Archive for setembro, 2004

Notas sobre a misericórdia 0

Let mind be more precious than soul: it will not
Endure. Soul grasps its price, begs its own peace,
Settles with tears and sweat, is possibly
Indestructible. That I can believe.

(Geoffrey Hill, “Funeral music, IV”)

O intelecto busca a verdade; mas o intelecto é uma parte da alma, e a alma está ligada ao corpo. A verdade é o alimento do intelecto, mas este intelecto pode se tornar guloso; e assim como um homem guloso costuma ter a barriga grande e os membros atrofiados, o intelecto guloso se torna grande demais para que a alma o sustente.

As demais faculdades da alma também precisam ser satisfeitas: os apetites, a estimativa, o sentido comum. A satisfação de cada apetite se dá de uma maneira diferente; o apetite concupiscível precisa de coisas que o agradem; o apetite irascível precisa realizar coisas, vencer obstáculos; o apetite intelectivo ou vontade precisa admirar algo; a estimativa precisa revirar as coisas; o sentido comum precisa ser preenchido. Mas, talvez pelo fato de o homem ser mais semelhante a Deus pelo intelecto do que por qualquer outra faculdade, na sua operação fica menos “visível” a presença da misericórdia divina e da graça. Quando o intelecto apreende algo, sentimos que fomos nós mesmos que apreendemos a coisa; raramente nos ocorre que também esta apreensão é obra da misericórdia divina. Nas outras operações, a ação da misericórdia é mais evidente, porque o número de fatores imponderáveis é bem mais alto. Se eu estudar o teorema de Pitágoras com atenção, parece quase garantido que vou entendê-lo; mas, se tentar fazer qualquer coisa que saia do domínio do intelecto, preciso da concorrência de muito mais fatores.

Para realizar a operação da concupiscência, preciso de um gostoso chocolate; para realizar a operação da irascibilidade, preciso vencer um obstáculo, como conseguir acordar de manhã, chegar à faculdade, ir para a academia fazer spinning. Mas meu projeto de ir à faculdade pode ser impedido por um defeito no carro, por uma chuva torrencial; ou meu plano de fazer spinning pode ser impedido pela limitação dos horários de aula de spinning.

Enfim: para realizar uma operação eminentemente intelectual, eu dependo de muito menos fatores do que para fazer qualquer outra coisa. Podemos chamar a boa concorrência destes outros fatores de regularidade cósmica, de acaso, de sei lá o quê; mas também podemos observar que até esta regularidade depende, numa certa medida, da misericórdia de Deus. A concórdia entre nossas intenções e o mundo exterior não é um dado necessário, mas o resultado de um processo temporal que envolve de nossa parte o bom senso e da parte do Autor do mundo a sua misericórdia. “Sim, Pedro, hoje você obterá aquilo que quer”.

Agora, mesmo o “bom senso” que eu mencionei pode ser também considerado uma consciência aguda da ponderabilidade e da imponderabilidade destes fatores extrínsecos ao sujeito agente, isto é, a consciência de que nada se faz neste mundo sem a misericórdia de Deus.

Soneto funk da poposuda pegolenta 0

Poposuda pegolenta,
tu não pára de dar mole,
assim mais ninguém te agüenta.
Vai embora, xexelenta!

Tu não pára de ligar,
eu te quis só pra peguete.
Vê se some, vai vazar,
vê se pára de ligar!

Pegolenta, não dá mole!
Meu saquinho não é fole,
vê se pára de soprar.

Ele vai arrebentar,
vê se larga o meu croquete!
Tu parece é um chiclete!

Sobre estudar 0

Não digo que seja freqüente, mas também não é incomum eu receber e-mails pedindo dicas de como estudar. A verdade é a seguinte: eu não tenho nenhuma. Eu não tenho nem uma boa poltrona de leitura. Nos últimos anos, li muita coisa no computador, no metrô, e durante as refeições.

Também me pedem dicas a respeito dos assuntos a estudar. Aí eu só tenho uma dica a dar: estude aquilo que te interessa. Isso eu digo porque nunca tive amor pelo ato de estudar em si, mas porque sempre tive interesse por assuntos ou questões específicas. Por exemplo, quando li Viktor Frankl, li porque a questão do sentido da vida me pressionava enormemente. Se eu não conseguisse articular uma resposta a respeito, sentia que não conseguiria viver. Quando li São Tomás, queria entender a natureza dos pecados e a corrupção da alma humana, para testar a minha convicção na minha própria bondade intrínseca (ou seja, queria uma bela razão filosófica para deixar de ser sonso). Quando li Ananda Coomaraswamy, a questão da necessidade e da utilidade das obras de arte era vital. O meu interesse por todos os autores que li foi precedido pelo interesse em alguma questão específica; e, no caso dos poetas, por alguma questão específica relacionada à linguagem, como por exemplo: “é possível falar de coisas sublimes reproduzindo a fala de uma certa classe social?”

Por isso, se você quer estudar, lembre que estudar é um verbo transitivo; quem estuda, estuda alguma coisa. Descubra que coisa é essa que te interessa e tente descobrir quais foram os autores que trataram deste assunto. Normalmente os autores antigos são mais claros, mais “antropocêntricos” e muito menos viajantes, mas há modernos geniais também, claro.

No meio do estudo de uma questão você vai freqüentemente se deparar com outras questões igualmente vitais, e vai ter que dar uma parada no estudo principal para entender um outro ponto. Por exemplo: meus estudos astrológicos começaram com uma certo sistema de analogias entre os sete planetas e as sete faculdades da alma humana tal como descritas por Aristóteles e São Tomás. Isto me obrigou a entender as sete faculdades primeiro, como objetos distintos. Então percebi, durante o estudo dos intelectos agente e paciente (ou “possível), que havia a seguinte questão: será que o intelecto apreende imediatamente a forma de cada ente, ou precisa do trabalho de abstração das notas sensíveis para recuperar essa forma? A resposta tem profundas implicações filosóficas e até mesmo religiosas. Fico, sem dúvida, com a segunda opção. Mas o que importa é: eu queria apenas compreender uma certa analogia, e isto me levou a uma questão importante sobre a própria natureza humana, cuja resposta alteraria minha postura em relação a praticamente todos os assuntos que eu viesse a estudar.

Enfim: sou movido a estudar certos assuntos por uma necessidade física, pela sensação de que a vida, ou pelo menos parte dela, está suspensa enquanto a resposta não é obtida. Platão falava em “verdade conhecida, verdade obedecida”; é preciso conhecer para saber o que obedecer. Mas acho que essa atitude é muito determinada pelo temperamento da pessoa, e que outras pessoas podem ter atitudes muito mais tranqüilas em relação ao conhecimento – como aliás parece ter sido o caso de Aristóteles e São Tomás, que escrevem com grande tranqüilidade.

O maior poema da língua portuguesa 1

Quem me conhece pessoalmente sabe que eu adoro fazer afirmações categóricas a respeito das coisas, ainda que dali a duas semanas eu venha a afirmar categoricamente o contrário. Tudo bem; detesto desculpas astrológicas, mas assim são os geminianos. O que importa, agora, é que hoje fiquei com muita vontade de fazer uma séria afirmação categórica: o maior poema da língua portuguesa – ao menos o maior soneto – é “Transforma-se o amador na cousa amada”, de Camões.

Transforma-se o amador na cousa amada,

Por virtude do muito imaginar;

Não tenho logo mais que desejar,

Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,

Que mais deseja o corpo de alcançar?

Em si somente pode descansar,

Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,

Que, como o acidente em seu sujeito,

Assim co’a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;

[E] o vivo e puro amor de que sou feito,

Como matéria simples busca a forma.

Agora, é claro, vamos explicar porque este é o maior poema da língua. Na primeira estrofe, temos uma bela síntese poética de uma doutrina de Aristóteles: “a alma é de certo modo tudo”. E por que é assim? Bem, tudo o que existe é objeto de conhecimento. O conhecimento se dá na alma. Logo, para um objeto poder ser conhecido, ele tem que primeiro existir como objeto de conhecimento possível ou potencial na alma. Se eu conheço o laptop onde escrevo, se conheço minha namorada, se conheço o cajuzinho que comi nesta tarde, é porque eles antes mesmo de se apresentarem para mim já existiam como formas que minha alma poderia apreender, isto é, eles estavam potencialmente nela. Concentrando minha atenção em um objeto, minha alma fica cheia dele; e “amar” não deve ser entendido de outra forma senão como uma forma de concentrar a alma em algo. Quem ama sua namorada pensa muito nela. Quem ama as virtudes pensa muito nelas. Se podemos dizer que nosso corpo é aquilo que comemos, também podemos dizer que nossa alma é aquilo que pensamos.

Mas Camões sabe que esta linda doutrina traz um problema: se o amador se transforma naquilo que ama, isto é, se há uma identificação entre desejante e desejado, porque persiste o desejo de posse? Esta posse já não existiria na transformação do amador? Camões desloca esse desejo para o corpo, mas – tecnicamente, de um ponto de vista filosófico – é na alma que se dá o desejo. O desejo pode, porém, nascer no corpo, e está, certamente, ligado a ele de modo intrínseco: existindo sob a forma de um corpo, a pura alma não se vendo em lugar nenhum, o indivíduo deseja um outro corpo, deseja satisfazer corporalmente o desejo que existe em sua alma – “como a matéria simples busca a forma”.

A “matéria simples” é possivelmente a matéria desprovida de determinações, de qualidades; a forma é justamente essa determinação ou qualidade. Assim, o corpo, que é em princípio passivo e determinável em relação a alma (e não há qualquer platonismo em dizer isto), busca algo que o determine, e se alguém duvida disso pode lembrar que as pessoas que não têm uma motivação para viver (qualquer motivação) acabam vivendo menos ou pior.

Ainda seria possível comentar o poema de muitas outras maneiras. Mas, para perceber sua grandeza, basta ver como Camões apresenta claramente um ponto de Aristóteles sobre a alma, e depois o paradoxo que ele sugere. Isto nos quartetos. Nos tercetos, a solução; não, é claro, uma solução filosófica rigorosa, mas uma sugestão “existencial” que pode ser interpretada da maneira correta pelos homens de boa vontade.

Meus dias de Sebastian Arrurruz 0

III

Quero fritar os ovos do seu jeito.
A gema dura. Como se isso fosse
trazer você aqui. Eu não respeito,
é claro, a sua ausência. Nem o doce
que apodrece esperando por você.

Não sei quanto eu agüento sem te ver.
Os objetos afetam seu silêncio,
estão fingindo que você vem logo.
Que eu não tenho razão de ficar tenso.
Os objetos não sabem que eu me afogo

na imensa solidão do corpo aflito.

Nota: um dia, quem sabe, eu posto o resto..

Três anos hoje 0

Nossas vidas pessoais têm seus gigantescos desastres, seus impactos de absurdo. Um amor perdido, a morte de alguém, qualquer espécie de decepção inesperada. Demorando muito, ou pouco, quase sempre nos recuperamos, e podemos dizer a nós mesmos: “então me aconteceu aquilo, e aquilo me modificou desta maneira, e eu aprendi tal coisa, ou adotei determinada atitude”. Podemos nos arrepender, nos achar idiotas, ou podemos até achar que fizemos a coisa certa na hora do absurdo. O importante, enfim, é que podemos sempre integrar os acontecimentos na nossa psique, se tivermos forças – e Deus sempre nos dá forças para suportar as cruzes que aparecem, de onde se segue que o pessimismo, o cinismo e a amargura são apenas formas mais ou menos sofisticadas de fraqueza e covardia.

Ao dizer isso, eu pareço aos olhos dos leitores mais benevolentes um grande homem cheio de fé, ou um moleque autoritário, “que nunca sofreu na vida”. Bem, sofri e sofro, mas seria ridículo ficar apresentando publicamente minhas credenciais de sofredor. Sei bem que o mais comum é ter que fazer muita força para não aderir ao pessimismo, e mais força ainda para, diante do mal, não se sentir um santo ultrajado, e assumir sua própria parcela de culpa. Tudo isto é difícil, e não posso dizer que sempre consigo – a convicção das minhas palavras é mais um traço do meu temperamento, creio.

Mas, voltando, se a integração psíquica do absurdo pessoal é possível, ainda que penosa, fica a questão, que já levantei várias vezes aqui: como integrar o absurdo coletivo? Como integrar o terrorismo? Como falar do 11 de setembro em Nova Iorque, do 11 de março em Madrid, do massacre
na escola russa? Como alguém, um civil em uma guerra, pode dizer para si mesmo que uma bomba caiu do céu em sua casa? A dessensibilização e o não-reconhecimento da magnitude destes fatos pode ser uma estratégia biológica necessária para a sobrevivência, mas isto não elimina o fato de que eles aconteceram. Só ficam, como sempre, as polite meaningless words, o vazio, a vergonha da própria vulnerabilidade desnudada, a sensação de que o Mal quebrou as regras – e por alguma ingenuidade também necessária ao bom funcionamento da alma parece que nunca achamos que o Mal pode ser tão mau. Nem todos entre nós nasceram para ter a alma de padres exorcistas, simples como as pombas e prudentes como as serpentes; normalmente somos pombas ou serpentes. O mundo quer que creiamos que a atitude da serpente é o que se chama de “maturidade”, mas eu acho que a maturidade é justamente esse meio termo, essa alternância que não se atinge sem força e boa-vontade.

Três anos depois do 11 de setembro, que tem importância pessoal para mim por causa de minhas ligações com a cidade onde passei o fim da adolescência, eu rezo, e peço que todos rezem para que saibamos como agir diante do absurdo, e pelas almas das vítimas de todos os atentados e bombardeios. Que, do céu, elas nos ajudem.