fala das qualidades necessárias ao entendimento dos símbolos:
A quinta é menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.
Antes que alguém venha falar da separação entre autor e obra — defendida radicalmente por meu quase-guru W. H. Auden, a quem não sigo neste ponto — , preciso observar que este é o único livro publicado integralmente por Fernando Pessoa em vida e assinado por ele mesmo, e que, como há de ser óbvio, toda obra é escrita por um autor. A obra não é necessariamente um mero prolongamento da sua vida ou de suas crenças graças à atividade livre do intelecto que a compõe; mas este mesmo intelecto existe dentro de uma alma, que está dentro de um corpo, e os dois têm suas circunstâncias. Há, portanto, um embate entre elementos conscientes e inconscientes, livres e necessários, e isto também gera “pressão poética”, na falta de outro termo.
Em Mensagem parte da pressão vem de duas idéias inconciliáveis que Fernando Pessoa pretende sinceramente conciliar, não de um embate com o meio. Pessoa considera, como vemos naquele trecho, que a graça cristã equivale à mão do “Superior Incógnito”. Muitas são as tentativas de fazer do Cristianismo uma espécie de roupagem de uma verdade esotérica, de transformar a doutrina explícita em mero véu de uma doutrina implícita mais verdadeira; mas o próprio fato de o véu do templo de Jerusalém ter-se rasgado quando Cristo morreu já repele o uso destas categorias. Não há esoterismo cristão. Podem ter havido ordens com ritos próprios e secretos, mas nenhuma delas jamais pôde pensar-se mais cristã do que o resto da Igreja, ou detentora de algo mais puro.
Ainda em termos de “pressão”, a primeira estrofe do poema é um excelente resumo do paganismo clássico: “os deuses vendem quando dão”, isto é, não dão nada de graça. Tudo tem um contraponto, algo que deve ser dado em troca. Nem mesmo os próprios deuses escapavam desta lei. Hades raptou Perséfone, e sua mãe, Ceres, só conseguiu um acordo com Zeus: metade do ano ficaria com ela, a outra metade com o seqüestrador. Aquiles literalmente comprou a glória com sua morte: sabendo que morreria em Tróia, preferiu ser cantado para sempre e morrer jovem a viver mais. Nem os poderes de sua mãe Tétis puderam salvá-lo: “compra-se a glória com a desgraça”. Ou, como diz o salmista, “os deuses dos pagãos são demônios”. No pacto com o demônio, no mundo cristão, o ser humano sempre oferta sua alma. Se você olhar bem, verá que no mundo pagão não era muito diferente. Um ato de legítima defesa custa a Édipo literalmente os olhos da cara e muito mais. Um ato de bondade de sua filha Antígona termina de destruir a família. Não se pode ser bom gratuitamente. É preciso sempre compactuar. Toma lá, dá cá. Mas cá estou eu, falando daqueles gregos, e aí está você, lendo: “Ai dos felizes, porque são / só o que passa!” Não é uma visão muito diferente daquela que Yeats expôs em The Choice.
Os dois primeiros versos da segunda estrofe retomam um dos temas mais fortes de Fernando Pessoa, ortônimo e heterônimos: a distância que há entre pensar, refletir, e portanto perceber uma ausência, uma separação, uma insuficiência, e ser de modo espontâneo, oblivious, despreocupado. É a menina que come chocolates em Tabacaria, aqueles chocolates cheios de “metafísica”. Se algo basta, não há reflexão sobre a experiência. Em muitos sentidos, é isto que muitos procuramos conscientemente: uma experiência bastante, que a atividade intelectual não consiga exaurir. Todas as pessoas que parecem contentes com o que contém tornam-se símbolos disto. Mas logo depois Pessoa afirma a equivalência de extensão entre o mundo, que é grande, e a alma, que é vasta. “Ter é tardar”: prender-se a uma experiência é perder todas as outras. Mas prender-se a uma experiência é também definir-se, delimitar-se, e assim estabelecer uma história. Tentar ter todas é indefinir-se, perder-se, e eu mesmo consigo compreender a terrível ansiedade gerada por esta perda… Ainda mais se consideramos a visão pagã, ou o que vigora num mundo regido por deuses: se não há um Bem infinito, ao menos há uma quantidade indefinida de bens que são, para quem tem a alma vasta, um prêmio de necessária consolação, e que sempre são comprados com a desgraça. Os deuses dos pagãos são demônios. Ter é tardar.
A terceira estrofe serve para marcar a opinião de Pessoa sobre o Cristianismo. Terá sido o Cristo definido por Deus Pai (Pessoa admite um Deus Pai ao chamar Cristo de Filho com maiúscula) pela desgraça e pela vileza? Será o Deus cristão um daqueles deuses só aceitam a desgraça por moeda? Mais ainda, é Cristo oposto à Natureza, e que “Natureza” é esta com “N” maiúsculo? A própria natureza dos deuses? A natureza como algo distinto de Deus, no sentido de “mundo” ou “cosmos”? Nenhuma destas perguntas sugere imediatamente uma resposta compatível com a doutrina cristã. Para Pessoa, Cristo é um símbolo como outro; a ação de Deus, a graça, também pode ser a ordem do “Superior Incógnito”. A natureza humana é danada, ter é tardar, compra-se a glória com a desgraça, e o próprio Cristo teria pago com ela a sua “glória” no sentido pagão, que é o fato de dois mil anos depois ainda estarmos falando n’Ele, que ainda motivou fatos importantes da história de Portugal, como a vitória da batalha de Ourique e a derrocada em Alcácer-Quibir.
“Mentalidade revolucionária” é o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remoldar o conjunto da sociedade – senão a natureza humana em geral – por meio da ação política; e acredita que, como agente ou portador de um futuro melhor, está acima de todo julgamento pela humanidade presente ou passada, só tendo satisfações a prestar ao “tribunal da História”. Mas o tribunal da História é, por definição, a própria sociedade futura que esse indivíduo ou grupo diz representar no presente; e, como essa sociedade não pode testemunhar ou julgar senão através desse seu mesmo representante, é claro que este se torna assim não apenas o único juiz soberano de seus próprios atos, mas o juiz de toda a humanidade, passada, presente ou futura. Habilitado a acusar e condenar todas as leis, instituições, crenças, valores, costumes, ações e obras de todas as épocas sem poder ser por sua vez julgado por nenhuma delas, ele está tão acima da humanidade histórica que não é inexato chamá-lo de Super-Homem.
Mas, ao ler isto, não consigo deixar de me lembrar de René Guénon, que afirmava que estávamos ao fim de um ciclo terrível, o Kali-Yuga, e que a próxima Idade de Ouro seria preparada por uma pequena e discreta elite. Não seria possível trocar alguns termos deste trecho e colocar os termos de Guénon? Em vez de “ação política”, teríamos “ação cultural” ou “ação espiritual”; em vez de “tribunal da História”, teríamos o líder de uma sociedade secreta ou a própria idéia de sociedade tradicional. Aliás, não existe esoterismo sem a idéia de elitismo, sem uma hierarquização entre “nós que somos superiores” e “eles que são inferiores”, os meros objetos inermes da ação daquela elite. Isto me recorda outro bom trecho de Olavo de Carvalho em que fala do continuador mais conhecido da obra de René Guénon, o sheikh da Tariqat de Maria, Frithjof Schuon:
Schuon sempre soube que as grandes transformações históricas vêm de cima, que os movimentos de massa não são senão o efeito remoto da influência espiritual exercida sobre os corações e mentes dos homens mais cultos e capacitados. A abertura da Europa ao Islam não começou com a importação de trabalhadores. Começou com discretos rituais místicos em Oxford e Cambridge, aos quais o prestígio de intelectuais de primeiro plano acabou atraindo membros do Parlamento e até o príncipe herdeiro.
Seria então Schuon um “revolucionário” num sentido adaptado do sentido de Olavo? A “mentalidade revolucionária” se aplica a estes homens brilhantes que, a mando de organizações esotéricas de vago fundo islâmico, dedicam-se conscientemente a atrair os melhores de uma cultura para sua própria sociedade secreta, passando por cima de laços e compromissos firmados na biografia de cada um deles?
Dou um exemplo bem próximo. Sei que um dos membros brasileiros da antiga Tariqat de Maria está freqüentando o ambiente da missa melquita de São Paulo. Existem dois tipos de católicos que freqüentam a missa melquita: aqueles que têm raízes orientais, que nasceram naquela cultura (no Brasil, freqüentemente de origem libanesa), e aqueles que sempre acompanharam o rito romano mas ficaram cansados dos abusos litúrgicos - abraços, violões, palmas etc. Este membro, que publicamente não admitirá receber ordens de alguém nos EUA ou na Inglaterra, e muito menos que pratica ritos que não são católicos nem cristãos, dedica-se a espalhar animosidade contra o Papa Bento XVI entre os católicos de tendência mais conservadora - portanto, os ideologicamente mais preciosos. Ele diz defender a Verdade e altos valores espirituais, mas não tem problemas em omitir sua filiação a uma organização de fundo islâmico; não sente nada ao maquiavelicamente justificar os meios com os fins. O efeito prático, socialmente falando, é mercurial: divide-se a comunidade. Espiritualmente falando, o efeito é puro enxofre: enche de orgulho a alma de indivíduos que subitamente se sentem habilitados a julgar o Papa (já fui culpado disto: falo por experiência) e a condená-lo por não ser suficientemente “tradicional”. Ek toú karpoú déndron gignosco, “pelos frutos conheço a árvore”, já diziam os gregos, antes mesmo de Jesus. Entrar em uma casa apenas para semear a discórdia e a divisão certamente é um pecado grave; mas, diante do plano maior de preparação da suposta sociedade tradicional futura, é apenas um ovo que tem que ser quebrado para fazer a omelete…
Por mais duras que sejam as divisões entre os cristãos, os debates sempre foram claros, e muitos não-católicos elogiaram a tomada de posição recente do Vaticano, reafirmando a Igreja Católica como a única verdadeira, simplesmente porque preferem discutir abertamente a ter a sensação de que estão tentando lhes passar a perna. Por mais duras que sejam as disputas entre as religiões, qualquer religioso preferirá a animosidade explícita a ser manipulado por uma sociedade secreta que se coloca acima de todas as religiões e se arroga o direito de dirigi-las.
Pois então pergunto: não se pode tomar a idéia da mentalidade revolucionária, que se volta para a esfera da ação política, e transportá-la para a esfera cultural e espiritual, certamente menos sangrenta, mas muito mais perigosa, já que o que está em jogo não é a morte do corpo, mas da alma? Que nome dar a estes homens (ainda não vi nenhuma mulher) que se dedicam a destruir comunidades, retirar delas seus membros mais valiosos, e torná-los parte de uma conspiração para destruí-las?
O que eu queria escrever no título era algo muito mais chulo, para dizer a verdade; algo que fosse realmente expressar o que eu sinto pela CPMF.
Quem já lê O Indivíduo há bastante tempo já pode imaginar perfeitamente o que é que eu teria a dizer sobre o assunto. Que a CPMF é mais um imposto. Que os governantes não conseguem fechar suas contas e nos obrigam a pagá-las, como se eu pudesse obrigar os vizinhos aqui do lado a me ajudar com o cartão de crédito. E que o aspecto mais sinistro da CPMF é, sem dúvida, o cruzamento de dados com o imposto de renda. O imposto de renda, por sua vez, com todas as suas zil regras, é tanto um instrumento de controle e intimidação quanto de “arrecadação” - com muitas aspas, sim, pois o nome adequado seria roubo. Já pagamos imposto sobre tudo.
Vejo por aí alguma movimentação da sociedade civil para acabar com a CPMF. Claro que é irresistível pensar “será que agora vai funcionar?” Faço votos de que sim. Mas tenho muitas dúvidas. A comunicação a respeito não enfatiza a imoralidade da CPMF, e insiste em aspectos econômicos. Ninguém também pretende dizer o óbvio: não dá para o brasileiro continuar querendo um governo onipresente e não pagar por isso. É preciso afirmar, para manter a coerência: eu quero que aquilo que não puder ser privatizado simplesmente acabe.