O papel dos blogs no debate público
Complementando este texto de Pedro, gostaria de fazer um comentário sobre o papel dos blogs no mítico “debate público”.
Os blogs são um formato de comunicação que permite que seres humanos individuais expressem publicamente praticamente qualquer elocubração que suas mentes conceberem. Podem ser usados para compartilhar opiniões, disseminar informações, propagar fofocas ou denúncias, publicar fotos de mulheres atraentes, contar piadas, simplesmente falar besteira ou mais uma coleção infinita de possibilidades.
A parte revolucionária disso vem, a meu ver, basicamente de dois fatores.
Em primeiro lugar, virtualmente qualquer pessoa, independentemente de recursos financeiros, posição social, localização geográfica, títulos acadêmicos, aptidão física, profissão, raça, idade, religião, enfim, qualquer um - pode iniciar um blog e o mundo inteiro terá acesso a seus, digamos, pensamentos. Não só terá acesso como acesso permanente, prático e instantâneo. Eu clico em “publicar” e um sujeito no interior do Japão pode imediatamente ler o que escrevi. Isso é uma diferença gigantesca com relação a como as coisas funcionavam até não muito tempo atrás.
O segundo fator é que pelo menos em grande parte de nossa sociedade ocidental, a liberdade para expressar opiniões em blogs é praticamente ilimitada. Isso não é verdade em todo o mundo (experimente criticar o governo em seu blog na China), nem sobre qualquer assunto (experimente postar fotos de crianças nuas ou, em praticamente qualquer país que não os EUA, dizer que Hitler era maneiríssimo), mas de forma geral existe uma liberdade infinitamente maior do que jamais existiu no passado. É uma tênue esperança de liberação da máxima atribuída a Goebbels - “He who controls the medium controls the message. He who controls the message controls the masses”.
A mídia organizada, cara e onipresente ainda tem em grande parte o monopólio das ferramentas de lavagem cerebral, em grande parte porque uma das táticas mais efetivas de lavagem cerebral é justamente todo mundo receber a mesma mensagem - seja ela qual for - ao mesmo tempo. Mas ela não tem mais o monopólio da informação. Qualquer um com iniciativa consegue rapidamente encontrar análises, desconstruções, desmentidos e críticas ao que é veiculado na grande mídia. Mais do que isso, freqüentemente consegue acesso a fotos, vídeos, documentos, testemunhos e até mesmo contato direito com as fontes originais das informações, de forma que fica muito mais bem equipado para formar uma opinião independente. Uma grande parte desse trabalho é realizado por blogs. Os quais, em toda a sua multiplicidade, naturalmente levam o indivíduo ao pensamento crítico com muito mais probabilidade do que qualquer fonte oficial e homogeneizada de informação.
Dessa forma o estrondoso (possivelmente inevitável) fracasso da grande mídia em promover qualquer real “debate público” do que quer que seja é tornado progressivamente irrelevante diante do debate público que caoticamente ocorre nas interações diretas entre indivíduos através da internet. Não necessariamente isso ocorre através de um diálogo organizado, mas sim principalmente através de uma rede de influências cruzadas entre pessoas que pensam independentemente mas que se lêem umas às outras. É como um debate escolástico assíncrono, descentralizado e espontâneo. Cabe a cada um julgar por si a qualificação e a honestidade moral das opiniões que levará em conta.