Archive for junho, 2005

De sexuali impotentia 0

Suma Teológica, Ia IIae q. 17, a.9. Se os membros do corpo obedecem à razão, com explicações naturais e teológicas. Trad.: Alexandre Correia.

(…) 3. Demais. Como diz Agostinho, o movimento dos órgãos da geração, ora, é importuno e involuntário; ora, não obedece à vontade, quando querido e o corpo fica frígido quando a concupiscência ferve na alma. Logo, o movimento dos membros não obedece à razão.

Resposta à terceira. Como diz Agostinho, é por pena do pecado que o movimento dos membros genitais não obedece a razão; de modo que a alma sofra a pena da sua desobediência a Deus, precisamente no membro pelo qual o pecado original se transmite aos descendentes. Mas como pelo pecado dos nossos primeiros pais, conforme a seguir se dirá (q. 85 a. 1), a natureza foi abandonada a si mesma, privada do dom sobrenatural, que fora divinamente conferido ao homem, vejamos qual a razão natural por que, em particular, o movimento desses membros não obedece à razão. Aristóteles, no livro De causis motus animalium descobre a causa em os movimentos do coração e dos membros pudendos serem involuntários; pois, estes se movem em conseqüência de alguma apreensão, em virtude da qual o intelecto e a fantasia representam algo de que resultam paixões da alma, provocadoras de tal movimento. E não se movem conforme a injunção da razão ou do intelecto porque para o movimento de tais membros é necessária alguma alteração natural, a calidez ou a frieza, que não está sujeita ao império da razão. E isso se dá especialmente com esses dois membros porque cada um deles é como que um animal separado, enquanto princípio de vida; ora, o princípio é, virtualmente, o todo. Assim, o coração é o princípio dos sentidos; e do membro genital procede a virtude seminal que constitui, virtualmente, todo o animal. E por isso tem naturalmente movimentos próprios, por ser necessário que os princípios sejam naturais, como já se disse.

Frases de Nelson Rodrigues 0

Sinto-me frustrado por não ter lido mais Nelson Rodrigues. Não sei se concordo com sua tese de que colocar horrores no palco inspiraria aversão a eles na platéia (algo que talvez só tenha sido realizado no cinema quando Regina Casé ofereceu seus préstimos; afinal, se o pecado tem aquela cara, dêem-me já o meu missal).

Em todo caso, comecem a semana, que para mim será longa e penosa, com uma seleção de frases de Nelson, que eu vi no excelenteTraduções Gratuitas, mas que foi originalmente publicado na Permanência.

Poderes diferentes 0

Anônimo “por modéstia”, Smart Shade of Blue escreve um post inteiro para, somente ao final, atinar com aquilo que eu queria dizer: que há sim poderes de naturezas ou “qualidades” diferentes. Como aqui está o centro do argumento, começo por ele.

O poder político se baseia na força física. O governo determina certas coisas e quem as descumprir poderá sofrer sanções em sua propriedade ou sua liberdade – em certos países, pode até perder a vida. O governo não vai sentar com você e te explicar que você deve pagar seus impostos, nem vai desistir se não conseguir explicar. Ele vai simplesmente cobrar.

O poder intelectual ou sacerdotal se baseia na persuasão (através da retórica, da dialética etc). O padre pode fazer um belo sermão e convencer a audiência da feiúra de um certo pecado. Mas, a menos que este pecado seja um crime, não fará a menor diferença do ponto de vista jurídico cometê-lo ou não. Posso comer todo o sorvete do mundo: isto faz de mim um guloso, mas não um criminoso. Um cientista pode dar uma entrevista e dizer que o ovo tem colesterol. Ninguém sabe direito o que é colesterol, mas tem fé no cientista e lhe dá ouvidos.

Recomendar que não se coma ovos não é um uso do poder político, e nem recomendar que não se abuse do sorvete. As pessoas continuam igualmente livres para comer ou não comer o que quiserem. Ninguém as força, nem as pune. Uma punição moral, como olhares de reprovação do padre ou dos coleguinhas saudáveis do trabalho, não é a mesma coisa que uma punição física.

Este poder intelectual pode limitar o poder estatal justamente por ser diferente dele, por se basear em meios diferentes. O Estado pode declarar que vai fazer uma determinada coisa, e a classe intelectual pode se opor. Isto pode dar certo ou não. Quando houve a guerra do Iraque, a uma parte imensa da grande imprensa americana foi contra, e até o Papa a condenou. Aliás, até este site indicou artigos contra ela. Simplesmente porque a guerra do Iraque foi movida por um governo eleito, isto não anula nem torna ilegítimo o direito que pessoas privadas e instituições têm de protestar contra ela, nem torna este poder uma espécie de poder político. Assim, se a CNBB faz cara feia para uma decisão do governo e este capitula, o poder intelectual limita o político. Se o Marquês de Pombal expulsa os jesuítas, o poder político limita o poder intelectual. O poder intelectual perde credibilidade. O poder político perde força.

Agora posso responder a alguns pontos do que disse SSoB. Primeiro, os exemplos que ele dá são de uso do poder intelectual. Escrever não é ameaçar de prisão. Quem propõe uma falácia, e das mais perigosas, é ele, ao reduzir todos os poderes ao poder político. Em seguida, é difícil entender porque uma instituição argumentar de acordo com suas próprias convicções é agir de má-fé. Hitler, por exemplo, não agiu de má-fé: queria matar um monte de gente e matou mesmo. Pode-se reprovar a Igreja, mas não se pode reprovar alguém, em princípio, por argumentar a partir de suas próprias crenças sinceras. Quanto à primeira imprecisão de que me acusa, bem, não tentei adivinhar suas intenções, mas retirar de suas palavras as conseqüências lógicas. Ao converter-se em partido político, a Igreja poderia instaurar a teocracia – até dentro dos limites da legalidade, cuja elasticidade parece ser bem mostrada por Hugo Chávez, por exemplo. Quanto à segunda, em que me acusa de interpretar seu pensamento de maneira errada, devo dizer que me limitei ao post em questão, porque nunca fui (por favor, não o digo em tom de esnobação) leitor habitual de seu blog para conhecer seu “paradigma” nem os assuntos em que insiste habitualmente.

Não entendi rigorosamente nada do que está dito em “este uso da palavra ‘persuasão’ como salvo conduto é um tanto problemática, já que de longa data sabem os retóricos que a persuasão é um conjunto de técnicas que tanto podem indicar uma ação de boa fé, o convencimento pelo uso da razão, quanto uma ação de má fé, o triunfo da razão mais fraca sobre a razão mais forte.”

A persuasão não é “um conjunto de técnicas”. A retórica pode ser chamada de “um conjunto de técnicas”. O objetivo da retórica é a persuasão. Outro problema surge: técnicas não indicam, isto é, não é uma ação própria das técnicas “indicar” nada. No caso, quem indicaria alguma coisa seria o discurso, o qual é feito usando um conjunto de técnicas retóricas. Poupando-nos o trabalho de esquadrinhar estas metonímias (e outras, como “ações de boa fé” quando seriam “agentes de boa-fé”, pois uma ação má pode ser praticada por alguém de boa fé) e partindo para a interpretação generosa, mesmo que SSoB queira dizer que a retórica pode ser abusada para incutir na audiência o desejo de coisas más, disto não se deduz que seu uso seja intrinsecamente ilegítimo; mais ainda, isto não interfere na linha argumentativa que desenvolvi. Quanto à sua afirmação posterior sobre a Igreja, é difícil ver o que há de mal em uma instituição agir de acordo com seus princípios formadores, exceto se você acreditar que estes são errados em si mesmos. Mas aqui talvez a nossa discussão seja mais difícil.

O único comentário que ainda gostaria de fazer se refere não à substância do post de SSoB mas à sua forma, moldada pelo mais surrado dentre os artifícios retóricos brasileiros (não confundir, aliás, falácias e artifícios retóricos): o tom paternalista e falsamente familiar, a vozinha de onisciência que diz “Eu tenho certeza de que o Pedro sabe disso”, e que é a tia velha do escárnio rafaelesco.

Igreja & Estado 0

O anônimo Smart Shade of Blue sugere que é errado que a Igreja pressione as autoridades. O problema, para ele, não está na parte de pressionar as autoridades, mas na parte da Igreja. Fosse o MST, o movimentos gays ou qualquer movimento de sua preferência a pressionar (sem duplos sentidos), não haveria problema nenhum. E vejamos que o exemplo que oferece é uma temível… carta. Uma carta elaborada pela CNBB condenando a distribuição de camisinhas pelo governo. Não vou nem entrar no assunto de ser ou não competência do governo distribuir camisinhas; não sei porque o meu dinheiro tem que sustentar o carnaval alheio. Também não sei, sinceramente, porque não dizem que a distribuição de camisinhas pelo governo não passa de lobby dos empresários de camisinhas, que são, sob qualquer aspecto, quem mais lucra com a venda delas.

O que interessa, agora, é apenas observar que uma carta é um meio legal, legítimo, de fazer protesto, e nela não há qualquer “união” entre Igreja e Estado. Depois da queda do Império Romano, é verdade que um passou a fazer parte da outra; coube a uma parte da Igreja uma parte do poder judiciário e do executivo, e ela mesma ganhou poder de polícia com a Inquisição. Devo admitir, a este propósito, minhas simpatias pombalinas; uma Igreja com poder de polícia não pode dar certo, porque é mais próprio do poder sacerdotal operar pela persuasão do que pela força física, característica definidora do poder estatal. Redigir cartas, falar dos púlpitos, tudo isto faz parte da persuasão. Excomunhão não é cadeia, cara feia do bispo não é coronhada, reclamação de padre não dá multa.

Na verdade, ao defender a idéia de que a Igreja se organize na forma de um partido político e concorra às eleições, SSoB talvez não perceba que aceitaria uma teocracia, desde que esta fosse eleita pelo voto direto e não imposta por uma elite guerreira (a mesma coisa que “vanguarda revolucionária”). Eu sei que muitos de meus colegas cristãos acham que a teocracia é uma conseqüência inevitável da doutrina cristã, mas eu sempre ouço São Paulo dizendo que devemos respeitar as autoridades constituídas (isto é, mesmo que elas não sejam cristãs) e São Tomás dizendo que basta uma lei não ser absurda e contrária à moral ou à natureza para ser legítima. Portanto, basta um Estado sem coisas estapafúrdias e sem perseguição à Igreja para que eu esteja satisfeito.

O ponto que parece escapar principalmente a SSoB é que existem poderes de naturezas diferentes, e a melhor coisa para a sociedade como um todo é que estes jamais sejam absorvidos por um só deles. Muitos reclamam do poder econômico, e com alguma razão: em nome de se ganhar dinheiro, pratica-se o mal moral. Cabe ao poder sacerdotal condená-lo e ao poder estatal coibi-lo quando houver dano para a vida ou a propriedade de alguém. Do mesmo modo, o poder estatal impede que alguma igreja inflija punições que não morais a seus membros, e é nesta tensão e nos arranjos temporários que a vida acontece. Portanto, se a Igreja persuadiu o Estado a não distribuir camisinhas, sem infringir nenhuma lei, apenas agiu enquanto poder sacerdotal. Se, por outro lado, SSoB só reconhece como válido o poder político, já vemos aí um sinal de totalitarismo, pois este nada mais é do que a absorção de todos os poderes no Estado; e se considera tão importante assim o voto da maioria, não custa lembrar que Hitler foi legitimamente eleito pelo povo alemão. Este exemplo não fica como uma rejeição tácita de democracia representativa, mas apenas como uma recomendação de prudência, a virtude mais própria para assuntos de governo.

A única questão que parece ainda irresolvida nesta minha argumentação seria a do ensino religioso nas escolas públicas. A isto, digo o seguinte: enquanto houver ensino estatal, prefiro que seja católico porque eu sou católico; mas se me perguntarem o que eu prefiro mesmo, digo que é a absoluta inexistência de qualquer espécie de educação fornecida ou regulamentada pelo Estado.

O papo já dura oito anos, e vai durar muito mais 0

Há quase oito anos escrevo aqui e sempre vejo o mesmo fenômeno se repetindo: um sujeito vem debochar de alguma coisa e, quando lhe opõem argumentos, começa a desqualificar aquele que os enunciou. Não imaginei, é claro, que com Rafael Galvão a coisa fosse ser diferente. A rapidez e a suavidade com que se retirou, porém, dão sinal de que cultiva a prudência, bem aos moldes do Leão da Montanha.

Suas intenções são fáceis de perceber: sentir-se bem diante de seu grupo, para o qual a medida da inteligência é dada pela radicalidade do anticlericalismo. Uma medida estranha, porque me parece que a inteligência e o sentimento fossem coisas bastante diferentes. Mas é a partir de seu sentimento anticlerical que Rafael fala, querendo simplesmente negar a legitimidade da religião. Não, veja bem, a legitimidade da sua verdade ou inverdade intrínseca, mas sua legitimidade civil. Isto se baseia na crença de que o ateísmo ou a irreligião correspondem a uma espécie de neutralidade ou imparcialidade, que deveria ser o parâmetro supremo da vida social, enquanto a religião corresponderia a uma clara parcialidade, um assunto privado de certos grupos, que deveriam mantê-lo exclusivamente privado. A falácia deste pressuposto está, obviamente, em crer que a irreligião é uma espécie de neutralidade, quando ela na verdade é tão “parcial” e interessada quanto a própria religião. Todo Estado precisa se pautar por certas posições e valores, como até agora os Estados ocidentais vêm se pautando pela crença na proteção aos indefesos, no valor imenso da vida individual, e na liberdade humana, valores dos quais decorrem imediatamente a condenação da escravidão, que existia no império romano e existe ainda hoje, em lugares amenos como o Sudão, por exemplo, e a defesa dos bebês, também uma novidade histórica. Portanto, mesmo que eu não tivesse a intenção de me tornar religioso, não poderia achar ruim que o Cristianismo continuasse a ser importante na vida pública. Mesmo assim, até agora os cristãos têm vencido suas batalhas por meios válidos dentro do sistema legal, que se pauta pelo desejo da maioria, e não da hierarquia (lembrando que o prefixo grego desta palavra significa “sacerdote”), o que mostra que o critério “irreligioso” já é dominante.

Para mim mesmo ainda é muito complicada a questão da relação entre Igreja e Estado. Não desejo ser governado pela CNBB, e por outro lado me sentiria mais feliz se o governo civil diminuísse absurdamente de tamanho, simplesmente abstendo-se de legislar e agir em quase todas as matérias. Mas, considerando a situação atual, querer apagar e reduzir à ilegitimidade um dos grupos participantes da discussão é puro nazismo. Eu poderia dizer que é puro comunismo, mas há uma certa questão sexual no nazismo que sugere a matriz germânica, ainda que inconsciente, dos atuais sentimentos (que pensamentos propriamente ditos ainda não são) anticristãos.

PS – Concedo que devo uma explicação ao público em geral sobre eu ser católico e astrólogo. Há tempos penso em um texto a respeito, mas agora fiquemos com uma versão resumida. O catolicismo tem, historicamente, uma relação de amor e ódio com a astrologia. Santo Agostinho, São Tomás e outros santos de imensa autoridade a condenaram duramente. O Papa João Paulo II e a última edição do Catecismo da Igreja Católica também. Mas entre São Tomás e o fim do século XX muita coisa aconteceu: três papas tiveram astrólogos e a Santa Inquisição aprovou a publicação de centenas (talvez milhares) de almanaques astrológicos por toda a Europa. Olhando os textos mais antigos (Ptolomeu, Manilius) é fácil ver porque a Igreja se opunha à astrologia: o fatalismo imperava. Nos textos medievais (que a comentadora rafaelesca Marcia Brito certamente nunca leu, até porque ela não entende nada de astrologia), o astrólogo aparece de maneira bem diferente, como um sujeito que deve rezar muito e ser muito puro para conseguir fazer previsões corretas, as quais ainda assim seriam meras conjeturas, e não vaticínios. Portanto, as condenações da Igreja se referem a um tempo fatalista e ao tempo moderno, em que a mistura da astrologia com todo tipo de bobagem a torna realmente condenável. Sei que muito mais ainda poderia ser dito, mas eu mesmo ainda medito o assunto, e me reservo o direito de continuar praticando a astrologia em moldes medievais e renascentistas enquanto não me parece haver mal nela.

Donzelão fujão 0

Rafael, eu não comecei meu texto dizendo que você era feio, mas dizendo que você fazia chacota de um sujeito ao mesmo tempo que dizia que só queria seu bem. Daí poderíamos tirar vários adjetivos – cínico, mau, confuso – , mas eu não tirei nenhum. Apenas apontei que, assim como você se limitou a xingar o sujeito sem respondê-lo, também eu poderia fazer o mesmo a partir das suas especulações sobre a vida sexual dele. A inadequação extrema da sua resposta, misturada ao seu conteúdo, sugere que você é que tem problemas sexuais sérios, o que sua foto parece apenas confirmar, e seu excesso de “uis” coroar.

Não sei de onde você tirou que a fé na Igreja faz com que os católicos se sintam superiores às tentações. Pelo contrário – a literatura religiosa mais elementar mostra que realmente vencer as tentações é um ato de grandeza. A maior parte de nós apenas tenta, mas nosso fracasso contínuo não é razão para mudarmos de convicção; não é porque algo lhe parece difícil que você também dirá que ele é errado. Quanto à questão dos anticoncepcionais – e o próprio Bento XVI já declarou que “já se falou demais nesse assunto” – , só posso declarar que o argumento de que a abstinência é mais eficaz do que a camisinha é tão óbvio que realmente dispensa explicações. Só que a Igreja nunca colocou essa questão em termos de saúde pública, mas em termos de saúde da alma; a grande condenação dos anticoncepcionais foi feita 20 anos antes da AIDS, pelo Papa Paulo VI, em sua encíclica Humanae Vitae. Portanto, se hoje a AIDS é um problema de saúde pública, a Igreja nada pode fazer além de dizer que já deu sua resposta há muito tempo, e que se ela conseguir convencer as pessoas – inclusive nós fiéis – a seguir a moral cristã, a AIDS sumirá com a mesma suavidade com que uma conseqüência se segue a uma causa. Poderíamos, no entanto, levantar a questão da visão católica do sexo, perguntar se ela é certa ou errada, apropriada ou inapropriada. Mas exigir que uma instituição de dois mil anos mude assim é a mesma coisa que exigir que o Pão de Açúcar mude de lugar.

Rafael, você não vai responder aos meus argumentos por uma simples razão: você não tem a menor idéia de como fazê-lo. Você é que é um prosélito fanático; o Bruno ofereceu argumentos, eu ofereci argumentos, e você só afetou desprezo. O próprio senso comum que lhe é tão caro diria que fanático é quem se nega a discutir. Você poderia até ter arriscado um simples “é mais fácil e mais garantido convencer as pessoas a usar camisinhas do que convencê-las a não fazer sexo”, o que pode até ser verdade em muitos casos, mas a proposta da Igreja nunca foi essa. Você poderia alegar que, diante do desastre humano da África, o Papa poderia usar sua autoridade moral para convencer as pessoas a usar camisinhas, mas algo me diz que a África não é exatamente um lugar onde o Papa tenha muita autoridade. Você poderia transferir o argumento para a América Latina, mas eu teria que dizer que se alguém fosse pensar no Papa na hora de fazer sexo talvez nem precisasse de camisinha. Daí eu diria que, mesmo do ponto de vista puramente estatístico, não faria a menor diferença uma exortação papal nesse sentido.

Meu ponto principal, no entanto, não é este, do qual você fugiu de antemão: é apenas mostrar que você dizia que só queria o bem, e fazia o mal; você mesmo admitiu, na resposta a outro comentador, que estava só debochando. Conheço boas pessoas sem religião que sabem a diferença entre fazer deboche e querer o bem. E se tudo isto tira sua paz, ótimo; quisera eu ter a paciência de ir atrás de cada debochador da Igreja para mostrar a vacuidade de suas palavras.

Quanto ao latim, sugiro que você consulte um dicionário em vez do Google.

O donzelão dos argumentos 0

O blogueiro Rafael Galvão, dizendo que “só quer o bem” do comentador Bruno, faz uma série de sugestões a respeito de sua vida sexual e o submete à humilhação pública. Isto sem que Bruno lhe tivesse feito qualquer ataque pessoal. Se fôssemos seguir a estratégia rafaélica do argumento ad hominem, e ainda considerássemos aquele rostinho de Alain Delon que enfeita o canto direito do blog, a que conclusões não chegaríamos! Afinal, é a maravilha: um diz que é contra a camisinha, e pode até demonstrar uma certa ingenuidade, e o outro, gratuitamente, começa a falar de suas fantasias e a descrever seus sonhos erótico-profanadores. Mas, como diz minha namorada, todas as pessoas que falam mal da religião sempre se acham muito inteligentes; eu devo acrescentar que elas, a exemplo de Rafael Galvão, também se acham tão superiores que nunca lhes ocorre que estejam fazendo um papel ridículo.

Abandonando o círculo dos pensamentos rafaelescos, podemos propor a questão a sério: “Por que, afinal, a Igreja Católica se opõe ao uso da camisinha e outros anticoncepcionais?” Ora, porque são um estímulo à promiscuidade. Ainda que eu me incline a admitir que a humanidade nunca tenha precisado de muitos estímulos para extravasar suas necessidades sexuais, não posso também deixar de observar que uma facilidade material é sempre, bem, um estímulo. Se eu quero viajar e tenho o dinheiro para ir da maneira mais confortável, isto é um estímulo. Se eu quero ir ao teatro e ganho ingressos de graça, isto é um estímulo. Se eu quero fazer sexo sem correr o risco de ter que arcar com qualquer uma das possíveis conseqüências objetivas deste ato, e tenho uma camisinha, isto é sim um estímulo. E é preciso distinguir entre a motivação subjetiva para o ato sexual, que é obviamente o prazer, e sua finalidade objetiva, que é a perpetuação da espécie. Quanto mais fácil for descolar a motivação subjetiva desta finalidade objetiva, mais promíscuas as pessoas serão, porque lhes faltará o famoso reality check. Quanto mais coisas inconseqüentes - e, sejamos honestos, um novo ser humano é uma conseqüência muito mais sólida do que qualquer laço emocional - as pessoas puderem fazer, mais infantis se tornarão. Cada vez mais vão gritar que querem ver suas meras expressões de desejos respeitadas como solenes argumentos, crentes que com elas põem abaixo a Escolástica que ignoram e a Filosofia Clássica de que mal ouviram falar.

Aliás, a idéia de que a promiscuidade é ruim não é nem cristã em sua origem, e nem necessariamente religiosa. Aristóteles já á propõe abertamente, admitindo que o desejo sexual é uma paixão - a qual, como toda paixão, deve ser ordenada pela razão. Apenas a mentalidade mimada dos Rafaéis pode conceber que a idéia de não satisfazer cada um dos desejos que se tem é algo horripilante, e que fazer com que a razão seja obscurecida pelos apetites é algo mais inteligente do que tentar dar liberdade para a própria razão.

E a propósito, Rafael: é magistra, feminino; como no título da encíclica Mater et Magistra, que você cita provavelmente sem saber.

Um programa sobre livros 0

Volta e meia assisto a um programa na TV francesa cujo nome ignoro. É um programa sobre livros, apresentado por um sujeito de óculos cool que é uma versão ágil do Pedro Bial. Além dele, há debatedores de perfis variados, mas todos membros da “classe média intelectual”, isto é, nenhum deles utiliza termos técnicos, no máximo termos acadêmicos já tornados populares. Não são burros, mas tendem naturalmente à esquerda, como se esperaria de franceses – é impressionante que seja preciso ver programas estrangeiros para perceber que esquerda e inteligêcia não são coisas absolutamente antagônicas.

Duas coisas chamam a atenção no programa. Primeiro, ele é sobre livros. Não um livro por programa; eu só assisti a 35 minutos e vi três livros sendo discutidos, todos com a presença do autor – no caso do primeiro, o “autor” era o homem que descobriu um manuscrito inédito de Alexandre Dumas na Biblioteca Nacional Francesa, editou-o e terminou-o. O segundo livro, Géneration 69, era de dois jornalistas falando da própria geração. O terceiro era de uma atriz que passou para trás das câmeras. Ok, não havia nenhuma coletânea de questões disputadas na Idade Média, nem nada do catálogo da Belles-Lettres, mas eram livros, recheados de argumentos. Creio que até poucos anos isto não seria possível no Brasil, mas hoje é. Parece haver uma febre de leitura; os blogs aumentaram a classe falante, que não quer passar por “inculta”, e sua idéia de cultura é exatamente esta – autores da moda e lançamentos. Nada de questões disputadas, nada do catálogo da Belles-Lettres.

A segunda coisa é a agilidade mental dos debatedores e sua capacidade de argumentação. Os jornalistas do Genération 69 não receberam um monte de elogios, nem “ganharam um espaço para falar do livro”. Sem perder o sorriso, o que os debatedores fizeram com eles teria sido considerado um traumatizante massacre verbal no Brasil. Mas não os escracharam, como muitas vezes faz o Jô Soares (cujo interesse me escapa absolutamente). Nisto residiu o grande interesse do programa – em um autor não ser convidado só para sorrir e falar banalidades, mas efetivamente ter que se defender. Aqui no Brasil, onde a idéia de velhinhas jogando cartas e tomando chá representa o ideal sublime da civilidade, isto seria impensável, seria considerado no mínimo uma descortesia. Um programa como este no Brasil acabaria sendo chato porque o apresentador falaria devagar e cortadamente; o autor falaria devagar e gaguejaria; os debatedores apenas fariam carinhas de indignados e começariam suas frases em tom humilde, dizendo “respeito muito o seu trabalho, mas acho que o Sr. está equivocado em pensar assim”, tentanto conter ao máximo a deselegância de… discordar.

Vai dizer que vocês mesmos não gostariam que o Brasil deixasse o bom-mocismo de lado, crescesse um pouco, aprendesse que a crítica não tem nada de pessoal, e tivéssemos na TV um programa em que gente francamente em desacordo fosse posta para discutir, e não sobre abobrinhas?

O Ministério dos Diplomas 0

Por mim, não existiria Ministério da Educação, nem da Cultura, nem da Saúde, nem da Economia, nem de nada. Mas eu sei que não existe a menor chance de estas venerandas instituições cessarem de existir. Portanto, trago propostas adequadas à realidade, em plena sintonia com os desejos da nação.

Vocês estão achando que eu vou ser irônico, mas eu não vou. Vejam só.

A única razão pela qual um brasileiro deseja permanecer na universidade é o desejo de ascensão social. Alguns até entram para aprender alguma coisa, mas permanecem mais por inércia ou medo do que qualquer coisa; 99% entram só para ver se conseguem subir na vida. De qualquer modo, a questão da falta de vagas – ou de sua supostamente injusta “distribuição” - é sempre colocada em termos de melhoria econômica, como se bastasse o sujeito entrar lá para garantir suas posses futuras.

Por outro lado, esta crença é bastante fundamentada. No Brasil, o exercício de muitas profissões, sobretudo as de melhor remuneração, é vinculado à posse de um diploma universitário. Logo, a universidade é mesmo uma necessidade para a ascensão social e para a manutenção do status quo.

Só que não devemos esquecer que quase não se aprende nada na universidade. Assim como nos tempos do colégio, cada matéria completada é imediatamente esquecida; cada semestre de labuta tem seu prêmio nas notas, e não no aprendizado, ao qual devemos dedicar as piores e mais cansadas horas do nosso dia.

Como a universidade não é nada mais do que uma longa e exaustiva formalidade – pontuada, é claro, por muita recreação nos corredores; mas a recreação poderia ser melhor se fosse em outro ambiente – cumprida para a obtenção do diploma que é, às vezes, só metade do caminho para o exercício da profissão, o ideal seria que o governo topasse desburocratizar nossas vidas e facilitar não o acesso à educação, que ninguém quer, mas o acesso ao diploma, de que todos necessitamos.

Portanto, proponho a substituição do Ministério da Educação pelo Ministério dos Diplomas. O governo deverá abrir mão da pretensão de educar as pessoas por meios que elas rejeitam – quanta coisa que não nos interessa temos que “aprender” só porque um burocrata assim decidiu? - e passar a facilitar a elas o acesso às profissões. Isto, sim, seria um ato revolucionário, sincero, e eficaz. Todo brasileiro tem direito a exercer por conta própria uma profissão, e o governo poderá lhe fornecer quantos certificados forem necessários para isto, bastando apenas que o candidato tenha mais de sete anos de idade (a “idade da razão” católica; deixemo-la só para irritar os ateus) e seja capaz de ler e fazer as quatro operações.

Esta é a única proposta da minha reforma escolar.

Distribuição de renda, de burrice e de maldade 0

A expressão “distribuição de renda” é um dos Cavalos de Tróia do socialismo na linguagem corrente. Repita que a renda deve ser ou estar “distribuída” e você já aceitou – não quis dizer isso, mas foi isso que disse – o socialismo, a idéia de que cabe a alguém “distribuir a renda”.

(Um brasileiro médio, ao ler este meu parágrafo, diria: “Ai, você é contra pobre!” Não perceberia que estou falando do abuso político da linguagem, exatamente porque a linguagem abusada já estabeleceu um domínio completo sobre seus pensamentos. A mera reação emocional (que ele considera “reflexão”, mas é mero reflexo) já está programada: “distribuição de renda” = “síntese do bem cósmico”, logo “inimigo da distribuição de renda” = “mal encarnado”, ou ainda, na velha terminologia, “inimigo do povo”.)

Nunca entendi porque eu, que só penso em medievalismos, fico relendo obsessivamente os mesmos poemas de Yeats (como parar de ler Two songs from a play?), e faço faculdade de grego, deveria ter o mesmo dinheiro que alguém que dedica sua vida a… ganhar dinheiro. Mas, curiosamente, pessoas que acham que a realização de árduos trabalhos intelectuais como ouvir discos de MPB as torna eruditos (erúditos, como diz um amigo) sempre crêem que a “renda está mal distribuída”. Claro, a sua idéia de cultura também dá uma idéia da sua inteligência; e, como há um aspecto moral na inteligência – sem amor à verdade, nada feito – algumas vezes a falta dela sugere um mal moral, e não intelectual. Em miúdos, elas dizem preocupar-se com os pobres, mas na verdade sentem é inveja dos ricos. Ou, como já bem disse Fernando Pessoa:

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

- O Guardador de Rebanhos, XXXII

(Quem me apresentou este poema foi o Dr. Julio Fleichman, que sabia muitos versos de Pessoa de cor. Recordo o dia em que ele recitou um de meus favoritos: “Quem te disse ao ouvido esse segredo…”)

Daí que o socialismo seja por excelência a ideologia da pequena classe média, cheia de ódio daqueles que têm as posses com que ela apenas sonha, e não menos cheia de asco dos pobres de quem ela finge sentir compaixão, e que o uso da expressão “distribuição de renda” seja tanto um instrumento de guerra ideológica quanto o adiamento indefinido de um problema psicológico interno, pois abstrai o problema daqueles pobres feios e sujos que estão ali, no sinal, pedindo apenas uma esmola, e que eles dizem defender, mas não querem ver nem de longe.