A novilíngua manda lembranças
Aqui em Nova York - e nos Estados Unidos em geral - existe já há um bom tempo um movimento muito forte de tentar reconstruir as relações sociais através de manipulação do vocabulário. De repente, certas palavras se tornam proibidas, outras se tornam obrigatórias, e no processo algumas mudam artificialmente de significado. Eu cheguei a colocar aspas em “proibidas”, mas voltei atrás. São proibidas mesmo, do tipo se você as usar haverá conseqüências. Aliás, uma parte interessante do fenômeno é justamente essa : a obrigatoriedade de seguir certas normas vocabulares não escritas não é necessariamente - nem sequer usualmente - forçada pelo governo, mas pela sociedade, que pune exemplarmente os desviantes com perda de credibilidade, lucros, emprego, votos, e se isso não funciona às vezes até mesmo com violência direta.
Porém, além dos exemplos mais óbvios e politicamente importantes disso, existe paralelamente uma miríade de outras manifestações mais rasteiras que ocorrem em contextos cotidianos e que muitas vezes até mesmo passam despercebidas. Isso tudo é muito bem pensado e não ocorre por acaso. Há pessoas cuja profissão é especificamente conceber tais intervenções. A estratégia básica é a mesma de sempre : alterar o nome do fenômeno que incomoda para algo cuja acepção padrão seja positiva e/ou com significado oposto ao fenômeno em questão. Que isso seja retirado diretamente de George Orwell ou intrinsecamente mentiroso não parece incomodar muito os mentores intelectuais de tais disparates.
Enfim, estava eu outro dia no Starbucks quando vi o cartaz acima, e achei-o tão representativo disso tudo - e ao mesmo tempo tão surrealmente autocontraditório - que tive que fotografá-lo e fazer um comentário sobre o assunto. Essa besteirada sobre “Around here, everyone’s title is Partner” já seria em si mesma exemplo suficiente, mas isso é tão evidentemente falso e hipócrita que o próprio cartaz se encarrega de expô-la em sua última linha “Ask a manager how you can apply today”. Note que eles não dizem algo um pouco mais modesto / honesto / defensável como “Around here, everyone is a partner”, caso em que a tese (questionável, mas vá lá) seria de que o gerente, o vendedor, o sujeito que varre o chão e o dono seriam todos sócios da mesma empreitada, etc. Não, eles fazem questão de dizer que “Everyone’s TITLE is Partner”. Certo… então acho que vou pedir um emprego no Starbucks ao sujeito que varre o chão. Não, não, você tem que pedir ao gerente. Ué, mas não são todos “sócios”? Ah, sim, mas tem o “sócio” que gerencia, o que fica no caixa, o que varre o chão, entende? Apenas com salários diferentes, responsabilidades diferentes a atribuições diferentes. Ceeeerto. E se nós formos realmente LER o texto, outras ironias aparecem, como “eligible partners” (que eles não explicam quais são) e “who work at least 20 hours a week”. (Mas quem trabalha menos do que isso também é partner, entende? Só não tem direito a nada do que está listado aqui.) Enfim, tudo muito bonito, mas em bom inglês, phony. Transbordantemente falso. Evidentemente não sincero se você para 5 segundos para examinar a real dinâmica das relações de trabalho.
Será que isso não importa? Eu digo que importa e muito. As pessoas estão sendo bombardeadas com doublethink e em grandes quantidades já o introjetaram. Enquanto isso Winston Smith, em 1984, vive sua esquálida existência como cidadão de um país em guerra perpétua ocupando um deprimente apartamento de um cômodo localizado num complexo chamado - ta da - “Victory Mansions”.
Aproveito para fazer um comentário completamente aleatório : essa regra de inglês sobre colocação de ponto final em frases que terminam com aspas e que gera belezas como
não faz nenhum sentido.
