Archive for dezembro, 2004

Bons demais para a Igreja 0

A maior parte das pessoas que conheço não é católica. Uns não são porque são de outra religião - muçulmanos, budistas. Outros pertencem às demais vertentes do cristianismo, do protestantismo ao cristianismo oriental. Há também os que não crêem, e os que não ligam. Todas estas razões, me parece, são razões subjetivamente justas para alguém não ser católico. O sujeito pertence a outra coisa, discorda do Vaticano mas não do que ele acha que é o Cristianismo, discorda do próprio Cristianismo ou não está interessado.

Mas há também aquelas pessoas que dizem que “até seriam católicas se a Igreja não tivesse feito aquilo”. Ou que não são católicas porque “existem essas pessoas na Igreja”. E falam naquele tom de segurança - o tom do acusador. Não é o tom, por exemplo, de um católico indignado com os abusos; é o tom de quem está fora e está dizendo que é melhor ficar fora porque dentro é sujinho demais.

A origem destes angelismos é sempre a mesma.

Pausa para os comerciais 0

Se você sempre quis se consultar comigo, ou estudar astrologia, saiba que até o meio de janeiro os preços ficarão como estão. Depois virão novidades - ainda não posso anunciá-las, mas acredito que meu ritmo de trabalho mudará completamente. Estou finalizando dois mapas natais neste momento, depois vou pegar alguns poucos, e só. Aproveite!

Robespierre 0

I

A inteligência nunca deveria
     cansar-se do óbvio, mas assim,
com mil brinquedos à disposição,
     é tão difícil resistir.
Há quem fale em masturbação mental,
     e o Novo Testamento fala
daqueles que escolheram ser eunucos.
     As duas coisas me interessam.

II

Não como um lobo uivando sobre um monte
     simbolizando qualquer coisa
mas um lobo que fosse apenas lobo
     sobre um monte sem céu por cima.
Melhor: um lobo desenhado sobre
    a parte interna de uma caixa
que fizesse um barulho insuportável
     quando apertassem um botão.

Música e misericórdia - mensagem de Natal 0

Nativity by Piero della Francesca.jpg

Muito recentemente eu comecei a ouvir Madredeus. Não preciso ficar aqui tecendo os elogios mais que merecidos à voz de Teresa Salgueiro; só sei que anteontem eu ouvia a canção “Haja o que houver” e lembrava do famoso trecho do Mercador de Veneza sobre a música, que diz que o homem insensível a ela é capaz de traições e armações; que seus pensamentos são escuros como o Érebo.

Claro que, por um lado, essa afirmação é absurda; não gostar de música não faz obrigatoriamente de ninguém um ser malévolo. Mas, como toda expressão poética, ela é ambígua, e também expressa uma verdade. O que Shakespeare quer dizer? Investiguemos.

A música é uma obra de arte que só se realiza no tempo. A música pode até sugerir intelecções que são instantâneas e por isso mesmo “não-temporais”; isto é, ainda que a intelecção se dê no tempo, a impressão de instantaneidade dela se opõe à sucessividade do tempo. Por isso podemos até trazer à mente em um flash intelecções que tivemos, mas só podemos apreciar a música se soubermos esperar, se soubermos lidar com o tempo. A música começa, nos envolve aos poucos, nos leva até algum lugar nas sensações, e depois nos abandona – muitas vezes agitados, calmos ou mesmo purgados de alguma sensação, mas sempre modificados. Isto, é claro, se ouvirmos a música com atenção. Para realizar seu efeito, a música requer docilidade e entrega.

Seguindo este raciocínio, para Shakespeare o homem insensível à música não é dócil, não é crédulo, e não sabe lidar com o tempo. O que isso quer dizer, porém? Os seres humanos vivem no tempo – o tempo que é, por exemplo, o intervalo entre um desejo e sua consecução. Quem é “dado a armações” deseja cortar caminho entre o pensamento e a coisa, sem respeitar o tempo próprio de obtenção de algo, porque este tempo próprio está incluído na maneira própria de sua obtenção. Os jovens não podem ser sábios; os pobres, salvo milagre ou prêmio de loteria, não podem ficar ricos da noite para o dia. Então, para aceitar bem a música, é preciso estar muitíssimo presente em seu aqui-e-agora, com muito respeito pela própria circunstância, sem querer modificá-la ao menos por alguns minutos. Ou seja: é preciso humildade.

Apesar disso, a sensação de purgação e alívio que a música traz é muito análoga à sensação trazida pela misericórdia, que é justamente um rompimento com a ordem necessária das coisas. Pela necessidade, só deveríamos ter a justiça, isto é, a retribuição; para obter a misericórdia, precisamos ser muito humildes. Por isso ao ouvir música muitas vezes não apenas somos humildes no sentido de respeitarmos as circunstâncias, mas também vamos nos reduzindo e deixando que a música seja tudo; porque queremos, precisamos dessa misericórdia que a música traz por analogia.

É aqui que chegamos no Natal: a misericórdia de que precisamos, mas sem analogias. A misericórdia literal que vem dos céus. Nós não poderíamos nunca pagar por nossos pecados, mas Deus veio e pagou por eles por nós. Nós poderíamos estar condenados para sempre, poderíamos nunca mais termos segundas chances cósmicas, poderíamos ficar com a ficha suja, sujeitos aos acusadores deste mundo e do outro, mas Deus entrou no tempo, na circunstância, e abriu para nós essa possibilidade.

Da próxima vez que você ouvir música, pense que ela simboliza isto; quando achá-la maravilhosa, lembre que ela é só um símbolo.

Estude filosofia no Mosteiro de São Bento 0

Você já está de saco cheio do esquerdismo das universidades?

Você já não agüenta mais aqueles professores que não dizem nada, que só ficam falando “problemática” no lugar de “problema”?

Você prefere um ambiente selecionado, onde as pessoas têm mais interesse efetivo no assunto que estudam, em vez de simplesmente quererem “tirar um diploma”?

Então, meu amigo, seus problemas acabaram.

Sem alarde, como aliás é típico, estão funcionando no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro cursos universitários de graduação e pós-graduação em filosofia e teologia.

Se eu algum dia tivesse me formado, estaria de olho sobretudo na pós-graduação lato sensu em filosofia medieval: por módicos R$ 235 mensais (quanto é um curso em outra faculdade particular?) você pode estudar um dos assuntos mais importantes do universo, com as melhores pessoas do Rio de Janeiro, nas manhãs das segundas, quartas e sextas.

As inscrições vão até o dia 31 de dezembro. Corra lá!

Preconceito contra o preconceito 0

Vocês não acham que há preconceito demais contra o preconceito?

Isso não é boutade não, é sério. Vamos pensar em quanto mal o preconceito já fez: quase nenhum. Hitler, símbolo máximo do “preconceito”, não tinha preconceitos contra judeus, mas conceitos. Podiam ser conceitos idiotas, mas eram conceitos, não sensações pré-conceituais. A escravidão dos negros também não aconteceu só por causa de um vago (ainda que intenso) sentimento de antipatia em relação aos negros. Se os portugueses, ingleses, franceses etc tivessem tanto preconceito assim nem teriam ido à África.

Doutrinas racistas estúpidas podem ser combatidas com argumentos. Mas o preconceito genuíno só pode ser combatido com a reeducação, com a mutação da sensibilidade. Agora cabe perguntar se alguém em sã consciência acha boa idéia o Estado ter a função de combater os preconceitos.

(Se o distinto leitor achar que sim, não fique imaginando o “Estado”, essa coisa linda, pura, maravilhosa e formidável que existe no mundo das idéias. Pense no Bush, no Kerry, no Lula, na Cicciolina, na Benedita da Silva, no Putin, no Chirac. Pense neles. O “Estado” são esses caras aí.

Aliás, essa é a mesma razão pela qual eu defendo radicalmente a separação entre Igreja e Estado: já pensou, a CNBB com poder político? Deus nos livre e guarde deste mal. Em tese tudo é lindo, meu filho. Na prática tudo é o PT.)

Depois da identidade, só falta o CPF nacional 0

Entreguei isto como relatório de conclusão de uma matéria na UFRJ neste período. Aproveitei no texto algumas coisas que já disse por aqui, e vocês hão de ter lido outras idéias alhures; como a idéia era fazer algo mais informal, não me preocupei muito também em dar todas referências e fazer bibliografia. De qualquer modo, acho que é um bom apanhado de argumentos a respeito da questão.

Agora, se for para sintetizar tudo: identidade nacional é o cacete, eu acho é que os escritores brasileiros nunca mais deveriam se preocupar com isso.

A Semana de 22 e a questão da identidade nacional

Fazendo uma analogia com a estrutura de um silogismo – premissa maior, premissa menor e conclusão – o presente trabalho pretende questionar a importância da questão da identidade nacional e redimensioná-la, bem como a Semana de Arte Moderna de 1922, propondo uma nova visão da história da literatura brasileira, baseada mais na língua e em sua prosódia do que em uma determinada visão da história do ocidente.

1. Premissa maior: a questão da identidade nacional em si

Olhando a questão da identidade nacional, poderíamos proceder à moda de São Tomás de Aquino na Suma Teológica, e iniciar a discussão com a seguinte pergunta: “a identidade nacional existe?” Depois disso temos que investigar quantos são os significados possíveis da expressão e ver qual o modo de existência dos objetos referidos.

Estamos falando de identidade nacional, portanto temos que nos perguntar: é possível que uma nação tenha identidade? Aliás, o que é exatamente uma nação? É um território político, delimitado por suas fronteiras? É este território, mais o povo que nele habita? A palavra “povo”, por sua vez, parece ao mesmo tempo parte importante da definição de nação – se não quisermos a definição meramente geopolítica – e tão difícil de definir quanto esta. Pulando todos os raciocínios, e sabendo que deste ensaio ninguém espera o rigor escolástico, podemos dizer que por identidade nacional nos referimos à identidade de um povo.

Isto, é claro, só muda a questão de “existe a identidade nacional?” para “existe a identidade do povo x?” Se esta identidade existe, pode ser reconhecida; e, como toda identidade, só pode ser reconhecida através da diferença, isto é, só pode ser claramente observada por quem tenha um grau muito reduzido de participação nela. Assim, no caso do Brasil, a identidade brasileira há de ser mais evidente ao esquimó ou ao russo do que ao português. E se por um lado a extrema dificuldade em definir a identidade nos deixa tentados a crer que ela não existe, por outro a simples comparação entre a cultura do povo brasileiro e do povo esquimó ou inglês deixa bem claro que ela existe. Assim, vamos responder afirmativamente à pergunta inicial: a identidade nacional, entendida no sentido de identidade de um povo, existe.

Mas o critério que utilizamos para chegar a essa conclusão foi o da diferença. Para um inglês, existe a identidade brasileira. E para o brasileiro? Como um brasileiro apreende a sua própria identidade? A questão é imensamente complexa.

O “brasileiro” é uma abstração, e também a identidade. Não encontramos o “brasileiro” nem a “identidade brasileira” em lugar nenhum; encontramos indivíduos que manifestam tais e quais características e não outras. Cada indivíduo, aliás, pode ter uma visão bem particular do que seja a identidade brasileira: há quem diga que o brasileiro é preguiçoso, e quem diga que é trabalhador; que só gosta de futebol, e eu não gosto de futebol e sou brasileiro; que é inteligente e que é burro etc. Isto, é claro, para não falar das diferenças regionais. Temos que encontrar algo que seja comum ao gaúcho, ao carioca, ao cearense; mas ao mesmo tempo não podemos cair na tentação prometéica de encontrar algo que satisfaça a todos os indivíduos. A delineação do brasileiro é no máximo a delineação de um tipo, e por isso mesmo provisória e frágil, mas sem necessariamente deixar de ser satisfatória. Soluções matemáticas e metafísicas são firmes e precisas; soluções para questões culturais são provisórias e condicionadas.

2. Premissa menor: a Semana de Arte Moderna de 1922 e o tratamento da questão da identidade nacional

Há muitos anos parece que a Semana de Arte Moderna de 1922 se instaurou como marco divisor da história da literatura brasileira, e até mesmo como sua chave interpretativa. Os eventos anteriores são tratados, muitas vezes, como mera convergência para a Semana – o romantismo a anteciparia com seu nacionalismo, Gregório de Mattos com sua irreverência, e até o parnasianismo como um pretexto – e os eventos posteriores como uma atualização, como o “tropicalismo” de Caetano Veloso e Gilberto Gil . Voltando à literatura, a geração de 45 é vista como uma “reação”; o concretismo como uma atualização, a vanguarda da vanguarda; e tudo o mais é definido em função da Semana, como algo que negasse ou reafirmasse as suas “conquistas”.

Porém, é muito raro ver alguém questionar – ao menos no meio acadêmico – estas “conquistas”, e pretendo aproveitar o espaço deste trabalho para fazer justamente isto.

O primeiro ponto a tratar seria a questão da identidade cultural brasileira. Digo “seria” porque creio que é importante discutir antes a importância do tema, que me parece exacerbada pelo modernismo. Que o nacionalismo, o “brasilianismo”, seja realçado pelo romantismo, é coisa que se entende em função do momento político de então: a independência do Brasil tornava a questão relevante. Mas depois disto a busca da identidade parece a busca pelo orgasmo como um bem ou valor em si.

Explico, usando como paralelo as teorias de Viktor Frankl , para quem havia basicamente dois tipos de mulheres frígidas: aquelas que sofriam de “hiper-reflexão” e aquelas que sofriam de “hiper-intenção”. A hiper-reflexão impossibilitaria o orgasmo pelo excesso de reflexão – isto é, pensamento – a respeito dele, trazendo um efeito paralisante; já a hiper-intenção seria caracterizada pela colocação do orgasmo como objeto de desejo no ato sexual, quando na verdade o orgasmo é apenas a decorrência natural de um ato cuja motivação é antes o desejo por outra pessoa. Assim, se por um lado o excesso de questionamento sobre a “brasilidade” pode acabar impedindo as pessoas de serem qualquer coisa, também pode impedir os escritores de escrever; pois nem todos podem ter uma sensibilidade adaptada a uma “brasilidade” a qual seriam obrigados. Por outro lado, a “brasilidade” como valor em si mesmo ou como objetivo final pode ocasionar um grande desperdício de talento; a “brasilidade”, no sentido de uma sensibilidade particular ao povo que vive no território político do Brasil, deveria antes aparecer em obras que tratassem de outros assuntos e questões: Shakespeare, Wordsworth ou Byron nunca trataram de “o que é ser inglês”, e mesmo assim suas obras são inconfundivelmente inglesas. Mesmo o nacionalismo irlandês em inglês de Yeats não o fez transformar a “irlandicidade” em um valor em si mesmo.

Frisemos ainda que a identidade nacional estaria em uma sensibilidade peculiar. Muitas obras do modernismo não têm uma sensibilidade brasileira: têm uma sensibilidade emprestada das vanguardas européias, e apenas seu conteúdo é “típico” do Brasil, com tucanos, papagaios, seringueiros, nomes exóticos de plantas etc. O surrealismo não foi inventado no Brasil; e aliás nem mesmo o modernismo. Poder-se-ia alegar ainda, e com razão, que o simples acompanhamento das modas européias constitui a atitude menos nacionalista possível. O contra-argumento em favor das vanguardas européias poderia ser rebatido da seguinte maneira: o que distingue uma obra de arte é sua forma, não seu conteúdo, pois os conteúdos pré-existem no mundo, sem que um artista fale deles. Assim, uma arte verdadeiramente nacionalista e brasileira precisaria contar com uma forma genuinamente brasileira, e isto, ao que parece, não surgiu nem na Semana de 22 nem da Semana de 22.

A própria idéia oswaldeana de “antropofagia”, que tem a pretensão de ocupar este lugar, sempre me pareceu poder ser explicada como simples influência. Culturas sempre foram influenciadas por outras culturas. A Europa (cristã ou paganizada) não teve, então, uma atitude “antropófaga” em relação ao mundo clássico? Não o absorveu e transformou? O romantismo inglês não tem sua dívida com o Sturm und Drang alemão? E o Portugal romântico, não leu Byron? O poeta inglês contemporâneo Geoffrey Hill não está embebido de barroco espanhol? T. S. Eliot não leu Apollinaire e os simbolistas franceses? E ninguém os chama de “antropófagos”. Do mesmo modo, parece apenas mais razoável dizer que Mário de Andrade, Oswald de Andrade etc foram simplesmente influenciados pelas vanguardas européias; não há necessidade de palavra nova quando a coisa é velha.

3. Conclusão: questões para uma futura história da literatura brasileira

Lançadas estão, pois, três objeções:

1. Ainda vale
a pena discutir a identidade nacional? Será que a época da formação nacional já não passou?

2. Não será prejudicial para a literatura tanta preocupação com a identidade nacional?

3. Não será que a Semana de Arte Moderna de 1922 é supervalorizada?

Muitas obras que têm pouca ou nenhuma dívida com a Semana de Arte Moderna – até por razões cronológicas, como os romances de Machado de Assis, as poesias de Castro Alves e, por que não?, os sermões de Padre Antônio Vieira – acabam expressando elementos do caráter nacional sem no entanto ter este objetivo explícito. Não há, é verdade, um épico convincente da formação do Brasil; não há os Brasilíadas (e a Prosopopéia não colou), mas temos grandes poemas indianistas que dão conta deste aspecto (assim como os americanos têm os poemas indianistas de Longfellow; mas acho Gonçalves Dias melhor, mais pungente), ainda que tenham uma forma inteiramente europeizada. É verdade que falamos uma língua européia, e que só isto já impediria uma “brasilização” radical como queria Mário de Andrade – o que aliás é até um benefício, considerando-se a vantagem de manter a comunicação fluente com tantas outras nações; mas isto não nos impediu de criar uma sensibilidade própria.

Usando a diferença para compreender a nossa própria sensibilidade: se nos compararmos com nossos hermanos da América hispânica, vemos que eles têm uma literatura marcada pelo maravilhoso, e que isto parece ser derivado dos primeiros relatos dos espanhóis a respeito da América, recheados de histórias fantásticas; já o relato de Pero Vaz de Caminha, “documento fundador” do Brasil por assim dizer, nada tem de fantástico. É simples, direto, objetivo, pé no chão. Por que não ver uma relação entre isto e a literatura machadiana? Muito do nosso arcadismo também é bastante assim, desprovido do fantástico. E quando há na literatura brasileira elementos “sobrenaturais”, eles parecem quase sempre emprestados do cristianismo, o que coloca o Brasil mais uma vez no seio do ocidente. Parece haver mais semelhanças entre Grande sertão: veredas e o conto A dama pé-de-cabra, de Alexandre Herculano, do que entre o primeiro e Cem Anos de Solidão.

Assim, um método para observar a “identidade nacional” na literatura seria simplesmente observar as obras já escritas e compará-las com as de outros países, em vez de tentar forjar uma literatura baseada numa identidade nacional pré-concebida, montada com uma fôrma européia e conteúdos tropicais, e que valorizasse a língua, a prosódia, o estilo, as inovações formais, muito mais do que os temas ou supostas atitudes típicas de períodos em relação ao mundo. Assim a história da literatura seria muito mais focada em autores, muito mais próxima da sua própria materialidade, e entenderia a identidade nacional como algo natural, espontâneo, não como algo programado.

Protegendo o cinema até a morte 0

O governo já obrigou, ou quis obrigar, os cinemas a exibir uma determinada porcentagem de filmes brasileiros. As empresas que patrocinam filmes brasileiros podem descontar o dinheiro gasto do imposto de renda. Então eu proponho o seguinte: que o cidadão comum possa descontar do seu imposto o dinheiro gasto com ingressos para filmes brasileiros. Sim, sim: bastaria que, junto com a sua declaração, envie cópias autenticadas deles. O governo pode até sofisticar a lei, com coisas do tipo “o cidadão que ganha até 20 salários-mínimos pode gastar até 3 salários com o cinema brasileiro e descontar esse valor”.

Afinal, se o cinema é “área estratégica”, como quer o Gustavo Dahl, assistir a filmes brasileiros é dever cívico, e cabe ao Estado zelar por seu cumprimento. Por isso também tenho outra proposta: que uma alternativa ao alistamento militar obrigatório seja o alistamento na Brigada do Cinema Brasileiro, em que o jovem passaria um ano de sua vida assistindo a um filme nacional por dia, logo seguido de uma palestra. Em breve, hostes e mais hostes de espectadores treinados estariam prontos para defender esta nossa riqueza, esta nossa pujante Amazônia cultural.

Paraísos Artificiais, de Paulo Henriques Britto 0

paulobritto.jpg

(Está pequenino, então leiam: dia 14 de dezembro, a partir das 18h, na Casa de Rui Barbosa, um lugar tão simpático e legal que a gente nem crê que pertence ao governo.)

Agora, algumas palavrinhas: estou me dedicando a um ensaio sobre a obra de Paulo Britto. Suas traduções de Bishop são admiráveis; as de Wallace Stevens ainda não li. Também não li as traduções de prosa que ele fez, porque, como todos sabem, eu praticamente não consigo ler prosa. É. Acho chato. Não sei bem o que leva alguém a ler um romance. Mas enfim. Um dia falo mais sobre o assunto; claro que não estou falando de todos os romances.

O que importa é: daqui a décadas, as pessoas olharão para o fim dos anos 90 e para o começo do século XXI e dirão: “E havia Paulo Henriques Britto, virtuose da métrica, único poeta a realmente crer na finitude de tudo e não apelar para nenhum transcendentalismo, uma espécie de João Cabral relaxado, mais urbano, sem Severinos, plenamente carioca, que escreveu alguns poemas geniais”. E você terá sido um mané se perder a oportunidade de apertar a mão do homem e trocar algumas palavras com ele.

O livro é de contos, porém. Só por isso vou ler. Se fosse um romance, bem, sei lá.

Redação nota 10 0

Se eu quisesse passar no vestibular, escreveria isto aqui.

A informação e a fome

Muito se tem falado sobre globalização. As recentes transformações que levaram à queda das fronteiras e à livre circulação de informações e capitais fazem com que o ser humano precise repensar o seu papel. A mudança de paradigmas obriga à reavaliação de crenças, modelos e padrões, e obriga todos a pensar no tipo de sociedade que se deseja para o futuro. Ao mesmo tempo, ninguém pode negar que nem todos participam deste processo, pois há muitos que não possuem nem mesmo o que comer, que dirá um computador com acesso à internet.

A grande questão com que a humanidade se defronta na aurora do século XXI é justamente esta: como pode ser possível que o tesouro da informação seja ao mesmo tempo tão acessível a alguns, que vivem nos países ricos, e tão remota para a maioria espalhada pelos países do terceiro mundo. Os milhões – talvez bilhões – de seres humanos que são obrigados a passar seus dias com menos de um dólar, com baixa expectativa de vida, nos obrigam a questionar o modelo que até agora vem sendo adotado para o governo da sociedade, pois fica evidente que ele é um gerador de processos de exclusão. Assim, temos de um lado a sociedade da informação, em que cada pessoa luta para manter-se atualizada, onde o grande bem é a última coisa divulgada; e, de outro, uma sociedade arcaica, onde a luta individual é por comida, pela simples sobrevivência do corpo, sem o direito a grandes aspirações. Sem direito à verdadeira cidadania.

Isto acabará tendo um efeito nefasto não apenas sobre aqueles que sofrem os efeitos diretos deste processo, mas também sobre os que estão na outra ponta. Se os países ricos não quiserem compartilhar seus bens, possivelmente acabarão aniquilando as populações que vêm explorando há séculos. É necessário impedir que isto aconteça. É importante que haja uma conscientização global pelas necessidades dos menos favorecidos e que o ser humano, após reconhecer no outro o seu irmão, aprenda a ser mais solidário, para que assim possamos criar um mundo melhor.

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